Doses maiores

20 de dezembro de 2019

Transformar a realidade a partir dos pesadelos

Em tempos em que realidade e pesadelo se confundem, pode ser inspirador ler o ótimo livro “O oráculo da noite”, do neurocientista Sidarta Ribeiro.

A obra oferece um atualizado panorama científico sobre os sonhos. E o autor acredita que entre os potenciais desprezados dessa esfera importante de nossa vida psíquica, estaria sua capacidade antecipatória.

Não se trata de sonhos “proféticos”, claro. Seu potencial divinatório seria:

...meramente uma combinação antecipada de probabilidades que podem coincidir com o comportamento real das coisas, mas não precisam necessariamente concordar em todos os detalhes.

A partir disso, a experiência onírica permitiria:

... imaginar os futuros em potencial através de um mecanismo capaz de prospectar a experiência pregressa e formar novos conglomerados psíquicos, juntando ideias antigas de forma nova.

Nesse aspecto, o pesadelo teria uma função muito importante. Esta experiência onírica nos permitiria “enfrentar os perigos do dia seguinte, treinando roteiros de ação ou simplesmente aumentando o alerta”.

Seria uma espécie de simulador virtual que aumentaria nossa capacidade de enfrentar situações hostis. Uma vantagem evolutiva mais pronunciada nos mamíferos e aperfeiçoada em primatas como nós.

Os primeiros pesadelos de nossa espécie muito provavelmente relacionavam-se a dificuldades cotidianas tão elementares quanto as de comer e não ser comido.

A crescente complexidade da vida social acrescentou muitos outros elementos perturbadores aos sonhos contemporâneos. Mesmo que, infelizmente, ainda haja grandes parcelas da população mundial cujos pesadelos continuam a envolver coisas tão básicas como manter-se vivo.

De qualquer maneira, é animador saber que mesmo sonhos ruins podem ser bons. Que em 2020 nossos atuais pesadelos nos inspirem a conquistar uma realidade menos assustadora e paralisante.

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Querem controlar até os sonhos. Que pesadelo!

19 de dezembro de 2019

O golpe de 2016 e algumas apostas arriscadas

Nos primeiros momentos após o golpe de 1964, a ditadura recém-implantada baixou uma série de medidas antidemocráticas e repressivas. Eleições foram anuladas, partidos fechados, mandatos cassados. Vieram o Sistema Nacional de Informações, a censura e a perseguição a intelectuais e artistas.

Um dos focos de possível resistência era o movimento sindical. Por isso, centenas de sindicatos dirigidos pela esquerda tiveram suas direções substituídas por interventores. Foram feitas 452 intervenções em sindicatos e 49 em federações e confederações, só no primeiro ano após o golpe. Até 1970, ocorreriam mais 200 delas.

O Comando Geral dos Trabalhadores teve 17 de seus lideres condenados a 184 anos de prisão, no total. Greves foram proibidas.

Três anos após outro golpe, o de 2016, os sindicatos seguem funcionando. Mas esvaziados. Os números são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, divulgados em recente reportagem da “Isto É”:

Em apenas um ano, 1,552 milhão de trabalhadores deixaram de ser sindicalizados em todo o Brasil. Em cinco anos consecutivos de reduções, os sindicatos já perderam 3,098 milhões de trabalhadores sindicalizados.

Não se pode descartar uma guinada ainda mais à direita no cenário político. Mas, por enquanto, o caráter gradual do golpe do impeachment vem sendo suficiente para ir desdentando a resistência popular. Ainda que as mortes no campo e periferias não tenham nada de graduais.

Lacerda e Juscelino apoiaram o golpe militar apostando em sua vitória nas eleições presidenciais que nunca aconteceriam. Hoje, políticos de direita fazem o mesmo. Compreensível. Preferem ainda menos democracia aos riscos representados por sua ampliação.

Incompreensível é que lideranças de esquerda arrisquem a mesma aposta.

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18 de dezembro de 2019

Qual democracia devemos defender contra Bolsonaro (2)

“Tratamos Bolsonaro como se ele ainda fosse um candidato azarão e não o presidente do país”, diz Marcos Nobre em mais um de seus bons artigos para a revista Piauí.

