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5 de junho de 2024

Do “doomscrolling” ao infocalipse

“Doomscrolling” é a palavra inglesa para o hábito de rolar imagens e notícias na tela do celular em busca de fatos negativos, tristes e deprimentes. Parece o antigo costume de “zapear” na TV em busca dos programas de notícias policiais mais escabrosos. Só que agora em maior velocidade e com oferta praticamente inesgotável.

Inesgotável porque os agentes produtores dessas imagens e informações são muitos. Em contrapartida, os centros distribuidores são bem menos. Não se trata dos inúmeros grupos de zap. Estes são apenas vetores que transmitem a doença.

O foco da moléstia são os poucos e poderosos monopólios de dados e algoritmos, como Facebook, Youtube, X... Esses abutres das redes virtuais precisam manter a atenção e a tensão dos usuários para extrair-lhes os dados e vender-lhes porcarias, enquanto os premia com ansiedade e depressão.

Outro efeito dessa situação é a infodemia, caracterizada pela Organização Mundial da Saúde como um “excesso de informações, algumas precisas e outras não, que torna difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa”.

Informação distorcida e alarmista não atenua situações críticas nem mitiga consequências de eventos negativos ou catastróficos. Ao contrário, torna-as ainda mais nocivas e graves.

Mas não podemos ignorar a base material de todo esse caos. É o capitalismo em sua fase de colapsos cumulativos. Colapso político, social, ambiental, moral, sanitário...

O lado mais perverso disso tudo é que o sistema nos massacra com suas mazelas, enquanto nos distrai e nos torna viciados nelas. Vai nos acostumando com a ideia de que o mundo pode até acabar, mas o capitalismo tem que continuar.

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A economia política das fake news

13 de novembro de 2023

A esquerda e sua fatal dependência das redes

“Sem nenhuma explicação, o YouTube excluiu nesta segunda-feira (30/10) o canal do Brasil de Fato RS e seu podcast De Fato”, diz uma nota do site do Brasil de Fato. “No final da tarde, a redação recebeu uma mensagem breve informando que a plataforma havia encontrado ‘violações graves ou repetidas de nossa política de spam, práticas enganosas e golpes. Por isso, removemos seu canal do YouTube’”, complementa a nota.

Felizmente, o canal já foi restabelecido. Mas que nos sirva de advertência. Há uns 10 anos, jamais imaginaríamos algo assim. Não havia a menor possibilidade de que qualquer um dos nossos veículos populares de esquerda viesse a integrar a grade de programação de uma Globo ou SBT.

Uma de nossas principais lutas sempre foi pela democratização dos meios de comunicação e o combate a seus monopólios. Só que eles continuam por aí, fazendo os estragos de sempre. E não apenas paramos de avançar nessa frente de combate, como nos deixamos enredar pelas redes virtuais controladas por monopólios ainda mais poderosos. Inicialmente, alimentamos a ilusão de que se tratava de um meio mais permeável a nossa militância. Mas fomos nós que nos tornamos ainda mais vulneráveis aos caprichos e desmandos desses gigantes da mídia cibernética.

Os grandes grupos tradicionais de comunicação ainda podem ter seus poderes questionados na condição de concessão pública. Youtube, Facebook, Google e assemelhados, nem isso. Foram se impondo ou comprando cumplicidade pelo alto e, com nossa ajuda, minando nossa resistência por baixo. Criaram um meio perfeito para o crescimento da extrema-direita e para nós, um ambiente muito tóxico, quase fatal.

Leia também: Da contracultura psicodélica às big techs neoliberais

17 de março de 2023

Demissões, barbárie e fascismo

Em 09/03/2023, a Meta, controladora de WhatsApp, Facebook e Instagram, anunciou uma “reestruturação global”. Nome pomposo para medidas que pretendem demitir 11 mil funcionários, ou 13% de sua força de trabalho.

Após o anúncio das demissões, as ações da Meta, que acumulavam queda de 70% na bolsa Nasdaq, de Nova York, começaram a subir e fecharam em alta de 5%.

A mera perspectiva de demissões em massa bastou para que o “mercado” recuperasse a confiança na corporação responsável pelas dispensas. Segundo os critérios empresariais, colocar gente no olho da rua é demonstração de eficiência e deixa os acionistas muito felizes.

E isso não vale apenas para o monopólio das redes virtuais. Há muitos anos, os neoliberais dizem que um elevado nível de desemprego é saudável para a economia. Ajuda a manter os salários baixos e o mercado estável.

