Doses maiores

31 de janeiro de 2020

O fascismo e as classes intermediárias

Abaixo um sumário retirado do livro “Fascism: Theory and Practice”, de Dave Renton, sobre a relação do fascismo com as massas.

Se o fascismo histórico se caracteriza pelo apoio de massa, isso não significa que precise dele para ser classificado como tal.

A maior ambição de Hitler era "destruir o marxismo". Foi esse objetivo que fazia dele e de seu partido fascistas, antes mesmo de alcançarem uma influência maior.

Em "Mein Kampf" (“Minha Luta”), Hitler escreveu: “Para pessoas que já superaram um nível social modesto, é insuportável recair nele, mesmo que momentaneamente”.

É este sentimento que a extrema-direita explora. Mas se a pequena burguesia esperava usar o fascismo para chegar ao poder, morria de medo de colocar em risco o domínio do capital.

A classe média conservadora não deseja a eliminação da grande burguesia. Ao contrário, seu maior objetivo é tornar-se membro dela.

Diferente de outras forças de direita, o fascismo usa uma linguagem revolucionária e quando conquista apoio de massa, obtém poder social suficiente para realizar seus objetivos radicais.

Tais objetivos são a destruição das conquistas sociais de gerações de democratas, socialistas, sindicalistas e do movimento feminista.

É essa disposição ultraconservadora que torna o fascismo confiável para a grande burguesia, sempre que crises sociais ameaçam seus interesses.

No entanto, é impossível que o fascismo realize as aspirações pequeno-burguesas. É isso que pode permitir às organizações dos trabalhadores afastar seus setores menos engajados da influência fascista.

Por outro lado, não há como deixar sem resposta os ataques fascistas contra nossas organizações. Nosso grande desafio é combinar militância social paciente e radicalidade política. Voltaremos a isso.

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30 de janeiro de 2020

Como não combater o fascismo

Em seu livro “Fascism: Theory and Practice”, Dave Renton descreve as três principais táticas antifascistas da esquerda nos final dos anos 1920.

A primeira era defendida principalmente pelo stalinismo. Segundo esta tática, diante da proximidade do colapso do capitalismo, tanto a esquerda moderada, representada pelos socialdemocratas, como os fascistas seriam varridos pela vitória do proletariado. Mussolini e Hitler, esmagados pela revolução mundial.

Outra tática antifascista era apoiada pelos socialdemocratas. Para estes, o avanço da extrema-direita seria detido pelas instituições democráticas e lideranças da alta burguesia, que demonstravam pouco apreço e confiança em figuras como Mussolini e Hitler.

Por fim, havia o antifascismo dialético que tinha em Trotsky seu principal formulador. Para ele, uma ditadura fascista promoveria a completa destruição das organizações operárias. Diante disso, propunha uma Frente Única, incluindo os socialdemocratas, mas excluindo a grande burguesia, cujo desprezo pelos fascistas estava longe de impedir sua utilização para esmagar o movimento operário.

A tática stalinista logo se mostrou desastrosa. A divisão entre comunistas e socialdemocratas abriu largo caminho para o crescimento do fascismo. A tática socialdemocrata, por sua vez, viu a grande burguesia aceitar a instalação da ditadura fascista sem esboçar reação.

Somente depois que Mussolini e Hitler já haviam derrotado os trabalhadores italianos e alemães, Stálin abandonou sua tática. Passou a defender uma ampla aliança contra o fascismo, tentando atrair uma burguesia nada disposta a integrar essa frente. Além de tardio, equivocado.

Este debate é muito atual. Hoje, também há os que aguardam um inevitável fracasso da extrema-direita. E há quem se deixe guiar pelo calendário eleitoral, contando com a resistência das “instituições democráticas”.

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29 de janeiro de 2020

O contraditório caráter de massa do fascismo

A maioria dos estudiosos concorda que uma de principais características do fascismo é seu caráter de massa.

Mas como alerta Dave Renton em seu livro “Fascism: Theory and Practice”, a base social do fascismo italiano era formada principalmente por trabalhadores administrativos, pequenos proprietários e profissionais liberais.

O partido de Mussolini era pouco popular entre trabalhadores gráficos, mecânicos, metalúrgicos e da construção civil. Os operários não passavam de 15 a 20% de seus membros.

De fato, o fascismo revelou-se uma ditadura brutal para os trabalhadores italianos. Entre 1927 e 1932, estatísticas oficiais mostram redução de 50% no valor de seus salários.

Mas a pequena burguesia também foi prejudicada. Decretos passaram a regular os preços de varejo em abril de 1934, atingindo diretamente os comerciantes, entre os quais havia grande apoio ao fascismo.