“O efeito dessa preguiça política generalizada, afirma, é favorável a Bolsonaro em pelo menos três sentidos”:

Entra no ritmo eleitoral em que ele se sente confortável. Acredita no show de um presidente acuado, nas cordas, sem margem de ação. E, paradoxalmente, trata seu governo como se fosse um governo normal. A prova mais cabal dessa normalidade é que todas as forças políticas continuam a fazer cálculos meramente eleitorais, sem levar em conta que é a própria democracia que está em risco.

Mais à frente, adverte:

No mundo todo, movimentos antidemocráticos destroem a democracia pela via eleitoral. Para isso, reduzem a democracia à realização de eleições, justamente. Insistem que a democracia não depende de instituições democráticas e de uma cultura política democrática para existir, precisa apenas de eleições e de consultas populares.

O articulista estaria corretíssimo se não considerasse um possível “encontro entre Lula e Rodrigo Maia” um “sinal alentador”. Ou se não aprovasse proposta da direção do PT, no sentido de “buscar alianças mais amplas, até com personalidade e setores de centro, em prol do Estado de Direito.”

Afinal, onde estavam Rodrigo Maia, o Centrão que ele representa, e outros pretensos defensores do “Estado de Direito” nos últimos meses? Aprovando o Teto dos Gastos Públicos, as reformas Trabalhista e Previdenciária e outras medidas profundamente antidemocráticas.

Definitivamente, Marcos Nobre não sofre da doença da preguiça política. Seu mal é olhar para cima, não para baixo.

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17 de dezembro de 2019

Eleições britânicas: sobre trincheiras e tumbas

É possível tirar diferentes lições da derrota dos trabalhistas ingleses nas últimas eleições. Mas a maioria dos comentaristas da grande mídia prefere tirar uma só: se o partido liderado por Jeremy Corbyn tivesse moderado suas propostas, a vitória seria possível.

Quase não se fala da avalanche de calúnias contra Corbyn nas redes virtuais e da cobertura abertamente negativa que a grande imprensa dedicou a sua candidatura.

Boris Johnson é um racista, homofóbico, misógino, mentiroso. Mas Corbyn teve que passar a campanha toda se defendendo de acusações de antissemitismo apenas porque apoia a causa palestina.

Poucos analistas levaram em conta o fato de que o radicalismo dos trabalhistas resumiu-se a retomar o programa do partido de 40 anos atrás, utilizado naquele momento para neutralizar a esquerda radical.

As dificuldades dos trabalhistas em lidar com o Brexit também pesaram muito, claro. Mas a verdade é que mesmo na decantada “democracia britânica” já não há o menor espaço para qualquer proposta que apenas reduza a velocidade da marcha neoliberal rumo à catástrofe econômica para a grande maioria.

Muito provavelmente, uma vitória trabalhista com base em um programa moderado só levaria a mais moderação durante o exercício do mandato. Portanto, a novas frustrações e ao rápido retorno da direita à chefia do governo.

O fato é que a disputa eleitoral se revela cada vez mais como aquilo que sempre foi: elemento meramente tático. Estratégica, mesmo, somente a aposta na presença cotidiana da militância junto à luta dos explorados e oprimidos.

A disputa eleitoral deveria ser apenas uma trincheira tão importante quanto provisória. Mas pode tornar-se tão definitiva quanto uma tumba.

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16 de dezembro de 2019

Perdendo tempo, energia, vidas...

Não nos iludamos: desde sua ascensão Bolsonaro não perdeu poder, ele se fortaleceu (...). O seu modus operandi não está em defender alguma pauta específica, mas em produzir crise permanente. Em conduzir a esquerda a jogar o seu jogo, a dialogar com o mito que representaria o povo e não com o próprio povo.

O trecho acima pertence a um ótimo artigo de Lincoln Secco, publicado em recente dossiê da revista Marxismo 21.

