quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Estragos do imperialismo jr. brasileiro

Há quem diga que um de nossos maiores problemas é o neocolonialismo. Pode ser, mas não no pólo passivo. Os capitais com sede no Brasil continuam a fazer estragos contra vários povos no mundo. Vejamos o que diz reportagem de Adelson Rafael, publicada no jornal moçambicano O País, em 23/08:
O neocolonialismo brasileiro em Moçambique certamente não contribuirá com o desenvolvimento socialmente justo deste país. Se, por um lado, o Brasil pode oferecer conhecimento técnico para o cultivo de sementes na savana africana, por outro o país tem a oferecer um modelo insustentável de agronegócio, baseado na monocultura, na degradação ambiental e na concentração de terras nas mãos de poucos.
O jornalista refere-se às técnicas de plantio utilizadas no cerrado brasileiro. Sobre o assunto, cita José Pacheco, ministro da Agricultura moçambicano. Elogiando os agricultores brasileiros, ele diz que pretende “repetir em Moçambique o que fizeram no cerrado há 30 anos”.

E o que é que os agricultores brasileiros vêm fazendo há 30 anos? Destruindo o cerrado, através das atividades do agronegócio. Principalmente, com plantio de soja e criação de gado.

Ainda segundo o jornal:
Moçambique é um dos 49 países mais empobrecidos do mundo, com 70% da população abaixo da linha da pobreza, e onde os agricultores têm grande dificuldade em aceder a crédito para a produção de comida.
Enquanto isso, o movimento indígena da Bolívia protestava contra a visita de Lula ao país. O ex-presidente participou de um fórum patrocinado pela OAS, no dia 30/08. A construtora é responsável por uma estrada que cortará um parque nacional no norte da Bolívia. São 306 km, ao custo de US$ 322 milhões, financiados pelo BNDES. A rodovia atravessará um milhão de hectares em um território indígena onde vivem três etnias.

São as façanhas do imperialismo jr. brasileiro.

Leia também: Lula, savana, cerrado e moto-serra

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Dilma, cada vez mais à direita

A grande mídia gosta de Dilma. É o que mostra a capa da revista Veja de 31/08. Ela traz a foto de José Dirceu. Entre outras acusações, diz que o ex-ministro petista “conspira contra o governo da presidente Dilma”.

São abundantes as denúncias de corrupção no alto escalão do governo petista. No entanto, quase todos os grandes jornais poupam a presidenta. Culpam uma “herança maldita” deixada por Lula. O objetivo parece óbvio. Dilma tem poucas condições de tentar a reeleição. Não oferece perigo.

Já Lula, convive com a ingratidão da alta burguesia. São poucos os banqueiros e empresários que reconhecem os bons serviços que o ex-sindicalista lhes prestou. Não o querem de volta à presidência. Assim, a mídia denuncia a corrupção e poupa Dilma para bater em Lula.

É verdade que a nova quadrilha que tomou de assalto o Planalto faz parte de um esquema montado por Lula. Mas, sem ele, dificilmente Dilma seria eleita. O fato é que não há descontinuidade entre Lula e Dilma. Ambos acomodados nos esquemas impostos pelos poderosos.

A mais recente medida tomada pelo governo petista prova isso. O aumento do superávit primário corresponde ao que vem sendo feito desde que Lula assumiu. Superávit é o dinheiro usado para pagar os juros da dívida pública. Este ano, serão 91 bilhões de reais à disposição de grandes investidores.

Ou seja, continua o respeito absoluto ao dinheiro que vai para o grande capital. Permanece o desprezo pelas bandeiras históricas dos trabalhadores. Entre elas, reforma agrária, recuperação dos serviços públicos e suspensão do pagamento da dívida pública.

Leia também Crise: Dilma sabe o que fazer

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sejamos egoístas, salvemos a natureza

Existem cerca de 8,7 milhões de espécies no planeta. É o que diz reportagem de Alicia Rivera, publicada no jornal El País, em 24/08. A conclusão é de um estudo feito por uma equipe internacional de cientistas liderados por Camilo Mora, da Universidade Dalhousie, do Canadá.

A margem de erro é alta: 1,3 milhão para mais ou para menos. Mas, é melhor do que a estimativa anterior, que ficava entre três milhões e 100 milhões. Isso não quer dizer que as espécies estejam todas catalogadas.

Atualmente, somente cerca de 1,4 milhão de espécies estão registradas. E destas, menos de 60 mil fazem parte da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Este levantamento acompanha as espécies sob risco de extinção.

São números que poderiam nos aliviar. Afinal, menos de 1% de todas as possíveis espécies existentes estariam ameaçadas. Não seriamos tão destruidores assim. Nada disso. Não se trata apenas de respeito à biodiversidade.

O fato é que a extinção de outras espécies não é um problema só delas. Quando elas desaparecem, a natureza se rearranja. Tais rearranjos podem implicar graves desequilíbrios para nossa vida. Vão desde o surgimento de novas epidemias ao esgotamento de recursos energéticos. Do aumento de desastres naturais ao aquecimento global.

Ou seja, nossa espécie tem motivos bastante egoístas para proteger as outras formas de vida. O problema é o modo como nos organizamos socialmente. Ele é baseado no egoísmo de classe. O bem-estar da minoria exploradora compromete o futuro de toda a raça humana.

Leia também: Superpopulação e ocupação burra

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Sou medieval, mas quem não é?

Volto a lhes escrever, irmãos do século 16. Como já disse, são muitas as maravilhas tecnológicas do século 21. Quase tudo pode ser feito através de modernos mecanismos. Há uma infinidade de tarefas feitas por máquinas rápidas e poderosas. Causa muito menos fadiga o ato de trabalhar.

Mas, há algo que muito me incomoda. Eles costumam nos chamar de medievais. Pertencemos à “Idade Média”, nome que dão para nosso período histórico. O problema é que nossa época tornou-se sinônimo de brutalidade, ignorância, fanatismo, atraso.