A classe que mais se beneficiou do regime fascista italiano foi a dos grandes empresários. No período, foram abolidos impostos sobre capital, herança, lucros de guerra e salários de altos executivos.

Na Alemanha, a base social nazista também era pequeno-burguesa, mas os maiores beneficiados por seu governo foram os grandes industriais e latifundiários. Entre 1933 e 1936, os lucros médios desses setores aumentaram 433%.

Mas apesar disso tudo, muitos setores da alta burguesia resistiram a apoiar o fascismo em seu início.

Estas circunstâncias tornam difícil explicar o fascismo apenas a partir de relações puramente econômicas. É preciso levar em conta a luta de classes e suas muitas contradições.

Do contrário, é impossível explicar não só Hitler e Mussolini, mas Trump e Bolsonaro. Pior que isso, torna ainda mais difícil lutar contra eles.

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28 de janeiro de 2020

Teorizar sobre o fascismo para derrotá-lo

Em seu livro “Fascism: Theory and Practice” (1999), o marxista inglês Dave Renton critica a historiografia oficial sobre o fascismo por entendê-lo como fenômeno limitado a determinada época e restrito ao âmbito das ideias.

Uma teoria alternativa, afirma Renton, deve explicar as ideias e práticas fascistas, mas também combatê-las. Afinal, trata-se de um fenômeno histórico que continua presente, ainda que possa se manifestar de formas diferentes.

Nesse sentido, o marxismo contaria com as ferramentas teóricas necessárias para dar conta dessa tarefa. Segundo Renton:


As teorias marxistas do fascismo começam por interpretar as sociedades capitalistas nas quais ele se originou, e continua a explicá-lo tendo como referência as contradições internas ao capitalismo como um sistema global de dominação de classe.
A ênfase na análise das condições econômicas de uma determinada formação social é uma importante característica do método marxista. Mas não se trata de reduzir tudo ao nível puramente material. Nas palavras do autor:
As relações econômicas não determinam a consciência. Elas a condicionam, mas também são afetadas pela consciência. Assim, qualquer definição marxista de fascismo como ideologia deve incluir as possíveis contradições entre a economia capitalista e as posições políticas assumidas pelos indivíduos que vivem sob esse sistema.
Assim, enquanto “os expoentes dos estudos sobre fascismo” contentam-se “em listar as formas típicas do fascismo”, diz Renton, as definições marxistas “têm-se desenvolvido em resposta a seu surgimento a partir de uma análise sobre como o fascismo realmente age”.

Trata-se do que o fascismo fez e continua a fazer. E, principalmente, do que nós devemos fazer para derrotá-lo. É teoria, mas teoria de combate.

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Leia também: Fascismo: entender para combater

27 de janeiro de 2020

Fascismo: entender para combater

Os que se opõem ao fascismo precisam ter clareza sobre seu inimigo e de como combatê-lo. Esta é a base para qualquer teoria sobre o fascismo.

As palavras acima estão em “Fascism: Theory and Practice”, do marxista inglês Dave Renton. O livro é de 1999. Naquele momento, dizia o autor, o fascismo não era “uma ameaça imediata”, mas voltava a fazer parte do cenário político contemporâneo.

Citando a historiografia predominante na época, Renton descreve um “novo consenso”, no qual se destacam, primeiro, a ideia de que o fascismo seria um fenômeno histórico restrito a uma determinada época.

Em segundo lugar, o fascismo era caracterizado como um “autêntico movimento revolucionário”. Uma ideologia que desafiava o capitalismo liberal e democrático.

Ora, o marxismo também contesta o capitalismo liberal e democrático. Portanto, fascismo e marxismo não seriam ideologias opostas. E este é um terceiro elemento dessa historiografia muito suspeita.

Tal caracterização só não explica porque o tal fascismo “histórico” ascendeu ao poder na Itália e na Alemanha com apoio exatamente de “capitalistas liberais e democráticos”.

Nem esclarece porque o primeiro campo de concentração começou a funcionar em março de 1933, na Alemanha, tendo como prisioneiros apenas comunistas.

O fato é que os fascistas sempre consideraram os comunistas seus principais inimigos. E os comunistas sempre formaram o maior polo de resistência ao fascismo.

Não é possível lutar contra o fascismo sem entendê-lo. Mas para nós, comunistas, não há como entendê-lo sem dar-lhe combate.

Entrando na terceira década do século 21, o fascismo já é uma ameaça imediata. A obra de Renton pode nos ajudar no imprescindível combate a ele.