O texto cita a Conferência da Ação Política Conservadora, realizada em outubro de 2019, em São Paulo. Participaram do evento Eduardo Bolsonaro e o ministro da Educação. E este último proferiu palestra na qual denunciou o papel fundamental de “empresários comunistas” na sociedade brasileira e, ao mesmo tempo, sua associação com o... nazismo.

Esse é apenas um dentre os inúmeros disparates declarados todos os dias por vários membros do governo. O que dizer sobre eles, pergunta Secco:

Eles dialogaram com a consciência fragmentada dos seus aderentes. Sua falsidade é verdadeira para eles? Acreditavam os bolsonaristas na “mamadeira de piroca”? O riso que nós dedicamos a essas bobagens os torna ridículos ou, pelo contrário, reforça nossa condição de esnobes, petistas, ambientalistas, artistas, operários, funcionários públicos, empresários, parasitas etc?

Estas são apenas algumas das muitas questões que o historiador levanta, às quais só “movimentos coletivos vinculados à prática” seriam capazes de responder. Mas, perguntaríamos nós, que práticas seriam essas?

Certamente, não as que se acanham nos limites do calendário eleitoral. Pois esta seria só mais uma forma de continuar desperdiçando tempo e energias que muito dificilmente teremos como recuperar. Para não falar das vidas perdidas.

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Qual democracia devemos defender contra Bolsonaro
A esquerda precisa olhar para os extremos (1)

13 de dezembro de 2019

Qual democracia devemos defender contra Bolsonaro

O professor de filosofia Marcos Nobre é um dos analistas mais atentos ao terrível momento que estamos vivendo. Em seu mais recente artigo, por exemplo, ele afirma corretamente que:

Continuamos a subestimar o atual presidente e as chances que tem de realizar seu projeto autoritário. Como todo outsider que se preze, Bolsonaro age sempre como se estivesse acuado, encurralado. E acreditamos. Acreditamos que o presidente da República está sempre na defensiva, perdendo. O presidente da República!

Mas a conclusão mais acertada apresentada pelo texto é a seguinte: “O objetivo real de Bolsonaro é destruir a democracia”. E diante disso, diz ele, seria preciso formar uma ampla “concertação” que inclua todas as forças democráticas.

Nobre reconhece que uma proposta desse tipo certamente receberá o carimbo de “sistema”, dando razão à tática antissistema de Bolsonaro. Mas a considera melhor que as atuais respostas meramente defensivas. Para ele:

Uma concertação democrática como essa teria ao mesmo tempo de defender instituições indefensáveis na sua forma atual e propor uma renovação radical dessas mesmas instituições. Cada força política de oposição teria de ter garantido o espaço de fazer oposição à sua maneira e como bem entender, ao mesmo tempo que se perfilaria ao lado de todas as outras forças de defesa das instituições democráticas e de sua reforma.

O grande problema é que renovações radicais em direção à democracia jamais foram feitas no País. As poucas alterações democratizantes conquistadas na história nacional foram consequência de muita mobilização popular.

A questão que antecede toda essa discussão é saber qual democracia devemos defender. Só a partir daí, poderíamos identificar possíveis aliados.

Continua...

Leia também: Hora de mostrar quem são os comunistas

12 de dezembro de 2019

A COP-25 e o princípio da sétima geração

No momento em que ocorre a 25ª Convenção da ONU sobre Mudança Climática, seria importante lembrar o princípio da “sétima geração”, dos iroqueses. Como conta o neurocientista Sidarta Ribeiro em seu livro ”O oráculo da noite - A história e a ciência do sonho”, esse princípio:

...postula que toda decisão individual ou coletiva precisa considerar não apenas os efeitos no momento presente, mas também e principalmente no futuro, simbolizado por sete gerações consecutivas. Descrito dessa forma, é chocante que não seja um princípio universal. Pensando nas consequências de longo prazo dos nossos atos até onde alcança a imaginação, podemos simular cadeias de ação e reação que frequentemente revertem as intenções da ação original. Esse princípio embasa a “Grande Lei de Paz” da confederação iroquesa (constituição oral de suas seis nações), e atualmente serve de orientação para as lutas pan-indígenas nos Estados Unidos, Canadá e México.

