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11 de dezembro de 2024

Um Brasil paralelo disposto a tudo

A Brasil Paralelo é uma produtora de vídeos criada em 2016, tendo se tornado uma das principais difusoras das ideias de direita no país. Seus conteúdos incluem aulas, vídeos e livros de história e filosofia.

Entre as teses que defende, estão o “descobrimento do Brasil” como um evento civilizatório para os povos ameríndios e o golpe de 64 como o episódio que impediu a instalação de uma ditadura comunista no Brasil.

A derrota eleitoral do bolsonarismo em 2022 não diminuiu a influência da produtora extremista. Ao contrário, os números abaixo são do episódio 128, do podcast Rádio Escafandro e deixam claro como a Brasil Paralelo continua firme, forte e perigosa.

Trata-se do maior anunciante brasileiro no Instagram e Facebook. As duas plataformas receberam da produtora R$ 25 milhões em anúncios, nos últimos 4 anos. O que dá R$ 6.250 milhões anuais ou quase R$ 521 mil mensais.

São 4 milhões de seguidores no Youtube e 400 mil assinaturas vitalícias em suas plataformas. Atualmente, a assinatura vitalícia mais barata sai por R$ 1.620 e a mais cara R$ 6.360.

Mais recentemente, a Brasil Paralelo passou a distribuir seu material a centenas de escolas e instituições de caridade, defendendo uma versão falsa e reacionária da história do País para crianças e jovens.

Mas uma coisa não se pode negar. O nome escolhido para a produtora é perfeito. Há um Brasil paralelo reacionário e golpista atuando fortemente. Não apenas nas redes virtuais e escolas, mas nos três poderes, incluindo vários postos no atual governo, e nas Forças Armadas, claro. Estão dispostos a tudo. Estão prontos para o pior.

Leia também: O Orvil e o Brasil Paralelo

30 de novembro de 2024

Utopia, atopia, distopia

Pawel Kuczynski
A atopia não é um não lugar. A atopia não é um novo tipo de espaço, nem um território simulacro, nem poderia ser definida inteiramente como uma pós-territorialidade, no sentido único do superamento das formas físicas e geográficas do espaço. Melhor seria defini-la como a substituição destas por uma forma informativa digital e transorgânica, cujos elementos constitutivos são as tecnologias informativas digitais, os ecossistemas informativos elaborados pelos sistemas informativos geográficos e territoriais e as redes sociais, compostas pela fusão de coletivos inteligentes e pelas formas híbridas do dinamismo das linguagens transorgânicas. O habitar atópico se configura, assim como a hibridação, transitória e fluida, de corpos, tecnologia e paisagem...

A definição acima é do professor da USP, Massimo Di Felice. Apesar da abordagem exageradamente acadêmica e, sem necessariamente concordar com tudo o que ela propõe, traz um elemento importante para pensar a organização social tal como a vivemos na segunda década do século 21.

Uma sociabilidade marcada pelas redes digitais, por meio das quais acessamos e somos acessados, quase sem restrições de tempo e espaço. Seja no trabalho, na vida afetiva ou na militância, nos relacionamos instantaneamente, sem deslocamentos, lugares fixos, respeito a horários e, muitas vezes, sem nem mesmo recorrer às tradicionais saudações de chegada e partida.

Um fenômeno que vem se tornando presente na vida cotidiana dos últimos 10 ou 12 anos e mudando tudo de forma mais radical do que imaginamos. Principalmente, quanto às disputas de poder e na luta de classes, em geral.

Atopia não é utopia e tem grandes chances de nos levar às piores distopias. Voltaremos ao tema.

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Bacurau: a esquerda sem chão e sem lugar

21 de setembro de 2024

O nome do jogo é fascismo

Franco Berardi publicou recentemente o artigo “Para uma Antropologia do novo fascismo”. Nele, o filósofo italiano afirma que nos debates sobre o crescimento do fascismo, ninguém explica o mais importante: “a qualidade antropológica e psíquica que está por trás da adesão em massa aos movimentos ultrarreacionários”.

Para Berardi, com a “dimensão rápida da tecnologia eletrônica, o pensamento se torna impróprio para a crítica e o pensamento mitológico é restaurado”.

