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1 de março de 2024

O jornal revolucionário é como um andaime, dizia Lênin

“O jornal não é apenas um propagandista coletivo e um agitador coletivo; é também um organizador coletivo. A esse respeito, pode-se compará-lo aos andaimes que se levantam ao redor de um edifício em construção”.

O trecho acima está no livro “O que fazer”, de Lênin. Essa metáfora diz muito sobre as concepções organizativas defendidas por Lênin. O “andaime” de uma organização revolucionária não eram cargos em parlamentos, governos e direções sindicais, nem doações eleitorais ou contribuições dos filiados. É verdade que alguns desses recursos nem estavam ao alcance da esquerda socialista que atuava na Rússia czarista, dominada por um regime extremamente autoritário e com uma vida parlamentar e sindical muito frágil. Mas a questão central não era esta.

O fato é que a única força material com que podem contar os socialistas revolucionários é a capacidade organizativa dos explorados construída a partir das muitas formas de sua luta contra o capital. Depender de estruturas do Estado, aparatos burocráticos ou do mercado é caminho certo para a cooptação, destruição ou ambas.

Um jornal ou um instrumento equivalente de comunicação é fundamental para disputar a hegemonia com as classes dominantes, ao mesmo tempo em que organiza as forças dos explorados e oprimidos.

Mas nada disso deve ser encarado como uma receita. O próprio Lênin considerava datadas várias propostas apresentadas em “O que fazer”. Para ele, elemento fundamental e permanente era é o que já afirmava Marx: “A emancipação dos trabalhadores só pode ser obra dos próprios trabalhadores”. Por isso, o mais importante, dizia Lênin, é que o jornal revolucionário precisa ser feito para e pelos trabalhadores.

Leia também: Os professores Nádia e Lênin

7 de fevereiro de 2024

O Pravda enganando a perseguição czarista

No centenário da morte de Lênin, importante lembrar uma atividade que ele considerava fundamental para a construção de um partido revolucionário: o jornalismo militante.

Mas sob a ditadura czarista, publicar um diário proletário exigia muita astúcia. O relato abaixo está no artigo “Lenin’s Pravda”, de Tony Cliff, e refere-se ao período de 1912 a 1914:

O regulamento de imprensa da época exigia que os três primeiros exemplares de cada edição fossem enviados à censura. Os editores do Pravda tentavam ganhar o máximo de tempo possível entre o envio material e a muito provável chegada da polícia à gráfica. A lei não especificava limite de tempo máximo para o deslocamento entre a gráfica e a polícia. Assim, a tarefa diária de entregar os exemplares foi confiada a um trabalhador de 70 anos, cuja idade avançada era pretexto para a lentidão com que chegava ao seu destino. Depois de fazer sua entrega, o portador permanecia no escritório, fingindo descansar, mas observando tudo. Se depois de ler o Pravda, o inspetor passasse a examinar outro jornal, o emissário encerrava sua missão. Mas quando o censor telefonava para o distrito policial da jurisdição em que ficava a sede do jornal, o entregador saía rapidamente e chamava um táxi para avisar vigias que se postavam nos arredores da gráfica. Uma vez dado o alarme, todos começavam a trabalhar para retirar o máximo possível de exemplares. Quando a polícia chegava, a maior parte da edição já havia desaparecido, sobrando apenas uma quantidade mínima para que a manobra não fosse facilmente descoberta.

Não há movimento revolucionário, sem muita criatividade subversiva.

Leia também: Pravda: como fazer jornalismo revolucionário

2 de fevereiro de 2024

Pravda: como fazer jornalismo revolucionário

Continuamos a destacar algumas informações retiradas do artigo “Lenin’s Pravda”, de Tony Cliff, sobre o Pravda, jornal do partido bolchevique.

Para escapar às perseguições da ditadura czarista, o jornal nomeava editores nominais que iam para a prisão no lugar dos editores efetivos. Eram aproximadamente quarenta militantes, muitos deles quase analfabetos. Nos primeiros anos de existência do Pravda, eles passaram muitos meses na prisão.