Cerca de 7 milhões de pessoas que compõem o 1% dos mais ricos do mundo ficam com cerca de 80% de toda riqueza global. Se há alguém capaz de assegurar um futuro melhor para seus herdeiros são os que estão nesse topo restrito e suas franjas.

A “Grande Lei da Paz” dos brancos vale apenas para uns 10% da população mundial, se tanto. Ao resto está reservado um estado de guerra mais ou menos declarado e desastres ambientais cada vez mais catastróficos.

Os iroqueses adotaram esse princípio há milênios, mas sua sabedoria só faz se reafirmar em um mundo que une imenso desperdício com pobreza vergonhosa. Deveria servir de orientação também às lutas “pan-humanas”, não apenas às pan-indígenas.

Leia também: Contra o inimigo branco, aprender com os indígenas

11 de dezembro de 2019

Vivemos o auge dos monstros fabris

Em meio ao debate sobre a fragmentação da classe trabalhadora, importante atentar para as informações trazidas pelo livro "Mastodontes" ("Behemoth", na edição inglesa), de Joshua B. Freeman.

Trata-se de um estudo recente sobre a presença das fábricas na história. Esta invenção tipicamente capitalista, diz Freeman, está muito longe de perder importância.

Como lembra o autor, hoje, “a maioria dos consumidores de produtos industriais nunca esteve em uma fábrica, nem sabe muito sobre o que acontece dentro delas”. Mas poucas coisas de nossa vida cotidiana não saem de suas linhas de montagem.

É verdade que atualmente apenas 8% dos trabalhadores estadunidenses trabalham na indústria, contra 24% em 1960, diz ele. Mas os números indicam que o mundo vive o auge da produção nas fábricas.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, em 2010, quase 29% da força de trabalho global trabalhava na indústria. E, obviamente, a China é responsável por grande parte desse percentual.

Em 2015, 43% da força de trabalho chinesa estava empregada na indústria. É lá que as maiores fábricas da história estão operando, manufaturando produtos como smartphones, laptops e tênis de marca.

A China tem instalações com 100 mil, 200 mil ou mais trabalhadores. Uma empresa em Dongguan com 110 mil trabalhadores é a maior fábrica de calçados da história. São um milhão de pares de sapatos produzidos mensalmente para marcas internacionais como a Nike.

Tudo isso ajuda a explicar o significado do título original do livro: na mitologia judaica, "Behemoth" é uma criatura gigantesca e brutal. Em nossa realidade, esse monstro é o capitalismo. E ele continua a criar seus potenciais coveiros.

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10 de dezembro de 2019

Contra o inimigo branco, aprender com os indígenas

Recentemente, o antropólogo Viveiros de Castro, da UFRJ, concedeu entrevista à AgênciaPública. Começou pela seguinte provocação:

O Brasil é um país que está sendo usado pelo sistema econômico mundial para fazer um experimento científico, que é: o quanto você pode ferrar uma população sem produzir uma insurreição sangrenta?

Mas outro tema importante foram as dificuldades da resistência indígena diante dos ataques dos brancos. Uma delas seria a ausência de “sistemas políticos piramidais com um líder fundamental” entre esses povos.

Nas sociedades indígenas, explica ele, “se você não está satisfeito com a aldeia, com o teu pessoal, você pega as tuas coisas, pega a rede e vai embora, faz a aldeia do outro lado”. É um sistema anárquico no melhor sentido.

Mas diante dos ataques cada vez mais ferozes contra seus direitos, surge a necessidade de “produzir lideranças”, afirma. Raoni, por exemplo, é um Kayapó, mas não representa apenas os Kayapó. Fala em nome de todos os povos indígenas. E isso “é uma coisa que vai um pouco na contramão da própria sensibilidade política indígena”.

Por outro lado, conclui ele, não tem outro jeito, “eles estão enfrentando um inimigo que os obriga a se unir”.

Essas contradições das lutas indígenas se parecem cada vez mais com as nossas, nas grandes cidades. É grande a repulsa em relação a direções centralizadas e organizações verticalizadas nas atuais frentes de luta. Mas as classes dominantes atuam de forma fortemente centralizada e vertical.