As consequências desse lógica, como precariedade, desigualdade, injustiça, sofrimento e miséria, não interessam. Elas não aparecem nos balanços empresariais.

Nesse momento, é importante lembrar que, no “Mein Kampf”, Hitler afirmou que a luta de classes não é inerente ao capitalismo. Segundo o genocida alemão, os conflitos classistas só começaram quando surgiu o capital por ações. Essa inovação financeira teria destruído a ligação pessoal que até então unia patrões e trabalhadores.

Tudo isso não passa de um delírio. Nunca houve uma ligação pessoal entre patrões e trabalhadores que não passasse pela exploração. Mas é um delírio que o capitalismo reforça, criando um estado de barbárie social. Essa lógica desumana e irracional do ponto de vista dos interesses da grande maioria abre avenidas para o avanço do fascismo.

Leia também: Capitalismo: merda em todo lugar ao mesmo tempo

10 de julho de 2020

O Facebook é um Leviatã que lucra com a guerra dos lobos

Coca-Cola, Levis, Unilever, Pepsi e Ford são algumas das empresas que deixaram de anunciar seus produtos no Facebook. A iniciativa faz parte da campanha “Stop Hate for Profit” (“Pare de lucrar com o ódio”). 

Sua motivação principal é a ampla e livre circulação de conteúdo de ódio e racismo no Facebook sem que seu controlador, Mark Zuckerberg, faça nada para impedir. Desde seu lançamento, em meados de junho, mais de 240 marcas se uniram à iniciativa.

Apesar disso, Zuckerberg não parece abalado. E com razão. O fato é que o faturamento de seu negócio está pulverizado por milhões de pequenos anunciantes. O boicote dos grandes representaria algo como 5% ou 6% de perdas. 

Até houve alguma desvalorização das ações da empresa, mas confiar na ética das bolsas para castigar corporações inescrupulosas é ingenuidade demais. Não à toa, o valor de mercado da empresa está próximo do US$ 1 trilhão, mesmo após as denúncias de envolvimento em resultados eleitorais em várias partes do mundo.

O fato é que o Facebook sequestrou grande parte da esfera pública mundial. Cerca de 30% da população global são seus usuários. São uns 2,6 bilhões de pessoas. Poucos Estados têm tanta influência ou contam com tamanha liberdade para agir sem ter que prestar contas a ninguém. 

Thomas Hobbes defendia a necessidade de um estado forte e absoluto para impedir que o “homem se tornasse o lobo do homem”. Era o “Leviatã”. Os estados nunca conseguiram cumprir essa função. Ao contrário, sempre defenderam os lobos. 

O Leviatã de Zuckerberg também atiça a alcateia e destrói a democracia. Mas lucra diretamente com isso.

27 de agosto de 2019

Privacidade hackeada, democracia comprada

Está disponível no Netflix o documentário “Privacidade hackeada”, sobre a empresa Cambridge Analytica, que ficou famosa por trabalhar para as campanhas de Donald Trump e do Brexit, pela saída do Reino Unido da União Europeia.

A especialidade da empresa era lucrar utilizando os dados que muitos milhões de pessoas deixam nas redes virtuais. Mas não haveria Cambridge sem o Facebook, que era, na prática, sua única fonte de informações.

Depois de muitas denúncias envolvendo a apropriação desautorizada de informações pessoais, a Cambridge fechou. Já o Facebook...

Mas o documentário mostra um episódio que não envolve diretamente a manipulação cibernética.

Em 2013, uma eleição em Trindade e Tobago opunha os dois principais partidos do país. O eleitorado de um era majoritariamente negro, o do outro, quase todo de ascendência indiana.

A Cambridge propôs ao partido “indiano” uma campanha com o slogan “Do So", algo como “Não vou”, em referência ao ato de votar. Era um chamado à abstenção eleitoral, mas voltado para o eleitorado jovem.

A campanha realmente foi um sucesso entre os jovens. Mas só alcançou seu objetivo junto à juventude negra. Acontece que o comportamento dos jovens é muito mais controlado nas famílias indianas do que nas negras.

Enquanto os jovens negros mantiveram sua postura de abstenção, muitos de seus pares indianos, pressionados pelos pais, compareceram às urnas em número suficiente para dar a vitória ao cliente da Cambridge.

É mais um caso em que o poder econômico promove despolitização e alienação para vencer.