Ainda segundo ele, levantamentos recentes estimam que o tempo médio gasto diariamente pela maioria das pessoas nas redes virtuais é de treze horas. Desse modo:

...a mente submetida ao bombardeio ininterrupto de impulsos eletrônicos, independentemente de seu conteúdo, funciona de forma completamente diferente da mente alfabética, que tinha a capacidade de discriminar entre o verdadeiro e o falso nas informações e que tinha a capacidade de construir um procedimento de elaboração individual. Na verdade, essa capacidade depende do tempo de processamento emocional e racional, que, no caso de um jovem que vive treze horas por dia na infosfera eletrônica, é reduzido a zero. A distinção entre a verdade e a falsidade torna-se não apenas difícil, mas irrelevante, como quando se está em um ambiente de jogo. Em um ambiente como esse, não faz sentido aprovar ou desaprovar a violência dos homens verdes que invadem o planeta vermelho. Fazer isso só serviria para perder o jogo.

Por falar em jogo, um estudo recente estima que Pablo Marçal em apenas uma das várias gincanas de vídeos que promove conseguiu 492 milhões de visualizações. Taí um bom exemplo do novo tipo de animal humano que vem sendo formado.

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11 de junho de 2024

O avanço da extrema direita e a política das selfies

Jordan Bardella tem 28 anos e é conhecido como "Rei da Selfie" porque multidões de jovens querem tirar fotos com ele. Com mais de 1 milhão de seguidores nas redes virtuais, poderá tornar-se o mais jovem primeiro-ministro da França, se seu partido, o Reagrupamento Nacional (RN), de extrema direita, obtiver maioria nas próximas eleições para a Assembleia Nacional. Possibilidade fortalecida pelas recentes eleições para o Parlamento Europeu, nas quais o RN mais que dobrou sua bancada.

Em reportagem para o jornal italiano Repubblica, Anais Ginori cita as palavras do marqueteiro de Bardella, Pascal Humeau: “Esse sorriso parece natural, mas trabalhamos nele durante meses. O objetivo era que as pessoas dissessem: para um fascista, ele parece bonito”.

Sem dúvida, um fenômeno assustador. Mas apesar de novo, não é tão recente. Faz parte da onda conservadora que começou a nascer há dez anos no rastro da crise de 2008.

Desde então, surgiram novos tipos de organização partidária ligados à enorme influência das redes virtuais na vida social. Alguns estudiosos chamam essas organizações de “partidos digitais” ou “partidos plataforma”. Muitas delas até surgiram a partir da militância de esquerda, mas sua tendência à fragmentação, superficialidade e irracionalismo se adequou melhor ao ideário ultraconservador.

A necessária e urgente reação da esquerda não pode se limitar à luta nas redes. A raiz das vitórias da extrema direita está nas respostas que oferece aos problemas concretos da vida cotidiana das maiorias. Respostas absolutamente equivocadas, mas que conseguem se impor, frente a uma esquerda que ou se limita a administrar a barbárie neoliberal ou não consegue enxergar para além de suas selfies políticas.

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5 de junho de 2024

Do “doomscrolling” ao infocalipse

“Doomscrolling” é a palavra inglesa para o hábito de rolar imagens e notícias na tela do celular em busca de fatos negativos, tristes e deprimentes. Parece o antigo costume de “zapear” na TV em busca dos programas de notícias policiais mais escabrosos. Só que agora em maior velocidade e com oferta praticamente inesgotável.

Inesgotável porque os agentes produtores dessas imagens e informações são muitos. Em contrapartida, os centros distribuidores são bem menos. Não se trata dos inúmeros grupos de zap. Estes são apenas vetores que transmitem a doença.

O foco da moléstia são os poucos e poderosos monopólios de dados e algoritmos, como Facebook, Youtube, X... Esses abutres das redes virtuais precisam manter a atenção e a tensão dos usuários para extrair-lhes os dados e vender-lhes porcarias, enquanto os premia com ansiedade e depressão.

Outro efeito dessa situação é a infodemia, caracterizada pela Organização Mundial da Saúde como um “excesso de informações, algumas precisas e outras não, que torna difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa”.

Informação distorcida e alarmista não atenua situações críticas nem mitiga consequências de eventos negativos ou catastróficos. Ao contrário, torna-as ainda mais nocivas e graves.

Mas não podemos ignorar a base material de todo esse caos. É o capitalismo em sua fase de colapsos cumulativos. Colapso político, social, ambiental, moral, sanitário...

O lado mais perverso disso tudo é que o sistema nos massacra com suas mazelas, enquanto nos distrai e nos torna viciados nelas. Vai nos acostumando com a ideia de que o mundo pode até acabar, mas o capitalismo tem que continuar.

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23 de janeiro de 2024

Nomofobia, a doença que é um sintoma

Nomofobia. Trata-se de um distúrbio patológico que atinge a todos, sem distinção de classe, cor, sexo, religião, nacionalidade, ideologia, preferências político-partidárias. Alvinegros, rubro-negros, tricolores, alviverdes, esquerdistas, bolsonaristas, todos são igualmente afetados.

