Doses maiores

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18 de dezembro de 2014

Quando pentear o cabelo sangra

A menina Júlia, de oito anos de idade, certa vez foi surpreendida pela mãe diante do espelho do banheiro, penteando os próprios cabelos, extremamente crespos, com tanta força que fez com que o seu próprio couro cabeludo sangrasse.
 
O trecho acima refere-se a uma menina negra e pertence ao livro “A ralé brasileira”, organizado por Jessé Souza.

Outra passagem refere-se ao suposto “embranquecimento” de negros bem sucedidos:

Os negros que ascendem de posição de classe, quanto menos mulatos e mais negroides, mais vivem “o corpo em desgraça”, o drama existencial de serem em si um paradoxo, uma disfunção naquilo que nos parece a ordem natural das coisas. Esse é o drama que a noção de “embranquecimento” nos faz esquecer. O negro que enriquece não se torna um branco, mas rico como um branco. Seu corpo lhe deixa sob tensão; sua alma é branca, como diz o ditado popular, mas o corpo não.

Mulher sozinha aqui é como “toco de cachorro mijar”, diz uma moradora de favela, em outro trecho. Para essas mulheres, marido bom seria aquele que cede poucas vezes a seus próprios instintos violentos. Pode protegê-las de “altos riscos de violência, inclusive aqueles oferecidos por ele mesmo”.

Estes são apenas alguns exemplos da crueldade social que reina entre os mais pobres. Claro que racismo e machismo também se manifestam em outros setores da sociedade. Mas não com toda essa truculência crua.

São situações terríveis e humilhantes não apenas para suas vítimas. Mostram como funciona uma sociedade que afirma oferecer oportunidades para todos, quando apenas multiplica as chances de causar dor e injustiça.

11 de dezembro de 2014

A miséria do amor dos pobres

A experiência erótica é vivida de forma semelhante por ricos, remediados e pobres ou pode variar conforme a situação de classe?

Um dos capítulos do livro “A ralé brasileira”, organizado por Jessé Souza, ensaia uma resposta. Trata-se de “A miséria do amor dos pobres”, que discute a sexualidade entre as “meninas da ralé”.

Essas garotas são abusadas sexualmente por pais, irmãos mais velhos, primos, colegas de escola. São deixadas à própria sorte por mães e avós acostumadas a receber o mesmo tratamento desde sua própria infância.

O estudo afirma que as mais pobres entre as mulheres pobres sentem mais radicalmente a separação entre erotismo e afeto. O ato sexual torna-se muito semelhante a uma necessidade fisiológica em que elas cumprem papel desprezível.

Claro que mulheres das classes média e alta também podem sofrer esse tipo de violência. Mas as consequências seriam bem mais graves para aquelas que, na luta pela sobrevivência, se veem privadas do mínimo de dignidade e autoconfiança.

Segundo o livro, mulheres e meninas que vivem em seu cotidiano dimensões tão variadas como estudo, lazer, esportes, profissão e estabilidade familiar têm maiores chances de enfrentar os traumas causados por agressões sexuais ou simples desilusões amorosas.

Não precisamos concordar com as conclusões presentes em “A ralé brasileira”. A obra vale principalmente por sua recusa em aceitar como universais sentimentos que são vivenciados de maneira completamente distinta, conforme o lugar social em que se manifestam.

Relações eróticas podem ser dolorosamente significativas para alguns ou insuportavelmente cruéis para outros. No caso das mulheres mais pobres, elas costumam deixar cicatrizes nem um pouco simbólicas.

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8 de dezembro de 2014

Prisões e escolas públicas. Aparências que mal escondem a essência

O Supremo Tribunal Federal está discutindo um pedido de indenização a um presidiário que sofreu tratamento desumano durante o cumprimento de sua pena. Mas o que mais surpreende não é o valor reclamado: R$ 2 mil.

As prisões brasileiras são um exemplo da oposição que Michel Foucault identificou entre os conteúdos “manifestos” e “latentes” das instituições sociais. O filósofo francês se inspirou na teoria dos sonhos de Freud para chegar a estes conceitos.

