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23 de janeiro de 2024

Nomofobia, a doença que é um sintoma

Nomofobia. Trata-se de um distúrbio patológico que atinge a todos, sem distinção de classe, cor, sexo, religião, nacionalidade, ideologia, preferências político-partidárias. Alvinegros, rubro-negros, tricolores, alviverdes, esquerdistas, bolsonaristas, todos são igualmente afetados.

Não há grupo de risco porque o perigo é global. Literalmente. São poucos os lugares do mundo imunes à nomofobia, a não ser pela rara condição de estarem isolados dos elementos que a causam. Os sintomas são ansiedade, desorientação, sensação de inutilidade, vazio mental, dificuldade de refletir sobre assuntos complexos e até sobre coisas mais banais.

Apesar disso, governos e organizações internacionais de saúde pública não parecem preocupados com essa pandemia que se alastra sem alarde. Nomofobia vem do inglês “no-mobile”: “sem celular”. É a ansiedade provocada pela privação do acesso ao celular. Uma espécie de síndrome de abstinência causada pela desconexão das redes virtuais.

É preciso ocupar todos os sentidos com imagens, sensações e sons fragmentados e ininterruptos. Na fila, na condução, cozinhando, fazendo faxina, nas inúmeras tarefas cansativas, mas sem sentido. Há que haver palestras, entrevistas, tramas, fantasias. Tudo reproduzido de modo vertiginoso, em horário integral.

O silêncio, a contemplação ou a simples conversa tomam tempo que precisa ser totalmente entregue à exploração econômica acentuada e ao consumismo acelerado. É necessário inviabilizar o pensamento, a reflexão e o debate racional, que podem servir para entender melhor e, talvez, combater essa realidade cada vez mais opressora do cotidiano capitalista.

Na verdade, a nomofobia é só um sintoma. Ela deriva da dependência das redes virtuais, que, por sua vez, fazem parte do implacável processo de acumulação capitalista. Este, sim, a grande moléstia contemporânea.

Leia também: A esquerda e sua fatal dependência das redes

24 de novembro de 2023

A sociedade do espetáculo é capitalismo atualizado

O livro “Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord, foi lançado em 1967. Mas, desde então, vem sendo cada vez mais atualizado pelo capitalismo. Vejamos alguns de seus trechos:

As imagens fluem desligadas de cada aspecto da vida e fundem-se num curso comum, de forma que a unidade da vida não mais pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente reflete em sua própria unidade geral um pseudo-mundo à parte, objeto de pura contemplação. A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo.

(...)

No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso.

Não são afirmações perfeitas para o caos cognitivo que estamos vivendo, alimentado por mentiras e distorções?

Há quem ache que Debord estava se referindo a uma espécie de pós-capitalismo, em que tudo é relativo e desmaterializado. Não é verdade. Vários momentos do texto deixam isso muito claro. Por exemplo, ao dizer que o espetáculo:

...não é um complemento ao mundo real, um adereço decorativo. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares de informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e no seu corolário - o consumo.

A sociedade do espetáculo é o reino da mediação pela imagem como “corolário” da produção capitalista, não como ruptura com ela ou sua negação. A falsidade capitalista continua produzindo uma realidade de enorme sofrimento.

Leia também: As fake news e a realidade grávida

8 de outubro de 2019

Disrupção, não. Revolução

Com o costumeiro estardalhaço, acabou de ser lançado o iPhone 11. Mas pouca gente sabe que a Apple não fabrica esses aparelhos. Eles são feitos em Taiwan, pela Foxconn, que emprega mais de 1,3 milhão de trabalhadores. Em sua maioria, mulheres.

O iPhone custa caro. Cerca de R$ 9 mil no Brasil. Mas a maior parte dos lucros de sua venda não vai para a Foxconn, muito menos para seus trabalhadores. Como a Apple possui a propriedade intelectual sobre o aparelho, ela fica com o grosso dos ganhos.

Em 2014, Ahmet Tonak realizou um estudo sobre o iPhone 6, utilizando o conceito marxista de taxa de exploração. Como integrante do Instituto de Pesquisa Social Tricontinental, Ahmet atualizou suas análises para o iPhone X.

A descoberta mais assombrosa da análise é que os trabalhadores que fabricam esses telefones espertos são 25 vezes mais explorados do que os operários das fábricas têxteis dos século 19, na Inglaterra.

Isso nos faz lembrar de que apenas uma parte mínima da jornada de trabalho compõe o valor do salário que o trabalhador recebe. Na quase totalidade do dia trabalhado, os operários produzem para ampliar a riqueza do capitalista. Ou seja, a esperteza por trás disso tudo é muito maior do que a que aparece nos telefones.

O fato é que há pouca coisa nova no capitalismo dos smartphones e aplicativos. É por isso que não dá pra ficar na disrupção. Disrupção é o mais recente nome adotado para as rupturas que o capitalismo cria para renovar seu domínio. Mas contra a exploração capitalista, só a revolução.

As informações acima estãoaqui.

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