“Privacidade hackeada” poderia ser só o título do mais recente capítulo da velha e conhecida série “Democracia comprada”.

22 de julho de 2019

Reactions: como o Facebook comercializa nossas emoções

Reportagem publicada recentemente pela Agência Pública revela o que está por trás daquelas “reactions” do Facebook que permitem ao usuário clicar em opções como “amei”, “hahaha” ou “triste”, além da tradicional ”curtir”.

A matéria cita um estudo sobre esses “recursos” feito pela pesquisadora Débora Machado, da Universidade Federal do ABC. A pesquisa analisou 39 patentes de ferramentas do Facebook voltadas para esse tipo de resposta.

A definição de uma dessas patentes, por exemplo, afirma que as características de personalidade deduzidas a partir das reações “são armazenadas junto aos perfis do usuário e podem ser usadas para mirar, ranquear e selecionar versões de produtos” a serem oferecidas a ele.

Outro exemplo é a patente que filtra postagens associadas a reações “desejadas”, como aniversários de postagens e de amizades. A partir disso, explica Débora, o Facebook pode privilegiar uma amizade em detrimento de outra ou dar preferência a certos tipos de publicações relacionados a determinados sentimentos. “E isso não necessariamente corresponde aos interesses do usuário”, afirma.

Claro que não. O objetivo, aqui, é apenas um: vender. Afinal, diz a reportagem:

Saber quais são as emoções dos usuários é útil para anunciantes. Os anúncios são a principal fonte de renda do Facebook, representando US$ 14,91 bilhões no primeiro semestre de 2019 – 98,8% da receita. Das 130 patentes com a palavra “emoção” registradas pela plataforma, 109 (84%) contêm também a palavra “propaganda” em suas descrições.

A pesquisa confirma o alto grau de manipulação implícita a que monopólios digitais como Facebook e Google sujeitam seus usuários.

E vai continuar sendo assim enquanto nos limitarmos a reagir, clicando a opção “Grrr”.

Leia também: Facebook, um psicopata de 15 anos

23 de maio de 2019

Os necropoderes do Facebook

O escritor de literatura fantástica Ray Bradbury escreveu um livro cujo título é “Morte é uma transação solitária”. Parece que já não é mais assim. Pelo menos, é o que se deduz de matéria publicada na Folha em 18/05/2019.

O título da reportagem de Felipe Arrojo Poroger afirma: “Mortos seguem vivos e continuam a fazer amigos no Facebook”. Um exemplo envolve um jovem escocês, morto há sete anos:

Scott Taylor não envelhece. Em seu perfil virtual, estão guardados vídeos, fotos, mensagens. A identidade que o garoto quis construir para si mesmo e transmitir ao mundo continua intacta, em um domínio seguro protegido contra a ação do tempo. Sua sobrevivência virtual tornou-se, assim, um convite para que pais e colegas continuassem depositando suas saudades.

“A página era uma das únicas coisas que tínhamos dele”, declarou a mãe do garoto.

Apesar de estranho, o fenômeno deve se generalizar. Segundo a reportagem, estima-se que, em 2098, haverá mais mortos do que vivos no Facebook. “Pensada como lugar de encontros, a rede social extrapola aos poucos seu propósito para transformar-se em cemitério virtual”, diz Poroger.

Mas se a morte deixa de ser uma questão tão individual, tão privada, ela também passa a ser privatizada. Afinal, o tal cemitério está sob administração do maior monopólio de comunicação da história.

O Facebook obtém seus lucros da apropriação que faz de nossos dados pessoais 24 horas por dia. Ao mesmo tempo, nos tornou dependente dele.

Scott Taylor morreu, mas sua página continua gerando informações na rede virtual. O capitalismo aperfeiçoou-se a ponto de continuar a explorar nossas vidas, mesmo depois de seu fim.

Leia também:
Facebook, partidos digitais, “tecnopólio”

10 de abril de 2019

Globo, Facebook e outros fatores tóxicos do debate público

Em sua coluna publicada no Globo, em 29/02/2019, Pedro Doria discute a Esfera Pública na era digital. Ele começa lembrando como o impacto da criação da imprensa no século 16 teria levado a uma repentina explosão de acesso à informação.

E quanto mais informação circula, diz o colunista, maior a consciência do quão pouco se sabia antes. Mais se questionam as instituições estabelecidas e menos se acredita “nas fontes tradicionais”. Histórias estapafúrdias se popularizaram. Viralizaram, diríamos hoje. Naquela época, os relatos “fake” envolviam “sereias e monstros marinhos”, por exemplo.

