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10 de março de 2025

Vivemos o auge do pensamento neoliberal

O neoliberalismo tornou-se alvo de muitas críticas após crises como a de 2008 e a causada pela Pandemia. As maravilhas prometidas pelas privatizações transformaram-se em frustrações, o livre mercado revelou-se como a cruel ditadura de poucos monopólios. Critica-se o neoliberalismo em conversas de bares, almoços de família, em partidos de esquerda e de direita e em filmes, séries e atrações de entretenimento em geral.

No entanto, é possível dizer que vivemos o auge do pensamento neoliberal. É o que, por exemplo, diz Douglas Rodrigues Barros em recente artigo sobre o livro “Doppelgänger”, da jornalista canadense Naomi Klein. Um trecho do texto afirma:

Diante de um mundo em dissolução, sem garantias sociais, o bem-estar social tornou-se bem-estar individual. A luta pelo corpo tornou-se uma competição em que se acredita ter um mínimo controle frente à sociedade em perpétuo descontrole. Resta o investimento no eu como fuga dos infortúnios de um mundo em ebulição.

Estabelecida a materialidade neoliberal, o desgaste das frustrações que ela trouxe foi compensado pela permanência de sua racionalidade. Desse modo, a revolta social que despertou foi apropriada pela extrema direita para fazer a defesa do individualismo selvagem, da competição darwinista, da meritocracia racista, da opressão patriarcal e da subversão fascista.

A luta contra o neoliberalismo começou a ser derrotada quando desprezamos seus efeitos ideológicos para nos concentrar apenas em suas manifestações econômicas. E não foi por falta de aviso. Há mais de 40 anos, em 1981, ninguém menos que Margareth Thatcher deixou tudo muito claro, ao afirmar: “A economia é o método. O objetivo é mudar a alma”.

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Com o neoliberalismo na alma

14 de fevereiro de 2025

O cinismo neoliberal e a normalização do ódio

Há autores e pesquisadores que falam em racionalidade neoliberal ou teologia neoliberal no sentido de que o neoliberalismo se impôs não apenas como uma teoria econômica, mas como um novo modo de ser. Após 40 anos de sua disseminação por grande parte das sociedades no mundo, é difícil discordar dessa ideia.

E um dos elementos dessa racionalidade é, sem dúvida, o cinismo. Mas não o cinismo filosófico da tradição grega, que buscava mostrar a verdade nua e crua. Em seu recente artigo "O pós-modernismo e este ar cínico que se respira", o filósofo Alfons C. Salellas Bosch explica que:

O cinismo do nosso tempo baseia-se num desprezo pela bondade, numa desconfiança sistemática da honestidade e numa suspeita constante do altruísmo, se não numa negação direta da benevolência que outros possam expressar. Uma atitude geral em relação ao mundo e à vida caracterizada por um anti-idealismo deliberadamente provocativo – e, por vezes, estupidamente rude – através de um pretenso pseudo-realismo amoral, que descarta como ingênuo ou falso tudo o que pode conferir ao comportamento humano algum tipo de esplendor. Não precisa acrescentar que, ao contrário do passado, o cinismo de hoje só toma a felicidade como motivo de escárnio.

Desse modo, afirma Bosch, respira-se um ar cínico, que é “indiferente na melhor das hipóteses, hostil na pior, só sabe ver cálculo e estratégia em tudo e em todos – o que em algumas sociedades levou à normalização do ódio – e cujo oposto não é a afetação e a ingenuidade, mas o respeito e a sensibilidade”.

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26 de setembro de 2024

Bets, tigrinho, Uber e Marçal no selvagem jogo neoliberal

"Beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bi em bets em agosto”, segundo uma análise feita pelo Banco Central divulgado pela Agência Brasil. O valor corresponde a 20% do total mensal pago pelo programa.

Enquanto isso, um estudo da Unicef mostra que 22% dos adolescentes entrevistados afirmam ter apostado em jogos de azar pela primeira vez aos 11 anos ou menos. A maioria começou aos 12 anos ou mais (78%).

Em junho passado, o Ministério Público de São Paulo identificou perfis de influenciadores mirins, entre 6 e 17 anos, que promovem sites de apostas disponibilizando links de acesso para crianças e adolescentes. Com destaque para o malfadado jogo do Tigrinho.

Notícia estampada hoje no Globo: “Campeonatos de ‘cortes’ organizados desde dezembro pelo ex-coach Pablo Marçal (PRTB), e que seguiram em atividade na campanha à prefeitura de São Paulo, renderam a ele até 650 milhões de visualizações nas redes sociais por edição”.

