quarta-feira, 3 de maio de 2017

Populus, o cão de Belchior

Era 1977. Belchior lançava o LP “Coração Selvagem”. A ditadura já havia matado o jornalista Vladimir Herzog e ainda mataria o operário Santo Dias. Entre as músicas do álbum, uma que falava de um cão. O cantor cearense chamava o bicho de “Populus”.  

Populus, meu cão...
O escravo, indiferente, que trabalha

Naquela época, se dizia que era preciso fazer crescer o bolo econômico primeiro, para só depois reparti-lo. Mas de certo mesmo, Populus:

...por presente, tem migalhas sobre o chão.

E não apenas ele:

Primeiro, foi seu pai,
segundo, seu irmão;
terceiro, agora, é ele... agora é ele,
de geração, em geração, em geração.

“No congresso do medo internacional”, diz a canção, referindo-se a um poema de Carlos Drummond, ouve-se “o segredo do enredo final sobre Populus, meu cão”. Em “documento oficial” e em “testamento especial”, “a morte, sem razão”. De Populus, o cão.

Um desfecho que, em meio a “delírios sanguíneos” e “espumas nos teus lábios”, parece mesmo muito “em vão”.

Populus, está “roto no esgoto do porão”. Lá onde governo e capital jogavam os que ousavam desafiá-los. E destes restavam apenas “seu olhar de quase gente” e “as fileiras dos seus dentes”.

A música agoniza em direção a um pedido de ajuda final, em sílabas alongadas: “SOS é só, SOS é só”.

Populus quer dizer “povo” em latim. O que torna tudo ainda mais compreensível. E atual.

Mas como diz aquele poema de Drummond citado por Belchior: “Provisoriamente não cantaremos o amor”. Ele está refugiado “mais abaixo dos subterrâneos”.

Leia também: Em Mariana, poesia que dói

2 comentários:

  1. A música do Belchior está sempre atualizadíssima, atemporal que é, o que muda são só os governantes, mas a patifaria é a mesma de sempre.

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  2. Verdade. Populus continua a sofrer.
    Abraço

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