Não há grupo de risco porque o perigo é global. Literalmente. São poucos os lugares do mundo imunes à nomofobia, a não ser pela rara condição de estarem isolados dos elementos que a causam. Os sintomas são ansiedade, desorientação, sensação de inutilidade, vazio mental, dificuldade de refletir sobre assuntos complexos e até sobre coisas mais banais.

Apesar disso, governos e organizações internacionais de saúde pública não parecem preocupados com essa pandemia que se alastra sem alarde. Nomofobia vem do inglês “no-mobile”: “sem celular”. É a ansiedade provocada pela privação do acesso ao celular. Uma espécie de síndrome de abstinência causada pela desconexão das redes virtuais.

É preciso ocupar todos os sentidos com imagens, sensações e sons fragmentados e ininterruptos. Na fila, na condução, cozinhando, fazendo faxina, nas inúmeras tarefas cansativas, mas sem sentido. Há que haver palestras, entrevistas, tramas, fantasias. Tudo reproduzido de modo vertiginoso, em horário integral.

O silêncio, a contemplação ou a simples conversa tomam tempo que precisa ser totalmente entregue à exploração econômica acentuada e ao consumismo acelerado. É necessário inviabilizar o pensamento, a reflexão e o debate racional, que podem servir para entender melhor e, talvez, combater essa realidade cada vez mais opressora do cotidiano capitalista.

Na verdade, a nomofobia é só um sintoma. Ela deriva da dependência das redes virtuais, que, por sua vez, fazem parte do implacável processo de acumulação capitalista. Este, sim, a grande moléstia contemporânea.

Leia também: A esquerda e sua fatal dependência das redes

13 de novembro de 2023

A esquerda e sua fatal dependência das redes

“Sem nenhuma explicação, o YouTube excluiu nesta segunda-feira (30/10) o canal do Brasil de Fato RS e seu podcast De Fato”, diz uma nota do site do Brasil de Fato. “No final da tarde, a redação recebeu uma mensagem breve informando que a plataforma havia encontrado ‘violações graves ou repetidas de nossa política de spam, práticas enganosas e golpes. Por isso, removemos seu canal do YouTube’”, complementa a nota.

Felizmente, o canal já foi restabelecido. Mas que nos sirva de advertência. Há uns 10 anos, jamais imaginaríamos algo assim. Não havia a menor possibilidade de que qualquer um dos nossos veículos populares de esquerda viesse a integrar a grade de programação de uma Globo ou SBT.

Uma de nossas principais lutas sempre foi pela democratização dos meios de comunicação e o combate a seus monopólios. Só que eles continuam por aí, fazendo os estragos de sempre. E não apenas paramos de avançar nessa frente de combate, como nos deixamos enredar pelas redes virtuais controladas por monopólios ainda mais poderosos. Inicialmente, alimentamos a ilusão de que se tratava de um meio mais permeável a nossa militância. Mas fomos nós que nos tornamos ainda mais vulneráveis aos caprichos e desmandos desses gigantes da mídia cibernética.

Os grandes grupos tradicionais de comunicação ainda podem ter seus poderes questionados na condição de concessão pública. Youtube, Facebook, Google e assemelhados, nem isso. Foram se impondo ou comprando cumplicidade pelo alto e, com nossa ajuda, minando nossa resistência por baixo. Criaram um meio perfeito para o crescimento da extrema-direita e para nós, um ambiente muito tóxico, quase fatal.

Leia também: Da contracultura psicodélica às big techs neoliberais

7 de agosto de 2023

Allende e o embrião de uma internete socialista

Era outubro de 1972. Salvador Allende governava o Chile desde 1970, tentando implantar medidas radicais. Entre elas, reforma agrária e estatização de setores industriais. Foi o que bastou para ser alvo de ataques e sabotagens promovidos pela direita local com apoio do governo estadunidense.

Naquele mês, uma greve apoiada pela CIA paralisou 40 mil caminhoneiros, isolando Santiago. O movimento atingiu principalmente o abastecimento de alimentos para a população. Mas o governo conseguiu enviar cerca de 200 caminhões com mantimentos para a cidade, derrotando a greve. Essa operação só foi possível graças a uma rede de comunicação formada por máquinas de telex chamada Cybersyn.