Costumam justificar essa idéia citando as fogueiras da Inquisição, as relações de servidão, os privilégios da nobreza, as câmaras de torturas, as mulheres caçadas como bruxas. Não posso negar que são horríveis estas características de nosso tempo. No entanto, os habitantes do século 21 deveriam olhar para si mesmos mais criticamente.

Já não há fogueiras para os infiéis. Ainda assim, a intolerância religiosa serve de pretexto para guerras em que morrem milhares de inocentes. Não há mais caça a bruxas, mas as mulheres continuam a ser tratadas como inferiores. A tortura saiu das masmorras para se instalar em postos policiais e quartéis.

Agora, só trabalha quem quiser. Mas, a alternativa é morrer de fome. Todos são iguais perante a lei. Tal igualdade desaparece diante das dificuldades econômicas e sociais sofridas pela maioria pobre. Há poucos nobres, mas poderosos exploradores. A antiga intolerância ganhou novas formas e nomes como racismo, homofobia, xenofobia.

Assim, me parece que toda a modernidade atual não beneficia a todos. Continuamos a conviver com injustiça, desigualdade, exploração e intolerância. Diante disso tudo, sou medieval sim, mas quem não é?

Leia também:
Velhas intolerâncias atuais
O amor como epidemia

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Velhas intolerâncias atuais

A palavra “actual” em inglês quer dizer “real”. Deve ter um fundo filosófico aí. Há correntes filosóficas que dizem que o real não é, está sendo. O fruto é o estado atual da semente, depois de ser folha e flor.

Vivemos os tempos das inovações tecnológicas. Até o século 19, elas apareciam com longos intervalos. Desde então, vêm se acelerando. Atualmente, ocorrem quase anualmente. Quem as ignora ou é por elas ignorado, vai sendo marginalizado. O novo é tudo. O velho, nada. Incluindo os idosos.

Mas há coisas atuais, que são velhas e podres. O racismo é novo. Surgiu no século 19 para justificar a escravidão. Primeiro, tomou como vítimas os negros. Depois, atualizou-se perseguindo judeus, ciganos, asiáticos, árabes.

Já o machismo, vem se atualizando na história humana há milênios. É elemento importante no apoio aos mais variados tipos de dominação. Uma de suas mutações é a homofobia. O ódio ao estrangeiro e a perseguição religiosa também são antigos contemporâneos nossos.

A força renovadora de toda essa intolerância é o capitalismo. Nada mais atual do que usar facebook e twiter para espalhar preconceitos. Ou fazer o mesmo através de banda larga, imagens de alta definição e fibras óticas.

Moderno mesmo é atualizar as lutas dos escravos romanos e dos negros escravizados. A secular resistência de mulheres e homossexuais. Tornar contemporâneos as guerras camponesas, a Revolução Francesa, a Comuna, Palmares, os sovietes revolucionários, o Maio de 68.

Leia também: A Noruega e o terrorismo loiro

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Sua família dá lucro?

O marxismo é acusado de reduzir tudo a determinações econômicas. Muitas de suas formulações mais grosseiras até dão razão a essas acusações. Mas, é porque também se renderam à lógica social dominante. Em que tudo é tratado como fenômeno quantitativo, sujeito a lucros ou perdas.

A ideologia que dá maior peso a essa visão é o neoliberalismo. O mesmo que se declara inimigo mortal do marxismo.

Um dos mais respeitados ideólogos neoliberais é o americano Gary Becker. Recebeu o Prêmio Nobel de Economia, em 1992. Para ter uma idéia da estupidez de suas idéias, segue um trecho de seu livro “An Economic Approach to Human Behavior”, de 1976:
As funções produtivas domésticas mostram paralelos entre empresas e famílias, como unidades organizacionais. Similar à empresa típica, analisada nas teorias da produção, a família investe em bens de capital (poupança), equipamentos (bens duráveis) e capital incorporado a sua força de trabalho (o capital humano de seus membros). Como uma entidade organizacional, a família, como a empresa, se engaja na produção, utilizando o trabalho e o capital. Cada um maximiza suas funções para o alcance de objetivos sujeitos a restrições tecnológicas e de recursos. O modelo de produção não só enfatiza que a família é a unidade básica de análise adequada à teoria do consumo, mas também traz à tona a interdependência das diversas decisões domésticas: decisões sobre o suprimento de trabalho, tempo e gastos em bens em um determinado período de análise, assim como decisões sobre casamento, tamanho da família, incorporação de força de trabalho, e gastos com bens, bem como investimentos em capital humano considerando-se um ciclo de vida.
É este tipo de lógica que vem colonizando as mentes humanas nas últimas décadas. É preciso reduzir tudo a cifras. Daí porque políticas públicas sociais e valores como a solidariedade sejam vistos como despesas inúteis.

É o império do valor de troca que Marx tanto denunciava e combatia ferozmente.

Leia também: Família cruel

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Faça a sua parte (trouxa!)

A frase acima se tornou parte do senso comum. Alguns a utilizam com as melhores intenções. Mas, há quem a diga pensando no complemento “trouxa” no final. Neste último caso, estão a grande mídia, governos e as empresas cheias de “responsabilidade social”.

Faça sua parte. Use sacolas retornáveis. Jogue o lixo no lixo. Economize luz, água, gás. Não polua o ar com seu churrasco de laje. Não seja consumista.

As indústrias de Eike Batista emporcalham o ar e a água de regiões inteiras do país. Marcas de grife utilizam mão de obra escrava. Os governos europeus e americano bancaram o prejuízo que os banqueiros tiveram em 2008.

A Copa e as Olimpíadas serão a grande festa das empreiteiras no Brasil. Enquanto isso, populações pobres são expulsas para a construção de arenas esportivas. E não nos esqueçamos das centenas de lutadores sociais mortos anualmente sem que praticamente ninguém tenha sido punido.

Ou seja, quando eles fazem a parte deles, destroem a nossa. Passam por cima de tudo o que não sirva a seus interesses.

O chamado senso comum é assim. Tem elementos verdadeiros e corretos, mas eles precisam ser contextualizados. Devemos arrancá-los de seu uso sujo pelos poderosos. Faz parte da chamada disputa de hegemonia.