Os elementos acima parecem ser sintomas de uma terrível epidemia social sem outra explicação, além da malandragem de aproveitadores da fé popular em jogos azarados. Mas o neoliberalismo é sério candidato a causa determinante da doença. Uma forte evidência é recente decisão do Tribunal Superior do Trabalho, afirmando que a Uber promove a “gamificação do trabalho”, ao premiar ou punir os prestadores de serviço como em um videogame.

Sob o império do neoliberalismo, a competição assumiu valor absoluto, desbancando definitivamente valores como solidariedade e colaboração. O jogo deixou de ser a atividade lúdica que reforça a coesão social para se tornar uma disputa selvagem buscando a eliminação sumária de adversários.

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23 de setembro de 2024

Os gastos sociais sob a ditadura neoliberal

Governar sob a ditadura neoliberal resume-se a separar centavos para as áreas sociais e destinar caminhões de dinheiro para os juros da dívida pública.

Essa lógica, por si só, já impõe sacrifícios cruéis à enorme parte da população. Mas o modo como ela é aplicada é ainda pior. É o que mostra um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades, da USP.

O levantamento divulgado pelo Brasil de Fato, em 08/08/2024, mostra que aumentar o gasto público com investimentos sociais é mais eficiente na redução do endividamento do país do que cortar outras despesas.

Os subsídios concedidos pelo governo, por exemplo, direcionam volumosos recursos públicos para setores poderosos como montadoras de veículos, companhias aéreas, petroleiras e agronegócio.

Pois bem, o estudo constata que um corte de 1% do PIB dos recursos destinados a benefícios sociais diminui o endividamento público apenas 0,2%. Já se for feito sobre subsídios governamentais, o déficit cai 1,6%, oito vezes mais.

Isso para não falar que raramente subsídios públicos se transformam em mais postos de trabalho. Ao contrário, os próprios beneficiários admitem que os recursos são utilizados para manter a produção e o nível de emprego. O que também é duvidoso.

O economista Pedro Faria explicou ao Brasil de Fato que o “gasto do governo atende majoritariamente pessoas mais pobres, via programas sociais, saúde, educação. Com todo aumento de renda dessas pessoas, elas consomem e o efeito multiplicador é grande".

Ninguém nem está falando em auditoria da dívida pública. Seria apenas um arranjo menos injusto dentro da austeridade fiscal. Mas nem isso é possível sob a ditadura neoliberal.

Leia também: O PIB  e a ditadura do Banco Central

16 de setembro de 2024

A escravidão assalariada há 200 anos e hoje

Dois séculos atrás, a relação salarial era vista com desconfiança e desprezo pelos trabalhadores. Ser empregado lembrava os antigos vínculos feudais ou escravocratas. Não à toa, os anarquistas cunharam a expressão “escravidão assalariada”, em que a pobreza cumpre a função do chicote.

Mas os camponeses foram expulsos de suas terras. As grandes oficinas parcelaram o trabalho, tornando inúteis o conhecimento e as ferramentas dos artesãos urbanos. Ser assalariado não era opção. Era sobrevivência.

O problema é que as fábricas formaram o que Marx chamou de exércitos de trabalhadores. Exércitos cujas lutas foram arrancando direitos: redução da jornada, descanso semanal, limitação do trabalho infantil...

Essas conquistas só se consolidaram em grande escala em parte da Europa e em algumas outras regiões. Ainda assim, se transformaram em um forte estímulo para a luta dos muitos milhões que não as haviam conquistado.

Até que chegou o neoliberalismo para reorganizar a produção de modo a empregar menos e esvaziar os exércitos fabris. Promoveu privatizações, grandes cortes de direitos e precarização generalizada das relações de trabalho.

O conceito de “escravidão assalariada” ganhou um sentido conservador. Era preciso se libertar do patrão e da CLT. Tratar companheiros de trabalho como concorrentes; a carteira de trabalho como bola de ferro; o crachá como coleira.  

Mas o chicote da pobreza continua castigando e os patrões ficaram ainda mais longe do alcance de sindicatos, justiça trabalhista e fiscalização governamental. Greves são cada vez mais raras e duramente reprimidas.

Toda esta situação ajuda a explicar o sucesso de pilantras como Pablo Marçal. Enquanto não encontrarmos novas formas de organizar nossos exércitos, o cativeiro continua.

