Doses maiores

Mostrando postagens com marcador governo bolsonaro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador governo bolsonaro. Mostrar todas as postagens

20 de junho de 2023

A aliança entre o fascismo e a ralé criminosa

Em 1940, Himmler, inspirado por Hitler, decidiu criar um corpo especial recrutado entre presos condenados por caça ilegal. Segundo o Führer: “Em combate, eu preferia comandar uma seção formada por caçadores ilegais do que pelos advogados que os condenaram”.

Hitler era vegetariano, mas considerava a caça ilegal o “lado romântico” da matança de animais.

À frente do “comando de caçadores” foi colocado Oskar Dirlewanger, um misto de facínora e valentão. Em agosto de 1934, por exemplo, fora condenado a dois anos de prisão por ter provocado vários acidentes de automóvel ao dirigir bêbado e por manter relações sexuais com uma menor de idade.

Recrutados nas cadeias em que cumpriam sentença, os caçadores foram transferidos para um campo de concentração, onde receberam treinamento militar e desde julho de 1940 até junho de 1942 constituíram 94% dos efetivos daquela divisão. Dirlewanger chefiou com mão de ferro aquele contingente de presidiários e o usou para ações de enorme crueldade.

Mas o elevado número de baixas entre os caçadores levou a que, em setembro de 1942, começassem a ser alistados contrabandistas presos com armas na mão. Possivelmente, rodeados da mesma aura romântica que Hitler enxergava nos caçadores ilegais.

Acontece que os contrabandistas também não foram suficientes para compensar as baixas e Himmler propôs a Dirlewanger o recrutamento de bandidos comuns, presos em campos de concentração.

O relato acima está no livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo. Mostra como as relações da extrema-direita com a criminalidade mais rasteira e truculenta são antigas. Não é inovação de Bolsonaro, seus caçadores milicianos, motoristas bêbados, sociopatas pedófilos e contraventores em geral.

Leia também: As eleições como lava-jato de criminosos fascistas

24 de março de 2023

2016, ano referência para a burguesia

Obviamente, o país que Lula voltou a governar tem pouco a ver com aquele que encontrou em 2003. Mas segundo Eduardo Costa Pinto e Ronaldo Bicalho, o ano de referência é 2015.

Os dois são pesquisadores do Instituto de Economia da UFRJ e na edição 135 de seu programa “Diário da Crise”, destacaram dados sobre a taxa de lucro das 500 maiores empresas não financeiras nacionais entre 2000 e 2021.

Em 2004, um ano após a posse de Lula, a taxa de lucro daquelas empresas era 17,9, mantendo-se nesse patamar até 2007. Começou a cair a partir de 2008, despencando para -5,1 em 2015. No ano seguinte, a lucratividade voltou a se recuperar, chegando a 11,5 em 2018. Em 2021, alcançou 22,9, maior taxa em 50 anos.

No mesmo período, a lucratividade dos bancos manteve-se confortavelmente elevada.

O ano-chave, portanto, é 2015, quando os lucros desabaram. O que aconteceu nesse ano? Vários fatores. Entre eles, diz Costa Pinto, a política econômica neoliberal de Joaquim Levy no Ministério da Economia de Dilma. No ano seguinte, não à toa, veio o golpe do impeachment.

Quanto à disparada dos lucros em 2021, certamente foi resultado das políticas que cortaram direitos, achataram salários e eliminaram empregos promovidas pela dupla Temer/Bolsonaro.

Nada disso autoriza teorias da conspiração envolvendo maquinações eleitorais e golpistas do grande capital. Fosse assim, Bolsonaro teria sido reeleito facilmente. Mas mostra uma forte correlação entre os interesses do empresariado graúdo e o cenário político.

Apesar da derrota de Bolsonaro, a burguesia pretende manter a lucratividade recorde de 2021 a todo custo. Para ela, o marco referencial é 2016.

Leia também: O grande capital não tem o que reclamar de Bolsonaro

11 de janeiro de 2023

Por um Tribunal Popular da Pandemia

Eu não entendo que seja possíel retirar o país da crise social e institucional sem a reparação e a responsabilização pela crise da covid-19. Seria praticamente a mesma coisa que foi feita quando anistiamos e permitimos que agentes da ditadura continuassem sem a devida responsabilização. 

As palavras acima são de Paola Falceta, diretora da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas de Covid-19. Foram publicadas no portal Outras Palavras, em 13/12/2022.

