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4 de março de 2024

Fé e fuzil: espiritualidade, religião e emancipação humana

Se quiserem ter uma ideia sobre o que eram as primeiras comunidades cristãs, observem uma seção local da Associação Internacional de Trabalhadores.

A frase acima é de Joseph-Ernest Renan, filósofo francês do século 19. Ele se refere à chamada I Internacional, que teve entre seus fundadores Marx e Engels. E é este último que cita Renan em sua obra “Contribuição para a História do Cristianismo Primitivo”, buscando mostrar o potencial emancipador das primeiras comunidades cristãs.

Rosa Luxemburgo faz o mesmo em “O Socialismo e as Igrejas”. Ela transcreve, por exemplo, a passagem bíblica de "Atos dos Apóstolos", em que a primeira comunidade de Jerusalém é descrita desse modo:

Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. E a cada um era distribuído de acordo com a sua necessidade.

Essas passagens ajudam a mostrar como as contradições da luta de classes atravessam as mais variadas esferas das sociedade, em épocas e situações  mais díspares. Vivemos um momento em que a religião é fortemente utilizada por projetos autoritários. É o que evidencia o livro “A Fé e o Fuzil”, de Bruno Paes Manso, que comentamos nas últimas pílulas.

Mas Manso também mostra que há muita gente atuando em defesa da fraternidade e da justiça social nas várias denominações religiosas. Além disso, o ateísmo ou agnosticismo são igualmente capazes de alimentar fundamentalismos.

Se a espiritualidade é uma importante afirmação da condição humana, a religiosidade que justifica a exploração e a opressão nas relações sociais é sua negação.

Leia também: Fé e Fuzil: o crime como modo capitalista de funcionamento

23 de fevereiro de 2024

Fé e Fuzil: PCC, religião e racionalidade

O primeiro estatuto do PCC tinha como uma de suas referências os Dez Mandamentos. “Não usarás o nome do Senhor em vão”, por exemplo, inspirava um item que proibia o uso do PCC para objetivos pessoais. Quem flertava com as mulheres de outros presos infringia proibição semelhante ao mandamento “Não cobiçarás a mulher do próximo”. E havia o batismo, em que o novo integrante assumia a defesa da organização e das leis do crime.

O PCC também criou um sistema de comunicação eficiente para disseminar suas leis. Os “torres” usavam telefones para ditar as regras aos “sintonias”. Estes, espalhados pelos presídios e quebradas, rapidamente repassavam as mensagens.

Os “disciplinas” faziam funcionar um sistema informal de justiça com espaço para acusação, defesa, análise das provas e prolação de sentenças.

Os sintonias e os disciplinas formavam as células do PCC espalhadas pelas novas unidades penitenciárias construídas depois de 1995, durante a gestão do governador Mário Covas. Entre 1990 e 2020, mais de 1 milhão de pessoas passaram por uma de suas unidades.

Quanto maior a quantidade de presos, mais crescia o tamanho do contingente à disposição da facção e o volume de conexões entre as prisões e as ruas. Era uma estrutura inteligente e durável que não estava ligada a nomes ou pessoas, mas a funções. O isolamento ou morte de um “sintonia” ou “disciplina” não afetava o funcionamento do sistema.

As informações acima estão no livro “A Fé e o Fuzil”, de Bruno Paes Manso. Mostram como doutrina religiosa e racionalidade capitalista se combinaram para criar uma nova forma de organização do crime.

Leia também: Fé e Fuzil: a gênese da teologia do domínio

21 de fevereiro de 2024

Fé e Fuzil: a gênese da teologia do domínio

"Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra", diz a famosa passagem do Gênesis.

Nos final dos anos 1980, setores evangélicos interpretaram o trecho acima como um mandato para dominar o mundo, inclusive nas esferas não religiosas. Surgia a teologia do domínio.

“Chegara a hora de os ímpios serem governados pelos abençoados”, pregavam os evangélicos adeptos dessa doutrina. E para chegar ao poder, eles precisam avançar sobre os “Sete Montes”: família, religião, educação, mídia, entretenimento, finanças e governo.

Em 1987, o deputado da Assembleia de Deus, Matheus Iensen, propôs a emenda parlamentar que aumentou de quatro para cinco anos o mandato de José Sarney. Três dias antes da votação da proposta, foram liberados 110 milhões de cruzados para a Confederação Evangélica do Brasil

As concessões de rádio e TV se tornaram importantes moedas de troca. Entre 1985 e 1989, o presidente concedeu 632 canais FM e 314 AM. Deputados da bancada evangélica receberam sete concessões de rádios e duas de TV.

