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30 de outubro de 2024

Um Marx não branco e periférico

Em 1703, aqueles sóbrios expoentes do protestantismo, os puritanos da Nova Inglaterra, por meio de decretos, fixaram uma recompensa de 40 libras por cada escalpo indígena e cada pele vermelha capturados; em 1720, fixou-se uma recompensa de 100 libras por cada escalpo; em 1744, depois que a Baía de Massachusetts declarou uma tribo como rebelde, estabeleceram-se os seguintes preços: pelo escalpo de um homem de 12 anos ou mais, 100 libras esterlinas; por um prisioneiro homem, 105 libras; por prisioneiros mulheres e crianças, 50 libras...

O trecho acima é do capítulo 24, volume 1, de “O Capital”. Foi citado no artigo Marx e os Povos originários, recentemente publicado por John Bellamy Foster, Brett Clark e Hannah Holleman. O texto demonstra como Marx denunciou firmemente toda a brutalidade do processo histórico que deu origem ao capitalismo e o mantém ainda hoje. Mas Marx também encontrou na organização social igualitária e solidária dos indígenas elementos fundamentais para inspirar a construção de uma sociedade radicalmente justa.

Não à toa, diz o artigo, Marx estudou obras como "As Raças Nativas dos Estados do Pacífico da América do Norte", de Hubert Howe Bancroft, sobre os indígenas do sudeste do Alasca e do noroeste do Pacífico. Também dedicou-se à leitura de pesquisas sobre os Delaware, Iroqueses, Mohegan, Cree, Chickasaw, Choctaw, Cherokee, Seminole, Dakota, Pawnee, Fox, Blackfoot e muitos outros povos indígenas. Sem falar nas investigações sobre a comuna russa e a história da Índia.

Ou seja, Marx foi um dos primeiros a entender que a luta pela emancipação universal da humanidade tem muito a aprender com sociabilidades não brancas e periféricas.

Leia também: Os idiomas artificiais e o extermínio das línguas indígenas

2 de julho de 2024

Festas juninas, festejos indígenas

O mês de junho recém partiu, levando embora os festejos de arraial. Mas como as brasas das fogueiras continuam quentes, ainda há tempo de trazer uma informação que, talvez, seja desconhecida por muita gente. As festas juninas têm a ver mais com tradições indígenas do que com costumes europeus.

É o que mostra recente reportagem do portal G1, segundo a qual:

Antes da chegada dos colonizadores, o mês de junho já era especial para indígenas que viviam pelo Nordeste. Por isso, diversos elementos do São João nordestino são associados à ancestralidade originária.

Os povos Cariri, Tarairiú e Tupi, por exemplo, agradeciam os frutos da colheita com festejos organizados, em geral, por volta de junho.

Mas para os cariris, assim como para os tarairiús, a festa também comemorava o início de um novo ano, marcado pelo aparecimento das estrelas plêiades. Era a festa de Batí ou festa da “Estrela”, no idioma cariri.

Claro que os colonizadores fizeram tudo para suprimir essas tradições locais. Como, de resto, aconteceu com muitas outras características culturais fundamentais dos povos originários.

Mas na própria Europa, houve um processo parecido em relação às tradições populares consideradas pagãs, incluindo as próprias festas juninas de lá. A reportagem cita o professor da Universidade Federal da Paraíba, Ângelo Antônio:

A gente sabe que ali nos primeiros séculos do cristianismo houve uma acoplagem desse calendário pagão, que estava muito ligado aos ritos de passagem das estações, das colheitas, rituais de fertilidades, e que vão sendo de uma maneira ou de outra reapropriados pela lógica católica.

E assim caminha a chamada civilização. Atropelando e apagando importantes tradições populares.

Leia também: Os idiomas artificiais e o extermínio das línguas indígenas

29 de fevereiro de 2024

Os idiomas artificiais e o extermínio das línguas indígenas

Klingon: Star Trek. Dothraki: Game of Thrones. Nadsat: Laranja mecânica. Kryptoniano: Super-Homem. Na'vi: Avatar... Esta lista refere-se às línguas criadas para séries, filmes e livros de fantasia e ficção científica. Com menção especial para os idiomas Quenya, Sindarin e Élfico, inventados por J.R.R. Tolkien para a saga “Senhor dos Anéis”.

Fenômenos de massa, alguns desses idiomas artificiais estão disponíveis até em aplicativos de aprendizado de línguas estrangeiras. Ou seria melhor dizer alienígenas?

Mas o caso de Tolkien é específico. Ele criou os idiomas antes de inventar os povos que os utilizam. Faz todo sentido. Afinal, as formas simbólicas de comunicação de um povo dizem quase tudo sobre o que ele é, sua história, crenças, cultura, moral, religião. É por isso que entre as formas de dominação e extermínio cultural mais eficazes de um povo está a supressão de seu idioma. Um exemplo claro disso é a situação dos indígenas.