“Esfera Pública é aquela parcela da sociedade que participa do debate a respeito das coisas de interesse comum a todos”, define Doria. Após o Iluminismo, a “implantação das democracias” levou à Esfera Pública “uma série de critérios para orientar os debates”, afirma. Entre eles, a ideia de que “fatos científicos não seriam questionados”. Ou de que opções religiosas não poderiam “se intrometer como critério no debate público”.

Mas estes valores jamais foram unânimes na sociedade. ”E pessoas que antes não participavam da Esfera Pública (...) agora participam graças às novas tecnologias. Isso quer dizer que democracias precisarão sobreviver a ambientes nos quais o consenso possível é muito menor”, conclui o colunista.

Sem dúvida, uma leitura muito interessante sobre o que vem acontecendo. Mas esse levantamento histórico precisaria considerar outras fases. Principalmente, aquela da criação dos grandes monopólios da comunicação.

Foi essa fase que tornou possível o surgimento dos poderosíssimos controladores digitais de informações contemporâneos. Novíssimas ou nem tanto, Facebook ou Globo, são corporações como estas as maiores responsáveis pelo clima tóxico do debate público atual.

26 de março de 2019

A ideologia do participacionismo nos partidos digitais

Pawel Kuczynski
“Participacionismo” é como Paolo Gerbaudo chama o que ele considera ser uma poderosa ideologia dos partidos digitais, em seu livro “The Digital Party”.

Segundo ele, trata-se de um credo democrático radical que considera a participação e não a representação a fonte última de legitimidade política.

Baseia-se em noções de abertura, espontaneidade, transparência, autenticidade e intermediação zero. Valores profundamente influenciados pela tecnologia digital e sua cultura correlata.

Essa ideologia é perfeita para que Facebook, Twitter, Google, Youtube, Uber e Airbnb ganhem muito dinheiro. Já na esfera política, tende ao hiperindividualismo neoliberal, diz Gerbaudo.

Uma visão em que a participação individual se opõe ou desconfia da participação coletiva. Pessoas isoladas ou em pequenos grupos no lugar de associações, sindicatos ou partidos tradicionais.

Por outro lado, esse fenômeno pode criar uma "tirania de pessoas com tempo". Aquelas que têm a possibilidade e dedicação suficientes para se engajar em discussões qualitativas complexas. Geralmente, pouco preocupadas com sua sobrevivência.

Para ilustrar, o autor cita a “Lei da participação 1-9-90” de Jakob Nielsen: em qualquer comunidade, a grande maioria - 90% ou mais - é feita de usuários passivos. Cerca de 10% dos participantes são ativos, mas dentro dos quais apenas 1% é realmente atuante. Na Wikipédia, por exemplo, 0,003% dos usuários criam dois terços do conteúdo do site, exemplifica Gerbaudo.

Por fim, alerta o autor, a tomada de decisão é limitada por uma série de regras embutidas no design do software e nos processos de gerenciamento e moderação das discussões coletivas. E o círculo se fecha. Tais processos funcionam sob a lógica neoliberal dos novíssimos monopólios da informação.

Leia também: O “partido plataforma” e suas contradições

25 de março de 2019

O “partido plataforma” e suas contradições

Em seu livro “The Digital Party”, Paolo Gerbaudo afirma que:

Assim como o partido de massa refletiu a natureza e as tendências da sociedade industrial, o partido digital internaliza o modelo de plataforma popularizado por empresas como Google, Facebook e Amazon.

Por isso, o autor também chama essa nova organização de "partido plataforma". Um modelo partidário que procura reproduzir a lógica das plataformas das redes digitais em sua própria estrutura de tomada de decisões.

Tão "faminto por dados" como as corporações nascidas no Vale do Silício, o partido plataforma procura expandir constantemente sua base de dados e rede de contatos.

Essa configuração baseada na utilização da tecnologia digital proporcionaria uma nova democracia de base, mais aberta à sociedade civil e à intervenção ativa de cidadãos comuns.

Semelhante a uma “startup”, como Uber e Airbnb, teriam a mesma capacidade de crescer muito rapidamente. Um exemplo é o Movimento Cinco Estrelas, que, com menos de uma década de existência, tornou-se o maior partido italiano e atualmente integra o governo nacional.