Em 2005, com uma grande emissora de TV nas mãos, a Universal fundou o Partido Republicano Brasileiro. Entre seus filiados, estava o então vice-presidente da República de Lula, o empresário José de Alencar.

As informações acima estão no livro “A Fé e o Fuzil”, de Bruno Paes Manso. Mostram a gênese de um fenômeno que viria a ajudar a fortalecer algo que, sem ser divino ou diabólico, manifesta-se como uma das piores formas da maldade humana: o fascismo.

Leia também: Fé e Fuzil: lições sobre hegemonia pentecostal

8 de fevereiro de 2024

Fé e Fuzil: lições sobre hegemonia pentecostal

O movimento social está dizendo que o mundo está acabando, que o fascismo está tomando conta, uma série de desgraças. Mas o pessoal da favela já é doutor em desgraça, ele não precisa ouvir mais essas. Já os pastores estão lá, dizendo para o desgraçado que ele é tudo pra Jesus. Se eu estou numa situação de abandono, eu me agarro.

As palavras acima são do dirigente da Central Única das Favelas (Cufa), Preto Zezé. Estão no livro de Bruno Paes Manso “A fé e o fuzil”. Organizações como a Cufa, lembra ele, são moldadas pelos valores da era pentecostal, ligados ao empreendedorismo.

Os evangélicos pentecostais ofereciam algo que outras estruturas de poder seculares, criadas para produzir controle e ordem, não conseguiam, afirma o autor. Isso ocorria, em primeiro lugar, pela força de suas mensagens. As pessoas as obedeciam porque acreditavam nas explicações, seguiam suas regras e mudavam de comportamento porque queriam ser recompensadas por isso.

Como a competição com os mais ricos era inglória, o crime surgia como opção para os revoltados e cínicos. Já a crença em um poder divino podia favorecer o amor-próprio e trazer satisfação pessoal. Os pentecostais também conseguiram criar uma poderosa estrutura de comunicação, diz o autor.

Quanto maior o alcance da mensagem, menos exótica ela se tornava, e conforme deixava de ser estranha ao senso comum, mais normalizada e mais adeptos conquistava. Templos surgiam com a mesma agilidade que botecos e biroscas, tornando-se presença inseparável do ambiente das favelas, conclui Manso.

Nesses poucos parágrafos, muitas lições sobre disputa de hegemonia, ainda que orientada por valores conservadores e neoliberais.

Leia também: Fé e fuzil: o sagrado e a luta de classes

6 de fevereiro de 2024

Fé e fuzil: o sagrado e a luta de classes

Com a chegada dos pentecostais à arena política no início do século, o debate passou a girar em torno dos costumes que, teoricamente, numa república democrática, deveriam ficar restritas ao universo privado, diz Bruno Paes Manso, em seu livro “A fé e o fuzil”.

Os temas morais ganharam destaque. As leituras da Bíblia e não os debates técnicos indicavam o caminho sobre políticas públicas e os rumos do país. Nesse sentido, o que aconteceria se os pentecostais se tornassem a maioria do eleitorado? Uma guerra santa? Não necessariamente.

Pentecostalismo não é sinônimo de alienação ou de fanatismo, afirma Manso. Marina Silva foi senadora, deputada federal e ministra de Estado. Apesar de ser missionária da Assembleia de Deus, sempre evitou levar suas crenças para o debate público. Manteve um diálogo ecumênico com indígenas, quilombolas e ribeirinhos em defesa de causas comuns. Nas três eleições presidenciais que disputou, entre 2010 e 2022, nunca usou a religião para ganhar votos, ressalta o autor.

Anthony Garotinho foi o primeiro candidato à Presidência a ser apoiado pelos evangélicos. Apesar da boa votação, não chegou ao segundo turno. Os governos Lula e Dilma receberam o apoio dos evangélicos nos partidos do centrão. A eleição de Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, para a prefeitura do Rio foi um primeiro sinal de alerta.

Depois, Bolsonaro recebeu sólido apoio das cúpulas evangélicas. Pouco importava que fosse um dos políticos mais infames da história brasileira. O “sagrado” sempre esteve em disputa nas lutas pelo poder. Ultimamente, inclinando-se fortemente à direita.

A luta de classes escreve reto por linhas tortas ou vice-versa.

Leia também: Fé e fuzil: o Jesus pacifista cancelado

1 de fevereiro de 2024

Fé e fuzil: o Jesus pacifista cancelado

Em meio ao caos violento da vida urbana nacional, uma leitura belicosa da Bíblia justifica o tratamento truculento das contradições e problemas sociais. É o que mostra Bruno Paes Manso, em seu livro “A fé e o fuzil”.