Metade dos exemplares era vendida nas ruas e metade nas fábricas. Nas grandes empresas de São Petersburgo, cada departamento tinha um responsável que distribuía o jornal, arrecadava recursos e mantinha contato com os editores. A distribuição do Pravda fora da cidade acontecia por meio de seis mil assinaturas postais, mas distribuí-las era complicado. Os exemplares eram enviados a cinco ou seis agências de correio diferentes, que eram trocadas diariamente para despistar a polícia. Além disso, pacotes do Pravda eram entregues às províncias por diversas rotas complexas. Membros do partido ou simpatizantes que trabalhavam nas ferrovias jogavam os fardos ao longo da rota para serem recolhidos por outros integrantes.

Eram cerca de 40 mil durante a semana e 60 mil aos sábados. Números impressionantes, especialmente porque o partido era ilegal. No entanto, Lênin escreveu um artigo em abril de 1914, dizendo:

Precisamos distribuir três, quatro, cinco vezes mais exemplares. Publicar um suplemento sindical e ter representantes de todos os sindicatos e grupos no conselho editorial. Lançar suplementos regionais (Moscou, Urais, Caucasianos, Bálticos, Ucranianos)...

Mas uma de suas maiores preocupações era garantir a participação regular dos trabalhadores no trabalho editorial.

Sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário, dizia Lênin. Sem jornalismo revolucionário também não.

Leia também: Jornalismo revolucionário: os oito nomes do Pravda

30 de janeiro de 2024

Jornalismo revolucionário: os oito nomes do Pravda

No centenário da morte de Lênin, voltamos ao artigo “Lenin’s Pravda”, de Tony Cliff, sobre o jornalismo revolucionário defendido pelo líder russo. Nele ficamos sabendo que o Pravda, principal jornal do partido bolchevique, mudou de nome oito vezes. As constantes alterações aconteciam devido à forte perseguição que o periódico sofria da ditadura czarista.

Frequentemente, as instalações do jornal eram invadidas, edições confiscadas, multas impostas, editores presos, jornaleiros assediados. Mesmo assim, foram publicados 645 números de 1912 a 1914, quando deu lugar a outros jornais até retornar após a revolução de 1917. Isto foi possível em grande parte devido à engenhosidade da equipe editorial para contornar as perseguições, ao apoio financeiro dos leitores, a lacunas na lei de imprensa e à ineficiência da polícia.

Uma linguagem codificada procurava evitar o confisco imediato das edições. No lugar do nome do partido, “subterrâneo”, “buraco” ou “velho”. O programa bolchevique, que defendia a república democrática, confisco das propriedades fundiárias e jornada máxima de 8 horas era chamado de “exigências de 1905” ou os “três pilares”. Um bolchevique era um “democrata consistente” ou um “marxista consistente”. Os trabalhadores mais militantes conseguiam decifrar essa linguagem sem maiores problemas.

Essas e outras dificuldades para fazer circular um periódico revolucionário em plena ditadura autocrática na Rússia do início do século passado deveriam servir de exemplo. As dificuldades e obstáculos atuais são bem diferentes e igualmente enormes, mas Lênin defendia que o trabalho revolucionário era resultado de intervenções concretas adaptadas às situações concretas, sejam elas quais fossem. Hoje, como na época de Lênin, não adianta tentar combinar com os russos.

Voltaremos ao tema.

Leia também: O jornalismo revolucionário segundo Lênin

25 de janeiro de 2024

O jornalismo revolucionário segundo Lênin

No mês do centenário da morte de Lênin, vale dar uma olhada em sua concepção de jornalismo revolucionário. O artigo “Lenin’s Pravda” de Tony Cliff, por exemplo, traz um trecho que diz:

O Pravda não era um jornal para trabalhadores; era um jornal dos trabalhadores. Era muito diferente de muitos outros jornais socialistas, escritos por um pequeno grupo de redatores brilhantes. Lenin dizia que nesses jornais não havia vestígios de iniciativa dos trabalhadores, ou de qualquer ligação com organizações da classe trabalhadora. No Pravda, ao contrário disso, mais de 11 mil cartas e notas de trabalhadores eram publicadas em um ano, média de 35 por dia.

Na passagem abaixo, é o próprio Lênin que deixa claro o que pensa sobre a função de um verdadeiro jornal operário:

Ao ler os relatos e as cartas dos trabalhadores de fábricas e escritórios em toda a Rússia, o público do Pravda, em sua maioria disperso e separado pelas grandes distâncias e severas condições geográficas da vida russa, conseguia ter uma ideia de como lutam os proletários dos vários ramos e localidades, assim como viam o despertar para a luta em defesa da democracia da classe trabalhadora.