O inimigo branco também está nos obrigando a nos unir. E para descobrir a melhor maneira de fazer isso, seria altamente recomendável aprender com a resistência indígena.

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O “tai chi chuan” da resistência indígena

9 de dezembro de 2019

Fragmentação social e conformismo institucional

Nick Dyer-Witheford, com “Cyber-Proletariat”, Shoshana Zuboff, autora de “TheAge of Surveillance Capitalism” (A era do capitalismo de vigilância) e Paolo Gerbaudo, que publicou “The Digital Party”.

Os estudiosos acima são apenas alguns dentre dos que têm entre suas maiores preocupações as dificuldades que as classes dominadas encontram em se organizar para resistir às atuais formas de acumulação e domínio pelo capital.

Um dos aspectos mais importantes dessas dificuldades seria a fragmentação crescente da vida social. E, com ela, a ausência de uma classe trabalhadora como agente capaz de se reconhecer e se organizar coletivamente.

Para o filósofo francês Gilles Deleuze, a sociedade contemporânea levou a fragmentação social ao nível mais pessoal. O que parecia indivisível já não é. Por isso, criou o conceito de “dividual”, em oposição ao “individual”.

Na era da digitalização da vida, esse estilhaçamento ficaria evidente com a onipresença das redes virtuais no cotidiano da imensa maioria das pessoas. O resultado seria uma sociedade sem unidade, sem sujeitos. Mas não sem política.

As classes dominantes quase sempre souberam manter sua unidade na hora de apelar a reações violentas e ao conservadorismo extremado quando foi necessário. Seja diante da radicalização da resistência operária e popular, seja quando a competição capitalista obriga a rearranjos entre seus setores.

Estamos vivendo outro desses momentos. Mas não se trata apenas de mais um ciclo. Acumulam-se sinais de que as crises tornam-se cada vez mais graves e ameaçadoras para o destino de grande parte da humanidade.

Felizmente, a história sempre apresenta caminhos alternativos. Mas é preciso saber reconhecê-los. E nenhum deles passa pelo mesquinho conformismo à política institucional.

Leia também: Os desafios organizacionais do ciberproletariado

6 de dezembro de 2019

Os desafios organizacionais do ciberproletariado

Na parte final de seu livro “Cyber-Proletariat”, Nick Dyer-Witheford considera que:

...o projeto principal da luta contemporânea é recuperar a corporalidade que o “intelecto geral” está aniquilando e combater a “hiper-abstração digital-financeira” que está liquidando o corpo vivo do planeta e o corpo social.

Contudo, diz ele, “a recuperação do corpo precisa de forma organizacional”. Em relação aos sindicatos, por exemplo, sua atuação deve atravessar quatro tipos de ação que têm caracterizado os ciclos recentes de luta: motins urbanos, lutas salariais, ocupações e “hacktivismo”. Respeitando-se sempre as diferentes composições de classe presentes entre os explorados e oprimidos.

Na esfera partidária, a forte tendência horizontal das lutas contemporâneas torna improvável que qualquer grupo de vanguarda hegemonize seus inúmeros componentes. Daí a necessidade de uma configuração em rede, que viabilize um "partido do vir a ser", composto de movimentos múltiplos que aprendem, no curso da luta, uma crescente autodisciplina, priorizando objetivos e coordenando operações em torno de fins comuns gradualmente desenvolvidos. Uma espécie de vanguardismo rotativo.

Outra necessidade é planejar a transição para um comunismo pós-capitalista, desde que esses planos sejam mantidos em caráter transitivo, móvel e múltiplo, constantemente sujeitos a discussões dentro do movimento e jamais entendidos como programas fetichizados, mas como um meio de ampliar as lutas e as apropriações contra o capital.

Por fim, a cibernética foi desde o início criação da guerra. E continuou a se desenvolver no contexto de inúmeras guerras. É impossível ignorar a probabilidade de um futuro movimento comunista surgir em um contexto mais ou menos relacionado a elas.