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Leia também: Brasil paralelo, mundo paralelo, fascismo

24 de janeiro de 2020

Lênin e o centralismo democrático

O conceito de centralismo democrático começou a ser formulado por Lênin em 1902, no livro “O que fazer?”. Referia-se ao modo como deveria funcionar um partido revolucionário.

O conceito prevê que divergências e contestações são livres durante os debates sobre uma ação ou linha de conduta. Mas uma vez tomada uma decisão, todos deveriam contribuir para implementá-la.

Mas tanto a Liga Comunista como a Associação Internacional dos Trabalhadores, da época de Marx, já previam a necessidade de que seus membros agissem de forma unitária.

Já nas primeiras lutas sindicais, o centralismo estava presente. Numa assembleia, podem se apresentar posições contrárias ou favoráveis a uma greve, por exemplo. Porém, uma vez aprovada a paralisação, todos devem construí-la. Quem não o fizer, é fura-greve.

Muitos revolucionários condenam toda forma de centralismo. Não sem alguma razão, haja vista as formas autoritárias que ele pode assumir.

No campo da esquerda, foi principalmente o stalinismo que transformou o centralismo democrático em centralismo burocrático. Aquele no qual a direção do partido manda e a base obedece. Sua adoção por organizações de esquerda não é apenas um erro organizativo, mas uma vitória da burguesia em nosso meio.

O problema é que tal como na época de Lênin, continuamos a enfrentar uma classe dominante que unifica todo o seu poder contra os de baixo, quando estes ousam questionar seus interesses. É mais um elemento da luta de classes em que Lênin continua atual. Responder da forma mais unitária possível é o mínimo que podemos fazer.

Para entender melhor essa polêmica, segue um texto de 2004: Centralismo democrático: entre a pedra e o caminho.

23 de janeiro de 2020

Lênin: o revolucionário que sabia errar

Ainda lembrando os 96 anos da morte de Lênin, mais pílulas antigas sobre o grande revolucionário socialista. Algumas delas trazem seus equívocos e  insuficiências de suas formulações teóricas. Mas nada que diminua sua estatura histórica.

Em um artigo sobre guerra de guerrilhas, de 1906, uma pista para entender como Lênin se tornou a maior liderança da maior das revoluções.

Quando a Revolução de Fevereiro estourou, Lênin estava exilado. Em plena guerra mundial, sua única chance de voltar à Rússia seria embarcar num trem blindado oferecido pelo governo alemão.

Agosto de 1917: Lênin erra, os trabalhadores acertam
Lênin não acreditava que um golpe contrarrevolucionário viria. Felizmente, os trabalhadores de Petrogrado não achavam o mesmo.

Em abril, Lênin havia puxado o partido para a esquerda. Em julho, estava tentando empurrá-lo para a direita. Mas não estava dando muito certo.

Lênin sentia sono quando lia Maiakóvski
“A inovação artística se dá muito bem nas temperaturas revolucionárias. Mas fenece quando os regimes se consolidam”, diz Paulo Leminski na biografia que escreveu sobre Trotski.

O partido de Lênin era pouco “leninista”
O historiador britânico Alexander Rabinowitch mostra que aquele que é considerado o partido leninista por excelência não era assim tão leninista. Na verdade, nem Lênin era.

Rosa, ainda mais necessária que Lênin
Aparentemente, vivemos tempos que deixaram para trás personagens como Rosa Luxemburgo e Lênin. Mas continuamos a precisar de ambos, ainda que não em medidas iguais.

Leia também:  Algumas pílulas sobre Lênin

22 de janeiro de 2020

Algumas pílulas sobre Lênin

Em 21 de janeiro de 1924, morria Lênin. Foi-se o homem, ficaram as lendas. Muitas delas negando sua grande obra revolucionária.

Algumas pílulas abordam essas contradições. É o caso de “Um Lenin anarquista, louco, isolado”, que relata o modo como foram recebidas suas Teses de Abril, em 1917. O episódio mostra como é falsa a ideia de que o partido bolchevique fosse dirigido de forma ditatorial por Lenin.

Lênin, o grande navegador e suas dúvidas” recomenda a leitura de “Reconstruindo Lênin”, biografia intelectual do marxista húngaro Tamás Krausz. Nela ficamos sabendo, por exemplo, que o grande navegador também teve sérios momentos de incerteza. Principalmente, quando as esperadas revoluções na Europa ocidental faltaram ao encontro com a História.

Quando nem a dialética de Lênin funciona” mostra como a situação do Estado soviético no início dos anos 1920 era tão complicada que nem a sofisticada dialética política de Lênin deu conta de suas contradições.