Para Freud os sonhos teriam uma aparência que esconde os reais desejos do sonhador. Para interpretá-los, seria preciso descobrir o que está latente por trás de seu conteúdo manifesto.

A função das prisões aceita socialmente é “reeducar os detentos”, “ressocializá-los”, “devolvê-los ao convívio social”. O objetivo latente delas é jogar aqueles que são acusados de crimes na cadeia para que sofram os piores castigos.

A escola pública é outro exemplo dessa lógica. Seu papel seria oferecer educação de qualidade para todos. O que o sistema de dominação realmente espera dela é apenas a seleção daqueles capazes de superar sua origem pobre.

O restante deve se contentar com uma instrução mínima para trabalhos desqualificados e mal pagos. Ou simplesmente deve ser mantido longe das ruas, onde poderia colocar em perigo a ordem pública.

O principal alvo desses mecanismos sociais são os mais pobres entre os pobres. Aqueles que Jessé Souza estudou em seu livro “A ralé brasileira” e no qual aparecem os conceitos acima.

Mas que o Supremo esteja discutindo uma indenização, ao invés da imediata melhoria das prisões e o fim do encarceramento da pobreza está longe de manter qualquer aparência.

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A “má-fé institucional” nos serviços públicos

2 de dezembro de 2014

A “má-fé institucional” nos serviços públicos

No livro “A ralé brasileira”, Jessé Souza utiliza o conceito de “má-fé institucional”. Trata-se de:

...um padrão de ação institucional que se articula tanto no nível do Estado, através dos planejamentos e das decisões quanto à alocação de recursos, quanto no nível do micropoder, quer dizer, no nível das relações de poder cotidianas entre os indivíduos.

Este fenômeno seria responsável por enfraquecer aquela que deveria ser a função mais importante dos serviços públicos: a diminuição das injustiças sociais.

Na escola, por exemplo, os filhos de famílias pobres chegam completamente despreparados para uma disciplina que só pode ser assimilada por quem já a exercita em casa. Muitos dos pais desses alunos também foram excluídos da educação escolar pelo mesmo motivo.

Ainda assim, essas crianças encontram acolhida adequada por parte de apenas alguns professores. Em geral, o sistema escolar rende-se aos valores meritocráticos e as abandona. Desse modo, muitas vezes, acentua ao invés de moderar as diferenças sociais entre os alunos.

No sistema de saúde, a obra destaca o que chama de “animalização” dos pacientes mais pobres. Há esforços sinceros para curá-los e salvar-lhes da morte. Mas quase sempre na condição de portadores de uma vida, não de direitos.

Esse tipo de abordagem sempre corre o risco de culpar as pessoas e isentar o sistema. No entanto, o próprio livro lembra que os profissionais que resistem a essa institucionalidade mal intencionada são exatamente aqueles que se engajam nas lutas sociais.

Precisamos continuar buscando respostas na luta de classes. Mas elas somente surgirão se desafiarmos as lógicas de dominação a que aderimos como indivíduos.

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27 de novembro de 2014

Os maiores derrotados pela meritocracia

   Kuczynski
Em "A ralé brasileira", Jessé Souza denuncia a "ideologia da meritocracia" como a mais poderosa do mundo moderno. É através dela que a grande maioria de nós aceita a desigualdade social como "justa" e "legítima", pois refletiria o "mérito diferencial" dos indivíduos.

Um dos fatores que fortaleceria essa concepção é o fato de que a burguesia é a primeira classe dominante que também trabalha. Mas há outro fator, lembrado pelo marxista estadunidense Hal Draper: o capitalismo é o primeiro sistema que tem na competição selvagem entre os membros de sua classe dominante um elemento importante para sua manutenção e expansão.

Junte-se a isso o individualismo extremado típico do capitalismo e temos a fórmula perfeita para justificar as injustiças sociais: a livre competição premia os melhores.
 
Claro que ficam de fora alguns elementos que desmentem a perfeição dessa fórmula. O trabalho do burguês está longe de ser tão degradante, tedioso, cansativo, mal remunerado ou alienante como o da grande maioria.
 