Do Velho Testamento emergia a autoridade superior, infinita, onipresente, onisciente, que criou o universo e estabeleceu uma série de regras a serem obedecidas pelos descendentes de Abraão e do povo de Israel, afirma o autor.

A aliança divina entre o povo de Deus e seu criador garantia o triunfo dos que obedeciam e o castigo aos que desacreditavam. Deuteronômio 32,41-42 é particularmente explícito: “Embriagarei minhas flechas com sangue e minha espada devorará a carne, sangue dos mortos e cativos, das cabeças cabeludas do inimigo.”

O episódio bíblico da invasão de Jericó por Josué costuma ser muito citada. É nele que Deus autoriza o assassinato de velhos e crianças para poder governar por intermédio de reis e profetas comprometidos com suas leis.

O apóstolo Paulo instrui os crentes a permanecer em estado de alerta contra o inimigo que nos afasta de Jesus. O inimigo interno, dentro de nós, mas também o externo.

As passagens bíblicas também podem servir para justificar as execuções sumárias. Em Êxodo 22,1: “Se um ladrão for surpreendido arrombando um muro, e sendo ferido morrer, quem o feriu não será culpado do sangue”.

Não à toa, as bancadas da Bala e da Bíblia são aliadas permanentes no Congresso Nacional. Integraram os mesmos partidos do Centrão que apoiaram Bolsonaro.

O Jesus fraterno e pacifista da Teologia da Libertação foi silenciado e cancelado, conclui Manso.

Leia também: Fé e Fuzil: a Teologia da Libertação contra a ditadura

24 de janeiro de 2024

Fé e fuzil: a Cristolândia tocando “pragod” na Cracolândia

Sérgio é um personagem do livro “Fé e Fuzil”, de Bruno Paes Manso. Membro da instituição evangélica Cristolândia, ele e outros “missionários” percorriam a Cracolândia paulistana tentando convencer os usuários de drogas a mudar de vida. Chegavam tocando samba (que chamavam de “pragod”), oravam para expulsar demônios e distribuíam sopas e cobertores.

Ainda menino, Sérgio foi abusado por um homem de sua família. Adulto, tornou-se travesti e foi para a Europa, onde caiu vítima de uma gangue de tráfico humano. De volta ao Brasil, acabou na Cracolândia, mas foi “resgatado” pelos religiosos da Cristolândia.

Sérgio não condenava moralmente os transexuais ou travestis. Sua missão na Cracolândia era trabalhar com elas, não para que mudassem suas identidades ou orientações, mas para que deixassem as drogas e as ruas. Quando os transexuais e travestis aceitavam dormir no abrigo da instituição, recebiam calcinhas e roupas femininas, não cuecas, camisetas e bermudas. Sérgio defendia que o trabalho de doutrinação religiosa só seria efetivo se essas pessoas fossem respeitadas e aceitas como tais.

Depois de se converter ao cristianismo, Sérgio fez várias cirurgias para retirada de silicone e frequentou um curso de teatro para “recuperar o que entendia como comportamento masculino”. Na época que Manso o conheceu, estava prestes a se casar com uma missionária de Curitiba.

Se Sérgio livrou-se do inferno das drogas e das ruas, sua conversão pode representar o ingresso em nova etapa de sofrimento, ao ceder à repressão religiosa e violentar sua sexualidade. Mas, mesmo equivocada em seus fins, a abordagem emocional e afetiva que adotou em seu trabalho deveria servir de exemplo à militância de esquerda.

Leia também: Fé e Fuzil: a Bíblia como manual de instrução

22 de janeiro de 2024

Fé e Fuzil: a Bíblia como manual de instrução

“A vida nas cidades não permite um respiro sequer”, diz Bruno Paes Manso em seu livro “Fé e Fuzil”. Ele se refere à urbanização desenfreada da sociedade brasileira desde meados do século passado. Para as populações vindas do campo que desembarcavam nas grandes cidades, era “cada um por si, numa competição desesperada para superar a pobreza”.

Nessa situação, “ganha quem consegue mais dinheiro, não apenas para as necessidades urgentes e concretas, mas também para as conquistas materiais simbólicas que garantem respeito, status e protegem de situações violentas e humilhantes”, diz ele.

