Doses maiores

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18 de outubro de 2024

No capitalismo fóssil, Hades no comando

Há uma grande polêmica entre os geólogos para saber se estamos vivendo atualmente na idade do Holoceno ou do Antropoceno. Este último período seria caracterizado pelo papel decisivo das ações humanas nas grandes transformações que o planeta vem sofrendo há quase um século.  

Mas apesar da resistência de cientistas mais conservadores, as evidências em favor do Antropoceno são cada vez maiores. Por exemplo, entre 19 e 24/09/2024, as queimadas transformaram o sudoeste da Amazônia na região que mais emitiu gases de efeito estufa no planeta. Ao mesmo tempo, na floresta mais úmida do mundo falta água, morrem os peixes e a população pobre passa fome.

Um recente estudo publicado na revista “Nature Ecology & Evolution” mostra que Austrália, Canadá, Chile, Portugal, Indonésia, Sibéria e o oeste dos Estados Unidos estão entre os lugares mais afetados por incêndios florestais nos últimos anos.

Difícil esconder as marcas sujas das digitais do capitalismo fóssil nisso tudo.

O primeiro período geológico da terra é chamado de "Hadeano", inspirado em Hades, o deus do submundo dos mortos na mitologia grega. O nome refere-se às condições infernais que prevaleciam na Terra primitiva. O planeta acabara de ser formado e sua superfície ainda estava derretida com lava superaquecida e temperaturas altíssimas.

Bom, é possível que a polêmica entre defensores do Holoceno e do Antropoceno dê lugar ao debate para saber se vamos viver novo período infernal no planeta. Mas diferente do anterior, já não seria o poderoso deus grego o responsável. No lugar de Hades, o filho de Cronos, estaríamos sob o domínio de demônio Fóssil, criatura do diabólico Capital.

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19 de setembro de 2024

O Antropoceno e o fio vermelho da resistência

Em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”, Ian Angus lembra que, certa vez, Marx comparou o progresso capitalista àquele "ídolo pagão hediondo, que não beberia o néctar senão dos crânios dos mortos".

Essa incapacidade do capitalismo de criar sem destruir, afirma o autor, corre como um fio vermelho pela obra do grande revolucionário alemão. Mas nem ele poderia imaginar o quão extrema essa contradição se tornaria.

O Antropoceno é algo nunca visto na história do planeta, diz Angus. As mudanças que ocorreram antes, não importa quão extensas ou destrutivas, não causaram “mudanças significativas na estrutura ou funcionamento do Sistema Terrestre como um todo.”

Não é que haja vários focos de destruição ecológica espalhados pelo mundo. A catástrofe ambiental é sistêmica, planetária. São tempestades, furacões, incêndios, ondas de calor e de frio nos vários continentes. Além das cada vez mais frequentes epidemias ameaçando se transformar em nova pandemia. Até o equilíbrio das camadas geológicas mais profundas está ameaçado pela exploração de petróleo e gás usando a técnica do “fracking”.

Nenhum desses fenômenos respeita fronteiras ou trará consequências mais amenas para países ou regiões menos poluentes. Ao contrário, muitos deles afetarão principalmente as nações menos industrializadas e ambientalmente sujas.

Segundo o autor, o Antropoceno também é um território desconhecido. Ninguém pode assegurar qual será a dimensão dos efeitos das pesadas intervenções promovidas pela humanidade sob o domínio do capital. Um sistema cuja sanha por lucros para poucos está colocando em risco a vida da grande maioria explorada e oprimida.

Eis porque é preciso seguir aquele “fio vermelho” da obra marxista para rompermos definitiva e radicalmente com o capitalismo.

Leia também: A assinatura do Antropoceno com firma reconhecida

17 de setembro de 2024

A assinatura do Antropoceno com firma reconhecida

Especialistas a serviço do capitalismo fóssil têm uma concepção muito particular e distorcida sobre o Antropoceno. Segundo eles, as atuais crises ambientais devem-se a fatores que remontam a centenas e até milhares de anos atrás

Desse modo, as crises ambientais não seriam resultado de ações humanas recentes, como a queima de combustíveis fósseis, mas um fenômeno causado pela disseminação gradual da influência da humanidade sobre a paisagem. O Antropoceno teria a mesma idade do Homo Sapiens.
 