Tudo isso pode cheirar a naftalina em pleno século 21, com seus meios de comunicação caóticos, mas sob firme controle de monopólios cada vez mais poderosos. No entanto, a situação na Rússia czarista, sob feroz repressão policial e pesada censura estatal, não era nem um pouco melhor que a nossa. Trata-se de encontrar formas de atuar nas condições concretas. De enfrentar o velho e fundamental desafio sobre o que fazer.

Leia também: As suspeitas sobre a morte de Lênin

29 de maio de 2023

As fake news e o jornalismo conservador

Como já vimos, apelar às verdades científicas para combater as fake news é insuficiente e contraditório. O mesmo vale para o jornalismo.

Por décadas, a esquerda denunciou e combateu os monopólios de comunicação, controlados pelo grande capital e a serviço das classes dominantes. É o que mostram, por exemplo, o apoio à ditadura militar, o boicote às Diretas-Já, o favorecimento a Collor e a campanha pelo impeachment de Dilma. São episódios que evidenciam a atuação desse verdadeiro partido informal na defesa da ordem conservadora.

Ocorre que, à medida que a esquerda ganhava espaço nos governos e parlamentos, deixava de lado o combate aos impérios midiáticos, ao mesmo tempo em que se afastava do cotidiano das camadas populares. Confundimos luta contra-hegemônica com disputa eleitoral.

Livres para atuar, lideranças conservadoras se aproveitaram dessas contradições para convencer vastos setores populares de que os veículos da grande mídia são utilizados pelos comunistas para atacar os “sagrados” valores patriarcais, cristãos, nacionalistas e hierárquicos.

De modo oportunista, a extrema-direita declarou guerra contra algumas alas do partido midiático, como os grupos Globo e Folha. Diante disso, a defesa que muitos de nós, corretamente, assumem da atividade dos jornalistas é distorcida de modo a parecer cumplicidade com seus patrões. Para piorar, setores importantes da esquerda passaram a confiar à grande imprensa a tarefa de resistir às mentiras e distorções da extrema-direita.

Esses elementos mostram que a atividade jornalística, por si só, é incapaz de resistir às ofensivas mentirosas do fascismo. Afinal, como disseram Marx e Engels, nas sociedades de classe, as ideias dominantes tendem a ser as ideias das classes dominantes.

Leia também: Ciência e fake news: eugenia e negacionismo

20 de março de 2019

Os antigos e os novíssimos monopólios da verdade

Pawel Kuczynski
Os primeiros aparelhos de rádio serviam tanto para recepção como para emissão. Uma troca que ficava fora do alcance da indústria e dos governos.

As estações de rádio permitiram opor alguns emissores a milhões de receptores. Um monólogo que, geralmente, trata somente do que interessa ao mercado e ao poder.

A TV já surgiu sob a lógica do monólogo. Não à toa, nos países economicamente dependentes as redes de difusão audiovisual foram priorizadas em relação à estrutura telefônica.

No início do século 21, surge a maior empresa de mídia da história. O sucesso do Facebook se deveu muito à restauração dos contatos interpessoais. Ainda que virtuais.

Décadas de neoliberalismo criaram o ambiente ideológico perfeito para a volta do diálogo sem risco para os poderes estabelecidos. Ao contrário, tinha tudo para os favorecer.

Associações, clubes, sindicatos, partidos esvaziados. A família reduzida a, no máximo, quatro ou cinco membros. Os apartamentos no lugar de aldeias, vilas, paróquias.

O individualismo no lugar da solidariedade, a competição ao invés da colaboração. Empreendedorismo, sim, consciência de classe, jamais.

Cenário perfeito para que os diálogos se limitassem ao nível virtual. Inclusive, da sala para o quarto.

Evidentemente, a maior empresa de mídia já formada também é o maior anunciante. O Facebook monetizou os contatos entre as pessoas, alavancando bilhões de dólares por hora.

Enquanto isso, o Google monetizou radicalmente a informação. Vale como fato objetivo aquele que recebe mais cliques.

Esta é basicamente a economia política que opõe os interesses de antigos e novíssimos monopólios da verdade. Nosso grande desafio é saber explorar as contradições dessa briga. Estaremos à altura da tarefa?