No entanto, diz Gerbaudo, diferente do que dizem alguns de seus defensores, tal reestruturação organizacional do coletivo partidário não resultou em uma difusão radical do poder ou levou a uma situação na qual todos têm peso igual.

Uma das principais razões para isso é que o partido plataforma tende a deslocar a ênfase do conteúdo para o processo. Como nas redes virtuais, é fácil entrar e participar. E, como nelas, muito difícil entender do que exatamente se está participando e quais seus objetivos globais concretos.

Não à toa, o Cinco Estrelas descambou rapidamente para posições de direita.

Leia também: Antes do partido digital, o “partido televisão” e o partido de massas

20 de março de 2019

Os antigos e os novíssimos monopólios da verdade

Pawel Kuczynski
Os primeiros aparelhos de rádio serviam tanto para recepção como para emissão. Uma troca que ficava fora do alcance da indústria e dos governos.

As estações de rádio permitiram opor alguns emissores a milhões de receptores. Um monólogo que, geralmente, trata somente do que interessa ao mercado e ao poder.

A TV já surgiu sob a lógica do monólogo. Não à toa, nos países economicamente dependentes as redes de difusão audiovisual foram priorizadas em relação à estrutura telefônica.

No início do século 21, surge a maior empresa de mídia da história. O sucesso do Facebook se deveu muito à restauração dos contatos interpessoais. Ainda que virtuais.

Décadas de neoliberalismo criaram o ambiente ideológico perfeito para a volta do diálogo sem risco para os poderes estabelecidos. Ao contrário, tinha tudo para os favorecer.

Associações, clubes, sindicatos, partidos esvaziados. A família reduzida a, no máximo, quatro ou cinco membros. Os apartamentos no lugar de aldeias, vilas, paróquias.

O individualismo no lugar da solidariedade, a competição ao invés da colaboração. Empreendedorismo, sim, consciência de classe, jamais.

Cenário perfeito para que os diálogos se limitassem ao nível virtual. Inclusive, da sala para o quarto.

Evidentemente, a maior empresa de mídia já formada também é o maior anunciante. O Facebook monetizou os contatos entre as pessoas, alavancando bilhões de dólares por hora.

Enquanto isso, o Google monetizou radicalmente a informação. Vale como fato objetivo aquele que recebe mais cliques.

Esta é basicamente a economia política que opõe os interesses de antigos e novíssimos monopólios da verdade. Nosso grande desafio é saber explorar as contradições dessa briga. Estaremos à altura da tarefa?

14 de março de 2019

Facebook, partidos digitais, “tecnopólio”

Vivemos sob uma espécie de “tecnopólio”, diz Siva Vaidhyanathan no livro “Mídia antissocial: como o Facebook nos desconecta e enfraquece a democracia”.

Para explicar, ele cita o teórico da comunicação estadunidense, Neil Postman:

O tecnopólio é um estado de cultura. Também é um estado de espírito. Consiste no endeusamento da tecnologia, o que significa que a cultura busca sua aprovação na tecnologia, encontra suas satisfações na tecnologia e recebe ordens da tecnologia.

Sob seu império, diz Vaidhyanathan:

A aprendizagem torna-se uma questão de pesquisar, copiar e colar em vez de imergir, considerar e deliberar. Todos são quantificados. Todos estão expostos. Todos estão em guarda. Todos exaustos.

O tecnopólio surgiu sorrateiro no alvorecer do século 20, diz ele. Em 1992, uma canção de Bruce Springsteen descreveu seu poder sem explicitá-lo: "Cinquenta e sete canais e nada". “Hoje, perdemos a conta de quantos canais são”, afirma.

Apesar disso, Vaidhyanathan afirma que não pretende sair do Facebook. “O longo e lento processo de mudar mentes, culturas e ideologias nunca produz resultados em curto prazo”, diz.

Para ele:

...a resposta mais frutífera aos problemas que o Facebook cria, revela ou amplifica seria reinvestir e fortalecer instituições que geram conhecimento profundo e significativo.

Seria possível concordar com o autor se gerar conhecimento profundo e significativo em uma sociedade movida pela busca do lucro acima de tudo não fosse cada vez mais inviável.

É o que mostra, por exemplo, o surgimento dos chamados partidos digitais, cujo funcionamento fortemente condicionado pela tecnologia parece potencializar a democracia, mas pode derrotá-la definitivamente.

Tecnopólio, enfim, é só outra forma de monopólio do poder. Poder de classe.