Mas o objetivo original desse sistema era outro. Tratava-se de proporcionar um planejamento econômico controlado em tempo real pelo poder público. Como havia 500 máquinas de teletipo adquiridas pelo governo anterior que estavam ociosas, cada fábrica recebeu uma delas. Os dados da produção eram enviados diariamente para um centro de controle, permitindo aos órgãos governamentais fazer previsões, recomendações e tomar decisões estratégicas. Graças à cibernética, começava a tomar forma um planejamento econômico capaz de atender as necessidades da maioria, bandeira histórica do movimento socialista.

Além disso, o projeto pretendia criar uma rede de comunicação que possibilitasse aos chilenos opinar, votar e fazer propostas a partir de seus bairros e locais de trabalho.

Para muitos, o Cybersyn mostrou a possibilidade de criar uma internete orientada por valores democráticos e socialistas. Infelizmente, este foi mais um projeto destruído pelo golpe de setembro de 1973 por Pinochet e seus carrascos, apoiados e financiados pelo imperialismo estadunidense.

De Santiago do Chile ao Vale do Silício, pioramos muito.

Leia também: Os desafios estratégicos do ciberproletariado

5 de dezembro de 2022

Os algoritmos e os ovos da serpente fascista

O Facebook tem 2,96 bilhões de usuários ativos mensais. O Instagram, 1,28 bilhão. E o WhatsApp, 2 bilhões. Os três são controlados pela holding Meta, de Mark Zuckerberg, e alcançam mais da metade da população on-line do planeta.

As informações acima estão em artigo de Pedro Doria. Publicado recentemente no Globo, o texto aborda as dificuldades enfrentadas pela Meta que a levaram a demitir 13% de sua força de trabalho.

Uma semana depois, outra coluna do mesmo autor informava que “sinais vindos do Vale do Silício” apontam “para a pior crise do mundo da tecnologia desde o estouro da bolha das ponto-com em 2000”.

Referia-se a grandes demissões em empresas como Snpachat, Netflix, Twitter e Amazon. “Todas demitiram mais de 10% da tropa”, diz Doria. Mesmo quem não demitiu, como Apple e Google, pararam de contratar, complementa.

Mas para o articulista está tudo bem. Afinal, “pessoas perdem seus empregos, a economia se contrai, uma recessão está com toda a cara de que vem por aí. Quem conseguir equilibrar suas contas é quem sobreviverá”.

Exemplo perfeito de fé irresponsável nos mecanismos de correção do todo poderoso mercado. Um fanatismo que despreza não apenas os desempregados da vez, mas os desastrosos efeitos que uma nova recessão mundial pode causar.

Segundo essa lógica, trata-se apenas das periódicas crises de ajuste típicas do capitalismo. O problema é que, em geral, elas aprofundam a barbárie social e ajudam a fortalecer o conservadorismo mais extremado.

Mas nesse caso específico, os algoritmos com que lucraram várias dessas empresas também funcionaram como ninhos onde foram chocados muitos ovos de serpentes fascistas.

Leia também: A sintonia do fascismo com as dissonâncias capitalistas

19 de agosto de 2022

Eleições: engajamento virtual x militância presencial

O TikTok caminha rapidamente para ter o maior número de usuários do mundo, ultrapassando Facebook, Instagram, Youtube, etc.

É por isso que as redes virtuais concorrentes estão tentando imitar o aplicativo chinês. Vêm priorizando cada vez mais vídeos curtos no lugar de fotos e textos.

O problema é que isso torna as redes ainda menos interativas. As informações ficam mais soltas e sem contextualização. Além disso, vídeos são mais difíceis de fiscalizar quanto a conteúdos falsos e caluniosos. Uma beleza para a extrema-direita, com seu apego à difusão de fake news.

Um exemplo é a hashtag #StopTheSteal, compartilhada no TikTok por trumpistas, alegando que a eleição de Biden foi fraudada. Bloqueada pelos moderadores ela voltou com a grafia modificado para #StopTheSteallll e já tinha quase um milhão de visualizações até ser novamente desativada.

Semana passada, houve eleição presidencial no Quênia. Um dos candidatos apareceu num vídeo falso do TikTok segurando uma faca e vestindo uma camisa ensanguentada. A legenda o descrevia como um assassino. O vídeo recebeu mais de 500 mil visualizações antes de ser removido.

Enquanto isso, em terras brasileiras, a presença de Bolsonaro nas redes continua muitas vezes maior que a de Lula, líder nas pesquisas eleitorais. A participação de Anitta e Janones na campanha petista melhorou a situação, mas a reação veio com atraso.

A situação não seria tão preocupante se o engajamento virtual superior do bolsonarismo estivesse sendo compensado pela presença militante nas ruas, bairros e locais de trabalho em favor da candidatura petista. Por enquanto, isso não vem acontecendo. Os comícios são fundamentais, mas insuficientes. É urgente enfrentar esse desafio.