19 de março de 2019

O combate às mentiras e aos monopólios da verdade

A pílula de ontem citou recomendações adotadas pelo colunista Helio Gurovitz para que a imprensa enfrente as “vozes discordantes” que acreditam no festival de mentiras que empesteia as redes virtuais. Seria preciso:

...respeitá-las, ouvi-las, manter a calma e não entrar em gritaria, não adotar um tom de queixa, ser sincero e determinado nas próprias crenças, pensar e tratar não só de fatos, mas sobretudo dos valores...

Certo, tudo muito válido. Mas será que a imprensa que vem dominando a distribuição de informações no mundo há décadas teria condições de adotar tal postura? Impossível.

Os atuais monopólios de comunicação só sabem despejar seus produtos em larga escala. Falta-lhes a capacidade de dialogar porque sua lógica é unidirecional.

Mas é pior que isso. Tratar não só de fatos, mas sobretudo de valores, recomenda o colunista. Para a grande imprensa isso equivaleria a admitir que defende certos valores. E que eles são os dos poderosos. Da minoria.

Ou seja, os instrumentos de comunicação melhor preparados para travar esse combate são os alternativos. A extrema-direita já começou a trabalhar nisso há vários anos. O resultado é óbvio.

Falta à esquerda fazer o mesmo. Deixar de priorizar eleições para disputar cabeças e almas. Parar de depender de estruturas sob controle estatal ou empresarial. Travar a batalha da contra-hegemonia, que exige menos recursos financeiros e muito mais trabalho cotidiano.

Só quem tem uma visão de mundo radicalmente diferente àquela defendida por criaturas como Trump e Bolsonaro pode derrotá-los.

Mas é crucial para travar essa luta compreender o papel dos novíssimos monopólios de mídia. Facebook e Google, principalmente. Fica para a próxima pílula.

Leia também:

18 de março de 2019

O festival de falsidades e os monopólios da verdade

Em 14/03/2019, na revista Época, Helio Gurovitz abordou “O desafio da imprensa diante de Trump e Bolsonaro”.

Basicamente, tal desafio envolveria o combate ao festival de falsidades que gira em torno dos presidentes nomeados no título.

O colunista cita o livro “Don’t think of an elephant!” (Não pense num elefante!) do linguista estadunidense George Lakoff. Para ele, fatos são cruciais, mas:

...precisam ser emoldurados de modo adequado para que entrem no discurso público de modo eficaz. Acreditar que apenas apresentá-los de maneira competente basta para que o cidadão “acorde” é uma ilusão”.

Nos conservadores, exemplifica o linguista, as crenças derivam da imagem da família com pai rigoroso. Nos progressistas, da família com pais carinhosos.

Segundo Lakoff, “muitas das ideias que ultrajam os progressistas são o que os conservadores veem como verdade” e vice-versa. Referindo-se a Trump, Bolsonaro e seus aliados, afirma: “Eles não são estúpidos. Estão ganhando porque são inteligentes. Entendem como as pessoas pensam e falam.”

Por fim, o colunista transcreve alguns princípios úteis recomendados pelo linguista “para dialogar com vozes discordantes”.

...é preciso respeitá-las, ouvi-las, manter a calma e não entrar em gritaria, não adotar um tom de queixa, ser sincero e determinado nas próprias crenças, pensar e tratar não só de fatos, mas sobretudo dos valores — e evitar adotar a moldura do adversário ao rebater ataques. “Não use a linguagem deles. A linguagem seleciona uma moldura — e não será a moldura que você quer.”

Dicas importantes, sem dúvida. Mas que imprensa poderia adotá-las? Certamente, não a dos monopólios que se declaram isentos e objetivos, mas também defendem verdades interessadas.

Continua na próxima pílula.

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Do menos pior ao muito ruim, rumo a mais derrotas

Como mentiras e autoengano antecipam os piores crimes

25 de fevereiro de 2013

Um barulho que convém à blogueira cubana

Muito boa a coluna “Uma blogueira do barulho” de Luciano Martins Costa para o Observatório da Imprensa, edição de 21/02. O texto diz que a grande imprensa brasileira tenta transformar a cubana Yoani Sanchez “na única voz livre” em seu país.

Segundo Martins, em Cuba, há pelo menos “uma centena de jornalistas, escritores e intelectuais que discutem abertamente a situação criada pelo isolamento do país”. Ele destaca a revista Voces. Disponível na internete (http://vocescuba.com), a publicação traz textos com fortes críticas ao governo cubano sem fazer o jogo do imperialismo.