Em “Aventureiros e mafiosos no poder soviético” ficamos sabendo que nos primeiros meses da revolução, Lênin já identificava certo número de aventureiros e mafiosos ocupando posições de autoridade. Gente cuja vocação para a corrupção e o autoritarismo, Stálin saberia utilizar mais tarde na contrarrevolução que viria a liderar.

União Soviética: preservando o estado às custas da revolução” discorre sobre como Stálin inverteu a lógica libertária presente na obra “O Estado e a Revolução”, de Lênin.

Finalmente, “A grandeza e a tragédia da Revolução Russa” traz fragmentos de autoria de Victor Serge e Vassili Grossman. Ambos lamentando que a revolução liderada por Lênin tenha se transformado em seu oposto sob o stalinismo.

21 de janeiro de 2020

Stalinismo: um cadáver a ser dissecado

Em janeiro de 2018, Rui Kureda nos deixou. Felizmente, ele também nos deixou importantes contribuições para a luta revolucionária. Uma delas é “O Fantasma de Stálin”, artigo no qual identificava um fenômeno ainda em formação: o retorno do stalinismo.

Referindo-se à condenação generalizada do stalinismo a partir dos anos 1960 do século passado, Rui afirmava que ao ser “mandado ao inferno”, Stálin, de certo modo, levou consigo também o socialismo revolucionário.

No rastro da correta e justa condenação e abandono do stalinismo, seguiu-se a adesão de vastos setores da esquerda à conciliação de classes e ao abandono das alternativas revolucionárias.

Mas quando os caminhos reformistas para a transformação social se mostraram bloqueados, a necessidade que muitos setores militantes sentiram de retomar a luta revolucionária passou a se confundir com a exumação do stalinismo.

Foi por isso que Rui desaconselhou “considerar o stalinismo como ‘cachorro morto’”. Afinal, dizia ele:

Se a crise histórica do stalinismo é uma realidade, é preciso reconhecer que o acerto de contas teórico-político com o legado stalinista é uma tarefa que ainda não foi cumprida. Para muitos esse acerto pode parecer uma simples especulação sobre o passado, pois aparentemente a incidência desse debate na atualidade está longe de ter a urgência de antes.

“Aparentemente”, ressaltava o artigo, que é de 2003. Já naquele momento, Rui advertia ser urgente que “o cadáver do stalinismo” fosse “dissecado, para que o fantasma de Stalin seja definitivamente exorcizado”.

A esquerda revolucionária continua devendo essa tarefa. O fantasma já circula com mais desenvoltura. Retomar a leitura do artigo do Rui é um bom começo para buscarmos esconjurá-lo definitivamente.

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20 de janeiro de 2020

O neostalinismo é um antimarxismo

Um fenômeno novo e grave vem entusiasmando setores da militância da esquerda nacional. Diante do avanço selvagem da direita aqui e no mundo. Diante do fracasso das fórmulas conciliadoras de esquerda, de que é exemplo flagrante o petismo. Diante da truculência de classe que jamais deixou de castigar as populações periféricas. Diante de tudo isso, surge o neoestalinismo como pretensa alternativa.

Essa reabilitação de Stálin vem sendo capitaneada no Brasil principalmente pelo livro, “Stalin: história crítica de uma legenda negra”, de Domenico Losurdo.

Uma boa crítica a essa obra foi feita recentemente por Mario Maestri no artigo “Domenico Losurdo, um farsante de sucesso na Terra dos Papagaios”. Segundo ele, o autor italiano integra “o balaio de autores direitistas que, não raro, se dizendo de esquerda, dedicam-se a ataque turvo ao marxismo revolucionário, que vive hoje momentos dramáticos”.

Outra crítica consistente ao livro de Losurdo é feita por Gustavo Machado em seu canal do Youtube, “Orientação Marxista”. Em especial no episódio “O Stálin de Domenico Losurdo: manual de charlatanice”.

O anseio por radicalizar a resistência anticapitalista é legítimo e necessário. A militância socialista não pode ficar de braços cruzados, confiando nas instituições ou aguardando o calendário eleitoral.

Mas o estalinismo não foi uma radicalização de esquerda. Foi um extremismo conservador, responsável pela contrarrevolução na Rússia Soviética. Mais que isso, pelo aborto de várias revoluções pelo mundo a pretexto de defender o “socialismo em um só país”, excrescência histórica contrária a tudo o que pensava Marx.

Se há alguma coisa de radical no neostalinismo é seu antimarxismo. E por isso deve ser combatido pelos marxistas, também radicalmente.