Mais recentemente, o grupo Manifesto Coletivo lançou o abaixo-assinado “Anistia Nunca Mais”, no qual afirma:

O Brasil criou seus impasses por meio do esquecimento. Como se não falar, não julgar, não elaborar, pudesse nos garantir alguma forma de paz. Foi assim em vários momentos de sua história, criando uma verdadeira compulsão de repetição. As violências coloniais nunca foram objeto de elaboração devida. Da mesma forma, as violências da ditadura militar foram caladas através de uma anistia que, longe de ter sido resultado de algum “acordo nacional”, foi fruto de uma imposição dos próprios militares e da conveniência de seus aliados civis. Este é um país de silêncio.

O grupo defende uma mobilização popular urgente pela responsabilização do governo Bolsonaro pelos crimes cometidos durante a pandemia.

“Brasil Nunca Mais” era o nome do dossiê que revelou os crimes da ditadura empresarial-militar de 1964. Esse ato de coragem de um punhado de militantes contribuiu para a grande mobilização popular pelo fim da ditadura. Mas foi insuficiente para reverter a vergonhosa anistia que livrou o pescoço de seus carrascos. Não podemos permitir que isso se repita. É importante engrossar o abaixo-assinado. Mais importante, engrossar as mobilizações. “Sem Anistia!”

Leia também: Anistia: outro aniversário de uma lei muito podre

12 de dezembro de 2022

O que era pra ser nunca deixou de ser o que é

O que era pra ser eleições diretas, em 84, tornou-se eleição indireta, em 85. O presidente deveria ser o opositor Tancredo Neves. Acabou sendo seu vice, criatura da ditadura supostamente derrotada.

O que era pra ser uma anistia que faria justiça às vítimas dos generais ditadores, garantiu impunidade aos que as perseguiram e torturaram.

Era para ser uma nova constituição que assegurasse conquistas sociais. Muitas delas ficaram no papel, mas manteve-se a tutela militar sobre o poder civil.

Era pra ser Lula presidente em 89, representando uma década de lutas populares radicalizadas. O eleito foi um nordestino corrupto com o decisivo e fraudulento apoio da oligarquia sudestina.

Fracassada a aventura mafiosa collorida, o que era pra ser uma vitória eleitoral de Lula foi abortada pelo Plano Real. As perdas salariais foram congeladas e os conflitos sindicais neutralizados. A dívida externa transformada em dívida pública passou a saquear orçamentos como os da Educação, Previdência e Saúde. Bilhões de reais dos cofres públicos passaram a ser apropriados diariamente por rentistas nacionais e estrangeiros.

O PT só chegou ao poder após o neoliberalismo desarmar os movimentos populares e domesticar a esquerda institucional. O poder público transformado em dócil gerente da austeridade fiscal.

Todas essas contradições se acumularam até que a crise econômica mundial passou de “marolinha” a “tsunami”. E o que era pra ser Dilma reeleita, em 2014, tornou-se um golpe liderado por seu vice, em 2016.

Era pra ser Bolsonaro reeleito e o fascismo consolidado. Felizmente, Lula não permitiu. Mas continuamos dependendo do que era pra ser, enquanto as coisas nunca deixaram de ser o que são.

Leia também: O tamanho da encrenca

24 de novembro de 2022

O negacionismo e a guerra civil não declarada

É costume definir guerra civil como um confronto entre cidadãos de uma mesma sociedade. Mas o que ocorre se as vítimas do conflito não são consideradas cidadãs?

Por exemplo, na antiguidade grega, quando cidadãos atenienses trocavam espadadas tratava-se de uma guerra civil. Mas essa classificação já não servia se a agressão partia dos cidadãos contra escravos ou estrangeiros.

Muitos séculos depois, essa regra continua valendo. Quando as vítimas são indígenas, negros, homossexuais, mulheres, pobres ninguém chama de guerra civil.

Mas e se universitários, profissionais liberais, pacatos frequentadores de restaurantes, enfim “cidadãos”, são agredidos apenas por usar roupas vermelhas? Aí, sim, é guerra civil.

O raciocínio acima serve para introduzir o que diz o professor de filosofia Pedro Rocha de Oliveira no interessante artigo “As razões do negacionismo: guerra civil e imaginário político moderno”.

Segundo Oliveira, o negacionismo não é uma recusa irracional de verdades estabelecidas. É uma postura ideológica compatível com as enormes contradições da sociedade contemporânea. Ele surge de um sistema social que se pretende justo, mas garante alguns direitos para uma minoria cidadã, enquanto castiga uma grande maioria marginalizada.

Diante de tanta disparidade, recusar fatos jornalísticos, evidências científicas, consensos historiográficos não é tão absurdo. Há muitos anos, Bolsonaro nega os crimes da ditadura. E suas promessas de matar “uns 30 mil” só escandalizavam quem estava distante das mortes violentas presentes no cotidiano da população pobre.