Calcula-se que quando os europeus invadiram as terras que atualmente chamamos Brasil, havia mais de 5 milhões de indígenas, falando cerca de 1.200 línguas. Hoje, esses idiomas foram reduzidos a um número entre 160 e 180. Uma das consequências disso é o baixo índice de pessoas que se identificam como indígenas na população brasileira. Ao massacre físico desses povos juntou-se seu extermínio simbólico. Um etnocídio.

Na esfera do entretenimento comercial, o capitalismo se apropria dos mundos criados pela fantasia humana para gerar cada vez mais lucros, beneficiando cada vez menos gente. Ao mesmo tempo, utiliza o extermínio cultural para eliminar mundos incompatíveis com sua lógica destruidora da vida e produtora de injustiça social.

Leia também: No pós-apocalipse, sob orientação indígena

1 de setembro de 2023

Marco temporal: atualizando o apocalipse indígena

Grande parte do registro arqueológico da contemporaneidade é constituída por ruínas. Nenhum outro período da história produziu tantas delas, tão diferentes e tão rapidamente, afirma Alfredo González-Ruibal em seu livro “Uma arqueologia da era contemporânea”.

Mas é melhor entender “ruína” como um verbo, em vez de um substantivo, porque trata-se de um processo, não de um estado, diz ele.

Os habitantes urbanos ocidentais costumam imaginar o apocalipse como cidades desertas, mas para muitas comunidades indígenas e camponesas em todo o mundo o apocalipse são as metrópoles lotadas. Apocalipse para essas populações é a destruição do mundo delas pelo nosso.

Eric Hobsbawm, lembra o arqueólogo, afirmou que, da perspectiva de um futuro historiador, as guerras mundiais pareceriam um acontecimento relativamente menor no século 20. O que os estudiosos de amanhã verão com mais clareza é o desaparecimento das sociedades agrárias que predominaram nos últimos oito mil anos. Os arqueólogos não precisam esperar pelo futuro. Podem compreender no presente as consequências desta interrupção fatal de sociedades que anteriormente foram extremamente resistentes.

Da China ao Peru, sistemas sociais foram dizimados pelas multinacionais do agronegócio, pelo êxodo urbano e pela modernização predatória do campo. A modernidade colonial e pós-colonial fraturou uma paisagem em padrões de povoamento que permaneceram pouco alterados durante muitos séculos.

Todo um sistema desmoronou em apenas algumas décadas: casas, arados, caminhos, celeiros, palheiros, moinhos d’água, capelas, curtumes, cercas e todos os outros elementos imagináveis que sustentavam as paisagens rurais tradicionais desapareceram num piscar de olhos, conclui.

Seguindo esse raciocínio, podemos dizer que a imposição do marco temporal é mais uma tentativa de atualizar o apocalipse indígena.

Leia também: Antropologia anarquista antifascista

24 de agosto de 2023

No pós-apocalipse, sob orientação indígena

Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), da ONU, o número de indígenas no mundo é maior que o da população estadunidense, terceira maior do planeta.

São cerca de 370 a 500 milhões de indígenas, espalhados por 90 países. Eles vivem em todas as regiões geográficas e representam 5 mil culturas diferentes.

Quase 70 milhões de mulheres e homens indígenas dependem das florestas para sua subsistência, e muitos outros são agricultores, caçadores ou pastores.

As florestas onde vivem armazenam pelo menos um quarto de todo o carbono das florestas tropicais. Isso equivalia a quatro vezes o total de emissões globais de carbono em 2014.

Seus valores de respeito à natureza, solidariedade comunitária e práticas sustentáveis contrastam fortemente com os modos de vida da grande maioria da humanidade. Também se revelam muito mais adequados para fazer frente à crise não só ambiental, como social, cultural e até espiritual que castiga o mundo contemporâneo.

Diante dos desastres climáticos, envenenamento ambiental, esgotamento de recursos, injustiça social deveríamos olhar para eles como modelos. Ao invés disso, não paramos de desalojá-los, humilhá-los, matá-los.

Tornou-se costume dizer que é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo. Os indígenas não têm esse problema. O apocalipse para eles chegou há séculos. Agora, assistem o capitalismo arrastar grande parte da humanidade para o abismo.

Se não conseguirmos impedir o pior, alguns de nós sobreviverão entre os escombros de uma civilização suicida. E, quem sabe, as várias nações indígenas espalhadas pelo mundo nos ensinarão como superar o apocalipse com dignidade, sabedoria e esperança.