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Modernidade tecnológica e arcaísmo social
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15 de julho de 2020

A pandemia do vírus e o pandemônio das informações

Dizem que a Gripe Espanhola surgiu nos Estados Unidos, em 1918. Mas como o país encontrava-se envolvido na Primeira Guerra, a divulgação de sua existência foi proibida.

Quando a doença chegou à Europa, provavelmente junto com as tropas estadunidenses, a censura continuava. Somente na Espanha, que não estava em guerra, os casos começaram a ser relatados e a gripe ganhou uma pretensa nacionalidade.

Esta situação mostra como a mais mortal pandemia que já existiu teve problemas com a circulação de informações. Mesmo que não houvesse censura, os meios de comunicação tinham um alcance muito menor e eram muito menos onipresentes.

Mas se há alguma coisa que não se pode dizer sobre a atual pandemia, é que faltam informações sobre ela. As revistas cientificas especializadas, por exemplo, sempre cobraram pelo acesso a seus artigos. Mas diante da gravidade da situação, a grande maioria delas abriu seus arquivos eletrônicos.

Essa medida, por um lado, facilita e acelera a realização de novos experimentos. Por outro, amplia o risco de conclusões precipitadas e a adoção de tratamentos duvidosos e temerários. Mas aqui ainda estamos em um nível mínimo de racionalidade.

A circulação de informações assume um caráter patológico mesmo é nas redes virtuais. Os mais variados e disparatados rumores, boatos, falsidades, circulam pelos meios digitais. Fortemente potencializados, claro, por poderosas forças políticas e econômicas cujos interesses se contrapõem à saúde pública e ao bem coletivo.

O coronavírus surgiu quando a chamada “esfera pública” já se encontrava tomada pela praga das mentiras, falsidades, fanatismos e discursos de ódio. O pandemônio das informações colabora para tornar a pandemia ainda mais grave.

Leia também: Infeccionistas, contagionistas e a doença do livre mercado

27 de agosto de 2019

Privacidade hackeada, democracia comprada

Está disponível no Netflix o documentário “Privacidade hackeada”, sobre a empresa Cambridge Analytica, que ficou famosa por trabalhar para as campanhas de Donald Trump e do Brexit, pela saída do Reino Unido da União Europeia.

A especialidade da empresa era lucrar utilizando os dados que muitos milhões de pessoas deixam nas redes virtuais. Mas não haveria Cambridge sem o Facebook, que era, na prática, sua única fonte de informações.

Depois de muitas denúncias envolvendo a apropriação desautorizada de informações pessoais, a Cambridge fechou. Já o Facebook...

Mas o documentário mostra um episódio que não envolve diretamente a manipulação cibernética.

Em 2013, uma eleição em Trindade e Tobago opunha os dois principais partidos do país. O eleitorado de um era majoritariamente negro, o do outro, quase todo de ascendência indiana.

A Cambridge propôs ao partido “indiano” uma campanha com o slogan “Do So", algo como “Não vou”, em referência ao ato de votar. Era um chamado à abstenção eleitoral, mas voltado para o eleitorado jovem.

A campanha realmente foi um sucesso entre os jovens. Mas só alcançou seu objetivo junto à juventude negra. Acontece que o comportamento dos jovens é muito mais controlado nas famílias indianas do que nas negras.

Enquanto os jovens negros mantiveram sua postura de abstenção, muitos de seus pares indianos, pressionados pelos pais, compareceram às urnas em número suficiente para dar a vitória ao cliente da Cambridge.

É mais um caso em que o poder econômico promove despolitização e alienação para vencer.

“Privacidade hackeada” poderia ser só o título do mais recente capítulo da velha e conhecida série “Democracia comprada”.

26 de julho de 2019

Um mar digital de estupidez

“Tecnologia, Ignorância e Violência” é um artigo de Pablo Rubén Mariconda, publicado pelo portal Outras Palavras. Seu tema principal é o caráter destrutivo da ambição humana pelo mais completo domínio da natureza.

O texto vale ser lido na íntegra, mas há um interessante trecho sobre o papel da ignorância nos tempos atuais.

Segundo Mariconda, “a todo conjunto de conhecimentos práticos e teóricos corresponde um conjunto, de certo modo, complementar de não conhecimentos práticos e teóricos”.

Um serralheiro, por exemplo, pode fabricar as dobradiças e a maçaneta de uma porta, mas irá recomendar a seu cliente que contrate um marceneiro para instalá-las. Ele sabe o que sabe, mas também sabe o que não sabe.