“Muitos ficam pelo caminho, pobres, com fome, sem emprego”. Não poucos encontraram no crime um atalho ilusório e fatal para a resolução de seus problemas. “Entre matadores, policiais, grupos de extermínio e criminosos, o sistema funcionava como uma máquina bem azeitada de produzir pecadores, enquanto os pentecostais tentavam faturar oferecendo um antídoto para essas almas”, afirma Manso.

O remédio fornecido pelos “crentes” converteu os mais convictos “pecadores”.  Foi o caso do tenente Pereira, policial militar condenado e preso por executar suspeitos. Segundo ele, sua conversão para uma vida livre da dominação demoníaca aconteceu graças a um manual de instruções chamado Bíblia. “Se você não ler o manual, não seguir o manual, a sua tendência é ser destruído”, assegura.

Nada disso seria problema se não servisse para ocultar o que realmente está por trás do massacre cotidiano da população pobre e explorada das grandes cidades. São os poderes entranhados na materialidade da máquina de exploração e opressão do capitalismo contemporâneo. Poderes que podem até ser diabólicos, mas não têm nada de sobrenaturais.

Leia também: Na periferia do Rio, Faixa de Gaza e Complexo de Israel

17 de janeiro de 2024

Na periferia do Rio, Faixa de Gaza e Complexo de Israel

Em 2016, na periferia da zona norte do Rio, havia uma região dividida por conflitos violentos conhecida como Faixa de Gaza até que foi pacificada e unificada sob o nome de Complexo de Israel. Essa operação foi feita de forma violenta e liderada por um traficante chamado Peixão.

Leitor da Bíblia, Peixão compara sua trajetória à de personagens sagrados nas guerras de conquistas territoriais do povo de Israel. Ele alega que sua autoridade decorre diretamente do Criador. Para além dos lucros do tráfico, sua governança baseia-se nos textos sagrados.

“Traficrentes” é o apelido que convertidos como Peixão receberam no Rio. Diferente de outros que aderiram à fé cristã e abandonaram as atividades ilegais, ele continua ganhando dinheiro com o crime. Ostenta fuzis, corrompe policiais e é implacável com os inimigos.

Por outro lado, investiu em pavimentação e coleta de lixo, além de construir uma ponte que a comunidade esperava da prefeitura há muitos anos. Com direito até a prestação de contas, revelando para a população os custos da construção.

Tudo isso está no livro “Fé e Fuzil”, de Bruno Paes Manso. O discurso de Peixão não é simples simulação para enganar os incautos, diz o autor. Ele atribui um sentido para sua missão. Sustentar e fortalecer os guerreiros de Deus, vendendo drogas para os adoradores do diabo.

No Rio de Janeiro, com seu longo histórico de governadores presos, “é como se as leis republicanas estivessem suspensas”, afirma Manso. Mas, certamente, para a grande maioria pobre e marginalizada da população, leis republicanas são mais abstratas que fanatismos religiosos ou as regras brutais do crime.

Leia também: Fé e fuzil: a metanoia e os traficrentes

16 de janeiro de 2024

Fé e fuzil: a metanoia e os traficrentes

“Metanoia” é um conceito que aparece no livro “Fé e Fuzil”, de Bruno Paes Manso. Representa “uma mudança de consciência e de comportamento que não acontece por ameaça de punição, nem por mera pressão social, mas por convicção pessoal, em decorrência de uma crença que faz o sujeito passar a enxergar o mundo de outra forma e a agir conforme ela.”

O processo é radical e quase sempre envolve uma religião, diz o autor. Quem passa por ele adota “outro programa mental”, que o torna um “abençoado”.

Segundo Manso, a partir da metanoia, o “abençoado” iniciava seu caminho sem passivos. Mesmo porque para boa parte dos pentecostais, “a perversidade pregressa, a maldade, as pisadas na bola em geral, tinham sido resultado da ausência de Jesus na vida do indivíduo” e da “influência do Diabo, o inimigo de Cristo”.

Essas conversões ofereciam respostas para suportar o cotidiano das misérias materiais e existenciais dos centros urbanos, criar oportunidades, abrir caminhos. “Bastava crer para ver o portal se abrir. O crente ganhava passaporte para um novo mundo que direcionava suas escolhas, dava uma missão transcendente e preenchia o vazio da vida”, afirma o autor.

Após a conversão, muitos abandonaram suas atividades criminosas. Mas outros se mantiveram fora da lei. É o caso de Peixão, um traficante que criou o Complexo de Israel na zona norte do Rio, unificando sob seu comando uma violenta região conhecida como “Faixa de Gaza”. É um exemplo do que se costuma chamar de “traficrente”.

Também mostra como o sistema de dominação utiliza os mais diversos elementos a seu favor, enquanto espalha a barbárie.