Leia também: Vidas indígenas também importam

3 de agosto de 2022

As desculpas vazias do Papa aos indígenas

No final de julho, o Papa Francisco, em visita ao Canadá, pediu desculpas a representantes indígenas locais pela participação da Igreja Católica no processo de violência cultural e repressão física aos povos nativos, desde o início da invasão europeia das terras americanas até meados do século passado.

Os indígenas agradeceram a gentileza, mas responderam que o papa precisava incluir a revogação da “doutrina do descobrimento” no pedido de desculpas. Referiam-se a três bulas papais que concederam aos reis “permissões”, como o direito de conquistar as terras dos povos indígenas, impor-lhes o cristianismo e torná-los seus escavos.

Em maio de 2015, representantes de povos indígenas de várias partes do mundo promoveram “A Longa Marcha para Roma”. No Vaticano, reuniram-se com Francisco para exigir que ele revogasse essa doutrina.

Kenneth Deer, do povo Mohawk, estava presente e disse que “ele manteve contato visual e foi muito atencioso. Mas limitou-se a dizer: 'Vou orar por vocês'. Depois, me deu uma caixinha vermelha com um rosário dentro. E foi isso.”

E é desse modo que se comporta o Papa mais progressista da Igreja Católica em muitas décadas. Suas posturas individuais são muito melhores que as de vários de seus antecessores, mas isso quase não faz diferença em relação ao funcionamento da instituição que chefia ou deveria chefiar.

Outro exemplo é a discriminação contra os homossexuais. O Papa afirma que eles devem ser tratados como filhos de Deus, mas deixou aos padres decidirem sobre sua aceitação como verdadeiros católicos. O que não ajuda muito. Até porque mesmo os piores pecadores são filhos de Deus. Inclusive, os Papas.

Leia também: O amor e seu oposto, o Vaticano

18 de maio de 2022

A resistência indígena desafia também a velha esquerda

Voltamos a falar do jornalista e escritor uruguaio Raúl Zibechi. Desta vez, trata-se de recente entrevista em que ele anuncia seu último livro: “Mundos otros y pueblos en movimiento. Debates sobre anti-colonialismo y transición en América Latina”.

No depoimento, Zibechi faz várias afirmações interessantes. Alerta, por exemplo, para a existência de dezenas de povos que estão percorrendo “caminhos de autonomia e autogestão”. Segundo ele, no norte do Peru, foram formados dois Governos Territoriais Autônomos, da nação wampis e da nação awajún. “São mais de 100 mil habitantes que optaram pelo autogoverno para frear a pilhagem da floresta”.

No Brasil, continua Zibechi, são doze povos amazônicos demarcando seus territórios frente à ofensiva dos extrativismos e à conivência do Estado. “Sendo 1% da população, os indígenas são a ponta de lança na resistência a Bolsonaro”, diz.

Zibechi acredita que tais movimentos de resistência passam quase despercebidos pelos que “vieram do marxismo”. Afinal, diz, “seguimos apegados à ideia de revolução centrada na conquista do poder estatal, na construção de partidos e organizações hierárquicas, no planejamento dos passos a serem dados (estratégia e tática) por um grupo de homens brancos ilustrados, na separação da ética da política para priorizar os fins acima dos meios, a ação pública acima do crescimento interior...”

Desse modo, afirma, acabamos por nos colocar “em uma posição de superioridade moral que é terrível, porque nos transforma em um ser apegado a supostas verdades eternas. Esse sentimento é tão forte, traz tanta segurança, que não é mais necessário compreender o mundo, e essa atitude acaba nos afastando das pessoas comuns”.

O tom é provocativo, mas justo.

Leia também: A resposta zapatista frente ao genocídio capitalista

15 de fevereiro de 2022

Salve a carnavalesca e milenar resistência popular!

É comum debater se o carnaval e outras festas populares têm realmente um caráter subversivo ou, na verdade, são eventos que permitem às pessoas comuns dar vazão aos seus anseios por liberdade antes de retornar aos hábitos cotidianos de submissão.

Para David Graeber e David Wengrow, porém, acontecimentos desse tipo mantêm viva “a velha centelha da autoconsciência política”. Em seu livro “O Amanhecer de Tudo”, eles lembram que o Primeiro de Maio foi escolhido como a data da luta internacional dos trabalhadores em grande parte porque, historicamente, muitas revoltas camponesas britânicas começaram naquele dia, que inaugurava um festival desenfreado. Para muitas sociedades, dizem eles, esses momentos festivos podem ser lidos como uma verdadeira “enciclopédia de formas políticas possíveis”.

