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28 de agosto de 2023

A teoria do caos e o caos na prática

O bater de asas de uma borboleta numa parte do mundo pode causar um tufão no outro lado do planeta. Essa metáfora costuma ser utilizada para ilustrar a teoria do caos. Aquele pequeno movimento do inseto dispararia uma sequência de acontecimentos cujo resultado ninguém pode prever.

Mas ela também é útil para mostrar que situações caóticas são muito complexas, mas não são resultado de fatores aleatórios. Relacionar o surgimento de um tufão ao voo de uma borboleta é impossível. Isso, porém, não significa negar que, em muitos casos, um encadeamento causal efetivamente exista, mesmo que ele jamais possa ser comprovado.

Essa mesma teoria também pode ser usada para abordar as diversas crises do mundo atual. Aquecimento global, desequilíbrios ambientais, inúmeras guerras regionais, enorme injustiça social, elevada criminalidade, fome, miséria, epidemias, déficits habitacionais gigantescos, transporte público em colapso, crise alimentar, relações sociais tóxicas, redes de comunicação envenenadas, cidades, campos, rios e mares empesteados. Tudo isso ocorrendo de forma sincrônica, sistemática e disseminada pelo planeta. Um caos generalizado.

Mas ao contrário do caso da borboleta, não é difícil encontrar a origem dessa sequência causal. A mariposa atende pelo nome de capitalismo. E ainda que as consequências sejam as mais variadas, o bater das asas é a crescente mercantilização da vida e sua subordinação quase absoluta aos circuitos de trocas mercantis. É a escravização da maioria pela ditadura minoritária dos donos dos meios de produção em sua busca insana por lucros.

Precisamos interromper urgentemente essa cadeia catastrófica de eventos. É a única forma de salvar grande parte da humanidade e outras formas de vida. Incluindo várias espécies de borboletas.

Leia também: Borboletas, caos e capitalismo

16 de agosto de 2023

Bibliotecárias a cavalo pelos rincões estadunidenses

Um pequeno exército de cavalos e mulas aventurava-se todos os dias pelas encostas e desfiladeiros dos montes Apalaches, com os alforjes carregados de livros. A maioria das montarias carregavam mulheres. Eram bibliotecárias a cavalo. Amazonas das letras. Circulavam por lugares como o interior do Kentucky, com seus vales isolados, habitados por famílias pobres.

Elas participavam de um projeto federal que era parte do New Deal, programa criado pelo governo Roosevelt, em 1933. O objetivo era combater o desemprego e outras mazelas econômicas causadas pela quebra das bolsas de 1929. Mas entre as prioridades do programa estava a diminuição do analfabetismo através de amplas doses de cultura financiada pelo Estado.

Era um serviço público que buscava favorecer a leitura nas regiões mais remotas do país. Obras clássicas puseram leitores novatos em contato com um tipo de magia que sempre lhes tinha sido negado. Os estudantes liam-nos aos seus pais analfabetos. Um jovem disse a uma das bibliotecárias: “Os livros que nos trouxeste salvaram nossa vida”. O programa empregou quase mil bibliotecárias durante uma década. O financiamento terminou em 1943, quando o programa foi encerrado e a Guerra Mundial substituiu a cultura como antídoto face ao desemprego.

As informações acima são do livro “O infinito num junco”, de Irene Vallejo. Com certeza, um relato bonito. Mas que também mostra o tamanho do impacto da crise econômica dos anos 1930 nos Estados Unidos e a ameaçadora sombra da Revolução Russa, que, quase duas décadas depois de sua eclosão, ainda apavorava as burguesias no mundo todo.

Livros salvam vidas, sem dúvida. Mas, neste caso, ajudaram a salvar o capitalismo também.

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30 de março de 2023

Parar a inteligência do Capital

Deu nos jornais. Um manifesto assinado por mil especialistas pede “uma pausa” no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. O maior temor é que a humanidade perca o controle sobre o processo.

Vem a calhar uma recente entrevista com Edemilson Paraná, professor de sociologia da Universidade Federal do Ceará e pesquisador na área de tecnologia e mercado financeiro. No depoimento concedido à revista DigiLabour, ele faz um alerta:

A gente fala contemporaneamente em algoritmos, no Vale do Silício, nas empresas de comunicação e de interação social, mas na verdade os algoritmos estão sendo aplicados no mercado financeiro desde a década de 1980. A gente fala de redes neurais, “machine learning” e “deep learning” para os produtos informacionais e educacionais contemporâneos, mas eles já estão sendo aplicados no mercado financeiro antes mesmo de terem se tornado algo presente no cotidiano das nossas interações sociais.

A utilização da IA nesse setor acontece no nível micro das operações setorizadas e investimentos localizados. Mas, diz ele, no nível macro, pode causar aumento do risco, da imprevisibilidade e da ineficiência.