Leia também: PCC, pentecostais e reprogramação mental

12 de janeiro de 2024

PCC, pentecostais e reprogramação mental

No início dos anos 1990, imperava imensa desordem nas periferias paulistanas. Para grande parte da população periférica masculina restava como ocupação “um mercado ilegal, cheio de armas e altamente competitivo”.

As chacinas se multiplicavam. Os jovens pobres e negros viviam acuados. O consumo de crack se espalhava e os conflitos se intensificaram ainda mais. Surgiram justiceiros populares que acabaram alimentando um ciclo interminável de vinganças.

Nessa situação, “seria possível produzir outras verdades, capazes de reprogramar as mentes e mudar os comportamentos homicidas? Haveria espaço para mudar comportamentos a partir de um discurso que convencesse os matadores a pararem de se matar?”. É o que pergunta Bruno Paes Manso em seu livro “Fé e Fuzil”.

A resposta veio com uma queda vertiginosa nos homicídios nas periferias paulistanas a partir dos anos 2000. Resultado da maior presença do PCC, que proibiu as vinganças e impôs regras brutais, mas claras e eficientes para as atividades criminosas.

Ao mesmo tempo, diz o autor, os pentecostais cresciam mais do que nunca, promovendo milhares de conversões no mundo do crime. Justiceiros tornaram-se devotos, passando a pregar o bom comportamento e o respeito a Deus e à família. Conhecendo de perto os problemas e aflições das “quebradas”, tornavam-se pastores respeitados.

“Tanto o PCC como as igrejas pentecostais são instituições criadas pelos pobres, para os pobres, que produziam discursos capazes de reprogramar as mentes. O novo Brasil pobre e urbano começava a inventar formas de se governar”, afirma Manso. Enquanto isso, a esquerda perdia terreno.

Reprogramação também pode ser chamada de disputa de hegemonia. Embate decisivo que, em breve, seria vencido pela extrema-direita.

Leia também: Fé e fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI

11 de janeiro de 2024

Fé e fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI

A população rural brasileira representava 69% do total em 1940. Em 1991, esse percentual havia caído para 26%. Os quase 75% que migraram para as cidades encontraram uma estrutura urbana incapaz de acolhê-los.

Diante da incapacidade do Estado e outras instituições para responder a essa situação, duas “soluções” surgiram “para organizar a vida caótica das cidades: a fé e o fuzil”. É o que afirma Bruno Paes Manso, utilizando a expressão que dá nome a seu livro.

Quanto à fé, diz o autor, verifica-se o fortalecimento da autoridade religiosa representada pelo crescimento dos pentecostais, a partir dos anos 1950. No lugar da Teologia da Libertação, que pregava a organização coletiva dos pobres, surge o neopentecostalismo, baseado na fé e empenho individuais, com foco na família, para combater o mal e prosperar em um mundo condenado ao apocalipse.

Com relação à ordem imposta pelo fuzil, verifica-se o aumento da violência policial e da criminalidade nos bairros pobres, a partir dos anos 1980, e a disseminação das facções nos presídios e o surgimento das milícias, a partir dos anos 1990.

No Rio, o Comando Vermelho, fundado nas prisões, encontra na venda de cocaína uma maneira lucrativa de financiar sua organização. Priorizando o controle territorial, facções deste tipo tornaram-se donas dos morros.

Em São Paulo, o controle territorial não fazia parte da estratégia dos traficantes. Havia uma rede horizontal de pequenos empreendedores do crime atuando “sem regulação”. O PCC surgiria dentro dos presídios para se tornar uma “agência reguladora do mercado atomizado do crime paulista”.

Os elementos trazidos pela obra de Paes Manso são fundamentais. Continuaremos a comentá-la.

Leia também: Cangaço, criminalidade e lutas populares

12 de janeiro de 2023

Beatificação e feminicídio

“Saiba quem são os beatos brasileiros que podem virar santo em 2023”, diz o título de uma matéria do Globo, publicada no final de 2022.

A lista dos candidatos à santidade é composta por quatro mulheres e um único homem. Este último, bendito fruto entre elas, é D. Helder Câmara, cuja biografia é marcada pela fundação da CNBB, muitas obras sociais e por sua luta pela democracia em oposição à ditadura empresarial-militar de 1964.

A lista das mulheres começa com a mineira Isabel Cristina Mrad Campos, assassinada em 1982 por um homem que tentou estuprá-la, em Juiz de Fora. Ela tinha apenas 23 anos.