Leia também:
O bode de estimação do Facebook

20 de fevereiro de 2019

O bode de estimação do Facebook

A Cambridge Analytica é uma empresa que analisa os dados disponíveis nas redes virtuais. Ficou famosa por trabalhar para as campanhas de Donald Trump e do Brexit, pela saída do Reino Unido da União Europeia.

Sua atuação foi considerada decisiva para a vitória em ambas os casos. Mas há quem ache que a ação da empresa funcione apenas como cortina de fumaça para ocultar um ator bem mais poderoso: o Facebook.

Entre os adeptos dessa hipótese está Siva Vaidhyanathan, que a defende em seu livro “Mídia antissocial: como o Facebook nos desconecta e enfraquece a democracia”.

No caso das eleições estadunidenses, ele relata que a Cambridge trabalhou para Ted Cruz, rival de Trump na disputa pela indicação como candidato republicano.

O problema era a qualidade das previsões da empresa. A margem de erro na identificação de eleitores republicanos como apoiadores da Cruz beirava os 50%. Resultado, Trump ganhou a indicação.

Vaidhyanathan cita o cientista político David Karpf, segundo o qual “não há evidências de que a Cambridge Analytica tenha resolvido os problemas com a aplicação de seu modelo psicométrico ao comportamento dos eleitores”.

Alexander Nix, um alto executivo da empresa, chegou a admitir que a campanha Trump jamais implementou o perfil psicométrico da Cambridge. Para quê, pergunta o autor, se já havia o Facebook para fazer todo o trabalho sujo?

Em março de 2018, o Facebook baniu a empresa. Mas há fortes sinais de que a turma de Zuckerberg já sabia de suas violações legais há dois anos. Aparentemente, a cortina de fumaça havia perdido sua utilidade.

Como dizemos por aqui, tiraram o bode da sala.

Leia também: O Facebook apoia um candidato a Hitler nas Filipinas

14 de fevereiro de 2019

O Facebook apoia um candidato a Hitler nas Filipinas

Rodrigo Duterte é uma espécie de Bolsonaro das Filipinas. Eleito presidente em 2016, afirmou durante sua campanha eleitoral:
Hitler massacrou três milhões de judeus. Há três milhões de viciados em drogas nas Filipinas. Eu ficaria feliz em massacrá-los.
Sua chegada ao poder é mais uma história suja envolvendo o Facebook, relatada no livro “Mídia antissocial: como o Facebook nos desconecta e enfraquece a democracia”, de Siva Vaidhyanathan.

Segundo Vaidhyanathan, em 2015, as Filipinas convidaram o Facebook a oferecer seu serviço “Free Basics”, que permite acessar suas páginas sem desconto no pacote de dados das operadoras.

Com isso, o Facebook tornou-se o único serviço de mídia importante nas Filipinas. Um país com mais de 105 milhões de habitantes, rico em recursos naturais e com uma corajosa história de resistência anticolonial.

A campanha de Duterte foi fortemente centrada em postagens falsas, caluniosas e cheias de ódio no Facebook. Faltando um mês para a eleição, ele ocupava 64% de todas as conversas relacionadas às eleições na rede de Zuckerberg.

Apenas o Facebook teve permissão para transmitir a posse presidencial.

Poucas semanas após Duterte assumir, policiais ou milicianos já haviam executado quase 2 mil suspeitos de ligação com o tráfico. Até novembro de 2018, eram mais de 12 mil mortos dessa maneira.

Nada disso impediu que Zuckerberg mantivesse e ampliasse sua parceria com o governo filipino. Afinal, por meio dela, o Facebook financiará links submarinos para facilitar os fluxos de dados digitais para a Ásia Oriental e o Pacífico Sul.

Desse modo, o Facebook confirma que, tal como aconteceu com Hitler, ao grande capital pouco importa que milhões possam morrer.

Leia também: Facebook, um psicopata de 15 anos

12 de fevereiro de 2019

Facebook, um psicopata de 15 anos

O Facebook acaba de completar 15 anos. Comporta-se cada vez mais como um perigoso jovem psicopata do que como um adolescente desastrado. É o que mostra mais um relato do livro “Mídia antissocial: como o Facebook nos desconecta e enfraquece a democracia”, de Siva Vaidhyanathan.

Bem antes de Trump, veio a Índia. O país tem o maior número de usuários do Facebook, com mais de 250 milhões. Nas eleições de 2014, a poderosa rede virtual foi fundamental para a eleição do primeiro-ministro Narendra Modi, do Partido Bharatiya Janata (BJP).