Ou seja, diz Luciano, a “blogueira pop” não é a principal representante da dissidência intelectual cubana. E conclui brilhantemente: “Yoani é o barulho que a imprensa brasileira faz, para que outras vozes cubanas não sejam ouvidas”.

Mas também seria importante destacar um ponto em que imprensa burguesa e grande parte da esquerda coincidem. Ao insistir no caráter socialista de Cuba, ambos transformam a heroica resistência de seu povo num espantalho usado pela direita.

Devemos condenar e denunciar o criminoso bloqueio estadunidense à Ilha. A luta de seu povo merece todo o nosso apoio. Mas o regime estagnou em posições autoritárias desde que Cuba se tornou dependente da União Soviética nos anos 60.

O colapso do império soviético quebrou de vez o cambaleante capitalismo estatal cubano. O acúmulo de precariedades e desigualdades vai aniquilando qualquer possibilidade de construir uma sociedade justa e próspera.

A resposta do regime a tudo isso tem sido a rendição aos mecanismos de mercado. Ou encaramos isso ou corremos o risco de também fazer um barulho que convém a Yoani e ao imperialismo.

24 de outubro de 2011

O que cheira mal nas imagens de Kadafi

Os carrascos de Kadafi igualaram-se a sua vítima em crueldade. Mas também chamou a atenção a ampla divulgação da violência. Quase toda a grande imprensa mundial exibiu as terríveis imagens.

Os editores alegam que em tempos de internete elas viriam a público de qualquer forma. Um fenômeno que acontece porque as pessoas comuns teriam se tornado repórteres. Milhares delas no mundo todo registram imagens que vão parar na rede mundial. Mas divulgar fotos e filmes desse modo é jornalismo?

Se olharmos para a atual comunicação de massa, a resposta é sim. E isso é muito perigoso. Basta lembrar um artigo que Roland Barthes escreveu em 1962. Em “A mensagem fotográfica”, ele diz que a imprensa:
...utiliza a credibilidade particular da fotografia (...) para fazer passar como simplesmente denotada uma mensagem que na verdade é fortemente conotada; em nenhum outro tratamento a conotação toma tão completamente a máscara "objetiva" da denotação”.
Conotação é o sentido figurado de um texto. Denotação é seu sentido literal. O que Barthes diz é que a fotografia dá a impressão de objetividade. É uma imagem. É o fato. É denotativa. Mas os vários modos de tratar e manipular a imagem dão a ela sentidos conotativos. Resta muito pouco de neutro nela. Principalmente, da forma como a grande mídia a utiliza.

As imagens de Kadafi servem a quê? Guerra por audiência? Afirmação da vitória imperialista? Recado a outros ditadores? Tudo isso é possível. Mas, com certeza, elas denunciam uma imprensa cada vez mais rasa e sensacionalista. Perfeitamente adequada à alienação geral que aumenta a tolerância social tanto em relação aos ditadores quanto a seus carrascos.

Leia também A mídia merece uns molotovs

15 de agosto de 2011

A mídia merece uns molotovs

“A globalização do protesto”. Este é o título de matéria de Carolina Rossetti publicada em O Estado de S. Paulo, em 14/08. Trata-se de entrevista feita com Saskia Sassen, socióloga americana. A introdução da jornalista dá um panorama coerente:
No mesmo dia em que a face pobre da Grã-Bretanha saiu dos guetos para dar a cara a tapa, 200 mil manifestantes cobriram as ruas de Tel-Aviv a fim de exigir aluguéis mais baixos e escolas gratuitas para seus filhos. "Isto é o Egito", cantaram os israelenses, ecoando a já emblemática Praça Tahrir, no Cairo. Na terça-feira, e pela segunda vez na semana, cerca de 100 mil estudantes chilenos foram bater panela nas calles de Santiago, dessa vez ao lado dos pais, para exigir reformas na educação.
Carolina também cita os manifestantes mortos nas ruas árabes e os 12 milhões de pessoas que sofrem de fome crônica no Chifre da África (Somália, Djibouti, Quênia, Uganda e Etiópia). E Saskia dá sua explicação para essa onda de protestos:
Ao longo de 30 anos houve perda de renda de metade da população mundial e tamanha concentração de riqueza no topo que simplesmente chegamos ao limite. É a explosão disso que estamos vendo em nossas cidades.
Mas, matérias como esta são exceções na mídia comercial. Principalmente, em relação aos protestos em Londres. Para a grande imprensa, a revolta num dos centros do imperialismo é imperdoável. Coisa de baderneiros, bandidos, “rebeldes sem causa”.