Para concluirmos estas pílulas, uma última citação:

Está claro agora que as sociedades humanas antes do advento da agricultura não estavam confinadas a pequenos bandos igualitários. Pelo contrário, o mundo dos caçadores-coletores, tal como existia antes do advento da agricultura, estava cheio de experimentos sociais ousados, assemelhando-se muito mais a um desfile carnavalesco de formas políticas do que às abstrações monótonas da teoria evolucionária. A agricultura, por sua vez, não significou o surgimento da propriedade privada, nem marcou um passo irreversível para a desigualdade. De fato, muitas das primeiras comunidades agrícolas eram relativamente livres de divisões e hierarquias. E longe de tornar as diferenças de classe cláusulas pétreas, muitas das primeiras cidades do mundo foram organizadas em linhas fortemente igualitárias, sem necessidade de governantes autoritários, ambiciosos políticos-guerreiros ou mesmo administradores mandões.

Sendo assim, que as alas se abram para dar passagem à persistente e milenar resistência popular!

Até março.

Leia também: O verdadeiro sentido do conceito de civilização

14 de fevereiro de 2022

O verdadeiro sentido do conceito de civilização

Certo senso comum científico afirma que grandes populações não podem funcionar sem soberanos que tomam as decisões, executivos que as colocam em prática e burocratas que as administram. Além, claro, de algum tipo de monopólio de força repressiva.

Exemplos clássicos desses arranjos seriam as sociedades do Egito Antigo. Mas no livro “O Amanhecer de Tudo”, David Graeber e David Wengrow questionam tais afirmações. O problema, dizem eles, é que as evidências disponíveis mostram que os agricultores egípcios eram perfeitamente capazes de coordenar sozinhos a gestão das águas e, na maioria dos casos, os burocratas não se envolviam nesses assuntos. Enquanto isso, muitos soberanos simplesmente não se importavam com a forma como seus súditos mantinham seus sistemas hídricos.

Na verdade, dizem nossos autores, os primeiros sistemas de controle administrativo surgiram em comunidades muito pequenas. A primeira evidência clara disso aparece em vários pequenos assentamentos pré-históricos no Oriente Médio, por volta de 7.400 aC. Mais de 2 mil anos antes do aparecimento de qualquer coisa que lembrasse uma cidade.

Ao mesmo tempo, no império Inca, por exemplo, existiam comunidades chamadas Ayllus, que tinham como uma das principais funções redistribuir terras agrícolas entre as famílias, para garantir que nenhuma ficasse mais rica do que a outra.

Segundo Graeber e Wengrow, em muitas partes do mundo e em várias épocas, surgiram iniciativas comunitárias que buscavam realizar o verdadeiro sentido do conceito de civilização. No interior ou nas franjas de grandes estados, lutavam contra o poder de reis, burocratas e exércitos, tentando promover justiça social e crescimento igualitário.

Resgatar tais experiências é apostar no melhor da humanidade.

Concluiremos na próxima pílula.

Leia também: As mulheres cientistas do neolítico

11 de fevereiro de 2022

As mulheres cientistas do neolítico

“Sobre as mulheres cientistas” é o nome de um dos capítulos do livro “O Amanhecer de Tudo”, de David Graeber e David Wengrow. Nele, nossos autores dizem que as mulheres foram responsáveis por grande parte do trabalho intelectual e braçal nos primeiros experimentos humanos na manipulação de vegetais.

Muito pouco do que foi feito culturalmente com plantas sobrevive desde os tempos pré-históricos, afirmam. Mas onde existem evidências, elas apontam para fortes associações entre mulheres e conhecimento baseado em plantas. E não apenas como atividade prática, mas também no desenvolvimento de formas abstratas de conhecimento.

Tecidos, cestaria, redes, esteiras e cordames foram muito provavelmente desenvolvidos em paralelo com o cultivo de plantas comestíveis, o que implica também o desenvolvimento da matemática e geometria envolvidas em tais ofícios.

Em vez de campos fixos, elas exploravam solos aluviais nas margens de lagos e nascentes, que mudavam de local de um ano para outro. Em vez de cortar madeira, arar campos e carregar água, elas encontraram maneiras de “persuadir” a natureza a fazer grande parte desse trabalho por elas. A sua não era uma ciência de dominação e classificação, mas de dobrar e persuadir, nutrir e adular, ou mesmo enganar as forças da natureza, para aumentar a probabilidade de garantir resultados favoráveis. Seu "laboratório" era o mundo real da flora e fauna. Um modo de cultivo muito bem sucedido.

As mulheres neolíticas, concluem Graeber e Wengrow, transformaram um mundo sem laboratórios em um mundo em que os laboratórios estão potencialmente em todo e qualquer lugar.

Em tempos de colapsos ambientais, imprescindível resgatar o enorme potencial desse modo feminino de ecologia.