Quando o bolsonarismo toma como alvo aqueles tidos como esclarecidos e progressistas, fica oficializada a guerra civil. O problema é que dificilmente contaremos com grande apoio daqueles que já vinham sendo vítimas de uma guerra civil jamais declarada.

Leia também: A polícia bolsonarista é anterior ao bolsonarismo

17 de novembro de 2022

Lula e STF facilitando para o bolsonarismo

“Discurso de Lula na COP27 resgata papel do Brasil”, diz o título do editorial do Globo de hoje sobre o pronunciamento do presidente eleito na conferência do clima das Nações Unidas.

Mas, segundo o jornalão, Lula “errou feio” ao aceitar carona no avião de José Seripieri Junior, dono da Qualicorp, um dos maiores grupos de saúde privada do País.

Depois de saudar o pronunciamento de Lula, o editorial termina, esperando que “doravante” ele saiba “separar o espaço público de interesses privados”.

Por falar em mistura de interesses públicos e privados o jurista Conrado Hübner Mendes, tratou do tema em sua coluna publicada também hoje, na Folha. Mendes destacou a presença de seis ministros do STF na "Lide Brazil Conference", em Nova York.

O evento foi organizado pela "Lide - Grupo de Líderes Empresariais", empresa de João Doria, que segundo o articulista, dedica-se a "fazer pontes" entre o mundo corporativo e o mundo público. “Não precisa chamar de lobby se tiver apego ao eufemismo”, adverte ele.

Realmente, não há o que justifique seis dos togados mais poderosos do país juntos e misturados com quem manda em grande parte da economia nacional. Apesar disso, não houve editoriais condenatórios nem toda a comoção que se verificou no caso de Lula.

Além disso, comparando os dois casos, note-se que, diferente de magistrados pretensamente neutros, Lula nunca escondeu suas amizades com empresários desde que era metalúrgico.

Mas, de um jeito ou outro, é preciso levar a sério a advertência do colunista da Folha: “há várias formas de Bolsonaro sair vitorioso após a derrota eleitoral”. Toda essa promiscuidade é uma delas.

Leia também: Lula sob ameaça de prisão

7 de novembro de 2022

É hora do exorcismo

“Ninguém sofreu tantas injustiças e foi tão ‘satanizado’ como o próprio Satã”. Estas palavras são de Leonardo Boff, no artigo “Dessatanizar a Satã ou o Diabo”

No texto, Boff lembra que Satã era um dos anjos de Deus. O problema é que na Bíblia recebeu a tarefa “inusitada e ingrata” de colocar à prova a fé do pobre e bondoso Jó, num dos momentos mais cruéis do Antigo Testamento.

Depois, veio a influência de Zoroastro, durante o exílio dos judeus na Babilônia, cuja cosmologia dividia o mundo entre o bem e o mal. Em seguida, veio a criação do inferno por teólogos da Idade Média. Daí foi um passo para que o inferno e suas criaturas servissem aos interesses colonialistas.

Os sacerdotes cristãos ameaçavam os povos originários com o inferno, caso não negassem suas crenças. Além de acusarem suas entidades espirituais de serem criaturas malignas. Prática, aliás, que não mudou muito. Ao contrário, tivemos provas muito recentes de que só vem se fortalecendo.

Como diz Boff: 

...o inferno e os demônios e o principal deles, Satã, são projeções nossas da maldade que existe na história ou que nós mesmos produzimos e das quais não queremos nos responsabilizar e as projetamos nestas figuras sinistras.

Ele também afirma que é apelando a Satã “que hoje, em tempos de ira e ódio social, procura-se desqualificar o adversário, não raro, feito inimigo a ser desmoralizado e, eventualmente, liquidado”. 

O autor está certo. Mas, cá entre nós, após quatro anos de um governo genocida, só dessatanizar parece muito pouco. Um bom e velho exorcismo é altamente recomendável. Sai, capeta!

Leia também:
O anticomunismo neopentecostal escolhe as coisas loucas
Machado, o Diabo e sua igreja

31 de outubro de 2022

Uma vitória de Pirro? Uma vitória da porra!

Os exércitos se separaram e, diz-se, Pirro ter respondido a um indivíduo que lhe demonstrou alegria pela vitória que "uma outra vitória como esta o arruinaria completamente". Pois ele havia perdido uma parte enorme das forças que trouxera consigo, e quase todos os seus amigos íntimos e principais comandantes... 

O relato acima é do historiador grego Dioniso de Halicarnasso e refere-se a batalhas travadas contra os romanos pelo rei macedônio Pirro, no século 3 A.C.