Prontidão para a guerra é a recomendação final.

5 de dezembro de 2019

Os desafios estratégicos do ciberproletariado

Em seu livro “Cyber-Proletariat”, Nick Dyer-Witheford cita o “Manifesto Aceleracionista”, publicado por Williams e Srnicek em 2013. O documento defende a reprogramação de plataformas materiais de produção, finanças, logística e consumo para fins pós-capitalistas.

Ao mesmo tempo, o autor se refere ao coletivo anarquista Tiqqun, que em seu ensaio "A Hipótese Cibernética" (2001) questiona “se a criação de sistemas cibernéticos comunistas de larga escala não recriaria alienações semelhantes à versão capitalista”.

Mas para Dyer-Witheford, o comunismo não seria nem uma aceleração das tendências do capital nem sua pura negação. Seria uma espécie de derivação diagonal rumo à dissolução das relações capitalistas e, desse modo, à extinção da dominação do trabalho fixo ou morto sobre o trabalho vivo.

Ele menciona, por exemplo, algumas atividades fundamentais da reprodução humana. Parto seguro, cuidado amoroso, provisão de comida, água, segurança ambiental, coletividade e educação. Para os comunistas, atividades semelhantes dizem respeito à corporalidade da espécie. “Não são transferíveis para autômatos de metal (ou silício), como querem a cibernética e o capital”, diz o texto.

Outro grande desafio para os comunistas contemporâneos seria encontrar formas de atuação que envolvam não a rebelião cega, mas a greve, a revolta politizada, a ocupação e o “hackeamento”. Essa seria a única possibilidade de inviabilizar um futuro determinado pela acumulação capitalista.

Contudo, para dar conta dessas tarefas, o autor considera indispensável criar novas formas organizacionais. Ele cita cinco pontos relacionados a essa questão: 1) Corpos; 2) Sindicatos; 3) Configuração em Redes; 4) Transições e 5) Prontidão.

Mais detalhes sobre este importante aspecto que encerra a obra de Dyer-Witheford ficam para a próxima pílula.

Leia também: As vinhas da ira no Vale do Silício

4 de dezembro de 2019

As vinhas da ira no Vale do Silício

Os vales frutíferos da Califórnia serviram de cenário para “Vinhas da Ira”. Este belo livro de John Steinbeck relata a revolta dos trabalhadores dos pomares contra sua super-exploração, nos anos 1930.

Nos anos 1970, nesse mesmo cenário, começava a surgir o Vale do Silício. Em 1971, a Intel lançou o primeiro “microprocessador”. Trinta anos depois, a empresa valia mais que as três grandes montadoras de Detroit juntas.

Escritórios charmosos, cheios de jovens talentosos, contrastavam com as pesadas estruturas executivas da indústria tradicional. Mas ali também o capital gerencia a produção de softwares pelos métodos taylorista, fordista e toyotista.

Surgiu o "proletariado da programação", cuja capacidade de definir, modificar, criar e contestar o determinismo tecnológico é expropriada deles para ser investido nas grandes estruturas que os empregam.

O trabalho desse novo "proletariado ", no entanto, tem por base uma exploração muito pior. Nas fábricas de eletrônicos, tarefas exaustivas e mal pagas são executadas por minorias étnicas e mulheres. Nos escritórios refrigerados, predominam os homens brancos.

Terceirizados e quarteirizados, trabalhadores são contratados e despejados a qualquer momento. Mesmo entre os funcionários administrativos, quem ousa contestar é demitido e colocado numa lista suja.

O trabalho doméstico encomendado pelas poderosas do Vale paga tão pouco que acaba abrangendo famílias inteiras, incluindo idosos e crianças.

A fabricação de semicondutores envolve resíduos tóxicos. Mas o uso obrigatório de roupas protetoras é para impedir que os produtos sejam contaminados pelos trabalhadores, não o contrário.

O relato acima se baseia no livro “Cyber-Proletariat”, de Nick Dyer-Witheford. Mostra que nada mudou muito no Vale do Silício. Se restaram poucas vinhas, sobram motivos para muita ira.