Claro que cada um deve fazer sua parte. Num time, numa greve, no local de trabalho, na família e na vizinhança, na escola, entre amigos. Só que há interesses opostos na sociedade.

A parte que cabe a cada um de nós precisa integrar a luta coletiva dos explorados e ofendidos.

Leia também: Estranha delicadeza japonesa

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Consumo chinês ameaça economia brasileira

A China é a maior parceira comercial do Brasil desde 2009. Principalmente, em relação a commodities como ferro, petróleo e soja. Nos 12 meses até junho, o Brasil teve déficit em conta corrente de US$ 49 bilhões, ou 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Sem as compras chinesas, este prejuízo chegaria a US$ 89 bilhões, ou 4% do PIB.

Se o consumo chinês cair, ruim pra nós. Se subir, melhor, certo? Não necessariamente. Depende do tipo de consumo. É o que se deduz de entrevista de Cláudia Trevisan com o americano Michael Pettis publicada em O Estado de S. Paulo, em 22/08. O professor da Universidade de Pequim acredita que crescimento anual da economia chinesa pode cair dos atuais 9% para 3%, em 2013.

Se ele estiver certo, a locomotiva da economia mundial estaria a caminho de uma freada forte. Um desastre mundial. Mas se estiver errado, ainda seria ruim para o Brasil. Pettis diz que mesmo que o crescimento não caia tanto:
... o ritmo do investimento vai ter de diminuir de maneira significativa e ser substituído pela expansão no consumo, no processo de reequilíbrio da economia. Se houver a substituição do investimento pelo consumo, isso terá grande impacto sobre o Brasil. Quando os chineses consumirem, eles vão comprar roupas, ir a restaurantes, consumir serviços de saúde e construir menos metrôs e prédios. Eu acredito que a demanda total vai cair muito, mas, mesmo que ela permaneça a mesma, ela vai mudar de bens de investimentos para bens de consumo. Portanto, a demanda por commodities não alimentícias, como minério de ferro e cobre, vai cair de qualquer maneira.
Os trabalhadores têm todo direito de comprar roupas, ir a restaurantes e consumir serviços de saúde. É o que está sendo comemorado, no Brasil, em relação à chamada “classe C”. Também é o mínimo que esperam os trabalhadores de uma potência como a China.

Mas, os efeitos dessas conquistas podem ser terríveis para a economia brasileira. A fábrica do capitalismo não para de produzir desigualdades e contradições.

Leia também: Robôs não ficam desempregados

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Todo apoio à greve dos milionários

Jogadores da liga espanhola de futebol ameaçam entrar em greve, neste final de semana. São mais de 200 jogadores com salários atrasados. A quantia devida chegaria a 50 milhões de euros. Muitos desses atletas recebem milhões de euros por ano. Apesar disso, todo apoio a eles.

Muita gente acha “obscenos” os salários pagos a esses artistas da bola. Mas isso não acontece devido à generosidade exagerada de seus empregadores. Calcula-se que somente na Europa, o futebol movimente 10 bilhões de euros anuais. E os grandes responsáveis por isso são os jogadores.

O mesmo acontece em outros setores da indústria da diversão. Altos salários são pagos a pilotos de corrida, cantores, jornalistas e atores. Se ganham muito acima da média mundial, o fato é que sua atuação alavanca valores muito maiores.

Desse ponto de vista, estamos falando de trabalhadores explorados no sentido marxista do termo. Em seu livro “Teorias sobre a mais-valia”, Marx usa como exemplo o trabalho de uma cantora. Ao se apresentar em um cabaré, o talento dela está sendo explorado pelo proprietário do lugar.

Não é o caso de esperar que Cristiano Ronaldo ou Lady Gaga se tornem camaradas revolucionários. Eles e outros “tops” do mundo não têm motivos para isso. Sua situação mostra apenas como o atual sistema econômico é contraditório. E nos obriga a simpatizar com alguns famosos, quando esperneiam.

De resto, é apoiar também a greve dos operários do Maracanã. E lutar por uma sociedade com espaço para todo tipo de talento. Não somente para os que podem gerar enormes lucros.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Realismo socialista é chato

Durante muito tempo, a maioria dos comunistas só admitia um estilo artístico. Era o realismo socialista. As artes deveriam mostrar e falar sobre a classe operária e seus líderes infalíveis. Tudo muito claro e direto.

É até possível gostar de criações desse tipo. O problema maior foi tornar obrigatória sua adoção. Foi o que fez o Estado soviético sob direção de Stalin.

Felizmente, alguns marxistas não se renderam a essa concepção grosseira. É o caso de Adolfo Sánchez Vázquez, recentemente falecido. Em seu livro “As idéias estéticas de Marx” (1968), ele denuncia o realismo socialista.

Para Sánchez Vázquez, a arte realista não é aquela que tenta reproduzir fielmente a realidade. É aquela que
...partindo da existência de uma realidade objetiva, constrói com ela uma nova realidade que nos fornece verdades sobre a realidade do homem concreto que vive numa determinada sociedade.
Desse ponto de vista, pintura abstrata, música dissonante ou poesia concretista também podem ser realistas. Basta que consigam expressar a realidade de determinadas experiências humanas. Para ele, a realidade tem três níveis distintos:
... a realidade exterior, existente à margem do homem; a realidade nova ou humanizada que o homem faz emergir, transcendendo ou humanizando a anterior; e a realidade humana que transparece nesta realidade criada e na qual se dá certo conhecimento do homem.
O que ele chama de “falso realismo” tentaria se limitar ao primeiro nível. Algo que deixaria “de ser objeto específico do conhecimento artístico”. Ou seja, pode ser ciência, descrição objetiva, informação. Só não é arte. Por outro lado, Sánchez Vázquez afirma ser
... impossível estabelecer imediatamente um sinal de igualdade entre as correntes não realistas de nosso tempo e a ideologia reacionária (...) nem tampouco entre o realismo e a ideologia das classes progressistas e revolucionárias. Por outra parte, entre o realismo e a chamada arte de vanguarda não pode haver – nem há – uma absoluta incomunicabilidade. (...) Não se trata de inovações meramente formais, mas de modificações na forma impostas pelas modificações de conteúdo, ditadas pelas transformações da própria realidade humana.
Daí porque:
Maiakovski não existiria sem o futurismo; (...) Brecht sem o expressionismo; Neruda (...) sem o surrealismo. (...) o realismo não esgota a esfera da arte, conseqüentemente, não se pode excluir dela os fenômenos artísticos que estão efetivamente fora de uma arte realista.
Ou seja, restringir a arte ao que dita o realismo socialista achata a capacidade criativa da humanidade.