A partir daí, “vitória de Pirro” passou a ser aquela cuja conquista tem um preço quase tão alto quanto uma derrota. Não seria difícil utilizar a expressão em relação à eleição de Lula, ontem. Para obtê-la, Lula e o PT tiveram que abrir mão não só de muitos de seus princípios como devem perder vários dos principais postos em seu próprio governo. 

E muitos de nós, das velhas tropas da esquerda, acabamos marchando ombro a ombro com antigos generais inimigos, responsáveis por tantas de nossas derrotas e muitas de nossas baixas.

Mas era imperioso impedir uma recondução do bolsonarismo ao Poder Executivo. Situação que levaria a ainda mais atrocidades contra os pobres e outros setores vulneráveis da população e à implantação definitiva do fascismo no País.

Além disso, é preciso levar em conta os inúmeros crimes eleitorais cometidos por Bolsonaro. Em especial, o orçamento secreto e a imensa derrama de recursos públicos em favor de sua candidatura, contando com a omissão e cumplicidade vergonhosas de uma institucionalidade pretensamente republicana. 

Tudo isso torna a eleição de nosso heroico Pirro de Garanhuns uma enorme conquista. Uma vitória da porra! 

Leia também: Não há cheque em branco nenhum para Lula

3 de outubro de 2022

Matéria escura e ondas eleitorais

Metáforas podem ser muito úteis para explicar coisas difíceis de entender. E também para mostrar o tamanho de nossa ignorância em relação a certos fenômenos.

Há quase um século, a astrofísica detectou a existência da matéria escura no universo. Trata-se de uma substância invisível que não interage com a luz e só pode ser detectada por seus efeitos gravitacionais. 

Os mais recentes resultados eleitorais poderiam ser comparados a efeitos indiretos provenientes de uma matéria que permanece escura para um tipo específico de observador: a militância das forças de esquerda.

Escura porque fica longe de determinados holofotes, essa substância parece ser composta de todo o tipo de resíduos e detritos históricos, reciclados e recombinados permanentemente. Nela estão tanto o senhor de escravos e seus feitores, como generais saudosos da ditadura, torturadores, jagunços, milicianos com mandatos, empresários escravocratas, sacerdotes mercenários e padres pistoleiros. É uma maçaroca de racismo, homofobia, misoginia, fanatismo, truculência e superexploração capitalista. Composição potencializada pela persistência secular da desigualdade e injustiças sociais.

Há momentos, porém, em que as metáforas atingem seus limites. A matéria escura cosmológica está fora do alcance de nossas ações. Mas não podemos nos permitir fazer o mesmo em relação ao equivalente dela no cenário político nacional. Diferente de seu análogo metafórico, deixada a si mesma, essa matéria não permanece inerte. A direita a manipula com muita competência.

Não podemos continuar a nos lembrar da existência desses pontos cegos somente quando somos sacudidos por ondas eleitorais. Por trás delas estão as forças gravitacionais do sistema de dominação que são capazes de nos esmagar.

Leia também: Não há cheque em branco nenhum para Lula

28 de setembro de 2022

Não há cheque em branco nenhum para Lula

Em sua coluna de hoje, no Globo, Vera Magalhães alertou que tantos e tão diferentes apoios declarados a Lula não podem “ser um cheque em branco para o petista gastar como bem entender”.

Na mesma edição, Alvaro Gribel descreveu o encontro de Lula com “pesos-pesados” do empresariado nacional, ocorrido, ontem, em São Paulo. O texto destaca os elogios de Aloizio Mercadante ao governo FHC, assim como a necessidade de combater a inflação a qualquer custo. Não à toa, Abílio Diniz brincou, chamando-o de “economista liberal”.

Em sua vez de falar, Lula preferiu passar a palavra para os empresários, para “saber deles o que seu governo precisava fazer para resolver os problemas do Brasil”.

Falaram Abílio Diniz, ex-Pão de Açúcar, André Esteves, do BTG, Fábio Ermínio de Moraes, da Votorantim, e Luis Henrique Guimaraes, do grupo Cosan. “Em comum, os quatro executivos trataram Lula como próximo presidente eleito”, relata o colunista. Ainda segundo ele:

Lula falou abertamente que é contra o teto de gastos, mas prometeu voltar a ter superávits primários. Deu a entender que essa será a sua política fiscal, a mesma que vigorou em seu governo. Prometeu recuperar a credibilidade internacional do país, e que a sociedade brasileira entrou em pânico, a ponto de apoiar e eleger um político como Bolsonaro.

Tá certo. Pra que teto de gastos se já existe o superávit primário, também conhecido como bolsa-família do grande capital?

Cheque em branco nada, Vera Magalhães. Já está preenchido e será descontado dos miseráveis saldos da maioria pobre e explorada do País. Derrotar Bolsonaro é prioridade absoluta. Mas vai nos sair muito caro.