Já a cearense Benigna Cardoso da Silva, mais conhecida como Menina Benigna, morreu ainda mais jovem, aos 13 anos. Moradora do sertão do Cariri, foi assassinada a golpes de facão em 1941, depois de resistir a um rapaz de 17 anos que tentou violentá-la. 

Morte parecida teve a Irmã Lindalva. Em 1993, ela foi assassinada com 40 golpes de facão por um homem que a assediava sexualmente. Já Albertina Berkenbrock, foi morta em 1931, em Imaruí, Santa Catarina. Com apenas 12 anos, perdeu a vida após uma tentativa de estupro por um funcionário da fazenda do pai dela.

Não é preciso destacar o que há de comum entre essas mulheres recentemente beatificadas. Para realmente se tornarem santas, é preciso que sejam aprovadas em outros critérios, incluindo a realização de milagres. Mas se a condição de vítima de feminícidio fosse suficiente para alcançar a santidade, faltariam nichos para exibir as santas brasileiras nas igrejas católicas pelo mundo. 

Leia também: Machismo: do trabalhador braçal ao professor universitário

10 de janeiro de 2023

Se Deus é brasileiro, o diabo é patriota

Está em fase de finalização o filme “Deus ainda é brasileiro”, continuação de “Deus é brasileiro”, de 2003. Ambos de Cacá Diegues. 

Com Antônio Fagundes no papel principal fazendo dupla com o então estreante Wagner Moura, o primeiro filme foi sucesso de público. Lançado logo depois da posse do primeiro governo Lula, era possível ver na produção uma espécie de símbolo da época que se iniciava. “Cheia de esperanças por concretizar e sem abrir mão de alguma astúcia para desviar-se dos percalços que estão por vir”, dizia um texto de minha autoria, publicado na mesma época. 

Trata-se de “Deus é brasileiro e quer férias”, que aproveitava a trama da produção para arriscar uma avaliação sobre a forma como a religiosidade judaico-cristã estaria se manifestando na vida social contemporânea. Segundo o texto, diante de um mundo cada vez mais desencantado, privado de forças mágicas, as pessoas poderiam se sentir convocadas a assumir o fardo de conduzir seu próprio destino.

O problema é que o esvaziamento do sentido religioso também vinha ocorrendo em outras esferas de organização da vida social, como as da política, do trabalho e dos laços comunitários. E o conservadorismo passou a utilizar o fanatismo religioso para preencher esses vazios existenciais. Fenômeno que viria a se manifestar como forte onda ultraconservadora, cerca de uma década depois. E se Deus parecia brasileiro no começo do século, passados 20 anos, seu diabólico adversário se revelou patologicamente patriota. 

De qualquer maneira, talvez o texto ainda mereça uma leitura: clique aqui para acessar.

Leia também: Sou o Deus que transtorna, diz o Capital

7 de novembro de 2022

É hora do exorcismo

“Ninguém sofreu tantas injustiças e foi tão ‘satanizado’ como o próprio Satã”. Estas palavras são de Leonardo Boff, no artigo “Dessatanizar a Satã ou o Diabo”

No texto, Boff lembra que Satã era um dos anjos de Deus. O problema é que na Bíblia recebeu a tarefa “inusitada e ingrata” de colocar à prova a fé do pobre e bondoso Jó, num dos momentos mais cruéis do Antigo Testamento.

Depois, veio a influência de Zoroastro, durante o exílio dos judeus na Babilônia, cuja cosmologia dividia o mundo entre o bem e o mal. Em seguida, veio a criação do inferno por teólogos da Idade Média. Daí foi um passo para que o inferno e suas criaturas servissem aos interesses colonialistas.

Os sacerdotes cristãos ameaçavam os povos originários com o inferno, caso não negassem suas crenças. Além de acusarem suas entidades espirituais de serem criaturas malignas. Prática, aliás, que não mudou muito. Ao contrário, tivemos provas muito recentes de que só vem se fortalecendo.

Como diz Boff: 

...o inferno e os demônios e o principal deles, Satã, são projeções nossas da maldade que existe na história ou que nós mesmos produzimos e das quais não queremos nos responsabilizar e as projetamos nestas figuras sinistras.

Ele também afirma que é apelando a Satã “que hoje, em tempos de ira e ódio social, procura-se desqualificar o adversário, não raro, feito inimigo a ser desmoralizado e, eventualmente, liquidado”. 

O autor está certo. Mas, cá entre nós, após quatro anos de um governo genocida, só dessatanizar parece muito pouco. Um bom e velho exorcismo é altamente recomendável. Sai, capeta!