Leia também:
Os terríveis erros de Stálin no combate ao nazismo
União Soviética: preservando o estado às custas da revolução

17 de janeiro de 2020

De supercooperadores a supergoístas

Martin Nowak é professor de biologia e matemática na Universidade de Harvard. Em seu livro “Supercooperators” ele defende a hipótese de que nosso maior traço evolutivo é a cooperação e não a competividade. Um trecho:

Para a maioria de nós, quase parece um reflexo que não requer nenhuma tomada de decisão consciente: se vemos alguém em perigo, ficamos ansiosos e imediatamente queremos ajudar. Esse instinto pode ser tão forte que há pessoas que sacrificam sua própria vida para salvar a de outros. Todos temos esse instinto, mesmo que nem todos o sigamos. De alguma forma, a empatia pelo grupo manipula os indivíduos, sobrecarregando seu senso de interesse próprio, para que eles ajam em nome do bem maior.

Esse comportamento incomodou o próprio Darwin, diz Nowak. Tanto que em seu livro “A Origem do Homem”, de 1871, ele escreveu:

Não há dúvida de que uma tribo que inclui muitos membros (...) sempre prontos a ajudar um ao outro e a se sacrificar pelo bem comum, venceria a maioria das outras tribos; e isso seria seleção natural.

Segundo Nowak, o primeiro a explorar esse “insight” de Darwin foi o zoólogo e ecologista britânico Vero Wynne-Edwards. Em 1962, ele publicou “Animal Dispersion in Relation to Social Behavior”, no qual sugere que os animais não estão, como Darwin supunha, sempre tentando aumentar seu número, mas são programados para regulá-los de modo a alcançarem um bem maior.

Desde então, a importância da cooperação tem sido verificada em muitas outras espécies também. O problema é que entre nós o “bem comum” vem sendo soterrado pela hipercompetividade capitalista. Somos cada vez mais superegoístas.

Leia também: Entre o comunismo e os chimpanzés

16 de janeiro de 2020

A educação pela fotossíntese

“Árvores jovens desejam crescer rápido”, diz Peter Wohlleben em seu livro “A Vida Secreta das Árvores”. Mas suas “mães” não permitem: “cobrem as mudas com suas copas imensas e, ajudadas por outras adultas, formam um teto denso sobre a floresta, deixando passar apenas 3% da luz do sol”.

Essa quantidade de luz é suficiente apenas para que as jovens não definhem. Parece cruel, mas trata-se de uma medida pedagógica. Pesquisas indicam que “o crescimento lento das árvores jovens é uma precondição para que elas alcancem uma idade avançada”.

Ao crescer devagar, as células de sua madeira armazenam pouco ar e ficam minúsculas. Isso as torna flexíveis e resistentes a rupturas em caso de tempestades. Além disso, e mais importante, a ausência de ar nas células dificulta que fungos nocivos se espalhem pelo tronco. Este mesmo fenômeno também permite à arvore tampar facilmente suas feridas na casca, evitando pontos de apodrecimento.

É assim que faias jovens, por exemplo, levarão mais de 200 anos para crescer. Nessa altura da vida arbórea, a árvore materna tem uma copa com toneladas de peso e um tronco fragilizado pela idade. Basta uma forte tempestade para que se quebre e venha ao chão. Nesse momento, diz Wohlleben:

A abertura que surge no dossel de folhas funciona como um sinal de largada para as árvores jovens que sobrevivem à queda da mãe. Agora elas podem realizar a fotossíntese a todo o vapor.

Este é apenas um exemplo singelo de como algumas árvores educam sua descendência. Mas como mostram as outras pílulas desta série, a pedagogia das árvores tem muito mais a nos ensinar.

Leia também:  Árvores também praticam assistência social

15 de janeiro de 2020

Árvores também praticam assistência social

“A Vida Secreta das Árvores”, de Peter Wohlleben, fala sobre relações sociais entre os maiores membros de uma floresta.

O livro descreve, por exemplo, um estudo liderado por Vanessa Bursche, da Universidade Técnica da Renânia do Norte-Vestfália, na Alemanha.

Vanessa descobriu que no processo de fotossíntese em florestas de faias intocadas, “as árvores se sincronizam de tal forma que todas têm o mesmo rendimento”. Todas produzem a mesma quantidade de açúcar por folha.

Esse nivelamento acontece nas raízes, onde uma extensa rede de fungos funciona como “uma gigantesca redistribuidora de energia”. “Lembra um trabalho de assistência social tentando evitar que o abismo para os indivíduos desfavorecidos da sociedade cresça ainda mais”, diz Wohlleben.

