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1 de fevereiro de 2016

Hip-Hop é pra fazer revolução!

Em 31/01, o Gas-PA, rapper do coletivo de hip-hop “Lutarmada” deu uma entrevista ao site Polifonia Periférica. O depoimento mostra que os 25 anos de estrada não atenuaram nem cansaram a trajetória radical e combativa do artista. O compromisso com a luta continua o mesmo e mais forte. Um trecho demonstra isso muito bem:

O falar do escravizado era um falar entupido de condicionantes. Sob pena de castigos ultra severos a sua fala era medida no volume e no tom da voz, na velocidade da resposta, na escolha certa das palavras e na postura corporal. A vontade era de mandar geral se fuder, mas o desejo era contido pela noção do perigo que isso representava. Mas nos momentos em que o escravizado não estava sob a vigilância de seus superiores hierárquicos, toda essa angústia, todo esse ódio reprimido era extravazado através da música e da dança. Os momentos de celebração do escravizado era um momento de catarse. Isso significa que a música afrobrasileira é na sua origem, na sua gênese uma música de protesto, de luta, uma válvula de escape pra todo sofrimento, toda angústia sofrida, e expressão de todo anseio de liberdade dos meus antepassados. Taí a capoeira que não me deixa mentir. É dança e música que ao mesmo tempo é luta corporal, fruto do mesmo contexto ao qual me refiro. O que eu faço desde 1991 nada mais é do que ser fiel às minhas origens e à origem da música da diáspora africana no Brasil!

A entrevista toda merece ser lida. Até porque a mensagem final é clara: Revolução Socialista! Confira aqui.

Leia também: O hip-hop nasceu contra a barbárie

23 de outubro de 2015

O hip-hop nasceu contra a barbárie

Era uma vez, centenas de jovens pobres e desempregados se matando nas ruas do Bronx e Harlem, em Nova Iorque, nos anos 70. Eram gangues formadas principalmente por negros, porto-riquenhos e não brancos em geral. Surravam-se e matavam-se disputando territórios cheios dos destroços produzidos por uma política urbana que queria destinar seus bairros a quem podia pagar altos aluguéis ou hipotecas.

Era uma vez, uma política de segurança que espalhava drogas entre jovens pobres das grandes cidades para que se afundassem no vício e na violência. Sem emprego, escola e família, eles injetavam e cheiravam e matavam-se com drogas e porradas.

Era uma vez, um país e uma época em que lideranças que procuravam estender direitos a negros e não brancos em geral eram assassinadas. Entre elas, Marthin Luther King e Malcolm X.  

Era uma vez, os “Irmãos do Gueto”, algumas dezenas de garotos e garotas que começaram a mirar-se no exemplo do partido dos Panteras Negras. Seu líder era um jovem mestre de caratê que iniciou um processo de pacificação junto às outras gangues.

Era uma vez, gangues que deixaram de se matar para se transformar em coletivos que disputavam competições de dança, música e grafite. O hip-hop surgia onde antes havia só barbárie. 

Esta é a história que conta o documentário "Rubble Kings", de Shan Nicholson. Uma prova de que mesmo os mais fodidos entre os fodidos são capazes de se organizar para buscar a paz entre si e promover o combate ao sistema que lhes declarou guerra.

Infelizmente, por enquanto, o filme só pode ser encontrado no youtube em cópia com legendas precárias.


3 de fevereiro de 2014

O hip-hop não precisa de reconhecimento oficial ou profissionalização

Está no Congresso Nacional um projeto de lei que pretende declarar o hip-hop “manifestação de cultura popular de alcance nacional”. Algo parecido com o que aconteceu com o funk no estado do Rio de Janeiro.

Em 2007, uma resolução do secretário estadual de segurança José Mariano Beltrame proibia a realização de eventos de culturais, esportivos e sociais sem a autorização policial prévia em algumas áreas do Rio de Janeiro. O maior alvo da medida eram os bailes funks nos bairros pobres.

Em 2009, entrou em vigor a lei que define o funk como movimento cultural popular. Desde então, o gênero musical passou a ser parte do patrimônio cultural oficial do Rio de Janeiro. A resolução de Beltrame não poderia mais ser aplicada.

Mas os bailes continuam sendo reprimidos pela Polícia Militar. O que não é de se estranhar. Se a polícia mata e executa pobres à revelia da lei, por que respeitaria manifestações culturais?

Outra proposta legislativa relacionada ao hip-hop pretende profissionalizar seus integrantes. Esta é do deputado Romário e é ainda mais complicada. Prevê, por exemplo, criar figuras como o aprendiz e o estagiário de hip-hop!

Por trás dessas propostas há quem queira controlar um movimento cultural que nasceu rebelde. São forças ligadas a governos e ao empresariado, com grande auxílio de ONGs oportunistas. As atividades desenvolvidas pelos adeptos do hip-hop podem ser profissionalizadas sem necessidade de transformá-lo em uma atividade laboral.

Para entender melhor o que está em jogo nessa questão, acesse o documento do coletivo Lutarmada, aqui. “Por um Hip Hop autônomo e combativo”.

30 de janeiro de 2014

Não à pacificação do hip-hop!

O hip-hop nasceu da resistência à discriminação social, racismo, violência policial, falta de direitos básicos. Seus criadores eram negros, porto-riquenhos, jamaicanos e outros setores marginalizados da população estadunidense.

Esse caráter combativo está explícito na letra dos melhores raps, mas não apenas neles.