Leia também: O Primeiro de Maio em meio às vitórias do neoliberalismo

31 de julho de 2024

O neoliberalismo desde baixo

O filósofo Rodrigo Nunes publicou o artigo “Pequenos fascismos, grandes negócios”, em outubro de 2021, na revista “piauí”. Em determinado trecho, ele lembra que a cientista social argentina Verónica Gago cunhou a expressão “neoliberalismo desde baixo”, por ele resumida como:

...uma condição em que as classes populares, cada vez mais habituadas à privatização dos riscos e aos discursos de legitimação da ordem econômica promovidos pelo neoliberalismo, internalizam a lógica do “empreendedor de si mesmo” e passam a conceber nesses termos suas próprias estratégias de vida.

Mesmo em condições normais, o mercado sempre produz muito mais perdedores que vencedores. Aliás, a ficção de que ele seria um espaço em que os indivíduos florescem exclusivamente por seus méritos normalmente serve para que os vencedores disfarcem todas as vantagens que tiveram (na forma de riqueza intergeracional, boas conexões e acesso privilegiado ao poder político, por exemplo). Mas a força da ideologia do empreendedorismo provém do fato de que a identificação com ela não só não precisa de uma base material (ela se refere mais a uma atitude que a uma atividade), como tende a tornar-se mais forte, e não mais fraca, diante da impossibilidade de se realizar. Quando se crê que o êxito depende exclusivamente do esforço individual, o fracasso não é experimentado como sinal de que os dados estão viciados, mas como culpa, vergonha e chamamento para dar ainda mais duro.

Desse modo, o neoliberalismo cria raízes no chão social, ao mesmo tempo em que o ressentimento que suas frustações geram permite ao extremismo de direita funcionar como válvula de escape e mecanismo de reforço do sistema.

Leia também: Neoliberalismo, o exterminador do futuro

11 de julho de 2024

Bancos Centrais no comando

Em seu livro “The People's Republic of Walmart”, Leigh Phillips e Michael Rozworski lembram que os neoliberais consideram qualquer tentativa de planejamento estatal da economia como uma forma de intervenção completamente ineficiente.

Mas, dizem os autores, o capitalismo também tem algo semelhante a um sistema de planejamento econômico centralizado. É o sistema financeiro. Phillips e Rozworski citam as palavras do economista J. W. Mason:

Os excedentes econômicos são alocados pelos bancos e outras instituições financeiras, cujas atividades são coordenadas por seus controladores, não pelos mercados… Os bancos são os equivalentes privados do planejamento central da era soviética. Suas decisões sobre empréstimos determinam quais novos projetos receberão uma parte dos recursos da sociedade.

Os bancos decidem, por exemplo, sobre empréstimos para a construção de uma nova fábrica, financiamentos imobiliários ou empréstimos estudantis. Além, claro, de estabelecer as condições em que esses débitos serão quitados. Cada empréstimo é uma abstração que mascara algo concreto como ocupações para trabalhadores, moradias para a população ou cursos de graduação.

E adivinhem o que está no centro de qualquer sistema financeiro contemporâneo? O Banco Central, o banco dos banqueiros. A ironia aqui é que se trata de uma agência governamental que só presta contas ao mercado, não recebe um voto popular, mas intervém pesadamente na economia. Quanto a isso, os discursos da elite contra intervenções estatais emudecem.

É um sistema em grande escala, tecnocrático e sistêmico. Mas não tem nada de conspiratório. Seu domínio decorre da implacável lógica capitalista. Mas, claro, qualquer ameaça a suas determinações poderá enfrentar a truculência repressiva do Estado. Outra intervenção estatal muito bem recebida pela classe dominante.

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8 de julho de 2024

Derrotas da direita que a direita comemora

A vitória dos trabalhistas não é motivo para comemorar. Bem, é uma boa notícia que os conservadores de direita tenham perdido, mas é uma má notícia que a direita e o Partido Trabalhista tenham vencido. Um partido neoliberal.

As palavras acima são de um recente artigo de Ken Loach, combativo cineasta britânico. Referem-se ao recente resultado das eleições britânicas, que consagrou o líder trabalhista Keir Starmer. Segundo Loach, “um político de direita, intransigente e orientado para o livre mercado”.

Loach lembra a situação de outros países também. Na França, Macron é considerado de centro, mas é de direita, diz ele. As medidas de austeridade fiscal e o alinhamento ao imperialismo de seu governo pavimentaram o caminho para o crescimento da extrema direita francesa.

O mesmo vale para os Estados Unidos, onde há dois portadores de demências distintas disputando o comando de um sistema político e social cheio de patologias como o racismo, o completo abandono dos mais pobres e a guerra a povos do mundo inteiro.

A verdade é que o neoliberalismo colocou os governos das principais economias do mundo em piloto automático. Mesmo os que são eleitos contra seu ideário, dificilmente conseguem deter a continuidade de suas políticas.