Os problemas começam quando agricultores resolvem “ajudar” alguns indivíduos “livrando-os da suposta concorrência da mesma espécie”. A partir daí, é cada um por si. Surgem grandes diferenças de produtividade entre os membros. O resultado:

Quando os membros supostamente fracos desaparecem, os outros também saem perdendo. A floresta fica mais exposta e o sol quente e as tempestades de vento alcançam o solo, interferindo na umidade e na temperatura ideal. Mesmo as árvores fortes adoecem muitas vezes no decorrer da vida. Quando isso acontece, passam a precisar do auxílio das vizinhas mais fracas. Caso as árvores menores já tenham morrido, bastará um inofensivo ataque de insetos para selar o destino de árvores gigantescas.

Wohlleben conclui dizendo que um antigo ditado segundo o qual “A corrente tem a força de seu elo mais fraco” poderia muito bem ter sido criado pelas árvores. “Por intuição, diz ele, elas ajudam umas às outras de maneira incondicional”.

Leia também: A solidariedade das árvores e a solidão humana

14 de janeiro de 2020

A solidariedade das árvores e a solidão humana

Mais segredos vegetais retirados do livro “Vida Secreta das Árvores”, de Peter Wohlleben.

Segundo ele, florestas são superorganismos semelhantes aos formigueiros. As árvores são seres tão sociais que compartilham nutrientes até com espécies concorrentes. Afinal, diz o autor:

Uma única árvore não forma uma floresta, não produz um microclima equilibrado; fica exposta, desprotegida contra o vento e as intempéries. Por outro lado, muitas árvores juntas criam um ecossistema que atenua o excesso de calor e de frio, armazena um grande volume de água e aumenta a umidade atmosférica – ambiente no qual as árvores conseguem viver protegidas e durar bastante tempo.

Se todos os espécimes só cuidassem de si, grande parte morreria cedo demais. As mortes constantes criariam lacunas no dossel verde. Com isso, as tempestades penetrariam a floresta com mais facilidade e poderiam derrubar outras árvores. O calor do verão ressecaria o solo. Todos os espécimes sofreriam.

Mesmo os espécimes doentes recebem ajuda e nutrientes até ficarem curados. E uma árvore que no passado auxiliou outra pode no futuro precisar de uma mãozinha.

Já nas florestas plantadas, elas “se comportam como indivíduos solitários”. Por isso, “enfrentam muitas dificuldades e na maioria dos casos nem envelhecem”. Dependendo da espécie, são consideradas maduras para serem derrubadas aos 100 anos. Idade prematura para a grande maioria das árvores.

Para Wohlleben, as árvores são solidárias por motivos semelhantes aos que estão presentes nas sociedades humanas: juntas elas são mais fortes.

Pode ser, mas entre nós a união que faz a força vem se restringindo a cada vez menos indivíduos. Além de triste, a solidão está nos tornando uma espécie fraca.

13 de janeiro de 2020

A lógica dos lucros derruba e silencia florestas

Peter Wohlleben é um engenheiro florestal alemão, autor de “A Vida Secreta das Árvores”, um livro cheio de revelações sobre essas belas criaturas, tão presentes em nossas vidas quanto ignoradas. A não ser quando se trata de derrubá-las ou explorar seus frutos.

Wohlleben conta, por exemplo, que, nas florestas, as árvores se valem de uma rede subterrânea para se comunicarem entre si. Essa rede é formada por fungos que “funcionam como os cabos de fibra óptica da internet”. Segundo ele:

Ao longo dos séculos, um único fungo pode se estender por muitos quilômetros quadrados e criar uma rede capaz de ligar florestas inteiras. Ele transmite sinais de uma árvore para outra e as ajuda a trocar notícias sobre insetos, secas e outros perigos. Aliás, a ciência já fala da existência de uma “wood wide web” que permeia as florestas.

Quando essa rede é silenciada, os espécimes ficam solitários e mais vulneráveis. Uma árvore incomunicável pode não receber “o sinal de perigo iminente e acaba devorada por lagartas e besouros”.

Esse problema é mais frequente entre as plantas cultivadas, pois sua rede de comunicação não se forma adequadamente. Nesse caso, as árvores são quase “surdas-mudas” e se tornam presas fáceis para insetos e pragas.

E este, diz o autor, “é um dos motivos pelos quais a agricultura moderna usa tanto inseticida. Para estimular a comunicação entre as plantas, os agricultores deveriam aprender mais sobre as florestas e introduzir um pouco da vida selvagem em seus cultivos”.

Mas é impossível aprender com as florestas quando impera a lógica dos lucros obtidos com sua derrubada ou seu silenciamento.