O BJP pertence a um movimento nacionalista, cujo maior objetivo é transformar o país em uma teocracia hindu. Além disso, Narendra Modi construiu grande parte de sua candidatura sobre a discriminação aos muçulmanos indianos, cuja população é a segunda maior do mundo.

Foi sob o governo de Modi no estado de Gujarat, em 2002, que ocorreu um grande massacre de muçulmanos. Das mais de mil pessoas mortas, 790 eram islâmicas.

Além disso, grande parte do eleitorado de Modi identifica-se com posturas machistas, desprezando as constantes agressões e violações sexuais sofridas pelas mulheres indianas.

Nada disso impediu que a equipe do Facebook trabalhasse diretamente com o comitê eleitoral do BJP durante a campanha de Modi.

Para um candidato ligado a forças violentas e nacionalistas, o Facebook era ideal. As mensagens mais violentas e carregadas de ódio circulavam abaixo da visão de jornalistas e observadores internacionais.

Há outros e piores exemplos da atuação política do Facebook. É o caso do apoio ao presidente Rodrigo Duterte, das Filipinas. Mas fica para a próxima.

E nada de parabéns para o Facebook!

Leia também: No Facebook, a sincera amizade da intolerância

7 de fevereiro de 2019

No Facebook, a sincera amizade da intolerância

Dizem que amigo verdadeiro é o que fala mal de você pela frente. Por esse critério, o Facebook estaria cheio de amizades genuínas. Mas vejamos o que diz Siva Vaidhyanathan sobre o tema no livro “Mídia antissocial: como o Facebook nos desconecta e enfraquece a democracia”.

Na “Ética a Nicômaco”, diz ele, Aristóteles descreve três formas de amizade. A primeira é baseada na utilidade mútua. Pode ser facilmente desfeita ou mesmo esquecida. É uma amizade de conveniência e comércio. A segunda é baseada no prazer. Fica em algum lugar entre o erótico e o tribalismo. Um vínculo forjado por experiências ou condições em comum. Ambas podem desaparecer à medida que as condições da vida mudam.

Já a terceira e mais significativa forma de amizade é baseada no reconhecimento da bondade em outra pessoa. É o “amor fraternal ”, uma das mais elevadas formas de amor. Contudo, ela, certamente, não surge de um clique e alguns comentários no Facebook. Pouco frequente, exige esforço, paciência e sabedoria.

Concorde-se ou não com essa classificação, Aristóteles acerta ao dizer que nós nos relacionamos com diferentes amigos de maneiras diferentes, em termos diferentes. Além disso, o pensador grego também dizia que toda amizade é política. A pólis teria sido forjada e apoiada por uma rede formada pelos três tipos de amizade descritas por ele.

Se Zuckerberg tivesse considerado a limitação do foco de Aristóteles na pólis local (e não global), talvez compreendesse que o Facebook é incapaz de enriquecer um sentimento de amizade ou criar uma cidadania global, conclui o autor.

E que ódio e intolerância jamais passariam por ser amizade.

Leia também: Facebook: o mais perigoso sistema operacional de nossas vidas

4 de fevereiro de 2019

Facebook: o perigoso sistema operacional de nossas vidas

Facebook, Google, Microsoft, Amazon e Apple. Todas essas poderosas empresas compartilham uma visão de longo prazo: ser o sistema operacional de nossas vidas.

Destas empresas, o Facebook é o mais perigoso. É a mais influente empresa de mídia da história, atingindo 2,2 bilhões de pessoas. Controla quatro das sete redes digitais mais utilizadas: Facebook, Messenger, WhatsApp e Instagram.

O Facebook é o exemplo perfeito da ideologia do Vale do Silício. Ninguém representa melhor o sonho de um planeta totalmente conectado “compartilhando” palavras, ideias, imagens e expectativas.

Nenhuma empresa aproveitou melhor tudo isso para obter riqueza e influência. Nenhuma empresa contribuiu mais para o colapso dos princípios básicos da tomada democrática de decisões.

Primeiro, porque informações falsas ou enganosas se espalham facilmente pelo Facebook. Segundo, porque posições e opiniões sóbrias e moderadas não têm chance nele. Por fim, há o fenômeno da “bolha”, que restringe radicalmente as experiências de diversidade e convívio com o diferente.