Mas, diz o autor, “quando não reconheço não saber algo, quando desconheço certa ignorância, ou mesmo quando minto saber”, há uma “diminuição drástica da atenção sensitiva e oral – a ponto de ampliar espantosamente a esfera da ignorância não mais reconhecida como tal, ou seja, a ignorância ignorada, que é também uma forma de embrutecimento racional”.

Embrutecimento racional? Sim, Mariconda está se referindo aos estragos causados pelas redes virtuais. Ao mundo da troca rápida e irrefletida de informação, acarretando alterações significativas de nossa percepção do mundo. Por exemplo, diz ele:

...dificuldade na determinação da autoria das informações ou notícias, ou seja, aparente anonimato do que se comunica; deslocamento emocional produzido pela mediação imagética da informação; transferência da memória; diminuição drástica da atenção sensitiva e oral.

Ele também cita o filósofo Herbert Spencer, para quem o conhecimento científico seria “como uma esfera que cresce mergulhada em um oceano de ignorância”.

Melhor vestirmos os coletes salva-vidas.

22 de julho de 2019

Reactions: como o Facebook comercializa nossas emoções

Reportagem publicada recentemente pela Agência Pública revela o que está por trás daquelas “reactions” do Facebook que permitem ao usuário clicar em opções como “amei”, “hahaha” ou “triste”, além da tradicional ”curtir”.

A matéria cita um estudo sobre esses “recursos” feito pela pesquisadora Débora Machado, da Universidade Federal do ABC. A pesquisa analisou 39 patentes de ferramentas do Facebook voltadas para esse tipo de resposta.

A definição de uma dessas patentes, por exemplo, afirma que as características de personalidade deduzidas a partir das reações “são armazenadas junto aos perfis do usuário e podem ser usadas para mirar, ranquear e selecionar versões de produtos” a serem oferecidas a ele.

Outro exemplo é a patente que filtra postagens associadas a reações “desejadas”, como aniversários de postagens e de amizades. A partir disso, explica Débora, o Facebook pode privilegiar uma amizade em detrimento de outra ou dar preferência a certos tipos de publicações relacionados a determinados sentimentos. “E isso não necessariamente corresponde aos interesses do usuário”, afirma.

Claro que não. O objetivo, aqui, é apenas um: vender. Afinal, diz a reportagem:

Saber quais são as emoções dos usuários é útil para anunciantes. Os anúncios são a principal fonte de renda do Facebook, representando US$ 14,91 bilhões no primeiro semestre de 2019 – 98,8% da receita. Das 130 patentes com a palavra “emoção” registradas pela plataforma, 109 (84%) contêm também a palavra “propaganda” em suas descrições.

A pesquisa confirma o alto grau de manipulação implícita a que monopólios digitais como Facebook e Google sujeitam seus usuários.

E vai continuar sendo assim enquanto nos limitarmos a reagir, clicando a opção “Grrr”.

Leia também: Facebook, um psicopata de 15 anos

27 de maio de 2019

O que fazer na era das redes virtuais?

Narendra Modi acaba de ser reeleito premiê da Índia. Seu partido é o Bharatiya Janata (BJP), que tem entre seus principais objetivos o de transformar a Índia em uma teocracia hindu.

Para alcançar esse objetivo, as lideranças do BJP não hesitam em promover perseguições à imensa população de muçulmanos do país. O desprezo às mulheres também é outra característica dos membros do partido.

Amit Shah é presidente do BJP. Em recente reportagem, a Folha cita suas palavras sobre como a organização utiliza as redes virtuais na disputa eleitoral:

O primeiro passo é coletar dados de todos os programas de ajuda do governo no nível estadual e distrital. O segundo passo é comparar os dados com os do governo anterior. O terceiro passo é criar conteúdo que tenha apelo para esses eleitores.

Em Déli, por exemplo, o BJP acessou endereços de 500 mil beneficiários de um programa de qualificação de jovens. Seus membros visitaram as casas deles, pediram votos e os incluíram em grupos de mensagens por WhatsApp.

O partido também está solicitando acesso aos dados dos beneficiários dos programas governamentais de gás e eletricidade. A legislação do país permite que qualquer legenda possa fazer isso. Mas, até agora, só o BJP tomou a iniciativa.

A esquerda tem muito a aprender com essa experiência, desde que orientada por valores libertários e socialistas. O que inclui o repúdio à utilização de mentiras, calúnias, linchamentos e ataques à privacidade.