Leia também: Marx e as leis da beleza

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Inglaterra e Chile colhem tempestade

Vale a pena assistir ao “Entrevista Record Mundo”, exibido em 15/08. O programa abordou os protestos no Chile e na Inglaterra. Rodrigo Vianna entrevistou o cientista político e jornalista Igor Fuser e Plínio de Arruda Sampaio, que foi candidato à presidência da República pelo PSOL, em 2010.

Plínio mostrou-se animado com a reação popular na Inglaterra e no Chile. Disse que são resultado de 30 anos de neoliberalismo. E que o caminho é este mesmo. Tomar as ruas. Por outro lado, alertou para os perigos de que os conflitos sociais sejam usados pela direita. Lembrou a situação dos anos 1930. Na esteira da crise econômica de 1929, o fascismo soube usar a revolta popular para seus objetivos.

As manifestações e protestos de um lado e outro têm muitas diferenças. No Chile, são organizados e têm propostas claras. Na Inglaterra, parecem muito mais espontâneos e alimentados por uma revolta justa, mas ainda sem alvo definido. No entanto, Igor Fuser chamou a atenção para um fato em comum entre chilenos e ingleses.

Os dois povos foram os primeiros a sofrer a ação das medidas neoliberais. Margareth Thatcher de um lado, Pinochet, de outro. Uma democracia parlamentarista e uma ditadura sanguinária. Ambos os regimes igualmente colocados a serviço do grande capital e da especulação financeira.

Semearam os ventos com sua peste, estão colhendo a tempestade.

Veja o programa, clicando aqui

Leia também: Diplomados e conectados, uni-vos!

Superpopulação e ocupação burra

Quanto tempo nosso planeta nos agüenta? Somos demais para ele ou Aldo Rebelo tem razão? Quem superpovoa a terra são os bichos e as matas?

Matéria interessante de Antônio Gois ajuda a responder. Saiu na Folha de S. Paulo, em 14/08. Diz que, em outubro, a Terra chegará a 7 bilhões de habitantes. Os números assustam:
Em 1960, a população mundial era de 3 bilhões de pessoas. Em apenas 39 anos, dobrou, passando para 6 bilhões de habitantes em 1999. Foi um crescimento nunca antes visto. Em retrospecto, os intervalos em que a população dobrou ficaram cada vez mais curtos. Foram 70 anos entre 1890 e 1960; 150 anos de 1740 a 1890; cinco séculos de 1240 a 1740; e mais de um milênio entre o ano 40 e 1240.
Na verdade, os números absolutos enganam. “Agrupados ombro a ombro, os atuais 7 bilhões de habitantes do planeta caberiam na área da cidade de São Paulo”, diz Antonio.

O problema não é ocupar. É como ocupar. Temos um modo desastroso de utilizar os recursos naturais e distribuir seus produtos. Vejamos:
A ONU estima que quase um bilhão de pessoas ainda passem fome, mas o problema não está na incapacidade de produzir comida em escala global para alimentar a população. Mesmo considerando um período em que a população mais do que dobrou, de 1960 a 2009, a produção mundial de alimento per capita cresceu 41%.
Alimento sobrando de um lado. Fome, do outro. Só tem uma explicação. A produção de alimento não serve para alimentar. Serve para dar lucro. Se não for possível, que apodreça nos estoques.

É a mesma lógica que nos faz utilizar as mais sujas fontes de energia. Emporcalhamos o planeta porque é mais barato. De novo, o texto:
Um relatório do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas divulgado em fevereiro deste ano apresenta uma estimativa do custo anual dos investimentos para fazer uma transição da economia marrom -baseada em fontes energéticas não renováveis- para a verde: US$ 1,3 trilhão (R$ 2,1 trilhões) por ano, ou 2% do PIB mundial.
Muito dinheiro. Só que a indústria mundial de armas gasta cerca de US$ 1,6 trilhão (R$ 2,58 trilhões) anuais, diz o artigo.

Claro que o planeta ainda pode nos agüentar por muito tempo. Nós é que não nos agüentaremos.

Leia também:
A salsicha de Aldo Rebelo
Planeta mal humorado ou mal ocupado?

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Diplomados e conectados, uni-vos!

Os críticos do marxismo costumam enterrá-lo na mesma cova em que repousaria a classe trabalhadora. Ambos sempre voltam de suas tumbas. É que as contradições apontadas por Marx, Engels e seus seguidores não saíram de suas cabeças. São criação do próprio capitalismo. É o caso da recente onda de protestos no norte da África, Oriente Médio e Europa.

A imprensa diz que muitos dos manifestantes são desempregados com nível superior. Nas praças da Espanha, haveria até pós-graduados. O diploma não os impediu de serem excluídos do mercado de trabalho. Não evitou que fizessem parte dos que não têm mais nada a perder. Não os fez menos proletários.

Ao mesmo tempo, a razão principal da revolta chilena é o alto custo da educação. No país que é considerado o exemplo neoliberal da América Latina estudar é caro e para poucos. É o capitalismo traindo suas promessas de prosperidade e sucesso. E traição dói, todos sabemos.

Outra característica dos protestos é o uso de redes sociais e telefones celulares. Importantes ferramentas na organização das manifestações e de resistência à repressão. As autoridades tentam bloquear seu funcionamento. Mas, esbarram na própria importância dessas redes para o funcionamento dos negócios.

Nada disso torna desempregados de nível superior necessariamente revolucionários. Nem transforma facebook, twitter e blackberry em foices e martelos. Somente mostra que as contradições são cada vez mais agudas.