No Brasil, nossa barreira contra o bolsonarismo fascista é frágil. Sólidas, mesmo, somente as fundações do neoliberalismo. No atual governo elas estão disfarçadas de “arcabouço fiscal” e podem tornar o terreno social e político ideal para novas ofensivas ultraconservadoras.

Os neoliberais puro-sangue continuam preferindo a eficácia destrutiva do fascismo. O cerco ao governo petista vem se fechando rapidamente. Nada a comemorar por aqui também.

Leia também: Como a esquerda deve apoiar Lula?

3 de julho de 2024

As abstrações criminosas da austeridade neoliberal

Sob o capitalismo, as coisas tendem a se tornar abstratas. O trabalho humano, que produz coisas úteis e concretas, se transforma em abstração mercadológica. Mero valor de troca descarnado.

Aposentadoria por tempo de contribuição, aposentadoria especial, por idade rural, por idade urbana, por incapacidade permanente. Auxílio-doença, auxílio-acidente, salário-maternidade, pensão por morte e benefício de prestação continuada.

A relação acima elenca alguns dos benefícios pagos a mais de 39 milhões de segurados do INSS. Pessoas concretas, cuja força de trabalho é superexplorada pelas minorias que controlam os meios de produção do País.

Mas tudo isso é abstraído quando jornalistas, governantes e economistas a serviço do capital reclamam que no primeiro quadrimestre deste ano, os gastos previdenciários somaram R$ 80,7 bilhões, aumentando 17% em relação ao mesmo período do ano passado. Por outro lado, esses mesmos capachos do controle das contas públicas jamais dão a mesma ênfase aos R$ 116 bilhões que o governo federal pagou de juros da dívida pública em igual período. Só de juros! Nenhum centavo serviu para abater o principal do débito.

Eles também alertam para o fato de que o déficit da previdência atingiu R$ 306 bilhões em 2023, mas nada dizem sobre a dívida pública federal ter ultrapassado R$ 6,5 trilhões no mesmo ano.

Fato concreto: despesas previdenciárias se destinam a pessoas que trabalham duro, ganham pouco e têm seus direitos constantemente suprimidos. Outro fato concreto: a dívida pública alimenta uma minúscula elite que parasita os recursos públicos.

Essa dura realidade é ocultada pelas abstrações criminosas impostas pelos carrascos da austeridade neoliberal, encarniçados em seu empenho para cortar ainda mais direitos sociais.

Leia também: Dobrando a aposta neoliberal no fascismo

25 de junho de 2024

Lavagem cerebral neoliberal: saúde

Vem chamando a atenção o grande número de notícias relacionadas à saúde, bem estar, alimentação saudável, medicina, exercícios físicos, hábitos saudáveis e temas semelhantes publicadas em jornais, revistas, sites e portais virtuais.

Também não faltam as inevitáveis matérias sobre reajustes abusivos nas mensalidades de planos de saúde. Ou ainda, sobre o cruel cancelamento da cobertura para pessoas cujas patologias comprometem a manutenção dos altos lucros das operadoras.

Além disso, em 2023, um estudo constatou um verdadeiro boom de criação de aplicativos de cuidados com a saúde no Brasil. De acordo com os dados, são 545 empresas oferecendo soluções como monitoramento de doenças e prontuários online.

Tudo isso não passa de mais um sintoma da patologia mental e cultural que atinge grande parte da população mundial há algumas décadas. Trata-se da enfermidade ideológica chamada neoliberalismo, que transfere aos indivíduos cuidados que deveriam estar a cargo da rede pública de prevenção e assistência à saúde.

No Brasil, a elevada carga tributária sobre o consumo penaliza os mais pobres. Mas esses recursos não retornam à população na forma de atendimento digno. No lugar disso, cada um e cada uma que se vire para se manter saudável. Estamos nos tornando empreendedores da própria saúde, ameaçando esgotar nossa sanidade por meio de múltiplas falências.

Pergunte à grande maioria pobre da população quantas horas de seu dia de trabalho exaustivo e mal pago ou quanto de seu curto orçamento são dedicados a exercícios, autocuidados e práticas terapêuticas. A resposta nada surpreendente certamente seria algo próximo de zero.

O neoliberalismo não é apenas um modelo econômico. É também e, principalmente, lavagem cerebral.

Leia também: O neoliberalismo como subjetivação capitalista

13 de junho de 2024

Europa: preparando o terreno para o fascismo

O resultado das eleições para o Parlamento Europeu foi divulgado com alarde pela imprensa. Forças fascistas e ultraconservadoras de França, Alemanha e Itália conquistaram muitas cadeiras, sinalizando um avanço ainda maior da extrema direita no continente, diz a grande mídia.