E a vitória na competição social está garantida de antemão aos que contam com as enormes vantagens proporcionadas pela classe em que nasceram. Exageram-se as exceções apenas para esconder as injustiças do ponto de partida.
 
O mais grave é que a obra de Souza mostra como esta lógica é poderosa exatamente entre suas principais vítimas. A maioria dos indivíduos da chamada "ralé" responsabiliza a própria incompetência por seus fracassos.
 
Mas o pior, mesmo, é vermos valores meritocráticos sendo adotados por organizações que afirmam combater as injustiças sociais. Partidos, sindicatos, entidades populares competem mortalmente pelo título de representante maior dos derrotados. Quem perde é a grande maioria.
 
Leia também: Jessé Souza e o necessário combate à meritocracia

Jessé Souza e o necessário combate à meritocracia

O que faz uma classe social ser uma classe, ou seja, o que faz um certo universo de indivíduos agirem de modo semelhante não é (...) a “renda”, mas a sua construção “afetiva” e pré-reflexiva montada por uma “segunda natureza” comum que tende a fazer com que toda uma percepção do mundo seja quase que “magicamente” compartilhada sem qualquer intervenção de “intenções” e “escolhas conscientes”.

O trecho acima pertence ao livro “A ralé brasileira”, organizado por Jessé Souza. Ela pode causar estranheza aos que se alinham politicamente à esquerda, mas o objetivo da obra é combater um “economicismo” sociológico bastante útil à direita.

A principal fonte de inspiração dos autores do estudo é Pierre Bourdieu. O que eles denominam “segunda natureza”, o sociólogo francês chamava de habitus de classe. Esta noção permitiria entender as motivações subjetivas das relações entre as classes sociais. Explicaria por que as ideias que justificam a dominação social não apenas são aceitas por suas maiores vítimas, como reproduzidas por elas.

Trata-se de uma abordagem complexa para a maioria de nós, acostumados a enxergar a realidade social usando quase exclusivamente lentes e critérios quantitativos. Algo que passa por ser rigor científico, mas fica só um pouco acima do senso comum. Não à toa, muito presente na grande mídia, com seus infográficos pretensamente objetivos.

Mas o centro desse debate não é científico. É político. Diz respeito à luta de classes. Um dos objetivos do estudo coordenado por Souza é combater a meritocracia. Esta ideologia moderna que esconde a injustiça e a desigualdade sociais de modo tão eficiente. Voltaremos a ela e ao livro.

24 de novembro de 2014

Jessé Souza e a necessária sociologia das subjetividades

O sociólogo Jessé Souza é uma das vozes mais atuantes no recente debate sobre o suposto surgimento de uma nova classe média no País. Para ele, os membros desse setor social são apenas os já conhecidos trabalhadores precarizados. Pessoas que foram incorporadas ao mercado de trabalho em funções pouco qualificadas e mal pagas.

Entre os estudos publicados pelo sociólogo potiguar está "A ralé brasileira", de 2009. O livro reúne artigos de diversos pesquisadores. São estudos de caso feitos sob coordenação de Souza, envolvendo uma parte da população fortemente afetada pela histórica e extrema desigualdade social do País.

Na obra, o sociólogo define "ralé" como "a classe, que compõe cerca de 1/3 da população brasileira", condenada a ser apenas "corpo mal pago e explorado". Por isso, objetivamente desprezada e não reconhecida por todas as outras classes que compõem a sociedade.

Um dos capítulos trata da "miséria do amor dos pobres", abordagem que raramente aparece em análises sociológicas. Mas é apenas mais um dos estudos com que o livro procura superar o "economicismo" sociológico. Um mal que, segundo seu organizador, domina as ciências sociais atualmente. Vício de que não escapariam tanto os cientistas liberais, como um certo marxismo pouco criativo.

Pode-se concordar ou não com as principais teses apresentadas pelo livro. Mas não há como negar a importância do desafio que propõe. Não há conhecimento crítico da realidade social sem abordar a subjetividade dos explorados e humilhados. Não haverá transformação social sem respeitar o que vai na alma e na mente daqueles a quem mais interessa o fim da atual ordem desigual e opressora.

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