Este é mais um exemplo que mostra como, na era das tecnologias ultramodernas, são os conservadores mais arcaicos que vêm sabendo responder àquela famosa pergunta de Lênin.

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23 de maio de 2019

Os necropoderes do Facebook

O escritor de literatura fantástica Ray Bradbury escreveu um livro cujo título é “Morte é uma transação solitária”. Parece que já não é mais assim. Pelo menos, é o que se deduz de matéria publicada na Folha em 18/05/2019.

O título da reportagem de Felipe Arrojo Poroger afirma: “Mortos seguem vivos e continuam a fazer amigos no Facebook”. Um exemplo envolve um jovem escocês, morto há sete anos:

Scott Taylor não envelhece. Em seu perfil virtual, estão guardados vídeos, fotos, mensagens. A identidade que o garoto quis construir para si mesmo e transmitir ao mundo continua intacta, em um domínio seguro protegido contra a ação do tempo. Sua sobrevivência virtual tornou-se, assim, um convite para que pais e colegas continuassem depositando suas saudades.

“A página era uma das únicas coisas que tínhamos dele”, declarou a mãe do garoto.

Apesar de estranho, o fenômeno deve se generalizar. Segundo a reportagem, estima-se que, em 2098, haverá mais mortos do que vivos no Facebook. “Pensada como lugar de encontros, a rede social extrapola aos poucos seu propósito para transformar-se em cemitério virtual”, diz Poroger.

Mas se a morte deixa de ser uma questão tão individual, tão privada, ela também passa a ser privatizada. Afinal, o tal cemitério está sob administração do maior monopólio de comunicação da história.

O Facebook obtém seus lucros da apropriação que faz de nossos dados pessoais 24 horas por dia. Ao mesmo tempo, nos tornou dependente dele.

Scott Taylor morreu, mas sua página continua gerando informações na rede virtual. O capitalismo aperfeiçoou-se a ponto de continuar a explorar nossas vidas, mesmo depois de seu fim.

Leia também:
Facebook, partidos digitais, “tecnopólio”

20 de maio de 2019

Contra as tecnologias de adaptação, tecnologias rebeldes

Pawel Kaczynsku
Aplicativo GPS que alerta sobre trajetos perigosos nas grandes cidades.

Programa de mensagens virtuais utilizado por seus membros para criar uma rede de vigilância sobre atividades suspeitas em sua vizinhança.

Software de transporte urbano que barateia a força de trabalho de dezenas de milhares de motoristas no caótico trânsito das grandes cidades.

Esses são apenas alguns exemplos de ajustamentos cotidianos à grave situação de violência urbana, concentração de renda, destruição de empregos e desigualdade social presentes na vida contemporânea.

São “Tecnologias de Adaptação”, segundo a definição de Evgeny Morozov, em artigo publicado recentemente no portal Outras Palavras. Para esse pesquisador bielorrusso que estuda os impactos das novas tecnologias na sociedade:

“Tecnologia de Adaptação”, contudo, é marca muito ruim para intitular conferências ou manifestos laudatórios. Ao invés disso, fala-se da “economia do compartilhamento” (com startups que ajudam os pobres a sobreviver, aceitando empregos precários ou alugando suas posses), da “cidade inteligente” (com os municípios entregando sua soberania tecnológica – em troca de serviços temporariamente gratuitos – às gigantes digitais), da “fintechs” (com bancos que emprestam para os mais jovens capturando e vendendo seus dados, apresentados como uma revolução de “inclusão financeira”).

Morozov cita o Brasil como um laboratório de inovação nesse tipo de tecnologia. Mas também no resto do mundo, elas “permitem que cidadãos sobrevivam em meio ao caos, sem demandar nenhuma transformação social”.

E qualquer transformação social, diz ele, passa pela quebra das gigantes tecnológicas, mas também pelo abandono das tecnologias de adaptação em favor de tecnologias rebeldes.

Afinal, se tecnologia é técnica mais ideologia, nós também temos a nossa. Precisamos acioná-la contra a deles.

Leia também: Tecnologia: amor, medo, luta de classes

6 de maio de 2019

O risco de nos tornarmos peixes vermelhos

Nos tornamos peixes vermelhos trancados no aquário das nossas telas, sujeitos ao cuidado de nossos alertas e de nossas mensagens instantâneas.

Estas palavras são de Bruno Patino, autor do livro “A Civilização do Peixe Vermelho”. Ainda sem tradução do francês, a obra denuncia a ilusão da utopia digital promovida pelos grandes monopólios das redes virtuais.