Leia também:
O anticomunismo neopentecostal escolhe as coisas loucas
Machado, o Diabo e sua igreja

13 de outubro de 2022

A teologia do Capital. Resistente, coerente, diabólica

“Quem são os eleitos do Capital” é o nome de um dos capítulos da versão do “Eclesiastes” bíblico, criada por Paul Lafargue em seu livro “A Religião do Capital”. Nele se destacam os “versículos” abaixo:

– O mineiro vive entre o gás venenoso e os deslizamentos de terra; o operário se move entre as rodas e correias da máquina de ferro; a mutilação e a morte estão diante do trabalhador; o capitalista que não trabalha está protegido de todo perigo.

– Não se tira vinho de pedra, nada se aproveita de um cadáver: exploram-se apenas os vivos. O carrasco que guilhotina um criminoso priva o capital de um animal a ser explorado.

– O patrão que faz os empregados trabalharem 14 das 24 horas não desperdiça o seu dia.

– Não poupe nem o bom nem o mau trabalhador, porque tanto o cavalo bom como o mau precisam da espora.

– A árvore que não dá fruto deve ser arrancada e queimada; o trabalhador que não traz mais lucros deve ser condenado à fome.

– O trabalhador que se revolta, alimenta-o com chumbo.

– Roubar grande e devolver pequeno é filantropia.

– O capitalista, libertário fanático, não dá esmola; pois isso priva os desempregados da liberdade de morrer de fome.

– Digo em verdade, há mais glória em uma carteira recheada de notas, do que no homem carregado de talentos e virtudes ou no burro carregando legumes no mercado.

Há muito mais verdades como estas na obra de Lafargue. Mas a amostra evidencia que o Capital inspira uma das religiões mais resistentes e coerentes. Como se ele fosse, assim, uma espécie de deus. Ou diabo.

Com essas doses profanas, as pílulas entram em breve recesso.

Leia também: Eclesiastes ou a Natureza do Deus-Capital

4 de outubro de 2022

No divórcio com Deus, a briga é pela guarda do filho único

O livro do Apocalipse é o último da Bíblia. Apocalipse quer dizer revelação, em grego. E o que revelou seu autor, João, foi como tudo vai finalmente acabar. Em sua versão bem humorada, Mark Russell relata desse modo:

Jesus Cristo finalmente voltará à Terra. Virá do céu cavalgando um cavalo branco com uma espada na mão, estilo Senhor dos Anéis. Matará todos os soldados do exército romano e usará suas armas como lenha. Então afogará a Besta e seus falsos profetas num lago de fogo. Eu sei que isso não parece muito com o Jesus que você conhece e ama, mas, poxa, o cara cansou de ser sacaneado.

Quando o mundo finalmente for destruído, Deus finalmente voltará para começar do zero. Trará todos os cristãos mortos de volta à vida e dará aos mártires bons empregos no governo. Então, dominará o mundo inteiro, instaurando o Reino de Deus. Nos tratará como porquinhos da Índia, tal como fez no princípio. O mundo será exatamente como era no Jardim do Éden. Só um pouco mais cheio desta vez... e com menos cobras tagarelas.

Russell explica que escolheu “Deus está desapontado com você” como título de seu livro porque condensaria a Bíblia em uma única frase. Só que se o Deus bíblico vive desapontado com suas criaturas, muitas de nós sentem o mesmo quanto a Ele.

Esse casamento eternamente conturbado pode não acabar em apocalipse, mas o divórcio é certo. E faremos questão de brigar pela guarda do filho único. Do Jesus defensor dos explorados, dos oprimidos, da solidariedade humana e da justiça social não abrimos mão!

Leia também: As boas novas de Paulo costumam ser ignoradas

29 de setembro de 2022

Eclesiastes ou a Natureza do Deus-Capital

Em seu livro “A Religião do Capital”, Paul Lafargue cria seu próprio “Eclesiastes”. Na Bíblia, trata-se de uma série de pregações sobre as melhores condutas para a vida. 

Na versão do marxista franco-cubano e genro de Marx, tornou-se o “Livro do Capitalista”. Entre os seus muitos “ensinamentos”, seguem alguns do capítulo “Natureza do Deus-Capital”:

– Eu sou o Deus devorador de homens. Sento-me nas fábricas e consumo os trabalhadores. Eu transubstancio a vida insignificante do proletário em capital divino. Sou o mistério infinito: minha substância eterna é apenas carne perecível. Minha onipotência enfraquece a força humana. A força inerte do Capital vem da força do assalariado.

– Princípio dos princípios: toda produção começa comigo, toda troca termina comigo.