Leia também:
O grande capital não tem o que reclamar de Bolsonaro
Era Lula: pobre é baratinho

No avesso das eleições, algum caminho

Em agosto de 2022, o Coletivo Desmedida do Possível lançou um manifesto muito lúcido e necessário sobre as eleições que se aproximam e seus desdobramentos. Abaixo, alguns trechos:

Somos pela derrota de Bolsonaro. Logo, somos pela eleição de Lula. (...)  Uma vitória de Bolsonaro pode abrir as portas para o golpismo, mas uma derrota também. Nada é garantido. No entanto, sua derrota eleitoral assegura que o golpismo continuará ilegítimo e ilegal.

(...)

O retorno da contenção lulista pode ser um passo para trás, de uma classe dominante em busca de uma saída da Nova República. No fundo, seria uma antessala de novas batalhas. O novo consenso parece ser uma trégua, para retomar uma guerra inevitável.

(...)

A dinâmica da guerra emana das formas de reprodução da vida brasileira. Há uma guerra dos de cima, contra os de baixo. Há uma guerra do Estado, contra a população preta e pobre. Mas, acima de tudo, a guerra é cotidiana, porque a forma de vida é concorrencial: o desempregado concorre com o desempregado, mas também com quem está empregado. Que, por sua vez, concorre com seus colegas de emprego.

(...)

Vivemos um mundo que produz em abundância, mas essa abundância é vivida como escassez. Esse feitiço tem um nome: mercadoria.

(...)

Não está claro se a paz tem futuro. Mas está claro que só teremos um futuro emancipado, à altura da nossa imaginação, se escaparmos da política da mercadoria. As eleições, no estágio atual, servem globalmente para encobri-la. No avesso das eleições, talvez possamos descobrir algum caminho.

Vale a pena ler a íntegra, disponível aqui.

Leia também: À burguesia interessa decisão no segundo turno

23 de setembro de 2022

O grande capital não tem o que reclamar de Bolsonaro

É costume atribuir o golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro ao desconforto das elites com a melhoria da situação dos mais pobres. Ressentimento resumido na frase “esses aeroportos estão parecendo rodoviárias”. Mas quem realmente manda na economia do País jamais pisou em uma rodoviária.

Precisamos de mais economia política e menos anedotas. É o que procura fazer, por exemplo, Eduardo Costa Pinto em seu programa “Diário da Crise”, disponível na internete. Em episódio recente, ele analisa “os lucros da mega burguesia brasileira nos últimos anos”.

Professor do Instituto de Economia da UFRJ, Costa Pinto apresenta as taxas de lucro das 230 maiores empresas privadas registradas na Bolsa. Em números que incluem os bancos, a taxa de lucro dessas empresas caiu de 17% em 2010 para 4% em 2015.

No ano seguinte, vieram o golpe do impeachment, a reforma trabalhista e outras medidas dos governos Temer e Bolsonaro que fizeram despencar a renda dos trabalhadores. Resultado, os lucros subiram de 9% para 24% entre 2016 e 2021.

Mas se forem retirados os bancos da conta, a lucratividade das empresas despencou ainda mais. Caiu de 18%, em 2010, para -2%, em 2015. Depois do golpe, voltaram a disparar, indo de 7% para 27%, de 2016 a 2021.

Portanto, se valesse a vontade desses setores, Bolsonaro já estaria com a reeleição garantida. Mas como somos um dos países mais injustos do mundo, infelizmente para eles, os grandes capitalistas são uma pequena minoria.

Dito isso, que fique claro. O grande capital não quer abrir mão das grandes taxas de lucro que conquistou. Nós que lutemos. Literalmente.

Leia também: À burguesia interessa decisão no segundo turno

19 de setembro de 2022

A polícia bolsonarista é anterior ao bolsonarismo

“PRF se tornou modelo de polícia do bolsonarismo” diz o editorial do Globo de hoje. O texto começa citando uma reportagem da revista “piauí", segundo a qual a PRF passou “de uma polícia dedicada ao patrulhamento de rodovias federais” para uma corporação responsável por operações policiais e chacinas elogiadas pelo clã Bolsonaro.

O editorial lembra a ação da PRF no massacre de Varginha, Minas Gerais, ocorrido em outubro de 2021. Nele morreram 26 homens, que estariam se preparando para assaltar uma agência do Banco do Brasil. Meses depois, 41 policiais rodoviários mataram 23 supostos traficantes no Complexo do Alemão, no Rio. Foi a segunda ação mais letal na história do estado.