À reportagem de Fabienne Schmitt, publicada por “Les Echos”, em 18/04/2019, Patino cita as palavras de um dos fundadores da Web, Tim Berners-Lee:

Ninguém roubou nada, mas houve captura e acumulação. O Facebook, Google, Amazon, com algumas agências, são capazes de controlar, manipular e espionar como nenhum outro antes.

O autor concorda e acrescenta:

Os novos impérios construíram um modelo de servidão voluntária, sem ter consciência disso, sem tê-lo previsto, mas com uma determinação implacável. No coração do reator não há um determinismo tecnológico, mas um projeto econômico que reflete a mutação de um novo capitalismo. No coração do reator está a economia da atenção.

Patino até acha possível encontrar um caminho para sair dessa situação:

Esse caminho possível é a vida em sociedade. Mas não podemos abandonar a essas plataformas o cuidado de se organizarem sozinhas, se quisermos que ela não seja povoada de humanos com um olhar hipnótico que, acorrentados às suas telas, não conseguem mais olhar para cima.

Para encerrar, a reportagem explica a metáfora utilizada pelo escritor:

De acordo com a Associação Francesa do Peixe Vermelho, “ele é feito para viver em bando, entre vinte e trinta anos, e pode chegar a 20 centímetros. O aquário atrofiou a espécie, acelerou a mortalidade e destruiu a sociabilidade...”

Leia também:

29 de abril de 2019

Facão, pistola, carabina e redes virtuais

O conto “O Cobrador”, de Rubem Fonseca faz parte de um livro de mesmo nome lançado em 1979. O personagem principal explica qual é a dívida da qual se considera credor:

...está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo.

A lista inclui também:

...colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol.

Ele descreve alguns de seus instrumentos de cobrança:

...tenho a Magnum com silenciador, um Colt Cobra 38, duas navalhas, uma carabina 12, um Taurus 38 capenga, um punhal e um facão. Com o facão vou cortar a cabeça de alguém num golpe só.

E dá um exemplo de como costuma executar suas dívidas:

...o facão fazia seu curto percurso mutilante zunindo fendendo o ar, eu sabia que ia conseguir o que queria. Brock! a cabeça saiu rolando pela areia. Ergui alto o alfange e recitei: Salve o Cobrador! Dei um grito alto que não era nenhuma palavra, era um uivo comprido e forte, para que todos os bichos tremessem e saíssem da frente. Onde eu passo o asfalto derrete.

Quando sua “cólera” está diminuindo, diz ele, “e eu perco a vontade de cobrar o que me devem eu sento na frente da televisão e em pouco tempo meu ódio volta.”

E conclui, “sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo”.

Após 40 anos, o livro está mais atual do que nunca. Só falta incluir no arsenal do Cobrador um celular e uma conexão nas redes virtuais.

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22 de fevereiro de 2019

A guerra de guerrilhas do clã Bolsonaro

Logo após demiti-lo, Bolsonaro divulgou um vídeo elogioso a Gustavo Bebianno. Mas o pronunciamento não apareceu nas redes virtuais dos bolsonaristas mais fiéis.

Ao contrário, reportagem de Daniela Lima, publicada na Folha em 20/02/2019, relata que filhos e pessoas próximas a Bolsonaro retrataram Bebianno como traidor, agente infiltrado, quinta coluna, conspirador aliado à “grande mídia”...

A conduta corresponde ao que diz Pedro Dória em artigo publicado no Globo, em 24/01/2019. Segundo ele, a estratégia digital do clã Bolsonaro busca alcançar objetivos muito claros. Um deles é:

...agir sobre as conversas, interromper o diálogo. Qualquer um que critique o presidente é imediatamente inundado de respostas, em geral ataques duros e com poucas palavras até para padrões do Twitter. E a enchente de respostas torna impossível filtrar no meio quais os comentários interessantes, quem de fato buscava o diálogo. Ataques sistematizados assim, nos quais a turba é orientada a apontar para uma pessoa e bombardear, correspondem a uma das formas modernas de censura. Cala-se não proibindo a fala, mas fazendo com que ela desapareça no ruído.

Mas o mais importante nisso tudo é “municiar de argumentos sua própria militância quando precisa lidar com críticas”. E, com isso, mantê-la “em constante estado de alerta”.

Ou seja, trata-se de manter um grupo de fanáticos em constante mobilização para travar uma espécie de guerra de guerrilhas. Tendo entre seus principais alvos não apenas a oposição, mas a grande mídia e outros setores da burguesia não totalmente alinhados ao governo.

Não temos nada a aprender com o fanatismo e as mentiras bolsonaristas. Mas alguma coisa sobre guerras de guerrilhas pelas redes, talvez.

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