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26 de janeiro de 2021

A vergonhosa moderação póstuma imposta a Engels

Uma das maiores polêmicas envolvendo os escritos de Engels diz respeito ao que ficou conhecido como seu “testamento”. Na verdade, trata-se da introdução que ele escreveu, em 1895, ano de sua morte, para o livro “As Lutas de Classes na França”, de Marx.

Em um trecho sobre o aspecto militar das insurreições populares, Engels afirma:

Em 1848 havia a espingarda de percussão; hoje existe a espingarda de repetição de reduzido calibre que alcança quatro vezes mais longe, é dez vezes mais precisa e dez vezes mais rápida do que aquela. Antes havia os projéteis esféricos maciços e as balas de artilharia de efeito relativamente fraco; hoje espoletas de percussão das quais uma basta para fazer voar em pedaços a melhor das barricadas. Antes havia a picareta dos sapadores para deitar abaixo as paredes; hoje os cartuchos de dinamite.

“Do lado dos insurretos pioraram todas as condições”, dizia Engels. Pronto. Foi o suficiente para que essas afirmações fossem utilizadas para justificar a necessidade de substituir os métodos de luta mais radicais por batalhas parlamentares.

Tudo começou quando Richard Fischer, líder do partido alemão e responsável pelas publicações do partido, pediu a Engels para atenuar o tom do texto. A preocupação de Fischer era com as recentes leis de repressão impostas por Bismarck. Engels concordou.

Mas a versão finalmente publicada sofreu outros cortes feitos à revelia do autor. Mutilada desse modo, a introdução tornou-se uma defesa da “legalidade a qualquer preço”, como escreveu Engels, muito descontente, em carta ao editor.

Na próxima pílula, veremos como terminou essa novela. Se é que terminou.

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25 de janeiro de 2021

Engels: de mulherengo a feminista

O bicentenário de nascimento de Engels ficou para trás. Mas a estatura do grande parceiro de Marx continua a merecer celebração.

Voltamos ao livro “Comunista de Casaca”, de Tristram Hunt, para mostrar a contribuição do biografado para a luta feminista. Nas palavras do autor, de “maneira um tanto inesperada, o mulherengo Engels acabou sendo o responsável pelo texto de fundação do feminismo socialista”.

Trata-se do livro “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, publicado em 1884. Nele, Engels afirma, por exemplo que:

De acordo com a concepção materialista, o fator determinante na história é, em última instância, a produção e reprodução da vida imediata.

Ou seja, diz o biógrafo, Engels colocou a produção feminina da vida humana no mesmo plano teórico que o da produção dos meios de existência. Seu próximo movimento foi “historicizar a forma familiar, mostrando sua natureza fluida ao longo das épocas anteriores e apontar para sua futura encarnação sob o governo comunista”. Assim como o proletariado precisava entender que o capitalismo era um estado transitório, afirma Hunt, as mulheres podiam alimentar a esperança de que as atuais desigualdades de gênero seriam um interlúdio passageiro.

“O primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre homem e mulher na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino", declarou Engels.

Os escritos de Engels sobre a família, conclui Hunt, foram uma contribuição significativa para toda uma geração de feministas marxistas, com sua influência adentrando o século vinte.

Parece que, aos 64 anos, Engels, o mulherengo, tomou algum juízo.

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16 de dezembro de 2020

Engels contra o reformismo

Nas eleições de outubro de 1881, os socialistas alemães obtiveram 312 mil votos, conquistando doze cadeiras no parlamento, relata Tristram Hunt no livro “Comunista de Casaca”. 

Na ocasião, Engels escreveu: “Após três anos de perseguição sem precedentes, durante os quais qualquer forma de manifestação pública e propaganda era uma absoluta impossibilidade, nossos rapazes voltaram, não apenas com toda a força, mas mais fortes do que nunca”.

Mas esse avanço também tinha seus riscos, achava Engels. O sucesso eleitoral levou a que o poder político se deslocasse das bases militantes para as lideranças parlamentares, muitas delas de classe média e perigosamente suscetíveis a ideias reformistas.

Engels, que sempre alegou que "as massas alemãs eram muito melhores que seus líderes", examinava a atuação da bancada parlamentar em busca de sinais de oportunismo. Muitas vezes, direto de sua casa, partiam instruções sobre como votar ou que posição política assumir em qualquer controvérsia.