Leia também: Comunismo primitivo e muito sofisticado

10 de fevereiro de 2022

Comunismo primitivo e muito sofisticado

Engels usou os iroqueses como exemplo do comunismo primitivo em sua obra “A Origem da Família, Propriedade Privada e Estado”, de 1884. David Graeber e David Wengrow dizem em seu livro “O Amanhecer de Tudo” que o conceito de “comunismo”, neste caso, se refere à propriedade comunal, particularmente de recursos produtivos.

No entanto, os autores propõem usar a palavra não como um regime de propriedade, mas no sentido original de “de cada um de acordo com suas habilidades, a cada um de acordo com suas necessidades”.

Na visão ameríndia, a liberdade individual estava ligada a certo nível de "comunismo de base", dizem Graeber e Wengrow. Afinal, pessoas que passam fome ou não têm roupas adequadas ou abrigo em uma tempestade de neve não são realmente livres para fazer muito além de se manterem vivas. Já a concepção europeia-colonizadora de liberdade individual ficou inevitavelmente ligada à propriedade privada.

Na sociedade em que vivemos, a produção abundante de alimentos torna pouco dispendioso eliminar totalmente a fome, por exemplo. Mas as relações sociais vigentes não permitem. E não se trata apenas de um problema de distribuição desigual de recursos. Trata-se também de desigualdade na liberdade de acessar uma riqueza produzida por todos.

Registros antropológicos mostram que muitas sociedades na história humana permitiram que seus membros garantissem uns aos outros os meios para uma vida autônoma. Ou pelo menos assegurassem que nenhum homem ou mulher se subordinasse a outro. Na medida em que podemos falar de comunismo, dizem nossos autores, ele existiu não em oposição, mas em apoio à liberdade individual.

Comunismo primitivo? Pode até ser, mas muito sofisticado.

Leia também: Entre os ameríndios, possuir está subordinado a cuidar

9 de fevereiro de 2022

Entre os ameríndios, possuir está subordinado a cuidar

Ao discutir o conceito de propriedade em seu livro “O Amanhecer de Tudo”, David Graeber e David Wengrow lembram que entre muitos povos ameríndios:

Muitas vezes, os verdadeiros “donos” da terra ou de outros recursos naturais eram deuses ou espíritos. Humanos mortais são meramente posseiros, caçadores eventuais ou, melhor ainda, zeladores.

Não é incomum, dizem eles, que etnógrafos que trabalham com sociedades indígenas amazônicas descubram que quase tudo ao seu redor tem um dono, de lagos e montanhas a cipós e animais. Mas tal propriedade sempre carrega um duplo sentido: quem possui, tem o dever de cuidar.

Muito diferente da concepção de propriedade segundo o direito romano, que fundamenta muito do que se tornou a legalidade ocidental. Nela, a posse é definida segundo três direitos básicos: “usus” (o direito de usar), “fructus” (o direito de usufruir dos produtos de uma propriedade, por exemplo, o fruto de uma árvore) e “abusos” (o direito de danificar ou destruir). Se alguém tiver apenas os dois primeiros direitos, não é considerado legítimo proprietário. Propriedade verdadeira, portanto, seria a que apresenta a possibilidade de destruí-la.

É esta ideia de propriedade que acabou prevalecendo no mundo ocidental e foi imposta ao restante do planeta. E olhando para a destruição ambiental que nos rodeia, difícil discordar de que segundo essa lógica, propriedade e destruição são sinônimos.

Reafirmando o que disseram Graeber e Wengrow, entre muitos povos ameríndios, os seres humanos são meros zeladores dos recursos naturais. Mas, infelizmente, no caso dos povos marcados pelas tragédias da colonização, não há zelo capaz de proteger a eles e ao restante da natureza.

Leia também: As sofisticadas concepções indígenas sobre propriedade

8 de fevereiro de 2022

As sofisticadas concepções indígenas sobre propriedade

Ao discutir o conceito de propriedade entre os povos não europeus em seu livro “O Amanhecer de Tudo”, David Graeber e David Wengrow lembram que:

A apropriação colonial de terras indígenas muitas vezes começou com alguma afirmação geral de que populações formadas por caçadores-coletores realmente viviam em um estado de natureza – o que significava que elas eram consideradas parte da terra, mas não tinham o direito de possuí-la.

Em 1690, John Locke publicou o “Segundo Tratado do Governo”, argumentando que o direito de propriedade é natural e deriva necessariamente do trabalho. Portanto, terras usadas apenas para caça e coleta foram consideradas vagas e passíveis de serem apropriadas pelos colonizadores. Quem se opusesse estaria violando uma lei natural. Poderia ser punido, eliminado ou escravizado.