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10 de janeiro de 2020

Contra a morte social, a comunhão das lutas

Em seu livro “Escravidão”, Laurentino Gomes cita uma definição de Orlando Patterson para esse tipo de servidão. Segundo o sociólogo jamaicano, a escravidão seria:

...uma “morte social”, na qual o cativo é arrancado do seu lugar de moradia, de sua língua, suas crenças, seus laços familiares e seus ancestrais, sua comunidade e seus costumes, uma espécie de desenraizamento, ou excomunhão da família e da sociedade originais.

Era necessário eliminar “sua identidade antiga para a construção de uma nova, dependente e condicionada pelo senhor”. Um processo que começava pela supressão dos nomes próprios.

Segundo Gomes, um “censo realizado em 1759 no território da atual Colômbia revelou que 40% de todos os escravos eram identificados com um único nome (como José, João ou Francisco). Outros 30% tinham “Crioulo” como sobrenome...”.

No Brasil, nunca houve uma pesquisa parecida, diz o autor. Mas “sabe-se que a realidade dos escravos era muito semelhante a essa”.

E, certamente, ocorreu o mesmo nos Estados Unidos. Afinal, não foi por outra razão que Malcolm Little abandonou o sobrenome imposto pelos antigos escravizadores de seus antepassados, tornando-se Malcolm X.

O fato é que mesmo com a escravidão tornada ilegal, seu objetivo maior continua a ser buscado pelos escravocratas contemporâneos. Não bastam as constantes agressões que resultam em mortes, mutilações, traumas e medo.

A “morte social” também continua a ser imposta a negros, indígenas e outras etnias não brancas. Ela acontece cada vez que são atacados seus modos de vida e tradições culturais milenares.

Mas, apesar disso tudo, a comunhão que é consequência das lutas de resistência política e cultural jamais deixou e deixará de acontecer.

Leia também:
A luta de Malcolm X contra a escuridão conservadora

9 de janeiro de 2020

Iluminismo e Escravidão. Racismo e Capitalismo

Em “Escravidão”, Laurentino Gomes, mostra como a ideologia racista que justificava a escravidão surgiu em meio às luzes do iluminismo ocidental. No livro, ele cita alguns nomes respeitáveis desse movimento filosófico.

David Hume escreveu em 1748:

Suspeito que os negros, como em geral todas as outras espécies de seres humanos, sejam naturalmente inferiores aos brancos. Nunca houve entre eles nação alguma tão civilizada quanto entre os brancos. Nenhum grande inventor entre eles, nenhuma Arte, nenhuma ciência.

Em 1756, Voltaire:

Os olhos redondos, o nariz achatado, os lábios sempre grossos, o formato diferente das orelhas, o cabelo encrespado na cabeça, e mesmo a sua capacidade mental estabelecem uma prodigiosa diferença entre eles e as outras espécies de seres humanos.

Kant, em 1764:

Os negros africanos não receberam da natureza qualquer inteligência que os coloque acima da tolice. Portanto, a diferença entre as duas raças (negra e branca) é muito substancial. A distância no que diz respeito às faculdades mentais parece ser tão grande quanto a da cor (da pele).

Em 1837, Hegel, o grande iluminista alemão, considerava que “a única essencial ligação que existiu e permaneceu entre negros e europeus é aquela da escravidão”.

São preconceitos absurdos como esses que estão no núcleo original da ideologia que justifica a dominação capitalista até hoje.

Em sua obra clássica “Capitalismo e Escravidão”, Eric Williams demonstra a profunda ligação entre racismo, escravidão e capitalismo. Legalmente condenada, a escravidão persiste. Socialmente tolerado, o racismo se fortalece. A sustentar ambos, o capitalismo. 

Por isso, não pode haver luta verdadeiramente antirracista que não seja anticapitalista nem luta radicalmente anticapitalista que não seja antirracista.

Leia também: Acorrentados à hipocrisia de nossa época

8 de janeiro de 2020

Acorrentados à hipocrisia de nossa época

“Provavelmente não existe hoje nenhum grupo de pessoas cujos ancestrais nunca tenham sido em algum momento escravos ou donos de escravos”, afirma Laurentino Gomes em seu livro “Escravidão”.

Realmente, o trabalho escravo sempre esteve presente na história humana. Aristóteles era senhor de escravos. Thomas Jefferson e Tiradentes, também.

Mas Aristóteles afirmou em seu tratado sobre política que a “humanidade se divide em duas: os senhores e os escravos; aqueles que têm o direito de mando e os que nasceram para obedecer”.

Já o herói nacional estadunidense e seu equivalente brasileiro, são símbolos de uma época cujos valores maiores são a igualdade, a fraternidade e a liberdade humanas.