Mas a atividade humana deixou várias assinaturas em sedimentos geológicos que desmentem essa hipótese. São minerais e tipos de rochas que refletem a rápida disseminação global de novos materiais como alumínio, concreto e plástico. Os registros desses elementos, conhecidos como “tecnofósseis”, somente são encontrados em camadas sedimentares surgidas em meados do século 20.

Além disso, perfurações profundas em geleiras permanentes obtiveram amostras de 100 mil anos atrás ou mais. Foram encontradas elevadas concentrações de chumbo de gasolina, nitrogênio e fósforo de fertilizantes, além de dióxido de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis. Elementos inexistentes antes do século passado e cuja presença na natureza aumentou muito desde os anos 1950.

Os especialistas antiambientalistas omitem que os resíduos que envenenam enormes extensões do planeta não poderiam resultar de seu lento acúmulo por milhares de anos. São resultado do ritmo acelerado e destrutivo de uma industrialização à base, principalmente, de combustíveis fósseis.

As informações acima estão no livro “Enfrentando o Antropoceno”, de Ian Angus, e mostram que o Antropoceno com sua catastrófica crise ambiental tem a assinatura do capitalismo. Com firma reconhecida e tudo.

Leia também: A primeira quase catástrofe do Antropoceno

14 de setembro de 2024

A primeira quase catástrofe do Antropoceno

Em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”, Ian Angus lembra a crise do buraco da camada de ozônio, fenômeno causado pela utilização do clorofluorcarbono (CFC) em produtos como inseticidas, desodorantes, lubrificantes, perfumes e tintas.

O rompimento na camada de ozônio causa desequilíbrios no regime climático e torna a atmosfera terrestre vulnerável aos raios ultravioletas, acarretando diversos problemas de saúde.

Estima-se que cerca de 750 mil toneladas de CFC já haviam sido liberadas na atmosfera em 1970. Mas apenas no final dos anos 1980, após muita pressão da opinião pública mundial, as grandes empresas que utilizavam o CFC deixaram de usá-lo.

Mas o buraco continuou a aumentar até alcançar uma área sete vezes a do território brasileiro, em setembro de 2000. Desde então, diminuiu ligeiramente e permanece precariamente estável.

Há quem diga que a recuperação da camada de ozônio prova que o capitalismo pode resolver problemas ambientais globais: “Se as negociações internacionais puderam aliviar a crise de ozônio, por que não a do clima?”. Esse raciocínio ignora o fato de que o ozônio era utilizado apenas por um punhado de empresas. Em contraste, eliminar combustíveis fósseis e emissões de gases de efeito estufa exigirá uma transformação de décadas da economia global.

Os donos do capital têm grande dificuldade em olhar mais do que dez anos à frente. Os prejuízos que seus altos lucros custam ao resto do planeta não estão em seus balanços financeiros.

A crise do CFC foi a primeira “quase catástrofe” do Antropoceno, mas a menos que nos livremos da máquina suja do capitalismo, haverá muitas mais. Já não temos espaço para novos “quases”.

Leia também: Antropoceno: a era da sujeira capitalista

9 de setembro de 2024

Antropoceno: a era da sujeira capitalista

Em 1922, o geólogo soviético Aleksei Petrovich Pavlov propôs o conceito Antropoceno para caracterizar o período geológico marcado pela presença dos seres humanos, sucedendo a época do Holoceno. Mas a proposta não foi bem recebida.

Após reaparecer em algumas ocasiões sem sucesso, o conceito voltou a ser utilizado pelo químico Paul Crutzen, em fevereiro de 2000, em uma reunião do Programa Internacional Geosfera-Biosfera, no México. Desde então, vem ganhando unanimidade.

A questão que ainda divide os especialistas é sobre quando o Antropoceno teria começado. Mas um passo importante para tentar resolver a polêmica foi dado com a apresentação do documento “Mudança Global e o Sistema Terra”, no encontro internacional “Desafios de uma Terra em Mudança”, realizado em Amsterdã, em julho de 2001.