Sendo um assíduo frequentador dos círculos burgueses e conhecedor de seu poder de sedução, Engels mantinha-se inflexível quanto a um princípio fundamental para a luta dos socialistas: “A emancipação da classe trabalhadora deve ser obra da própria classe trabalhadora.”

Desse modo, ele e Marx colocaram-se firmemente na defesa do que decidira um congresso clandestino do partido, realizado em 1880, na Suíça. Nele foram rechaçadas quaisquer ilusões reformistas na ocupação do parlamento e reafirmada a luta revolucionária "pela utilização de todos os meios possíveis".

Infelizmente, sucessivas vitórias eleitorais nas décadas seguintes acabaram por distanciar o partido alemão do caminho que Marx e Engels defendiam. Um fenômeno que se repetiria com muitos outros partidos de esquerda.

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15 de dezembro de 2020

A vida de Engels como médico e como monstro

Segundo conta Tristram Hunt, em seu livro “Comunista de Casaca”, Engels levou por muitos anos uma vida dupla.

De dia, era o respeitável Dr. Jekyll, magnata do algodão. À noite, o temível Sr. Hyde, socialista revolucionário. Sem falar na relação conjugal secreta com a operária Mary Burns, que jamais seria aceita pela família dele.

Equilibrar toda essa duplicidade era exaustivo. Mas Engels também tinha suas válvulas de escape. Uma delas era a caça à raposa. Prática favorita da aristocracia de Manchester a que Engels se dedicava com paixão.
 
Ele tentava justificar seu hobby em bases revolucionárias, dizendo que se tratava da “melhor escola de todas" para a guerra. Chegou a dizer que a cavalaria britânica devia sua rapidez e habilidade às frequentes perseguições ao pobre canídeo. Mas o que claramente agradava Engels era a emoção da perseguição: "Esse tipo de coisa sempre me mantém em um estado de excitação diabólica por vários dias. É o maior prazer físico que conheço”, escreveu ele.

Além da caçada, a agenda de Engels vivia lotada de palestras, jantares e concertos. Eventos a que devia comparecer para disfarçar sua condição de financiador de atividades revolucionárias e inúmeros militantes comunistas.

Mas uma queixa frequente de Engels era o provincianismo de Manchester. “Nos últimos seis meses, não tive a oportunidade de usar meu famoso dom para preparar salada de lagosta", escreveu, lamentando-se a Marx.

Assim mesmo, entre sua vida conjugal secreta, a administração da empresa familiar, banquetes, bebedeiras e caças à raposa, Engels ainda conseguiu dar algumas contribuições fundamentais para a luta revolucionária. Entre elas, a fundação do "materialismo histórico", junto com Marx.

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14 de dezembro de 2020

A aliança involuntária entre Engels pai e Mary Burns

Em 1843, o pai de Engels o enviou para trabalhar na empresa da família, em Manchester, Inglaterra. O objetivo era mantê-lo distante das agitações plebeias em que vivia se metendo.

Mas não foi uma boa ideia mandar Engels para um dos maiores centros capitalistas do mundo. Principalmente, porque chegando lá ele se apaixonaria pela operária irlandesa Mary Burns.

Como diz Tristram Hunt, em “Comunista de Casaca”, foi ela que o guiou pelo mundo subterrâneo do operariado de Manchester. Não fosse por Mary, um burguês como Engels jamais teria conhecido o cotidiano dos operários nem frequentaria seus espaços de convivência.

Com pouca educação formal, mas muito inteligente, corajosa e socialista convicta, Mary convivia com a família Marx e participava dos debates políticos nos círculos de esquerda da época.

Viveram juntos por vinte anos, até a morte dela. Jamais se casaram por ser oporem à instituição matrimonial. Além disso, a relação permaneceu clandestina porque a família de Engels jamais aceitaria.

Durou mais de 20 anos o calvário de Engels no papel de capitalista. Mas foi fundamental para ajudar financeiramente a família Marx e muitos militantes e organizações comunistas.

Além disso, a experiência permitiu-lhe escrever “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, obra brilhante e pioneira sobre a questão urbana. Antes disso, Engels já havia publicado o artigo “Esboço de uma crítica da economia política”, que despertou a atenção de Marx para a importância da dimensão econômica na luta contra as injustiças sociais.

Involuntariamente, o pai de Engels auxiliou a nora que ele jamais conheceu a contribuir para a criação de uma das mais poderosas tradições revolucionárias da história.

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