O filósofo John Locke foi grande defensor e propagador desses valores. Gomes cita uma de suas frases mais famosas: "A verdadeira liberdade consiste em não estar sujeito à vontade inconstante, incerta, desconhecida e arbitrária de um outro ser humano".

Apesar da beleza dessas palavras, Locke era acionista de uma companhia de tráfico negreiro, lembra o autor.

Em uma das cenas mais marcantes de sua presidência, Barack Obama canta “Amazing Grace” em um funeral, em 2015. O compositor desse belo hino protestante é John Newton, capitão de navio negreiro.

É essa enorme hipocrisia que diferencia nossa época em relação às outras quando se trata da servidão humana. Afinal, informa Gomes, estima-se:

...que existam, hoje, mais escravos no mundo do que em qualquer período durante os 350 anos de escravidão africana na América. Seriam 40 milhões de pessoas vivendo nessas condições — ou seja, mais do que o triplo do total de cativos traficados no Atlântico até meados do século XIX.

Leia também:

7 de janeiro de 2020

A Comuna dos Cabanos

Há 185 anos, começava a Cabanagem. Trata-se da maior revolta popular da história nacional e, por isso mesmo, aquela que foi reprimida da maneira mais sangrenta.

Tudo começou com uma aparente convergência de interesses entre parcelas da elite da enorme província do Grão-Pará e suas camadas populares. O contexto era o racha que ocorreu na monarquia portuguesa em 1822, envolvendo o que costumamos chamar de Independência Nacional.

Muitos dos poderosos de Belém não aceitavam a centralização do poder imperial nas cortes do Rio de Janeiro. Em meio a esse conflito, os cabanos alinharam-se aos que defendiam maior autonomia local em troca de ver atendidas suas reivindicações por melhores condições de vida.

Os cabanos eram assim chamados em referência a suas precárias habitações. Eram caboclos, indígenas, negros. Libertos ou escravizados. Muito pobres, terrivelmente explorados.

Vitoriosa a rebelião, um latifundiário assumiu o governo. Não demorou muito para que as exigências dos cabanos fossem esquecidas. Diante disso, os líderes populares tomaram o poder.

Imediatamente, as elites locais e fluminenses resolveram suas divergências para promover um grande massacre. O poder cabano resistiu durante dez meses, até que navios vindos do Rio passaram a bombardear Belém impiedosamente.

Seguiram-se cinco anos de perseguições pelas matas do Pará. Na época, viviam cerca de 100 mil habitantes na região. Deste total, 30% a 40% teriam sido mortos. A imensa maioria, indígenas, negros, caboclos. Tribos inteiras foram exterminadas, como os Murá e os Mauê.

A Comuna de Paris ocorreria décadas depois, mas a Cabanagem já antecipava toda a covardia e estupidez de que são capazes as classes dominantes. 185 anos depois, pouca coisa mudou.

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6 de janeiro de 2020

A escravidão presente no nascimento do liberalismo

O trabalho escravo está presente em grande parte da história humana, adverte Laurentino Gomes no primeiro volume do que virá a ser a trilogia “Escravidão”. Mas:

A história da escravidão na América se distingue das formas mais antigas de cativeiro por duas características principais. A primeira é o regime de trabalho. No passado, os escravos eram usados em serviços domésticos...

No entanto, também podiam desempenhar funções especializadas como as de marceneiros, ferreiros, agricultores, guerreiros. Em alguns casos, diz ele, chegaram a ocupar altos cargos administrativos, como os de escriba e tesoureiro.

Já na América, afirma, tornaram-se sinônimo de trabalho intensivo em grandes plantações e na mineração. Seu trabalho era organizado “de forma muito semelhante às linhas de produção” que, mais tarde, caracterizariam as fábricas da Revolução Industrial.

A outra característica era uma ideologia racista, que passou a associar a cor da pele à condição de escravo. Uma doutrina sustentada por evidências “pretensamente científicas, que se referiam não apenas às diferenças relacionadas à cor da pele, mas também a alguns traços anatômicos peculiares”.

A questão é que essa ideologia começou a se mostrar contraditória em relação às ideias igualitárias que começavam a ganhar força quando os navios negreiros ainda atravessavam os mares. Era o liberalismo burguês, que tem no filósofo John Locke um de seus grandes formuladores.

Acontece que o próprio Locke era acionista da Royal African Company, cujo único propósito era traficar escravos. Um exemplo claro de como o discurso sobre liberdade, fraternidade e igualdade nunca se livrou do “sangue e da lama” que, segundo Marx, manchou o nascimento e ainda marca a sustentação do capitalismo.

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