Imprevisibilidade e alto risco sempre foi regra nesse cassino financeiro. Sua eficiência servindo somente a uma minoria. Já seus efeitos nocivos costumam causar grandes tragédias sociais para a grande maioria, como mostram as inúmeras crises especulativas já ocorridas. A última delas nos castiga desde 2008.

O tal manifesto dos especialistas deveria mudar seu foco. A IA é apenas um dos desdobramentos de um sistema sobre o qual a humanidade nunca teve muito controle, com consequências cada vez mais desastrosas. No lugar de uma pausa na IA, precisamos de stop no capitalismo.

Leia também: Inteligência artificial: brincadeiras trágicas e nada eróticas

17 de março de 2023

Demissões, barbárie e fascismo

Em 09/03/2023, a Meta, controladora de WhatsApp, Facebook e Instagram, anunciou uma “reestruturação global”. Nome pomposo para medidas que pretendem demitir 11 mil funcionários, ou 13% de sua força de trabalho.

Após o anúncio das demissões, as ações da Meta, que acumulavam queda de 70% na bolsa Nasdaq, de Nova York, começaram a subir e fecharam em alta de 5%.

A mera perspectiva de demissões em massa bastou para que o “mercado” recuperasse a confiança na corporação responsável pelas dispensas. Segundo os critérios empresariais, colocar gente no olho da rua é demonstração de eficiência e deixa os acionistas muito felizes.

E isso não vale apenas para o monopólio das redes virtuais. Há muitos anos, os neoliberais dizem que um elevado nível de desemprego é saudável para a economia. Ajuda a manter os salários baixos e o mercado estável.

As consequências desse lógica, como precariedade, desigualdade, injustiça, sofrimento e miséria, não interessam. Elas não aparecem nos balanços empresariais.

Nesse momento, é importante lembrar que, no “Mein Kampf”, Hitler afirmou que a luta de classes não é inerente ao capitalismo. Segundo o genocida alemão, os conflitos classistas só começaram quando surgiu o capital por ações. Essa inovação financeira teria destruído a ligação pessoal que até então unia patrões e trabalhadores.

Tudo isso não passa de um delírio. Nunca houve uma ligação pessoal entre patrões e trabalhadores que não passasse pela exploração. Mas é um delírio que o capitalismo reforça, criando um estado de barbárie social. Essa lógica desumana e irracional do ponto de vista dos interesses da grande maioria abre avenidas para o avanço do fascismo.

Leia também: Capitalismo: merda em todo lugar ao mesmo tempo

15 de março de 2023

Capitalismo: merda em todo lugar ao mesmo tempo

Os jornais de 13/03/2023 divulgaram: Oscar de melhor filme para “Tudo em todo o lugar ao mesmo tempo”. A notícia dividia as manchetes com o anúncio da quebra do Silicon Valley Bank (SVB). Era um banco estadunidense de porte médio, mas sua quebra foi a maior da história.

A produção premiada não tem qualquer relação com bancarrotas financeiras. Mas a alteração no título do filme feita acima ajuda a descrever o alcance apocalíptico dos desastres provocados pelo capitalismo contemporâneo.

Acabamos de sair de uma grave crise pandêmica. Nada impede, porém, que a próxima já esteja a caminho. Afinal, as possíveis causas do covid estão todas aí: desmatamento, aquecimento global, imensos criadouros e matadouros de animais. São fatores com enorme potencial de levar ao surgimento de patologias em relação às quais a humanidade continua vulnerável.

Voltando à seara econômica, a maior quebradeira bancária jamais vista ocorreu em 2008. Até hoje, a economia mundial sofre com seus efeitos. Principalmente, elevado desemprego, baixos salários, muita pobreza. E, tal como no caso da pandemia, os fatores causadores permanecem firmes e fortes. É o que mostra a quebra do SVB.

Podemos acrescentar a tudo isso as disputas interimperialistas envolvidas na guerra da Ucrânia. Um conflito cujos ingredientes são literalmente explosivos, ameaçando populações inteiras com mais mutilações, mortes e sofrimento.

Enquanto isso, a cena política continua povoada por lunáticos fascistas perigosos que deixariam boquiabertos até os personagens delirantes do filme premiado.

Dizem que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Certamente, porque o primeiro seria um alívio comparado à continuidade do segundo.

Muita merda, mesmo!

Leia também: O capitalismo gângster à moda Americanas

10 de março de 2023

O capitalismo gângster à moda Americanas

Quando estourou o escândalo das Americanas surgiram nas redes memes como: “Vendendo Kit-kat a R$ 1,99, Americanas só podia acabar quebrando”. Involutariamente, a piada apontava um sintoma. O preço baixo jamais fez desaparecer as pilhas do chocolate das lojas. Afinal, não havia renda suficiente no mercado para desencalhar essa e outras mercadorias.