No entanto, dizem Graeber e Wengrow, o que parecia aos colonizadores uma selva intocada geralmente eram terrenos ativamente manejados por populações originárias há milhares de anos por meio de queimadas controladas, capina, fertilização e poda. Além de prepararem terraços para estender o habitat de determinadas plantas, jardins de moluscos para melhorar a reprodução de mariscos, açudes para pescar algumas espécies de peixe, e assim por diante.

O fato, concluem eles, é que os povos forrageiros (caçadores-coletores) tinham concepções extraordinariamente complexas e sofisticadas de propriedade. Às vezes, esses sistemas formavam a base para um acesso diferenciado aos recursos, resultando em algo como classes sociais. Geralmente, porém, esse processo não se consolidava, porque essas sociedades procuravam impedir que surgisse um poder coercitivo.

Na próxima pílula, como os povos indígenas se relacionam com a terra e a natureza se comportando como seus meros zeladores.

Leia também: Agricultura, sem desigualdade e dominação de classe

7 de fevereiro de 2022

Agricultura, sem desigualdade e dominação de classe

Estudos recentes mostram que povos inclinados a expandir a agricultura de forma sustentável, sem privatizar a terra ou entregar sua gestão a uma classe de capatazes, sempre encontraram maneiras de fazê-lo.

Posse comunal, redistribuição periódica de glebas e manejo cooperativo de pastagens não são particularmente excepcionais na história humana e foram praticados com frequência durante séculos.

No Neolítico, os povos da Grã-Bretanha, tendo adotado a economia agrícola, parecem ter abandonado o cultivo de cereais e retornado, por volta de 3.300 a.C., à coleta de avelãs como fonte básica de alimento vegetal. Por outro lado, mantinham seus porcos domésticos e rebanhos de gado.

Esse tipo de relação com a natureza existiu em toda a Europa, das Terras Altas da Escócia aos Balcãs, antes e em tempos recentes. E seria possível citar outros exemplos, como o sistema “mash'a” palestino ou o “subak” balinês.

Mesmo em partes do continente americano, a tendência geral por cerca de 500 anos antes da chegada dos europeus foi o abandono gradual do cultivo do milho e do feijão, em alguns casos, realizado há milhares de anos, e o retorno a um modo de vida forrageiro (coletor-caçador).

Todos esses povos parecem não ter sido forrageadores nem pastores, mas algo intermediário. E mostrariam que a adoção da agricultura não leva necessariamente à propriedade privada, desigualdade social e formação de hierarquias rígidas sustentadas por estados.

Pelo menos, é o que defendem David Graeber e David Wengrow no livro “O Amanhecer de Tudo”. Para eles, acreditar no contrário seria reduzir a história humana a um rígido determinismo eurocêntrico e anacrônico.

Nas próximas pílulas, a propriedade privada.

Leia também: Indígenas: extremamente politizados

4 de fevereiro de 2022

Indígenas: extremamente politizados

Em 1948, Lévi-Strauss publicou “Família e Vida Social entre os Nambikwara”, sobre os indígenas que habitam o noroeste de Mato Grosso. No livro “O Amanhecer de Tudo”, David Graeber e David Wengrow descrevem como o grande antropólogo e filósofo se surpreendeu com a maturidade política daquele povo. Com a habilidade de seus chefes em dirigir a comunidade e tomar decisões rápidas em situações de crise, desempenhando com competência e sofisticação o papel de mediadores e diplomatas.

Os autores admitem que vários estudos demonstram que os humanos herdaram de seus ancestrais símios uma tendência instintiva para a dominação e submissão. Mas o que torna nossas sociedades diferentes, dizem eles, é exatamente a capacidade de tomar a decisão consciente de não agir assim.

Aristóteles estava certo quando descreveu os seres humanos como “animais políticos”. E a essência da política, afirmam Graeber e Wengrow, é a capacidade de refletir conscientemente sobre as diferentes direções que uma sociedade pode tomar e de apresentar argumentos sobre por que ela deve seguir um caminho em vez de outro.

Cerca de 6 mil anos separam o surgimento dos primeiros lavradores no Oriente Médio e o aparecimento do que seriam os primeiros estados. Nesse meio tempo, claro que surgiram relações fortemente hierárquicas em sociedades agrícolas, mas também muita resistência a elas.

Na década de 1960, o antropólogo francês Pierre Clastres escreveu sobre sociedades indígenas que são contra o Estado, mas não são apolíticas. Nelas, ser chefe é mais um fardo que um privilégio. Muitas responsabilidades, poucos benefícios. Não adianta dar ordens. É preciso convencer.

Ou seja, comparados aos povos europeus, são extremamente politizados.

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O homem branco em estado de natureza
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3 de fevereiro de 2022

O homem branco em estado de natureza

Em estado de natureza, “o homem é o lobo do próprio homem”, disse o filósofo Thomas Hobbes, em sua famosa obra “Leviatã”, de 1651.