O capitalismo cria seus próprios coveiros, dizia o Manifesto Comunista. Precisamos de todos trabalhando nas pás. Inclusive, aqueles que usam anel de formatura e carregam um celular no bolso.

Leia também:
Revolução é fúria e consciência
Jovens: consumo, participação e revolta

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A mídia merece uns molotovs

“A globalização do protesto”. Este é o título de matéria de Carolina Rossetti publicada em O Estado de S. Paulo, em 14/08. Trata-se de entrevista feita com Saskia Sassen, socióloga americana. A introdução da jornalista dá um panorama coerente:
No mesmo dia em que a face pobre da Grã-Bretanha saiu dos guetos para dar a cara a tapa, 200 mil manifestantes cobriram as ruas de Tel-Aviv a fim de exigir aluguéis mais baixos e escolas gratuitas para seus filhos. "Isto é o Egito", cantaram os israelenses, ecoando a já emblemática Praça Tahrir, no Cairo. Na terça-feira, e pela segunda vez na semana, cerca de 100 mil estudantes chilenos foram bater panela nas calles de Santiago, dessa vez ao lado dos pais, para exigir reformas na educação.
Carolina também cita os manifestantes mortos nas ruas árabes e os 12 milhões de pessoas que sofrem de fome crônica no Chifre da África (Somália, Djibouti, Quênia, Uganda e Etiópia). E Saskia dá sua explicação para essa onda de protestos:
Ao longo de 30 anos houve perda de renda de metade da população mundial e tamanha concentração de riqueza no topo que simplesmente chegamos ao limite. É a explosão disso que estamos vendo em nossas cidades.
Mas, matérias como esta são exceções na mídia comercial. Principalmente, em relação aos protestos em Londres. Para a grande imprensa, a revolta num dos centros do imperialismo é imperdoável. Coisa de baderneiros, bandidos, “rebeldes sem causa”.

Felizmente, em alguns momentos, eles quebram a cara. Foi o caso da entrevista com o sociólogo Silvio Caccia Bava na Globo News, em 11/08. Silvio desmontou as tentativas dos jornalistas de criminalizar os manifestantes londrinos.

Momentos como este são raros numa imprensa a serviço dos interesses da minoria. É por isso que ações de ruas são cada vez mais necessárias. É preciso furar os bloqueios. Às vezes, com molotovs.

Leia também:
Para a mídia, só vale política suja e autorizada
Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP): sobre as revoltas em Londres

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A salsicha de Aldo Rebelo

Ainda no século 19, o primeiro-ministro alemão Otto Bismarck disse: “Leis são como salsichas. É melhor não ver como são feitas”.

Um dos legisladores da nação é o deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB). Ao lado dos ruralistas, quer mudar o Código Florestal. Alega que a lei dificulta a vida de quem quer produzir. Não passa de desculpa esfarrapada. Mas, não é tão obsceno como o que realmente pensa o parlamentar.

Alguém escancarou a fábrica de salsichas do deputado. O lugar fede a carne podre. Trechos do relatório em que Rebelo justifica as mudanças no Código Florestal foram parar na internete. Como exemplo, um trecho sobre a floresta amazônica:
O homem tem que lutar de maneira constante contra esta floresta que superocupou todo o solo descoberto e que oprime e asfixia toda a fauna terrestre, inclusive o homem, sob o peso opressor de suas sombras densas, das densas copas verdes de seus milhares de espécimes vegetais, do denso bafo de sua transpiração. Luta contra a água dos rios que transformam com violência, contra a água das chuvas intermináveis, contra o vapor d’água da atmosfera, que dá mofo e corrompe os víveres. Contra a água estagnada das lagoas, dos igapós e dos igarapés. Contra a correnteza. Contra a pororoca. Enfim, contra todos os exageros e desmandos da água fazendo e desfazendo a terra.
Nosso salsicheiro usa uma lógica digna de bandeirantes caçadores de índios. Borba Gato e Raposo Tavares ficariam felizes em assinar tal texto.

O pior é que uma figura dessas é confundida com comunistas e outras pessoas que defendem o socialismo.

Desculpem o mau cheiro!

Leia também:
Os peidos do capitalismo
Os indígenas que moram no tempo

Portugal legalizou drogas e acertou

No Rio e em São Paulo, vítimas do crack vêm sendo tiradas das ruas à força. As autoridades dizem que se trata de medida de saúde pública. Acredita, quem quiser. Não se trata apenas da comprovada inutilidade da internação forçada. As políticas públicas relacionadas às drogas costumam resumir-se a jogar os dependentes em depósitos sujos.

Enquanto isso, Portugal dá exemplo. Desde 2001, o país aboliu oficialmente todas as penas criminais para posse de drogas. É o primeiro país europeu a fazê-lo. Os resultados estão num relatório publicado pela revista Time, em abril:
...entre 2001 e 2006, as taxas de uso durante a vida de qualquer droga ilegal entre os alunos do sétimo ao nono ano caiu de 14,1% para 10,6%. O uso caiu também entre os adolescentes mais velhos. O consumo de heroína entre 16 a 18 anos de idade caiu de 2,5% para 1,8%. Infecções pelo HIV em usuários de drogas diminuíram 17% e as mortes relacionadas com a heroína e drogas similares caíram pela metade. Além disso, o número de pessoas em tratamento para dependência de drogas subiu de 6.040 para 14.877. Após a descriminalização, o dinheiro economizado com as punições aos usuários permitiu aumentar o financiamento para tratamentos.
Estes números mostram algo totalmente oposto ao que resultou da Guerra às Drogas promovida pelo governo americano. Abordagem adotada por vários países, incluindo o Brasil. Entre suas conseqüências, está a entrega de regiões inteiras do México ao controle violento dos traficantes. Ao mesmo tempo, aumentam a produção e o consumo ilegais de drogas.