Em 2019, prossegue o texto, a PRF matou quatro pessoas. Em 2020, 16. Em 2021, 35. Em 2022, até junho, foram 38, incluindo um motociclista sufocado com gás lacrimogêneo no porta-malas de uma viatura em Sergipe.

O editorial termina dizendo que, com “maior letalidade, a PRF vem se tornando aos poucos o modelo de polícia do bolsonarismo”.

Muita hipocrisia do jornalão carioca. Afinal, as ações da “PRF bolsonarista” não configuram um rompimento em relação ao modo que vêm ser comportando as forças de repressão do Estado brasileiro, em todos os seus níveis. Essa é a prática corrente das polícias há muitas décadas no Brasil. Talvez, séculos. E, provavelmente, trata-se de um dos fatores responsáveis pela eleição de Bolsonaro. Uma relação de mútuo reforço entre o que o bolsonarismo criou e o que criou o bolsonarismo.

Afastado Bolsonaro da presidência, muito provavelmente seguirá forte a política genocida que tentam atribuir apenas a ele.

Leia também:
A esquerda em quarentena
As tropas do fascismo estão prontas

22 de agosto de 2022

As eleições como lava-jato de criminosos fascistas

Divulgado no dia 20/08/2022, levantamento do Datafolha mostrou que 75% dos brasileiros acreditam que a democracia é melhor que outros regimes políticos. Os que apoiam a ditadura em certas circunstâncias são 7%. Para 12%, tanto faz a forma de regime.

Os números devem ter desagradado os adeptos de Bolsonaro. Mas também podem revelar as fortes contradições do chamado “jogo democrático”. O próprio capitão fascista luta desesperadamente pela reeleição pelo voto. E muitos dos seus seguidores também. Nos quartéis, nas milícias, em igrejas que demonizam religiões afro, nas quadrilhas presentes em parlamentos e governos, toda essa ralé criminosa está de olho em outro mandato ou na renovação do atual.

É a lógica eleitoral imperando mesmo entre os fascistas. Até porque o fascismo nunca foi contra eleições, só contra a democracia. E eleições, por si só, têm pouco a ver com democracia.

Para comprovar isso, é interessante ler recente entrevista concedida pelo sociólogo José Cláudio Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

O título do depoimento já diz muita coisa: “A estrutura miliciana é uma malha que recobre o país como um todo”. Ele está falando da vida cotidiana, mas também da institucionalidade política.

Mais especificamente, do que chamou de “lavagem de cidadania”. Como é isso? Alves explica que se trata de:

...pessoas que tiveram suas trajetórias marcadas por assassinatos, homicídios, lógicas absolutamente terroristas de controle do território, da imposição da força pela morte e o terror, lavam tudo isso nas urnas em pleitos democráticos.

Se as urnas funcionam cada vez mais como um lava-jato de trogloditas criminosos pra quê ditadura?

Leia também: Eleições: engajamento virtual x militância presencial

28 de janeiro de 2022

Tancredo, Lula e transações pelo alto

Em 26/01/2022, Elio Gaspari publicou o artigo “Lula está um passo à frente”, sobre os esforços do ex-presidente para se mostrar moderado.

Mas interessante, mesmo, foi o colunista comparar o petista a Tancredo Neves, quando este conseguiu ser eleito presidente no Colégio Eleitoral em 1985, desalojando os generais do Palácio do Planalto.

Ocorre que, naquele momento, o PT foi o único partido a boicotar a votação. Tratava-se de uma “transação” pelo alto, justificou Lula. Ele estava correto. A vitória de Tancredo inaugurou a Nova República, cujo caráter conservador garantiu, por exemplo, a impunidade aos militares que viria a parir criaturas como Bolsonaro.

Mas é exatamente uma “transação” parecida o que Lula está tentando agora. A possibilidade de fazer de Alckmin seu vice nas próximas eleições sendo um dos sinais mais claros de tal pretensão.

Uma diferença é que a oposição institucional à ditadura só conseguiu fazer valer seu projeto 20 anos após o golpe empresarial-militar. Lula está tentando negociar algo semelhante apenas seis anos depois do golpe parlamentar.

Mas a diferença fundamental é que na época do Colégio Eleitoral havia um polo de oposição popular e de esquerda se consolidando através de organização pela base e muitas lutas.

O problema é que esse polo acabou se dissolvendo na institucionalidade e nada foi construído em seu lugar. Lula chegou à Presidência, mas totalmente vulnerável, como prova sua prisão.

A tentativa de reação por dentro do golpe é o que nos restou. Vai ser difícil, mas é preciso transformar esse péssimo ponto de chegada em ponto de partida. Com Lula e contra ele.

Leia também: Lula, o cavalo do terreiro nacional

29 de setembro de 2021

O que está em disputa são os rumos do golpe de 2016

Não deveria ser necessário dizer isso, mas o que está em andamento no cenário político nacional é a disputa sobre os rumos do golpe de 2016.