Mas isso é só parte da verdade. O artigo de Antônio Martins publciado no portal Outras Palavras começa a explicar a situação por seu título “Europa: o Partido da Guerra perdeu”. O autor refere-se principalmente às forças partidárias do presidente da França, Emmanuel Macron, e do chanceler da Alemanha, Olaf Scholz. Com as votações pífias em seus respectivos partidos, os dois chefes de governo foram desmoralizados. Ambos apoiaram com entusiasmo a guerra promovida pelos Estados Unidos contra a Rússia, através da Ucrânia. A verdade é que tanto franceses como alemães sentiram as consequências desse apoio devido aos problemas econômicos causados pelo rompimento comercial com a Rússia e aos cortes nos programas sociais para aumentar gastos militares.

Enquanto a guerra continua matando e destruindo, sem uma derrota da Rússia no horizonte, milhões de europeus desacreditam de seus governos e procuram alternativas. Infelizmente, praticamente toda a esquerda alemã e francesa é favorável à guerra. Resultado: a revolta e o ressentimento popular foram facilmente capitalizados pelas forças ultraconservadoras, cujo autoritarismo, racismo, xenofobia e selvageria social perderam importância diante das denúncias contra a guerra.

Como diz Martins, governos ditos democráticos que se subordinam aos interesses de minorias ricas e ao imperialismo preparam o terreno para o fascismo. A situação no Brasil tem muitas diferenças, mas elas não são tantas que nos livrem de passar pelo mesmo.

Leia também: O avanço da extrema direita e a política das selfies

24 de maio de 2024

O que guerras e calamidades revelam sobre paz e normalidade

Uma das metáforas favoritas da grande mídia, governos e especialistas é a que compara a calamidade que atingiu o Rio Grande do Sul a uma guerra.
 
A imagem simbólica vem a calhar para lembrar a velha máxima de que uma das primeiras vítimas em uma guerra é a verdade. O que não faltam são mentiras e falsidades sobre a calamidade em terras gaúchas. As mais descaradas são obra das forças extremistas da direita. Mas também há distorções mais sutis, cometidas pela grande mídia em sua pesada disputa hegemônica.
 
Mas sejam guerras ou calamidades, é costume dizer que tais situações revelam o pior do ser humano. No caso das cidades gaúchas são saques organizados por milícias, batalhas entre quadrilhas, violência policial sob pretexto de defesa da ordem, distribuição de comida estragada, doações de coisas inúteis disfarçadas de caridade e outros exemplos desanimadores.
 
Tudo isso revelaria a verdadeira natureza humana: um oceano de egoísmo e falsidade cercando pequenas ilhas de solidariedade e boas intenções.
 
As noções mais básicas da sociologia, porém, recomendam que troquemos essa concepção genérica de “ser humano” pelo conceito menos vago de relações sociais. São nestas que imperam os valores do convívio social, não nos indivíduos que as compõem.
 
Eventos extremos não revelam a maldade e o egoísmo inerentes à espécie humana. Apenas acentuam as leis, regras, costumes, valores que regem certas sociedades em tempos de pretensa normalidade.

No caso de sociedades profundamente injustas como a nossa, nem mesmo os supostos momentos de paz e normalidade conseguem se distinguir de situações de guerras e catástrofes. É quando nenhuma metáfora dá conta da realidade.

Leia também: Solidariedade popular e valorização do capital

13 de maio de 2024

Dobrando a aposta neoliberal no fascismo

“Ricos devem ganhar mais com Lula 3, que não repetirá expansão da classe C”, diz matéria da Folha, de 14/04/2024.

“O Brasil não repetirá nos próximos anos a forte migração de membros da classe D/E para a C dos dois primeiros mandatos de Lula”, afirma o texto.

“Desta vez, será a classe A e em menor grau a B as maiores ganhadoras” devido aos juros elevados, baixo dinamismo da economia e espaço limitado no orçamento público para aumentar transferências de renda aos mais pobres.

Por “espaço limitado no orçamento público” entenda-se a “austeridade fiscal”, cujo verdadeiro objetivo nada tem a ver com o alardeado saneamento das contas públicas. Trata-se do pagamento da imoral e fraudulenta “dívida pública”, que redireciona imensos recursos públicos a uma minoria minúscula formada por grandes capitalistas daqui e do exterior.

Como diz a reportagem, na repartição do bolo das rendas públicas são “justamente os ganhos de capital dos mais ricos, empresários ou pessoas que têm dinheiro aplicado, que farão a diferença”. Dinheiro aplicado onde? Nos títulos da dívida pública.