Natural. A especialidade do governo americano é iniciar guerras para que sua indústria lucre com os trágicos resultados. Neste caso, o grande negócio são as próprias drogas. Cerca de 300 bilhões de dólares anuais são movimentados pelo comércio ilegal. Dinheiro injetado nas veias do sistema financeiro depois de devidamente lavado.

Fonte: http://www.time.com/time/health/article/0,8599,1893946,00.html

Leia também Drogas: das bocas aos bancos

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Crise: Dilma sabe o que fazer

A recente queda nas bolsas mundiais não se deve apenas ao pânico dos investidores. O fato é que as principais economias do mundo estão parando. Na melhor das hipóteses, vão ter crescimento zero. Os investidores estão fugindo de investimentos ligados a risco.

E isso tem muito a ver com o Brasil. Entre as principais bolsas do mundo, a brasileira vem sendo a campeã em quedas. Um sinal ruim. Significa que muitos investimentos previstos para manter e aumentar o nível de ocupação podem estar comprometidos.

Mas a Bovespa também cai arrastada pela queda dos preços das commodities. São produtos como ferro, milho, trigo, cobre, petróleo. Representam mais de 70% de nossas exportações. E seus preços são definidos fora do País.

O governo diz que temos grandes reservas em dólares. Como se sabe, dólares podem migrar muito facilmente. Também diz que podemos nos apoiar no alto consumo interno, cujo maior incentivo vem do crédito facilitado.

Um tal de Tony Volpon publicou um artigo sobre essa questão no Valor de 09/08. Alerta para os limites de endividamento dos consumidores brasileiros. Diz que pode se aproximar de níveis perigosos, já que nenhum outro país tem nossas taxas de juros.

De qualquer maneira, Dilma já está tomando providências. Há um projeto no Congresso que congela o salário do funcionalismo federal por 10 anos. Também pressiona pela não aprovação de piso salarial a policiais. Prepara mais cortes em gastos sociais.

Ou seja, a conta sobra para a maioria da população. Como diz o ditado, quem muito se abaixa para os poderosos, acaba mostrando o traseiro para os mais fracos.

Leia também: As correspondências do lulismo

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Marx e as leis da beleza

Enquanto os ventos uivam no morro do capitalismo mundial, melhor falar um pouco de beleza.

É dela que trata a obra “As idéias estéticas de Marx”, de Adolfo Sánchez Vázquez, morto em julho passado. Neste livro, o filósofo marxista espanhol enfrenta a difícil relação entre a arte e o marxismo. Um tema que o stalinismo tratou com grosseria. Arte seria aquela a serviço do proletariado.

Contra tal concepção, Sánchez Vázquez resgata as idéias de Marx sobre arte. Afirma, por exemplo, que “o marxismo insistiu vigorosamente na natureza ideológica da criação artística”. Mas, sua expressão possui legalidade própria, dotada de coerência interna e autonomia relativa. Como disse Marx, é “criação segundo as leis da beleza”.

“A tese marxista de que o artista se acha condicionado histórica e socialmente (...) não implica de modo algum a necessidade de reduzir a obra a seus ingredientes ideológicos”, diz ele. Para Sánchez Vázquez, não se pode equiparar o valor estético do artista com o valor de suas idéias. A arte seria “a expressão do dilaceramento ou divisão social da humanidade”, mas, “revela uma vocação de universalidade". É por isso que “a arte grega sobrevive hoje à ideologia escravista de seu tempo”. Da mesma forma, a arte de nosso tempo sobreviverá a sua ideologia.

O filósofo espanhol considera que a redução da arte à ideologia atenta contra a própria essência da criação estética. Seria a redução do elemento particular presente na obra de arte “a seu agora e a seu aqui”. O universal humano não é o universal abstrato e intemporal, mas “o universal humano que surge no e pelo particular”.

Leia também: Amy e o sentimento oceânico

terça-feira, 9 de agosto de 2011

O mundo de quimono

No final de julho, a capa da revista “The Economist” mostrava uma ilustração com Barack Obama e a primeira-ministra alemã, Angela Merkel. Ambos usando roupas japonesas, sob o título “Dívida e política: virando japoneses”.

A publicação acusa os mais poderosos governos mundiais de apatia política. Um mal que teria atacado o Japão nos anos 1990. Desde então, o país estagnou economicamente.

É uma afirmação contraditória, vinda de uma publicação tão amiga do neoliberalismo. Afinal, foi a adoção de fórmulas neoliberais que jogou a economia japonesa na paralisia. Em especial, a desregulamentação do mercado imobiliário.

É verdade que o governo americano ficou travado durante vários dias. Ameaçando dar o maior calote da história humana. Mas, também é verdade que democratas e republicanos há muito tempo competem para ver quem corta mais gastos sociais. Quem é mais competente no massacre patriota de povos pelo mundo. Ambos os lados convencidos das virtudes do neoliberalismo.

O fato é que o neoliberalismo venceu. Tornou a economia uma máquina que não obedece a governos. Cheia de combustível, ela corre sem rumo. Com grande chance de bater num muro ou cair num abismo.

Nada disso desculpa o governo americano. Incluídos democratas, republicanos e os psicopatas do Tea Party. Se houvesse um tribunal dos povos, já estariam sentados no banco dos réus.

Tudo isso mostra aquilo que Marx já dizia uns 150 anos atrás. O capitalismo é a gradual rendição da vida humana às leis da economia. A política institucional seqüestrada pelas leis do mercado.

Se isso é ser japonês, os governos do mundo vestem quimono. E nos convocam a fazer haraquiri.

Leia também:
Um maelstrom na economia mundial
Economia mundial no piloto automático. Bum!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O amor como epidemia

Uma notícia surpreendente, concidadãos do século 19. No século 21, as pessoas se casam por amor!

Em nosso tempo, a maioria dos casais formava-se pressionado pelas necessidades materiais. O homem escolhia a melhor parideira, trabalhadora, saudável. A mulher tinha sorte se lhe coubesse um marido sem medo de trabalhar. Que não fosse violento nem exagerasse na bebida.

Entre os aristocratas, às exigências materiais somavam-se os interesses da família. O que importava era uma prole saudável e a fortuna reservada aos de sangue nobre. Entre os casados, pouca intimidade e muitas formalidades. Em ambos os casos, a autoridade absoluta do homem.