A publicação apresentava 24 gráficos: doze mostrando tendências históricas da atividade humana (crescimento do PIB, população, consumo de energia, uso de água, etc.) e doze abrangendo aspectos físicos como dióxido de carbono, redução da camada de ozônio, extinção de espécies, perda de florestas, etc.

Os gráficos mostraram um crescimento constante dos 24 índices, a partir do ano de 1750. Mas acusaram uma drástica elevação dos números de 1950 em diante. Ou seja, no momento em que se generalizava a utilização dos combustíveis fósseis pelo planeta.

As informações acima são do livro “Enfrentando o Antropoceno”, de Ian Angus. Não à toa, o autor chama a atual fase produtiva em que vivemos de capitalismo fóssil. Nele, as imundas máquinas a carvão da industrialização surgida na Inglaterra foram substituídas por motores ainda mais sujos, movidos pelo petróleo do capitalismo sob o domínio estadunidense.

Leia também: Enfrentando o Antropoceno com o ecossocialismo

4 de setembro de 2024

Enfrentando o Antropoceno com o ecossocialismo

“Enfrentando o Antropoceno” é o título de um recente livro de Ian Angus, militante ecossocialista canadense. Segundo ele:

É um desafio para todos que se importam com o futuro da humanidade encarar o fato de que a sobrevivência no Antropoceno requer uma mudança social radical, substituindo o capitalismo fóssil por uma civilização ecológica. Ou melhor, ecossocialista. Construir o socialismo nas condições do Antropoceno, por sua vez, envolverá desafios que nenhum socialista do século 20 jamais imaginou. Entender e se preparar para esses desafios deve estar agora no topo do programa socialista.

Mas apesar de Angus avaliar que os desafios são inéditos, ele resgata elementos das obras de Marx e Engels que já no século 19 começavam a mostrar o tamanho da encrenca. Em abril de 1856, em uma reunião de trabalhadores em Londres, Marx descreveu uma profunda contradição no desenvolvimento capitalista:

Por um lado, começaram a surgir forças industriais e científicas, das quais nenhuma época da história humana anterior jamais suspeitou. Por outro lado, existem sintomas de decadência, superando em muito os horrores registrados nos últimos tempos do Império Romano. Este antagonismo entre a indústria moderna e a ciência, por um lado, a miséria e a dissolução modernas, por outro. Este antagonismo entre os poderes produtivos e as relações sociais de nossa época é um fato, palpável, avassalador e incontestável.

Assim, para o autor, os socialistas precisam abordar o Antropoceno como uma oportunidade de unir a análise marxista ecológica com as últimas pesquisas científicas em uma nova síntese: “Um relato socioecológico das origens, natureza e direção da crise atual”.

Voltaremos a comentar a obra.

Leia também: A humanidade chegando ao limite

7 de agosto de 2024

A humanidade chegando ao limite

A metodologia dos limites planetários procura medir o impacto das atividades humanas no sistema terrestre. Ultrapassá-los significaria deixarmos o período de estabilidade do Holoceno, no qual vivemos durante os últimos 12 mil anos.

Os limites correspondem a nove processos de mudanças, que são: climáticas, integridade da biosfera, biogeoquímica, acidificação dos oceanos, uso do solo, camada de ozônio, aerossóis atmosféricos e liberação de químicos sintéticos no ambiente sem testes de segurança adequados.

Pois bem, um levantamento divulgado em setembro de 2023 mostra que seis deles foram definitivamente ultrapassados, e um deles, o elevado índice de acidez dos oceanos, está muito perto de seu limite. Apenas a deterioração do ozônio e os aerossóis atmosféricos estão sob controle.

Essas mesmas evidências mostram que as ações humanas, especialmente as das sociedades industrializadas, tornaram-se o principal motor da mudança ambiental global. É o resultado dos estragos feitos pela exploração capitalista, que caracteriza um período sem paralelo na história humana: o Antropoceno.

Segundo Johan Rockström, um dos pesquisadores responsáveis pelo levantamento, essas perturbações ambientais são abordadas como se fossem questões separadas. Por exemplo, mudanças climáticas, perda de biodiversidade ou poluição. Essas abordagens, no entanto, ignoram as interações não lineares desses desequilíbrios e os efeitos agregados resultantes no conjunto do sistema terrestre. Os limites planetários trazem uma compreensão científica dos impactos ambientais antropogênicos em uma estrutura que considera o sistema terrestre como um todo.