O próprio texto revela toda a perversidade social por trás desse mecanismo: “em 2023 as despesas com juros da dívida pública somaram R$ 718,3 bilhões. Como comparação, o Bolsa Família destinou R$ 170 bilhões a 21,1 milhões de domicílios." Sem falar dos recursos negados a serviços públicos e programas sociais tão importantes como o SUS, educação, Reforma Agrária, políticas ambientais, defesa civil, habitação popular, transporte público.

Essas mesmas políticas neoliberais foram fundamentais para chocar os ovos de serpente bolsonarista. Dobram-se as apostas na calamidade social de que o fascismo se alimenta.

Leia também: Combatendo o bolsonarismo sem moderação

8 de maio de 2024

Solidariedade popular e valorização do capital

“Com experiência da pandemia, empresas agem rápido”, diz reportagem publicada no Globo, em 08/05/2024. Vejamos um trecho:

O desastre que atinge o Rio Grande do Sul gerou uma rápida resposta das empresas. Ancoradas na experiência que enfrentaram na pandemia de Covid-19, as empresas se mobilizaram para fazer chegar aos gaúchos doações de recursos, alimentos, kits de higiene, entre outros itens.

O Movimento União BR, organização especializada em criar hubs de emergência, já arrecadou mais de R$ 8 milhões de empresas e pessoas físicas, com mais de 200 mil itens entregues, entre refeições desidratadas (de fácil armazenamento), kits de higiene pessoal e filtros purificadores de água. Tudo em prol das vítimas das chuvas no Rio Grande do Sul.

A matéria cita parcerias de empresas com ONGs como a Central Única de Favelas e o Instituto da Criança. Petrobrás, Itaú, Ambev, Bradesco, Santander, Latam são algumas das corporações envolvidas.

Não há como acreditar na boa fé desses poderosos CNPJs do PIB nacional. E não se trata apenas de hipocrisia.

Tal como na pandemia, essas iniciativas certamente servirão para aperfeiçoar a logística de muitos desses gigantes capitalistas. A legítima e heroica ajuda da população, muito provavelmente, será usada para incrementar a agilidade e precisão das técnicas de embalagem, transporte e entregas. A solidariedade popular canalizada para o aperfeiçoamento do ciclo de valorização das mercadorias.

A implantação desses novos métodos e tecnologias, geralmente, pressupõe mais precarização da força de trabalho justificada pela emergência da situação, mas tornada definitiva, posteriormente.

O capitalismo ajuda a causar tragédias com as quais embolsa lucros graúdos. De quebra, veste a máscara hipócrita da responsabilidade social.

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A “virtude cidadã” que destroça direitos
Faça a sua parte (trouxa!)

6 de maio de 2024

O Primeiro de Maio em meio às vitórias do neoliberalismo

“Conceito de ‘trabalhador’ ficou no passado” diz o título de editorial do Globo, publicado em 05/05/2024. Segundo o texto, o “fracasso” da manifestação do Primeiro de Maio em São Paulo, que contou com a presença do presidente da república, “é sinal de que realidade econômica não é a que Lula e os sindicatos imaginam”.

O trabalhador enquanto conceito teria perdido sentido porque, atualmente, “um em cada quatro brasileiros trabalha como autônomo ou por conta própria”, sem patrão, muito menos vínculo sindical. Afinal, afirma o texto, “em dez anos, essa parcela da população cresceu de 20,8 milhões para 25,6 milhões”.

Apesar de admitir que “parte dessa tendência resulta da falta de opção de emprego, que leva muitos a fazer bicos para sobreviver”, o editorial prefere atribuir o fenômeno aos muitos “brasileiros que identificaram demandas de consumidores, viram oportunidades e abriram negócios”.

Aí cita um tal de Paul Donovan, segundo o qual “o 1º de Maio deveria celebrar o lucro, não o salário”, uma vez que a “renda dos produtores de conteúdo do TikTok aparece nos dados de lucros”. No lugar de assalariados, influencers. Ao invés de empresas e patrões, plataformas digitais.

Seria essa realidade que estaria sendo ignorada por Lula, conclui o jornalão. Pode até ser. O neoliberalismo realmente foi vitorioso ao promover a precarização e, principalmente, fragmentação entre os trabalhadores.

Mas ainda há grandes parcelas de trabalhadores nos setores formais e tradicionais da economia. Nesses casos, sua capacidade de mobilização foi neutralizada muito mais pelas diversas vitórias ideológicas do neoliberalismo, que conseguiu cooptar grande parte das lideranças sindicais e políticas. Muitas delas, nas fileiras da esquerda.
 