Jovens pobres criaram o grafite para mostrar que tinham ocupado com sua arte os territórios em que foram abandonados para morrer.

Os movimentos quebrados do break recusam o corpo domesticado que a disciplina autoritária da fábrica, do quartel e das escolas tenta impor.

O DJ dá vida nova a sons que permaneceriam sepultados no vinil se dependesse da reprodução gangrenada da indústria fonográfica.

O hip-hop nasceu para alegrar, mas pegou raiva quando seus adeptos passaram a ter seus bailes interrompidos pela polícia e proibidos pelas autoridades.

Teve seu ódio despertado pela violência com que suas cores, gestos, roupas, jeitos de cantar e dançar foram tratados.

Mas o hip-hop olha para a luz cada vez que tira crianças e jovens da ignorância e da ira sem direção. Quando mostra quais são seus verdadeiros inimigos e os acolhe num abraço firme de combatente.

Tudo isso fez do hip-hop uma cultura de resistência e luta, que tem no Estado um de seus maiores inimigos e no mercado uma força que procura amansá-lo.

Por isso, o hip-hop não precisa que o Estado o reconheça como movimento cultural, como quer um projeto de lei. Também não pode ser reduzido a uma ocupação profissional, como pretende outra proposta legislativa. Ambas no Congresso Nacional. As duas exigem uma resposta firme do hip-hop coerente com suas origens.

Não à pacificação do hip-hop!

Leia também: Hip Hop contra ficha limpa pra torturadores

15 de abril de 2011

Hip Hop contra ficha limpa pra torturadores

Foi grande o escândalo causado pela decisão do Supremo Tribunal Federal em relação à lei da Ficha Limpa. Mas, também era exagerada a esperança que se depositou na “mais alta corte do País”. Afinal, trata-se de um tribunal composto de gente indicada por governantes, com critérios altamente duvidosos.

Não custa lembrar que um ano atrás o STF se declarou contra a revisão da Lei da Anistia. Esta lei foi aprovada durante a ditadura militar. Seu objetivo maior nunca foi perdoar os que lutaram contra a ditadura, mas inocentar assassinos e torturadores. A prova é que estão todos por aí. Com exceção dos que morreram de velhice.

É uma lei feita por criminosos sobre crimes que eles próprios cometeram. Além disso, anistia costuma ser um perdão para quem já foi julgado e condenado. Os carrascos da ditadura jamais passaram por qualquer julgamento.

Ou seja, o STF concedeu ficha limpa para responsáveis diretos e indiretos por crimes de tortura e assassinato. Nada mais fez do que o jogo dos poderosos que indicam seus membros.

Para fazer este debate, foi realizado um seminário com vários coletivos de hip hop, em junho de 2010. Aconteceu no Rio de Janeiro e foi organizado pelo coletivo de hip hop Lutarmada, pelo Revolutas e Rede de Educadores Populares. O convidado especial foi Manoel Cyrillo, que pegou em armas contra o governo dos militares.

Um dos resultados do encontro foi uma música sobre o tema do debate. Vale a pena ver como tem muita gente do hip hop que mantêm a tradição de combate do movimento. Isso é que é ficha limpa!

Veja o clipe aqui: Ecos do Passado

Leia também: E Mano Brown acabou no Fantástico

27 de agosto de 2010

Falta o vermelho na bandeira brasileira

A semana da pátria vem aí. O coletivo de hip-hop Z´África Brasil quer saber por que o vermelho do sangue derramado em 500 anos de massacre não aparece nas cores nacionais. É o que diz a letra de sua música “A Cor Que Falta Na Bandeira Brasileira”.

Um trecho:

Verde, amarelo, azul, branca e vermelha
São as cores que compõe a bandeira brasileira
Só que o vermelho não quiseram botar
É cor de sangue é cor de morte é cor de farsa
É todo o sangue derramado nesses 500 anos
É toda a historia maquiavélica tramada nos nossos mocambos
A dominação de um fogo por ouro
Fora o sofrimento de um povo

Letra e música, aqui.

Saiba mais sobre o coletivo paulista Z´África Brasil clicando aqui

15 de junho de 2010

E Mano Brown acabou no Fantástico

Em 13/05, o vocalista e líder do coletivo Racionais MCs apareceu no programa Fantástico. Ao lado de Jorge Ben Jor, Mano Brown cantava a música "Ponta de lança africano (Umbabarauma)". O projeto foi patrocinado pela Nike.

Mano Brown é a maior referência do hip-hop contestador no Brasil. Ou era. Uma das coisas que sempre denunciou em suas músicas era a discriminação com que a grande mídia trata negros e pobres.

Em dezembro de 2009, Brown já havia sido capa da revista Rolling Stone. A publicação é voltada para a indústria da música. Muito distante da realidade da grande maioria dos negros e pobres.

Agora, aparece num dos programas de maior audiência da Rede Globo. A emissora é a principal defensora dos interesses dos brancos e ricos no Brasil.

Mano Brown pode dizer que conquistou a visibilidade que cobrava. Que não mudou seu discurso. Pode ser, mas não há como calçar essa chuteira e vestir essa camisa sem fazer parte do time do inimigo.

É pena. Mas, o hip hop é como qualquer movimento de resistência. Está sujeito às seduções do poder e do dinheiro. Felizmente, muitos de seus lutadores continuarão no lado de cá da trincheira.

Um belo exemplo é o grupo Levante, do coletivo Lutarmada. Ouça Abalando as estruturas globais, que denuncia o poder da Globo.