O amor era um acidente nada recomendável. Em geral, não acontecia entre os destinados a casar. Daí, as constantes infidelidades, principalmente pela parte masculina.

Mas nem tudo é tão róseo no século 21. É verdade que a individualidade é mais respeitada. A família ficou menor e menos influente. Mas, a maioria delas tornou-se um ajuntamento de pessoas solitárias. Os laços de sangue têm um peso desproporcional à liberdade individual conquistada.

Assim, o entusiasmo pelas bodas pode confundir-se com uma fuga da opressão familiar. Namorados, noivos, cônjuges tentam encontrar na pessoa amada tudo o que lhes parece faltar na família. Por outro lado, os constrangimentos materiais continuam. Não há romantismo que resista às constantes dificuldades econômicas. Em meio a tudo isso, o machismo continua firme.

Com tanta confusão, as chances de frustrações são muitas. A valorização da individualidade é uma conquista, sem dúvida. Assim como a do amor. Mas, ainda que inspire belas obras de arte, o sofrimento amoroso é a mais resistente epidemia destes tempos.

Leia também:
Às companheiras do século 19
Marx apaixonado

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Um maelstrom na economia mundial

As bolsas continuam a despencar no mundo todo, esta manhã. Até 03/08, o mercado mundial de ações havia acumulado perdas US$ 2,6 trilhões desde 27/07. Dizem que os papéis financeiros em circulação pelo planeta equivalem a cerca de 10 vezes a produção mundial.

Parece que o PIB global está em torno de US$ 65 trilhões. Então, seriam uns US$ 580 trilhões de excesso especulativo. Ou seja, as perdas anunciadas representam alguns quilos em toneladas de gordura. Mas, nada indica que a dieta já acabou.

É bem possível que o capitalismo ainda se livre de muito peso extra. O grande problema é que os valores podem até ser fictícios. Mas, os efeitos de seu desaparecimento seriam bem reais e trágicos. Mais desemprego, miséria, conflitos sociais e guerras.

Alguns economistas estão comparando a crise atual a um maelstrom. Trata-se de um imenso redemoinho que engole navios e barcos nos mares da Escandinávia. Ficou famoso com a publicação do conto “Uma descida ao maesltrom”, de Edgar Allan Poe.

O fenômeno também aparece em “20 mil léguas submarinas", de Júlio Verne. Neste último, o submarino Nautilus, do capitão Nemo, é arrastado para o abismo. Leia um trecho:
De todos os pontos do horizonte acorrem vagas monstruosas e formam um redemoinho precisamente chamado ‘Umbigo do Oceano’, cujo poder de atração se estende a uma distância de 15 quilômetros. São então aspirados, não só navios como baleias e ursos brancos das regiões boreais. (...) E que barulho à nossa volta! Que rugidos, repetidos pelo eco a uma distância de várias milhas! Que ruído faziam as águas atiradas contra as rochas pontiagudas do fundo, onde até os corpos mais duros se quebram, onde os troncos das árvores se destroem ....
Nemo e seu submarino tiveram um fim cruel. O narrador teve sorte melhor. Acabou se salvando milagrosamente. Apesar de tudo, orgulha-se de ter sondado “as profundezas do abismo”. Não merecemos nenhum desses dois destinos.

Leia também: A crise e os Flintstones

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A crise e os Flintstones

Desde a Idade da Pedra, a casa própria é o maior patrimônio do americano típico. Quem não se lembra de Fred Flintstone e sua casinha ajeitada? A esposa esperando pacientemente sua chegada? Mesmo que fosse para deixá-lo trancado do lado de fora. E ele a gritar: “Vilmaaaa!!”

Grande, dois andares, com direito a jardim, churrasqueira, cachorro e vizinhos metidos e implicantes. São assim as casas de “A feiticeira”, “Jeannie é um Gênio”, “Família da Pesada”, “Simpsons” e muitos outros filmes e séries estadunidenses.

A casa de um homem é sua fortaleza, eles dizem. Principalmente, se for branco, protestante, machista e ganhar bem num emprego chato. Não representa todos os americanos. Mas, com certeza, é responsável por grande parte do consumo estadunidense. Tudo baseado nas hipotecas.

Quando essa casa caiu, atingiu Obama também. Sua popularidade está lá embaixo. O efeito Osama passou, ficou o efeito despejo. Não são muitas as alternativas para o presidente democrata. Afinal, foi apoiado por banqueiros e empresários. Mas, elas existem.

Robert Scheer é jornalista e autor do livro “The Great American Stickup” (O grande roubo americano). Apoiou Obama e se diz decepcionado com sua atitude diante da crise. Afirma que ele poderia, pelo menos, ter forçado os bancos a negociar as hipotecas. Preferiu dar mais dinheiro aos banqueiros e deixar milhões de pessoas sem teto.

Tudo começou com Clinton. Nos anos 1990, as hipotecas viraram papéis especulativos. A coisa piorou com Bush e suas guerras. Agora, caiu o teto na cabeça de Obama. Junto com ele, desaba a economia americana. E não adianta gritar pela Vilma.

Leia também Crise: O bode saiu. Ficou a bosta

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Robôs não ficam desempregados

A Foxconn pretende instalar 1 milhão de robôs em suas fábricas. A empresa é um gigante mundial. Emprega 1,2 milhões de trabalhadores. Destes, 1 milhão estão na China. País em que aconteceu um surto de suicídios entre seus empregados. Resultado muito provável de salários miseráveis e jornadas de trabalho escravocratas.

Os robôs seriam adotados para enfrentar a onda de mortes voluntárias. É apenas uma parte da verdade. O custo da força de trabalho chinesa vem aumentando. Conseqüência inevitável do desenvolvimento capitalista, mesmo que os salários continuem vergonhosos.

As máquinas viriam para cortar custos. Num primeiro momento deve dar certo. No longo prazo, não. Robôs são trabalho morto. Não geram mais valor do que aquele que já foi incorporado a eles pelo trabalho vivo. Pelo trabalho humano.