Leia também:  Neoliberalismo e extremismo de direita

18 de março de 2024

Neoliberalismo e extremismo de direita

Fundamentalismo religioso, guerra híbrida, dissonância cognitiva, militarismo, anarcocapitalismo, caos informativo, neofascismo. Estas são apenas algumas das chaves explicativas presentes no debate sobre a onda ultraconservadora que vem varrendo o mundo. Mas que elemento ideológico poderia dar coerência a esse caos conceitual? Um bom palpite é: o neoliberalismo.

Segundo Gramsci, a ideologia dominante reúne os elementos díspares e contraditórios que estão espalhados pelo senso comum para combiná-los de forma a justificar a ordem social. O resultado é uma massaroca que mistura religião, filosofia, valores tradicionais e modernos, crenças e preconceitos etc.

Ora, o neoliberalismo vem cumprindo perfeitamente essa função. Longe de ser apenas um modelo econômico, é uma racionalidade que penetrou toda a sociedade. Manifesta-se, por exemplo, na teologia que concebe a fé como instrumento de sucesso pessoal, no empreendedorismo como forma de ascensão social nas periferias e na organização racional da criminalidade promovida pelo PCC. Está na empresa e no sindicato. Nos governos, partidos, igrejas, mídias, universidades, ONGs. Ela impõe a mercantilização e financeirização da vida e um individualismo mergulhado na concorrência selvagem. Contaminou todas as esferas sociais, incluindo amplos setores da esquerda.

São muitas décadas de hegemonia neoliberal na Europa e Estados Unidos. Nos países dependentes, esse processo começou atrasado, mas foi sincronizado pela crise de 2008. Uma crise que o neoliberalismo criou e para a qual apresentou como solução a generalização do extremismo de direita a que estamos assistindo nos últimos anos.

Combater o neoliberalismo de forma abstrata não é suficiente para nos tirar dessa enorme encrenca. Mas se continuarmos a ignorá-lo vamos afundar ainda mais na barbárie.

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5 de fevereiro de 2024

“O Corte”: eliminando a concorrência, literalmente

O filme “O Corte”, de 2005, poderia servir como uma espécie de metáfora dos tempos neoliberais.

Trata-se de uma obra do cineasta grego Costa-Gavras. Tem como protagonista Bruno Davert, que se vê demitido após 15 anos trabalhando como engenheiro de produção. Provavelmente, foi descartado graças às técnicas que ele mesmo ajudou a implantar visando eliminar custos com força de trabalho para seus patrões.

No início das férias forçadas, Davert acredita que logo encontrará seu lugar no mercado de trabalho. Mas após dois anos de desemprego, começa a entrar em depressão e a ter problemas com a família. Resolve reagir. Ao disputar pela enésima vez uma vaga em sua especialidade, elabora um plano mirabolante. Abre uma empresa de fachada para recrutamento de profissionais para o posto que ele pretende ocupar. Desse modo, atrai seus concorrentes e os submete a uma avaliação técnica. Em seguida, começa a matar aqueles que apresentavam qualificação suficiente para desbancá-lo na competição.

Apesar do caráter macabro dos métodos do protagonista, a produção é uma comédia irônica. Afinal, se o neoliberalismo ensina que a concorrência selvagem é um dado natural da sociedade, por que os indivíduos não deveriam lançar mão de todos os meios possíveis para alcançar seus objetivos?

Não cabe revelar o desfecho do filme, não porque isso teria um efeito estraga-prazer. Mas porque não há spoiler possível quando o final é óbvio. Desde bem antes de 2005, passando pela crise iniciada em 2008, já sabemos muito bem como tudo isso vai acabar se continuar prevalecendo a racionalidade capitalista em sua fase neoliberal.

Leia também: Contra o neoliberalismo, outra razão do mundo

21 de dezembro de 2023

Sobrevivencialismo e bunkerização

O mais recente sucesso da Netflix é “O Mundo Depois de Nós”. Um dos personagens do filme é um “sobrevivencialista”. Ou seja, alguém preparado para sobreviver a catástrofes extremas, o que inclui transformar sua casa em um bunker. Ele é de classe média remediada, mas seus medos são compartilhados com gente com muito mais dinheiro.

É o caso dos multibilionários que há alguns anos se preparam para uma hecatombe decorrente de mudanças climáticas ou guerras generalizadas. É o caso de Mark Zuckerberg, que está construindo um abrigo subterrâneo com fontes de energia próprias, no Havaí.