Leia também: Cibernética, reengenharia humana e Gramsci

3 de dezembro de 2019

Cibernética, reengenharia humana e Gramsci

De volta ao livro “Cyber-Proletariat”, de Nick Dyer-Witheford.

O que a Ford fez com a automação industrial, a Telefônica Bell fez com a comunicação. A primeira divorciou o trabalho manual dos corpos humanos. A segunda criou um sinal separado da fala e da escrita humanas e o submeteu ao controle tecnológico.

É aí que entra o conceito de ciclo cibernético de retroalimentação destacado por Dyer-Witheford. Essa inovação possibilitou às máquinas desenvolver qualidades consideradas específicas do trabalho vivo: flexibilidade, adaptabilidade, aprendizado e autoconsciência.

A combinação de todos esses elementos permitiria ao Pentágono conceber as primeiras redes digitais, tratando a informação como uma sequência inteiramente quantificável e, portanto, processável por máquinas.

Pessoas são barulhentas e dispersivas, mas utilizam muitos canais paralelos e simultaneamente ativos. Computadores são muito rápidos e precisos, mas só conseguem executar uma ou algumas operações elementares por vez.

A indústria passou a buscar a combinação entre a velocidade do processamento das máquinas e a capacidade humana de definir estratégias. Seu objetivo maior era livrar-se desta última.

Os trabalhadores estadunidenses resistiram ao ritmo acelerado de automação produtiva até o final dos anos 1970, quando surgiu a pesada concorrência japonesa.

Mas o segredo era o toyotismo, que priorizava a “reengenharia humana”. Foi ela que precedeu e acompanhou a introdução das máquinas cibernéticas, no Japão. O verdadeiro pressuposto era uma transformação na consciência humana.

Se a indústria automotiva japonesa superou a dos Estados Unidos, não foi porque ela tinha robôs melhores, mas porque seus trabalhadores foram condicionados a melhor utilizá-los.

No final das contas, Gramsci é quem tinha razão: é sempre de disputa de hegemonia que se trata.

Leia também: Nas origens da Inteligência Artificial, uma bomba de hidrogênio

2 de dezembro de 2019

Nas origens da Inteligência Artificial, uma bomba de hidrogênio

Nick Dyer-Witheford  aponta uma possível origem da Inteligência Artificial em seu livro “Cyber-Proletariat”.

Em 1º de novembro de 1952, a ilha Elugelab, no Pacífico, foi desintegrada em um teste da primeira bomba de hidrogênio, cerca de 500 vezes mais destrutiva que os artefatos que atingiram Nagasaki e Hiroshima.

Para o sucesso da detonação foi fundamental a utilização de um computador batizado de AMINC (Analisador Matemático de Integração Numérico-Computadorizada).

O AMINC foi o primeiro computador a contar com uma memória de acesso aleatório. Desse modo, ele rompia com a distinção entre números que significam coisas e números que fazem coisas. Trata-se do protótipo de todos os mainframes, minicomputadores, PCs, laptops e tablets que vieram depois.

Em seguida, a cibernética consolidou a ideia do "ciclo de retroalimentação", que permite a um ente, biológico ou mecânico, negociar com seu ambiente. Um princípio que tornou possível programar robôs para se auto-reproduzirem.

Já a Teoria Matemática da Comunicação, de Claude Shannon, demonstrou que os computadores poderiam não apenas ampliar a capacidade de comunicação humana, mas comunicarem-se exclusivamente entre eles.

Nessa época, as máquinas já executavam grandes parcelas do trabalho industrial. Mas os trabalhadores ainda podiam desligá-las, fazendo valer seu poder coletivo.

Aquela explosão nuclear no Pacífico conjugada aos posteriores desenvolvimentos da cibernética não apenas capacitaram as máquinas a substituir o trabalho intelectual. Também passaram a afetar a capacidade de resistência dos trabalhadores.

E não deixa de ser significativo que a Inteligência Artificial, tal como a conhecemos hoje, tenha começado com uma bomba atômica e um computador cujo nome em inglês era Mathematical Analyzer, Numeric Integration and Computer ou... MANIAC.