Ou seja, os efeitos destruidores do capitalismo são globais e precisam ser combatidos em sua totalidade e com muita urgência. A humanidade está chegando literalmente aos limites de sua sobrevivência como espécie.

Doses serão suspensas até setembro.

Leia também: O Antropoceno e o Atlas Selvagem

30 de maio de 2022

O Antropoceno e o Atlas Selvagem

Anna Tsing coordena o projeto digital colaborativo "Atlas Selvagem: O Antropoceno-Mais-do-que-Humano", desenvolvido por especialistas de vários países, em parceria com a Stanford University Press.

Em recente entrevista, ela explica que o atlas:

...apresenta 79 relatórios de campo sobre "os efeitos selvagens da construção de infraestrutura, ou seja, sobre projetos que mudaram as paisagens terrestres, aquáticas e aéreas" ao longo dos últimos séculos.

Para ela, “ecologias selvagens” são “respostas não-humanas a projetos humanos que estão fora do controle humano”. Seriam efeitos de ações ambientalmente irresponsáveis que podem “pôr em perigo a vida como nós a conhecemos”.

A título de exemplo, a entrevistada cita o mosquito Aedes aegypti, transmissor de dengue e febre amarela. Esse inseto vivia em buracos nas árvores africanas, onde raramente interagia com humanos. Nos navios de escravos, a desumana aglomeração humana permitiu mutações rápidas e o inseto se transformou em algo novo: um mosquito que somente convive com humanos e assim transmite eficientemente a febre amarela e outros vírus de uma pessoa para a outra. A partir daí, se disseminou nas Américas, transmitindo doenças de volta para a África e para a Ásia.

Mas esse é apenas um dos muitos casos que aparecem no Atlas para mostrar como a intervenção humana foi se tornando mais e mais desastrosa. É o Antropoceno se confirmando como era geológica que transformou radicalmente o planeta. Consequência do surgimento do capitalismo, acelerada pela industrialização, o Antropoceno provoca efeitos inesperados e assustadores. A pandemia que matou muitos milhões, e ainda nos ameaça, não poderia ser evidência mais clara disso.

Para acessar o Atlas clique: https://feralatlas.org/

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9 de abril de 2020

A extinção da espécie mais perigosa

John Bellamy Foster é professor da Universidade de Oregon, Estados Unidos, e um dos grandes estudiosos das relações entre ecologia e teoria marxista.

Em recente entrevista concedida ao “Observatorio de la crisis”, ele não tem dúvidas sobre a principal causa da atual pandemia: é o próprio capitalismo.

Foster sustenta essa afirmação citando pesquisas do biólogo evolutivo e epidemiologista Rob Wallace, segundo as quais:

.. a origem da COVID-19 e outros vírus recentes tem sido a penetração mais intensiva do agronegócio nos sistemas naturais, o que criou fissuras nos ecossistemas e entre as espécies, causando o surgimento de pandemias globais. Em “Notes on a Novel Coronavirus”, Wallace argumenta que a solução estrutural é a construção de “um ecossocialismo que atenue a lacuna metabólica entre ecologia e economia, entre o urbano, o rural e o selvagem. Evitando assim o surgimento de patógenos piores desse tipo”.
Mas essa denúncia não é nova. Foster cita o zoólogo Ray Lankester, “protegido de Charles Darwin” e amigo de Marx, que em seu livro “O Reino do Homem”, no capítulo chamado “As revanches da natureza”, escreveu:
Em um esforço ambicioso para produzir uma grande quantidade de animais e plantas (...) o homem acumulou grandiosas espécies, de maneira antinatural, em campos e fazendas e também concentrou multidões em cidades-fortalezas.
Lankester escreveu essas palavras em 1907. Na época, não se falava em Antropoceno, esta era geológica definida pelo enorme aumento das forças produtivas humanas, acompanhada das consequências mais desastrosas. Entre elas, a extinção de muitas espécies de vida.

O Covid é outra revanche da natureza. Esperemos que não cause a extinção da espécie mais perigosa.

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