O Facebook é ótimo para motivar, mas terrível para deliberar. Sua estrutura de postagem e comentários resiste à consideração ampla e calma. Os participantes são encorajados a responder de forma precipitada. Por isso, respondem frequentemente de forma rude.

Basicamente, há duas coisas erradas no Facebook: o modo como funciona e a forma como as pessoas o utilizam.

As conclusões acima estão no livro “Mídia antissocial: como o Facebook nos desconecta e enfraquece a democracia”, de Siva Vaidhyanathan, pesquisador da Universidade da Virgínia. Publicado em 2018, ainda não tem edição em português.

Voltaremos a destacar trechos desse interessante estudo sobre o mais poderoso dos sistemas que estão operacionalizando nossas vidas contra nossos interesses.

Leia também:
Redes sociais podem ajudar ditaduras?

23 de janeiro de 2019

Tempos de “gadopocalipse”

Não. “Gadopocalipse” não é uma referência a “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho. Mas poderia ser, caso as redes virtuais existissem em 1979, ano de lançamento dessa bela canção.

O “Cow Clicker” é um jogo hospedado no Facebook, criado pelo pesquisador de videogames, Ian Bogost, em julho de 2010. O objetivo é obter "cliques" clicando a imagem de uma vaca a cada seis horas.

A adição de vacas de amigos ao pasto do jogador permite que ele também receba "cliques" sempre que sua vaca for clicada. Uma moeda conhecida como "Mooney" permite ao usuário comprar diferentes designs de vacas e ignorar o intervalo de seis horas entre os cliques.

Inicialmente, seu criador pretendia apenas fazer uma sátira aos jogos sociais presentes nas redes. Mas o game fez tanto sucesso que Bogost resolveu criar a fase “Cowpocalypse”. Ou “Gadopocalipse”, em tradução abusada.

Foi iniciada uma contagem regressiva, que, em setembro de 2011, terminou com o apocalipse das vacas. Todas sumiram do jogo ao mesmo tempo. Em seu lugar, apenas o pasto verde.

O problema é que muitos jogadores continuaram a clicar no vazio deixado por suas queridas mimosas. Um deles é Adam Scriven, da Columbia Britânica. Dizem que ele ainda está clicando no espaço onde sua mascote bovina costumava estar.

Segundo palavras do próprio Scriven, "é muito interessante, ficar clicando em nada. Afinal, nós já estávamos clicando em nada o tempo todo. Apenas parecia que estávamos clicando em vacas."

Pois é, antes como agora, “o povo foge da ignorância, apesar de viver tão perto dela”. Povo clicado, ê, povo feliz!

Para maiores informações, clique(!) aqui.

Leia também:
O Pokemon e outras formas de ser caçado

22 de janeiro de 2019

O Facebook continua e piora os monopólios anteriores

É cada vez mais evidente o papel nocivo das redes virtuais na vida social contemporânea. E entre os vilões desse cenário, sem dúvida, está o Facebook.

Por isso, a leitura do livro “Mídia antissocial: como o Facebook nos desconecta e enfraquece a democracia”, de Siva Vaidhyanathan, pode ser esclarecedora.

Publicado em 2018 e ainda sem tradução do inglês, a obra começa advertindo que:

...as formas de mídia de entretenimento - e os próprios sistemas de distribuição - distorceram lentamente nossos hábitos mentais e atrofiaram continuamente nossa capacidade e disposição de nos envolvermos uns com os outros como cidadãos responsáveis...

Citando o pesquisador Neil Postman, Vaidhyanathan afirma:

A ascensão e o domínio da televisão na vida cotidiana de bilhões de pessoas na última metade do século XX (...) a transformaram em uma "meta-mídia", uma tecnologia que continha, estruturava, alterava e disponibilizava muitas, se não todas, as formas de mídia anteriores. A televisão tornou-se em 1985 o que o Facebook está prestes a se tornar em 2018: “um instrumento que direciona não apenas nosso conhecimento do mundo, mas também nosso conhecimento sobre formas de conhecimento”.

O autor também lembra Roland Barthes, para quem a televisão era um "mito", no sentido de nos fazer entender que o mundo não é problemático nem totalmente consciente.

Segundo Vaidhyanathan, precisamos reagir “antes que também o Facebook se torne um mito e não possamos imaginar a vida sem ele”.

Mas, para isso, é preciso entender que as grandes corporações das redes virtuais têm uma relação de continuidade com os monopólios de comunicação anteriores. E tudo indica que são ainda piores.

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