Mas esse fenômeno não é tão restrito. Na verdade, a “bunkerização” se espalha pela sociedade. O que muda é sua forma e eficácia. Pode ser um enorme porão com alimentos, rádio por satélite e forças armadas particulares. Mas também um condomínio cercado tanto de muros e vigilantes, como de muita pobreza e injustiça. O que torna sua segurança bastante vulnerável, inclusive frente à ação de milícias.

O empreendedorismo popular é outro desses castelos de areia, cuja proteção contra tormentas econômicas é quase nula. Planos de saúde e de previdência complementar iludem com garantias que podem desaparecer graças a qualquer instabilidade empregatícia ou remuneratória.

Tudo isso é produto de décadas de neoliberalismo. Aqui e no mundo, foram sendo abandonadas diversas formas de resistência e proteção coletivas, muito mais eficazes para a defesa não apenas da subsistência, mas da dignidade. Não há sobrevivencialismo que dê jeito. Não é o mundo depois de nós, mas um mundo infernal que uma minoria minúscula e cada vez mais covarde e irresponsável está querendo nos deixar.

Leia também: O medo egoísta de bilionários diante do apocalipse

30 de setembro de 2023

Big thecs e a Mentalidade do capitalismo extremo

Abaixo, mais trechos do livro “A sobrevivência dos mais ricos”, de Douglas Rushkoff. Neles, o autor descreve o que chamou de “A Mentalidade”, fenômeno que tomou conta do Vale do Silício no início do atual século.

Em vez de continuar apenas fornecendo resultados de pesquisa a seus usuários, a Google entrou no negócio ainda mais lucrativo de fornecer dados dos usuários a seus verdadeiros clientes: os especialistas em mercado que procuram abordar os usuários e manipular seu comportamento.

Da mesma forma, Mark Zuckerberg mudou sua atividade da veiculação de anúncios para a venda de dados. Quanto mais tempo e mais emocionalmente ficamos envolvidos com a plataforma, mais o Facebook aprende sobre nós para enriquecer seus investidores às nossas custas.

Nessa nova versão do capitalismo extremo, a tecnologia digital é valorizada pela sua capacidade de expandir os negócios sem necessidade de contratar muita gente. Fórmula quase exclusiva para proporcionar maiores lucros e vender a imagem de empresa inovadora, turbinando o preço das ações.

Como explicou Scott Galloway, professor de administração da Universidade de Nova York, “decidimos que capitalismo significa ser amoroso e empático com as corporações e darwinista e severo com os indivíduos”. O governo socorreu prontamente bancos e empresas na recessão de 2008 e a crise da Covid aumentou a riqueza dos bilionários de 8,9 para 10,2 bilhões de dólares apenas no primeiro ano.

A Mentalidade incentiva uma forma de “vitória” que eleve seus vencedores humanos e empresariais acima daqueles que serão necessariamente deixados para trás. Deixados para trás literalmente, já que a ideia deles é abandonar o planeta que vêm ajudando a destruir.

Doses suspensas até meados de outubro.

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28 de setembro de 2023

Da contracultura psicodélica às big techs neoliberais

Em seu livro “A sobrevivência dos mais ricos”, Douglas Rushkoff relata sua experiência como parte da geração que participou da onda tecnológica surgida no Vale do Silício.

No começo da década de 1990, diz ele, os mundos da contracultura e da informática pareciam idênticos. Os membros da comunidade psicodélica da Califórnia eram particularmente adequados para imaginar ambientes virtuais e novos modos de comunicação.

Recrutando sua força de trabalho em ambientes de rebeldia cultural, a revolução cibernética seria caracterizada menos pela burocracia militar do pós-guerra, ou pelas corporações de alta tecnologia, do que pelos “novos comunalistas”.

Se a internete tinha um inimigo, diziam os filhos da geração hippie, não seriam as empresas que ofereciam brinquedos para nossa diversão e ainda pagavam pelo nosso tempo. Era o governo, que usava computadores para jogos de guerra, prendia jovens hackers sob falsas acusações e tentava censurar nossa comunicação online.

A “Declaração de Independência do Ciberespaço” publicada por John Barlow, em 1996, atacava o autoritarismo governamental sobre a internete, considerada um novo “projeto coletivo da humanidade”. Mas poucos se lembram do lugar em que o documento foi lançado: “Davos, Suíça”. Em pleno Fórum Econômico Mundial, ponto de encontro dos campeões da globalização neoliberal.

Não percebíamos, conclui o autor, que banir o governo da internete criaria uma zona livre para a colonização corporativa. Foi aí que começaram a surgir monstrengos empresariais como Google, Facebook, Uber e Airbnb.

Novamente, um movimento surgido com pretensões rebeldes foi capturado pela lógica do capital. Contra isso não há garantias, a não ser a constante vigilância e mobilização militantes.

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