Felizmente, em alguns momentos, eles quebram a cara. Foi o caso da entrevista com o sociólogo Silvio Caccia Bava na Globo News, em 11/08. Silvio desmontou as tentativas dos jornalistas de criminalizar os manifestantes londrinos.

Momentos como este são raros numa imprensa a serviço dos interesses da minoria. É por isso que ações de ruas são cada vez mais necessárias. É preciso furar os bloqueios. Às vezes, com molotovs.

Leia também:
Para a mídia, só vale política suja e autorizada
Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP): sobre as revoltas em Londres

19 de maio de 2011

Para a mídia, só vale política suja e autorizada

A mídia está em plena campanha política. O alvo é Palocci. A situação do ministro petista pode até não ser ilegal, mas é imoral. O PT presta mais um serviço à direita. E ainda procura justificar apontando o dedo para a gangue tucana. Tenta trocar um erro pelo outro.

Recentemente, a Câmara Municipal carioca desistiu de comprar automóveis para seus vereadores. Cada um deles custaria 70 mil. Alega-se que a suspensão da compra foi resultado de pressão popular. Menos. Foi muito mais uma campanha da própria imprensa. Os casos de Palocci e dos automóveis oficiais são tudo o que a grande mídia quer.

O partido da grande imprensa gosta de mostrar a política como atividade nojenta. Isso é até verdade em relação à política institucional. O problema é que o nojo popular volta-se contra todo tipo de atividade política. Aí, a imprensa empresarial aproveita para posar de representante da vontade popular. Só não admite que seus interesses estão representados por uma enorme bancada de parlamentares e governantes.

Enquanto isso, os jornais dão pouca atenção a recentes acontecimentos em Caetité, na Bahia. Um protesto de moradores impediu a entrada de uma carga de urânio na cidade. Eram 90 toneladas do minério. Caetité vem sofrendo com radiação causada por mineração de urânio em seu território. A população resolveu reagir.

A carga foi desviada para Guanambi, que fica ao lado. Também foi barrada pela população local.

Para a grande mídia, não interessa divulgar esse tipo de iniciativa. Não foi emporcalhada pelos partidos domesticados e pelas instituições oficiais. É política não autorizada. Feita de baixo para cima. Não serve.

Leia também: Patrões seqüestram opinião de jornalistas

18 de maio de 2011

Patrões seqüestram opinião de jornalistas

A UOL adotou recomendações para o uso de redes sociais por seus jornalistas. É o que diz reportagem de Izabela Vasconcelos para o Comunique-se. Segundo a matéria:
A orientação é que os jornalistas evitem manifestar posições partidárias e políticas, antecipar reportagens que serão publicadas ou divulgar bastidores da redação, a menos que seja decisão do UOL, e emitir juízos que comprometam a independência ou prejudiquem a imagem do portal.
É verdade que nenhuma das práticas acima é tema necessário das conversas de participantes de redes sociais. Além disso, fazer parte dessas redes poderia ser considerado algo distante do cotidiano de trabalho. O problema é que a vida particular de vários profissionais há muito tempo foi colonizada pelos deveres exigidos pelo empregador.

O fato é que muitos trabalhadores já não conseguem livrar-se de seus deveres profissionais fora do horário de trabalho. É a jornada de trabalho engolindo as horas de descanso, lazer, estudo, etc. É a “colonização” da vida pessoal pela vida profissional.

A situação dos jornalistas parece ainda pior. Evitar assuntos que envolvam política e cotidiano de trabalho pode inviabilizar a própria vida social. É como entrar numa conversa impedido de falar sobre aquilo com que mais se tem contato. É o que as empresas de comunicação estão fazendo quando ditam restrições a seus empregados nas redes sociais.

Mas, isso não passa da adaptação de uma regra que já existe há muito tempo. É o que acaba admitindo, por exemplo, Ricardo Gandour, diretor do Grupo Estado. Segundo ele, “as regras contra a divulgação de posições partidárias e políticas é algo que já faz parte do manual de redação, antes das redes sociais".