Segundo David Graeber e David Wengrow, no livro “O Amanhecer de Tudo”, essa ideia prevaleceu por séculos em relação aos chamados povos primitivos. Para os intelectuais vitorianos, por exemplo, a noção de pessoas buscando conscientemente construir uma ordem social mais justa simplesmente não era aplicável antes da era moderna.

Eles afirmavam que os povos “primitivos” eram não apenas incapazes de autoconsciência política, como privados de pensamento totalmente consciente em nível individual. Seriam prisioneiros de uma “mentalidade pré-lógica”.

Em 1608, o padre francês Pierre Biard tentava evangelizar os Mi'kmaq, indígenas da Nova Escócia, atual Canadá. Mas para sua revolta descobriu que os nativos se consideravam melhores que os franceses, pois diziam:

...vocês estão sempre brigando e brigando entre si. Vivemos pacificamente. Vocês são invejosos e estão sempre caluniando uns aos outros. Vocês são ladrões e enganadores. São cobiçosos e não generosos nem gentis. Quanto a nós, se temos um pedaço de pão, o repartimos com o próximo.

Os Mi'kmaq afirmavam constantemente que eram "mais ricos" do que os franceses. Os franceses tinham mais posses materiais, admitiam, mas seu povo tinha bens mais valiosos: tranquilidade, conforto e tempo. E se escandalizaram quando souberam que havia muitos mendigos na França. Diziam que essa falta de caridade entre os brancos deveria envergonhá-los profundamente.

Como afirmam Graeber e Wengrow, é difícil evitar a impressão de que esses ameríndios viam os franceses como uma espécie em permanente estado hobbesiano de “guerra de todos contra todos”.

Leia também: Os iluministas aprendem com intelectuais ameríndios

2 de fevereiro de 2022

Os iluministas aprendem com intelectuais ameríndios

No livro “O Amanhecer de Tudo”, David Graeber e David Wengrow refutam a ideia de que o surgimento da agricultura e das cidades teria provocado o aparecimento da desigualdade social nas sociedades humanas.

Para começar, eles afirmam que a preocupação com a desigualdade social tem um marco importante na história contemporânea ocidental. Seria a publicação de “A Origem da Desigualdade entre os Homens”, de Jean-Jacques Rousseau, em 1755.

Ocorre, dizem eles, que esse famoso ensaio foi escrito para um concurso realizado na cidade de Dijon. Mas, afinal, por que uma questão como essa preocuparia a elite francesa em pleno século 18, sob domínio absolutista? Uma sociedade em que relações sociais igualitárias ainda estavam longe de se apresentar como um problema.

Graeber e Wengrow respondem lembrando que a Europa daquela época estava sob forte impacto da chegada dos colonizadores às Américas. O contato com os povos daquelas regiões inspirou, por exemplo, obras de iluministas importantes como Montaigne, Leibniz, Montesquieu. Nelas, era descrita a surpresa manifestada pelos nativos ameríndios frente à desigualdade social que encontraram na Europa.

O problema é que os depoimentos publicados nessas obras passaram a ser entendidos como invenções de seus autores para defender suas próprias concepções. Ou seja, seria preferível acreditar que filósofos europeus tiraram da própria cabeça algumas ideias originais e inquietantes do que admitir que elas foram transmitidas por intelectuais e pensadores provenientes das selvas e planícies americanas.

Por outro lado, acreditava-se que relações sociais mais igualitárias só seriam possíveis em sociedades tão primitivas como as dos macacos. Nas próximas pílulas, veremos que não é nada disso.

Leia também: Uma nova história da desigualdade

12 de abril de 2021

As mulheres iroquesas e o bafo da civilização

A última pílula comentava como Marx ficara impressionado com o poder das mulheres entre os iroqueses. Tais observações aparecem nos chamados “Cadernos Etnológicos”, que reúnem anotações sobre vários estudos antropológicos.

Veremos mais sobre essa questão no relato abaixo, retirado do artigo “Karl Marx and the iroquois”, de Franklin Rosemont.

Na verdade, entre os iroqueses, qualquer decisão final era tomada pelo Conselho de Chefes, inteiramente masculino. Mas às mulheres era permitido nomear um orador para expressar suas opiniões junto ao conselho e aprovar a nomeação de novos chefes.

Parece pouco, mas trata-se de “um grau de envolvimento social muito além do desfrutado pelas mulheres (ou homens!) de qualquer nação civilizada”, diz Marx. Afinal, ele está escrevendo em 1883. Nessa época, poucos países contavam com o sufrágio masculino universal e o voto feminino só começaria a ser respeitado amplamente muitas décadas depois.