Não se pode diminuir a ração de parafusos que alimenta homens de lata. Já no caso de humanos, é sempre possível forçar uma piora da cesta básica. Robô quebrado ou desativado é prejuízo. Pessoas doentes, inválidas ou mortas apenas saem da folha salarial. O problema fica para a família e para os serviços públicos.

O capitalismo depende da exploração de trabalho vivo. Azar da burguesia. Ela precisa da gente. Desde o vendedor ambulante até pessoal altamente qualificado. É da exploração de seu trabalho que vem o lucro.

Robôs são ótimos para trabalhos perigosos, cansativos, chatos. Grande oportunidade para diminuir a infelicidade humana. Mas, sua plena utilização só vai funcionar quando a maioria da sociedade deixar de ser explorada pela minoria.

Leia também: A China não é alternativa

Crise: o bode saiu. Ficou a bosta

Aprovado o acordo para elevar o teto da dívida americana. Mesmo assim, as bolsas estão caindo no mundo todo.

Dizem que os “mercados” se comportam como manadas. O pânico se instala. A boiada estoura. Não sabe pra onde nem por quê. Era o que estava acontecendo antes de sair o acordo.

Acordo aprovado, vieram os números do Produto Interno Bruto americano. Crescimento de apenas 1% no primeiro semestre. O mais baixo desde setembro de 2009, auge da crise.

Os cortes previstos pelo acordo só vão piorar a situação. E crescem as ameaças de mais crise na Europa. A manada começa a trocar coices.

Obama tem grande responsabilidade. Cedeu à pressão da extrema-direita. Aceitou cortes em gastos que afetam diretamente a população. É o caso da seguridade social, principal alvo dos cortes. Um absurdo, já que os fundos da seguridade ficam em contas separadas das do tesouro americano.

A economia americana está num beco sem saída. Nada foi feito para acabar com as causas da crise que começou em 2008. Especuladores continuam a fazer estragos. Ninguém mexeu nos trilhões de dólares gastos nas guerras do Iraque e do Afeganistão. Trilhões!

As maiores vítimas são os milhões de americanos sem trabalho e moradia. São os milhares de iraquianos e afegãos mortos e mutilados. Os povos do mundo são vítimas de quem vive da especulação e da guerra.

O acordo da dívida é como o bode na sala. Levaram o bicho. Ficou um monte bosta.

Leia também: Crise: o ruim, o péssimo e o bom

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Brasil sem miséria e sem terra

Capa da revista Carta Capital de 01/08: “Reforma agrária, descanse em paz”. A reportagem constata o esquecimento a que foi condenada a luta dos trabalhadores rurais pelos governos petistas. Diz que a concentração de terra continua a mesma desde o “alvorecer da ditadura”.

João Pedro Stédile, um dos principais líderes do MST, confirma: “O Censo de 2006 revelou que a concentração é muito maior agora do que em 1920, quando recém havíamos saído da escravidão”.

Para Stédile, a Reforma “saiu da agenda no Brasil”. Explica que isso aconteceu “porque as burguesias industriais brasileiras nunca tiveram um projeto de desenvolvimento nacional”. Explica, mas nem tanto.

Que a “burguesia brasileira” não quer reforma agrária não é segredo faz mais de 100 anos. Precisa explicar porque é que um governo apoiado pela maioria da liderança do MST nada faz.

Plínio de Arruda Sampaio afirma que o MST virou uma espécie de ONG, com militantes transformados em agentes do Estado. Stédile discorda. Diz que os Sem-Terra nunca deixaram de lutar.

Não é o que se deduz de dados de matéria de João Carlos Magalhães para a Folha. Publicada em 01/08, a reportagem tem como título “Gasto com reforma agrária é o mais baixo em dez anos”. Segundo o texto, o número de famílias acampadas teria caído de 59 mil, em 2003, para 3.579 em 2010.

A reportagem de CartaCapital cita o programa “Brasil Sem Miséria”. Na zona rural, ele vai oferecer uma ajuda em dinheiro, sementes e cisternas. Distribuição de terra, de jeito nenhum.

É a cara do lulismo. Acalmar os de baixo. Deixar em paz os de cima.

Leia também: Governo improdutivo a serviço do latifúndio

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Tira os tubos!

O jornal O Dia trouxe a seguinte matéria, em 29/07: “Com rara amnésia, mulher de 32 anos acorda pensando ter 15”. Segundo a notícia, a inglesa Naomi Jacobs sofreu “um choque provavelmente gerado por estresse”.

Seu cérebro apagou parte de sua vida. Lembranças, só até 1992. Google, You Tube, Facebook, guerra ao terror, os ataques às Torres Gêmeas. Tudo esquecido. Imaginem o choque.

“Tira os tubos”. Esta era a frase típica de um famoso personagem de Jô Soares, em um programa de TV nos anos 80. Tratava-se de um general recém saído de um coma. Ficara muitos anos inconsciente e não acompanhara as mudanças no país.

Ao saber que os militares já não estavam no poder, que o presidente era civil, ele passa mal. Mas, quando descobre que o presidente era um político que sempre apoiara a ditadura, não entende nada. Sarney presidente era demais para ele. Grita: “Tira os tubos, tira os tubos!”, referindo-se aos aparelhos que o mantém consciente. Quer voltar para a paz de seu estado de coma.

E se Noemi fosse brasileira? Em 1992, estávamos arrancando Collor do poder. CUT, PT, UNE à frente do movimento. Agora, em 2011, Noemi encontraria uma mulher presidenta da República. Eleita pelo PT e apoiada por CUT, UNE e outros movimentos. E também por Collor, Sarney, Maluf, PDMB!!

Tem mais. O presidente americano é negro. Estados Unidos e vários países europeus estão atolados em dívidas. O valor do dólar despenca. E adivinhe quem pode salvar o capitalismo? A China, chefiada pelo Partido Comunista. O que ela diria?

“Tira os tubos!”, claro.

Leia também:
McDonalds “mais saudável” e terrorista?
Dólares, dívidas e calote argentino