Com o emprego em jogo, trata-se muito mais de censura do que de autocensura. A vida pessoal seqüestrada pelo ritmo de trabalho. As opiniões públicas interditadas pelos patrões. É a dura realidade de uma profissão cada vez mais castrada.

Clique aqui para ler a reportagem do Comunique-se.

Leia também: A gente também sabemos falar

16 de maio de 2011

A gente também sabemos falar

O MEC adotou o livro "Por uma Vida Melhor" para uso do 6º ano do ensino fundamental. A publicação é da ONG Ação Educativa. A imprensa caiu matando na parte dedicada à língua portuguesa da obra.

O motivo é a frase "Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado". Segundo a publicação, a frase nada tem de errado. Trata se de uma forma de expressão perfeitamente aceitável.

A mídia diz que o livro é polêmico. Mas algo polêmico pressupõe opiniões divergentes. Na grande imprensa, até agora, só apareceu uma visão: a publicação é uma apologia à ignorância.

No site da editora estão disponíveis apenas três páginas da obra. O capítulo 1, intitulado “Escrever é diferente de falar”, afirma:
“As classes sociais menos escolarizadas usam uma variante da língua diferente da usada pelas classes sociais que têm mais escolarização. Por uma questão de prestígio – vale lembrar que a língua é um instrumento de poder -, essa segunda variante é chamada de variedade culta ou norma culta, enquanto a primeira é denominada variedade popular ou norma popular”.
Outro trecho diz que:
“...as duas variantes são eficientes como meios de comunicação. A classe dominante utiliza a norma culta principalmente por ter um sinal de prestígio. Nesse sentido, é comum que se atribua um preconceito social em relação à variante popular usada pela maioria dos brasileiros. Esse preconceito não é de razão lingüística, mas social. Por isso, um falante deve dominar as diversas variantes porque cada um tem seu lugar na comunicação cotidiana”.
Marcos Bagno é um lingüista que estuda essa questão há muito anos. Não foi consultado pelos jornalões. Ele considera que:
“...somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas ‘classes populares’ poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito”.
Ainda segundo Bagno, “defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada”.

O mais interessante é ver os defensores da pureza da língua tropeçarem nas próprias palavras. Vejam o que Bagno diz sobre isso:
“Ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: ‘Como é que fica então as concordâncias?’. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: 'E as concordâncias, como é que ficam então?’”

Leia o artigo de Marcos Bagno, clicando aqui

11 de abril de 2011

Realengo e a mídia carpideira

Carpideiras eram mulheres pagas para chorar em velórios e enterros. Acreditava-se que suas lágrimas compradas ajudavam a alma do defunto a ganhar o reino dos céus.

A grande mídia vem se comportando como elas. A cada tragédia, são metros de papel e horas de rádio e TV a compor um dramalhão diário. Tudo repetido várias vezes por dia. Com poucas exceções, interessa muito mais a emoção fácil que a informação organizada.

É o caso do trágico massacre de Realengo. Os meios de comunicação disparam teses, teorias e hipóteses a torto e a direito. O assassino seria terrorista muçulmano ou só muçulmano. Portador de HIV e psicopata. Esquizofrênico, evangélico, vitima de violência na escola.

Para cada possibilidade, ouvem-se “especialistas” que nem sabem onde fica Realengo. Cada hipótese serve para colocar um grupo social sob a mira do preconceito: muçulmanos, gays, doentes mentais, soropositivos, evangélicos. Na capa do Globo de hoje, a carta do assassino. Um amontoado de palavras sem muito sentido. Apesar disso, em destaque, as palavras “Egito”, “Alcorão” e “Abdul”.

Enquanto isso, fica esquecida a enorme violência que atinge os jovens brasileiros. Na população adulta apenas 1,8% das causas de morte deve-se a homicídios. Entre os jovens, são quase 40%. Estatísticas não explicam o caso de Realengo. Mas as lágrimas falsas da mídia só embaçam o olhar de quem busca saídas.

A demagogia dos governantes se aproveita do pranto geral provocado pela mídia carpideira. A mesma que lucra milhões com atrações cada vez mais violentas. Que cria intrigas em torno do luto sincero. Proclama lamentos aos céus e comemora o inferno que garante a audiência.