Deposta Dilma Roussef, o objetivo dos golpistas era abrir caminho para a vitória tucana em 2018, enquanto Temer aprovava mais medidas neoliberais e novas revogações de conquistas e direitos sociais.

Derrotado o PT, o desmonte da Constituição ganharia novo impulso e os movimentos sociais, depois de anos sendo apaziguados pelos governos petistas, seriam desmantelados definitivamente.

Mas surgiram dois elementos imponderáveis. Primeiro, nem o impeachment nem a prisão de Lula foram suficientes para matar o PT eleitoralmente. E uma nova vitória petista seria desmoralizante para a burguesia.

O jeito foi agarrar-se a Bolsonaro. Mas este revelou ser outro elemento imponderável. Seu comportamento errático e limitações políticas tornaram-se um obstáculo à entrega das reformas ultraliberais que a burguesia esperava dele. Sem falar nas ligações com o banditismo mais exacerbado, que acabou destruindo o já esfarrapado disfarce anticorrupção dos golpistas.

A pandemia agravou o estado de incerteza no andar de cima. Não exatamente pela montanha de mortos, mas pelo cinismo escancarado do responsável pelo genocídio. Além disso, o retorno triunfante de Lula acabou de confundir ainda mais o meio de campo.

Mas os golpistas não precisam se desesperar. Por enquanto, nada muito sério ameaça seus objetivos. Uma vitória apenas eleitoral da esquerda pode muito pouco em relação às enormes conquistas que o período Temer/Bolsonaro lhes proporcionaram.

Sem forte mobilização popular, um governo Lula somente significará um revés temporário na disputa dos rumos do golpe, jamais sua derrota.

Leia também: A derrota de Bolsonaro, só as ruas garantem

20 de agosto de 2021

Contra Bolsonaro, vale aliança até com monarquistas?

“Nos Tempos do Imperador” é a mais nova e queridinha novela da Globo. Logo no primeiro capítulo, D. Pedro 2º recebe Solano López, presidente do Paraguai. Viera pedir a mão da princesa Isabel. O imperador nega e o coloca para correr, dizendo: “O Brasil jamais se curvará a um ditador”.

Solano López realmente não prestava. No final da Guerra do Paraguai, recrutava soldados cada vez mais jovens para defender sua ditadura. Até que na batalha de Acosta Ñu, aconteceu um dos mais covardes massacres da história das guerras.

Segundo os historiadores, havia de um lado, 20 mil soldados brasileiros. De outro, 3.500 recrutas paraguaios, entre 9 e 15 anos de idade, além de crianças de 6 a 8 anos, que também integravam os batalhões.

A desigualdade entre os dois exércitos também era armamentista. As armas usadas pelos paraguaios tinham um alcance máximo de 50 metros. Os rifles da cavalaria brasileira atingiam alvos a mais de 500 metros.

Sem falar no fato de que os mais novos não tinham nem força física para empunhar as armas, muito menos nas condições em que estavam, com fome e muitas vezes doentes.

Após 10 horas de luta sangrenta, poucas baixas do lado brasileiro e quase nenhum sobrevivente do lado paraguaio. As crianças, aterrorizadas, choravam, implorando pela própria vida aos soldados brasileiros. Eram imediatamente degoladas.

Segundo os roteiristas da Globo, Pedro 2º só tolerava ditadores de sangue azul. Mas a frase do personagem da novela está sendo interpretada como um recado a Bolsonaro.

Parece que a frente ampla contra Bolsonaro, além da Globo, agora inclui monarquistas.

Leia também: A derrota de Bolsonaro, só as ruas garantem

5 de abril de 2021

Guerra híbrida e anticomunismo reciclado

Em seu livro “O Brasil no espectro de uma guerra híbrida”, Piero Leirner diz que os militares vêm travando uma “guerra híbrida” contra a esquerda no Brasil, há cerca de meio século. Nela, diz ele, “não se desperdiça nada, a reciclagem é 100% garantida”.

O material que passa por esse reaproveitamento integral nada mais é que um anticomunismo secular, que jamais enfrentou qualquer ameaça séria de implantação de um regime comunista no País.

Foi sempre um artifício criado para justificar o combate mais feroz a toda tentativa popular de obter mais liberdades, conquistas sociais e igualdade econômica.

Leirner atribui ao Exército papel protagonista na reatualização dessa doutrina extremamente reacionária. Mas nas últimas décadas, surgiram aliados importantes com elaborações próprias. Por exemplo, Olavo de Carvalho e lideranças religiosas que a disseminaram entre as classes médias e as camadas populares.