– Sou o Deus vivo, presente em todos os lugares: ferrovias, altos-fornos, grãos de trigo, navios, vinhedos, moedas de ouro e prata são os membros dispersos do Capital universal.

– Sou a alma incomensurável do mundo civilizado, com um corpo infinitamente variado e múltiplo. Vivo no que se compra e se vende. Ajo em todas as mercadorias e nenhuma existe fora da minha unidade de vida.

– Brilho ouro e cheiro estrume. Me alegro no vinho e corro no ácido.

– Vocês tocam, cheiram e saboreiam meu corpo, mas meu espírito mais sutil que o éter é evasivo aos sentidos. Minha mente é crédito. Para se manifestar, não precisa de um corpo.

– Entrego-me e retiro-me a meu bel-prazer e não presto contas. Sou o Onipotente que comanda as coisas que vivem e as coisas que estão mortas.

É isso. Quem quiser, siga-O como seu servo. Mas quem ainda tiver dignidade, que O enfrente.

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22 de setembro de 2022

As boas novas de Paulo costumam ser ignoradas

“Evangelho” quer dizer “boa-nova”, em grego. E a boa-nova transmitida pelos apóstolos de Jesus era o cristianismo.

Um dos principais evangelistas foi Paulo. O problema é que o cristianismo não era aceito pelas autoridades religiosas não cristãs. E Paulo vivia sendo preso por causa de suas pregações. Dos cárceres, enviava muitas cartas. Uma delas foi escrita em Éfeso, na Grécia Antiga. Abaixo, trechos dela na interpretação bem humorada de Mark Russell, no livro “Deus está decepcionado com você”.

Algumas pessoas ainda dão muita importância ao fato de vocês não terem sido circuncidados, mas eu não me importo. Não importa que alguns de nós tenham nascido judeus e outros gentios, tudo o que importa é que somos um povo de Deus. Então, mantenham seus pintos do jeito que quiserem.

Embora eu não me importe se você for enforcado como pagão, devo insistir que você pare de pensar como pagão. Você sabe do que eu estou falando. Desonestidade. Violência. Birras. Lembre-se, tornar-se cristão deveria fazer de vocês pessoas novas.

Pelo amor de Deus, não contem piadas sujas ou fofocas uns sobre os outros. Esse tipo de coisa corrói uma igreja de dentro pra fora. A ideia é perdoar uns aos outros, assim como Cristo os perdoou.

Homens, só porque vocês são os chefes da família e suas esposas têm que fazer o que vocês mandam não significa que podem ser idiotas indiferentes e emocionalmente indisponíveis. Façam-nas felizes, já que elas se casaram com vocês.

Ah, façam algumas orações por mim, também. Acontece que estou na cadeia novamente. 

Beijos! Paulo.

São conselhos nada revolucionários. Mesmo assim, seguem ignorados.

21 de setembro de 2022

O catecismo do superávit público

Voltamos ao livro “A Religião do Capital”, de Paul Lafargue. Publicada em 1886, a obra nada sagrada e muito satírica mantém muito de sua atualidade.

Por exemplo, quando o catecismo dessa nova e poderosa religião laica ordena aos trabalhadores proceder da seguinte maneira em relação a suas economias: Levá-las às caixas econômicas do Estado para que possam ser utilizadas para cobrir os déficits do orçamento público. As quantias depositadas nas caixas de poupança são utilizadas para liquidar a dívida flutuante, que chega a muitos bilhões. Todos os anos, os superávits das contas públicas são usados para compensar os déficits do orçamento. Afinal, o Sr. Ministro das Finanças destacou o perigo que esta situação representa. O Estado pode falir caso os depositantes venham a reivindicar seu dinheiro.

Devemos sempre colocar nossas economias à disposição de nossos senhores, recomenda a doutrina. E nos resignarmos quando os filantropos das finanças, antecipando nossas demandas, nos anunciam que nossas economias se dissiparam em fumaça.

Enquanto isso, diz o texto sagrado, o capital nos concede a inocente distração de eleger legisladores que fazem leis para nos punir. Mas nos proíbe de nos ocupar com política e de dar ouvidos aos socialistas.

Nossos padres mais cultos, os economistas oficiais, dizem que a religião do capital existe desde o início do mundo. Mas como ela era ainda muito pequena, Júpiter, Jeová, Jesus e outros falsos deuses reinaram em seu lugar e em seu nome. Mas desde cerca do ano de 1.500, cresceu e continua a crescer em massa e poder. Hoje domina o mundo, arremata Lafargue.

Assim foi. Assim é...

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