Leia também: Enxurrada de lágrimas

12 de julho de 2010

Bruno e a imprensa de porta de cadeia

O caso do goleiro Bruno monopoliza a opinião pública. O jogador está sendo responsabilizado pelo possível assassinato de Eliza Samudio, com quem teria tido um filho, apesar de ser casado com outra mulher.

Tanta comoção poderia servir de alerta para a violência contra a mulher. Um grave problema social, que faz milhares de vítimas todos os anos. Graças à grande imprensa, isso não está acontecendo.

Os noticiários até citam estatísticas. São 10 mulheres mortas por dia no Brasil. Para explicar tanta violência, uns dois ou três especialistas são ouvidos. Alguns gráficos com dados estatísticos são mostrados. Mas a exposição de um quadro mais geral da questão perde feio para o melodrama montado em torno do caso.

São várias horas de reportagem gravadas em frente a delegacias e penitenciárias. Extensas reportagens sobre a infância do jogador, seus amigos e parentes. Inúmeros detalhes e especulações sobre a relação extra-conjugal.

Desse modo, a imprensa usa a árvore para esconder a floresta. Com isso, crescem as chances de interpretações conservadoras e até racistas. Afinal, Bruno é negro e de origem humilde. Pode ser tomado como exemplo da brutalidade que reinaria entre a população pobre. Algo que justificaria a violência e o desrespeito com que é tratada cotidianamente pelos órgãos públicos. Também fortalece a idéia extremamente machista de que mulheres como Eliza teriam feito por merecer a violência de que foram vítimas.

Trata-se do pior e mais desonesto tipo de jornalismo. O que parece ser simples relato dos fatos não passa de uma forma de estimular conclusões conservadoras por parte do público.

26 de maio de 2010

CBN: Melhor ser surdo?

No programa CBN Brasil de hoje, Carlos Sardenberg resolveu comentar um e-mail enviado por um ouvinte, que se dizia bastante satisfeito recebendo o seguro-desemprego. Afinal, antes ele recebia 600 reais brutos trabalhando numa empresa. Agora, embolsava 510 reais líquidos na maior boa vida.

Sardenberg comentou a mensagem em tom de aprovação. Nem mesmo omitiu o fato de que a “boa vida” deve durar somente os cinco meses que correspondem ao pagamento do benefício. E ainda arrematou fazendo um paralelo com a crise na Europa, insinuando que por lá abundam direitos como esse.

O ouvinte em questão tem todo o direito de pensar a estupidez que quiser. Já, Sardenberg poderia poupar nossos ouvidos.

Aliás, o mesmo Sardenberg vinha dizendo há meses que a crise acabou. Com os problemas na Europa, teve que engolir suas palavras. E o fez na maior cara de madeira.

Em 25 de maio, ele foi mediador do VI Fórum Globo News com o tema “A economia global no mundo pós-crise”. Iniciou o debate perguntando se, diante do que vem acontecendo na Europa, não seria melhor falar em economia global no mundo “ainda em crise” ou “durante a crise”.

Ouvir a CBN nos faz duvidar sobre as vantagens de contar com boa audição.

19 de maio de 2010

Janete Clair chegou aos telejornais da Globo

De uns tempos pra cá, os apresentadores de telejornais globais andam fazendo caras e caretas. Se a notícia é triste, a expressão fica séria. Se é mais descontraída, aparece um sorriso no canto da boca. Para novidades alegres, dentes à mostra. Tudo muito canastrão.

O casal que apresenta o Jornal Nacional chega a trocar olhares incrédulos após ouvir uma reportagem surpreendente. Como se já não soubessem de tudo com antecedência de algumas horas.

O novo modelo deve ter sido inspirado em Sandra Annenberg, atual âncora do jornal Hoje. Ex-atriz, há muito tempo a jornalista tem a irritante mania de interpretar as notícias que dá. Tudo indica que vai ficando para trás a época em que Cid Moreira apresentava o noticiário com jeito de boneco de ventríloquo.

Por outro lado, o enredo de muitas novelas se parece com pautas de revistas. Abordam temas como violência, uso de drogas, doenças mentais, etc. Não à toa, sai a novela, entra o JN. Sai o JN, entra a novela. Sem pausas para comerciais.

O problema é que o público pode ter a impressão de que está tendo acesso ao sagrado direito à informação. Na verdade, recebe dramatizações cada vez mais parciais e distorcidas. Jornalismo de verdade, só por mera coincidência.