Segundo Rosemont, essa tendência igualitária entre os sexos aparecia em registros referentes a várias outras sociedades ditas “primitivas”. Essa característica interessava muito a Marx. Afinal, quando jovem, ele escreveu em “A Sagrada Família” que a melhor forma de medir o progresso de qualquer sociedade é verificar o grau de liberdade e poder com que contam suas mulheres.

É por isso que ele argumenta em uma de suas anotações que "as comunidades primitivas tinham vitalidade incomparavelmente maior do que as sociedades semíticas, gregas, romanas e, posteriormente, as sociedades capitalistas". Acrescentando, ainda, que a sociedade iroquesa era muito mais elevada do que qualquer uma das sociedades "envenenadas pelo hálito pestilento da civilização".

Infelizmente, são essas últimas sociedades que continuam a prevalecer, sem nada perder de seu bafo insuportável.

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10 de abril de 2021

Marx e o poder das mulheres iroquesas

Os iroqueses são um povo nativo do norte do continente americano, ainda muito numeroso. Alguns aspectos de seu modo de viver mereceram destaque especial nos chamados “Cadernos Etnológicos”, de Karl Marx. Trata-se de anotações sobre estudos de vários antropólogos, feitas por ele em 1883, pouco antes de morrer.

Esse material só foi publicado em 1974. Portanto, muito tempo depois de consolidada a imagem de um Marx eurocêntrico entre seus críticos, mas também entre alguns de seus seguidores.

Os trechos comentados aqui são do artigo “Karl Marx and the iroquois”, de Franklin Rosemont, ainda sem tradução do inglês.

Entre os cientistas estudados por Marx, estava Louis Henry Morgan, cujas observações sobre os iroqueses ganharam atenção especial. Na verdade, diz Rosemont, elas constituem uma das maiores seções dentre as anotações de Marx.

No entanto, afirma o autor, não era apenas a organização social iroquesa que atraía Marx, mas sim todo um modo de vida que se contrapunha nitidamente à civilização industrial moderna, em várias dimensões.

Marx cita particularmente uma carta enviada a Morgan por um missionário que vivia entre os Sêneca, um dos povos iroqueses. Segundo o relato transcrito por Rosemont:

As mulheres eram a grande força entre os clãs, como em todos os outros lugares. Quando a ocasião exigia, elas não hesitavam em “arrancar os chifres da cabeça de um chefe”, expressão utilizada para o ato de mandá-los de volta às fileiras dos comandados. A nomeação original do chefe também sempre foi atribuição delas.

Então, as mulheres eram as verdadeiras chefas entre os iroqueses? Não exatamente. Mas esta questão ficará melhor esclarecida na próxima pílula.

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Errata: A primeira versão desta pílula dizia que o povo iroquês está "quase desaparecido". Graças à oportuna correção do camarada Sean Purdy, agora sabemos que os iroqueses vivem em grande número nas províncias canadenses de Ontário e Quebec e no estado de Nova York. E que suas reservas estão entre as maiores nos dois países, sendo bastante organizados e militantes.

9 de junho de 2020

Vidas indígenas também importam

Elas morrem de pandemias há 500 anos. E morrem de balas também. E de etnocídio, que é o nome que se dá para a destruição da cultura de um grupo étnico por outro. São as populações indígenas.

Os indígenas morreram de gripe, sarampo, varíola. Pestes trazidas pelo colonizador. E morreram do chumbo disparado por armas brancas. Muitos morreram culturalmente. E continuam a morrer todas as vezes que sua identidade fica escondida por trás do termo “cor parda”.

Eles estão perdendo suas vidas em velocidade ainda maior, agora, durante a pandemia. Continuam a perdê-las pela força bruta, mas também sutilmente pelo vírus. 


A mando do agronegócio, garimpeiros e madeireiros avançam sobre seus territórios carregando o covid. E novamente vão deixando a morte nas florestas.

Eles ensinaram o colonizador a tomar banho, mas mal têm água limpa para lavar as mãos. Muitos dos rios que os alimentaram e banharam por séculos foram transformados em esgotos pelo homem branco.

Aqueles que vivem mais isolados, formam comunidades muito unidas, muito solidárias. Mas um único deles que traga a peste depois de voltar da cidade a espalha imediatamente. A ajuda médica mais próxima fica a dias de navegação fluvial.

Eles sabem lutar. Resistem bravamente. Mas continuam a ser mortos pelo chumbo, pela depressão, pelo gado, pela soja e, agora, pelo covid.

E nós facilitamos essas vitórias racistas cada vez que deixamos um “pardo” perdido entre uma identidade negra improvável e uma identificação branca alienada. Cada vez que os abandonamos à política de eugenia que mata seus povos e destrói sua cultura.

Sempre que aceitamos que vidas indígenas também não importam.

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