A verdade, porém, é que, como ensinou Gramsci, o papel de toda ideologia dominante sempre foi exatamente este. Juntar os elementos díspares e contraditórios que estão espalhados no senso comum para combiná-los de forma a justificar uma ordem injusta, exploradora e massacrante.

Desse modo, engana-se quem acha que pode apelar aos pretensos valores democráticos de setores da classe dominante para ganhar aliados no combate a esse ódio ao povo disfarçado de anticomunismo.

Generais, Olavos e Malafaias não inventaram nada do que sai cuspido e sujo de suas bocas. Só matraqueiam aquilo que empresários, banqueiros, autoridades e outros escravocratas reciclados apenas sussurram em seus salões e palácios.

Pode até chamar de guerra híbrida, mas trata-se da velha guerra de classes em que só um lado está armado e matando.

Leia também: Em meio à guerra híbrida, o PT e suas serpentes

1 de abril de 2021

Em meio à guerra híbrida, o PT e suas serpentes

A responsabilidade principal pelo golpe foi dos que o deram e não dos que o sofreram. Os vencedores contaram, no entanto, com a ajuda dos perdedores. Como um Ulisses às avessas, a esquerda tinha criado suas próprias sereias a cujo canto sucumbiu. Não foi preciso um Zeus para as enlouquecer.

As palavras acima são do historiador José Murilo de Carvalho, sobre o Golpe de 1964. Foram citadas no livro “O Brasil no espectro de uma guerra híbrida”, de Piero Leirner. O autor as escolheu para destacar a contribuição involuntária do PT para a derrota de seu próprio governo concretizada pelo impeachment de 2016.

Leirner lembra que ao assumir a presidência, em 2015, Dilma iniciou uma reversão dos rumos que haviam orientado seu primeiro governo. Passou a acenar com medidas “pró-mercado e pró-grandes corporações”.

Mas ainda no primeiro mandato, Dilma assinou uma série de leis e ratificou políticas que prepararam o terreno para o golpe. Entre elas, a liberação das prisões preventivas; a Lei das Organizações Criminosas (que legalizou as delações premiadas) e, claro, a Lei Antiterrorismo.

Desse modo, diz ele, a presidenta acabou criando os meios que possibilitariam o desfecho da “equação” montada pelos militares, que desde a formação da Comissão da Verdade, em 2012, declaravam publicamente: “O PT é uma organização criminosa que visa desestabilizar as Forças Armadas e com isso causar a divisão e o caos no País”.

“Dilma, enfim, caiu em dissonância cognitiva e suas ações passaram a operar em função dos interesses do consórcio militar”, conclui Leirner.

Mas, dessa vez, parece que não foram sereias que a esquerda criou. Serpentes não cantam.

Leia também: Entre divergências falsas ou verdadeiras, milhares de mortes

31 de março de 2021

Entre divergências falsas ou verdadeiras, milhares de mortes

Em 2014, o Alto Comando do Exército liberou o acesso de Bolsonaro aos quarteis. Enquanto isso, o general Villas Boas proclamava o caráter “legalista” e “apolítico” da corporação.

Em 2015, Mourão declarou que seria preciso "despertar para a luta patriótica" como saída para crise política do país. Foi exonerado por Villas Boas do Comando Sul. Parecia punição. A participação de ambos na campanha de Bolsonaro mostraria que era encenação.

Na campanha eleitoral e no próprio governo, surgem fortes divergências entre Bolsonaro e Mourão ou entre Bolsonaro e militares. Ou, ainda, entre uma “ala ideológica” e uma “ala militar”.

A sequência acima está no livro “O Brasil no espectro de uma guerra híbrida”, de Piero Leirner. Para o autor, todas essas polarizações procuram criar uma “cisão artificial”. O objetivo, diz ele:

...é deixar Bolsonaro numa posição que permita aos militares (com Mourão na posição de “vice”) blindados – e isso foi um movimento tanto na campanha quanto é no governo. Eles têm o bônus e dificilmente ficam com o ônus – inclusive quando os militares que estão no governo tentam se “dissociar” da instituição militar.

Os acontecimentos dos últimos dias parecem desmentir essa hipótese. Mas mesmo que se trate de outra jogada ensaiada, sobram contradições que não cabem nas relações entre a cúpula militar e o gabinete do ódio.

Trata-se do Centrão, mas também dos vários setores do grande capital. Conciliar interesses de atores tão poderosos exige mais do que uma farsa bem montada.

O grande problema é a ausência quase completa de representantes dos interesses dos principais atingidos: os pobres e trabalhadores, que estão morrendo aos milhares diariamente.

Leia também: O pelotão do ódio e o exército da inteligência