Outro sintoma dessa situação é aquilo que foi apontado como causa da quebra da varejista. O buraco de 20 bilhões no balanço da empresa tem cheiro de fraude. Mas também é resultado de uma economia mergulhada na recessão devido a vários fatores: achatamento salarial e elevado desemprego causados pela reforma trabalhista; a criminosa administração da crise pandêmica pelo governo genocida e a opção deste último pelo liberalismo mais selvagem, incluindo taxas de juros pornográficas.

Os controladores das Americanas optaram por esconder os prejuízos causados por essa situação. Desde que foram revelados, no entanto, a oferta de crédito despencou. Os bancos não querem correr o risco de conceder novos empréstimos sem lastro. Menor oferta de crédito, menos produção, consumo e empregos.

A crise de 2008 foi causada por empréstimos podres (subprimes) escondidos em derivativos financeiros. Os débitos podres ocultos no balanço das Americanas é nossa versão do subprime.

Claro que as consequências estão longe de ser as mesmas que as da crise estadunidense. Até porque já vivemos há anos uma situação de quebradeira de empresas e desemprego elevado. A crise que começou lá periodicamente ganha novos impulsos por aqui.

É o capitalismo gângster, à moda americana. De Wall Street à Faria Lima. Tudo muito conveniente para fortalecer o gangsterismo fascista no cenário social e político.

Leia também:
A pandemia e os gatilhos do caos
Por trás da mutação subprime/coronavírus, o capitalismo em crise

5 de dezembro de 2022

Os algoritmos e os ovos da serpente fascista

O Facebook tem 2,96 bilhões de usuários ativos mensais. O Instagram, 1,28 bilhão. E o WhatsApp, 2 bilhões. Os três são controlados pela holding Meta, de Mark Zuckerberg, e alcançam mais da metade da população on-line do planeta.

As informações acima estão em artigo de Pedro Doria. Publicado recentemente no Globo, o texto aborda as dificuldades enfrentadas pela Meta que a levaram a demitir 13% de sua força de trabalho.

Uma semana depois, outra coluna do mesmo autor informava que “sinais vindos do Vale do Silício” apontam “para a pior crise do mundo da tecnologia desde o estouro da bolha das ponto-com em 2000”.

Referia-se a grandes demissões em empresas como Snpachat, Netflix, Twitter e Amazon. “Todas demitiram mais de 10% da tropa”, diz Doria. Mesmo quem não demitiu, como Apple e Google, pararam de contratar, complementa.

Mas para o articulista está tudo bem. Afinal, “pessoas perdem seus empregos, a economia se contrai, uma recessão está com toda a cara de que vem por aí. Quem conseguir equilibrar suas contas é quem sobreviverá”.

Exemplo perfeito de fé irresponsável nos mecanismos de correção do todo poderoso mercado. Um fanatismo que despreza não apenas os desempregados da vez, mas os desastrosos efeitos que uma nova recessão mundial pode causar.

Segundo essa lógica, trata-se apenas das periódicas crises de ajuste típicas do capitalismo. O problema é que, em geral, elas aprofundam a barbárie social e ajudam a fortalecer o conservadorismo mais extremado.

Mas nesse caso específico, os algoritmos com que lucraram várias dessas empresas também funcionaram como ninhos onde foram chocados muitos ovos de serpentes fascistas.

Leia também: A sintonia do fascismo com as dissonâncias capitalistas

17 de junho de 2021

Em Nomadland, a Amazon é um labirinto de perigos

Despejados de suas casas pela crise das hipotecas de 2008, muitos estadunidenses de classe média formaram comunidades nômades que circulam pelo país em trailers, buscando trabalho temporário.

Nos eventos que essas comunidades organizam, a Amazon monta quiosques de recrutamento. Vestindo camisetas da empresa, os recrutadores distribuem panfletos onde se lê "CONTRATANDO AGORA", junto com adesivos, calendários e outros brindes promocionais.

O relato acima é baseado no livro "Nomadland", de Jessica Bruder, assim como o testemunho abaixo, de um dos recrutados:

“Vocês vão fazer muito esforço físico aqui. Provavelmente, vão se agachar umas mil vezes por dia, sem exagero", avisou nosso instrutor. Alguns estagiários riram. Sentamos em longas mesas em ordem alfabética, como crianças em idade escolar. A maior parte da multidão estava acima dos 60 anos. Eu era o único com menos de 50, um dos três trabalhadores sem cabelos grisalhos. Disseram-nos que os gerentes do depósito solicitaram oitocentos trabalhadores e apareceram mais de novecentos.

O maior galpão equivale a 19 campos de futebol e tem 32 quilômetros de correias transportadoras. É um labirinto de perigos. Cabelos precisam ficar amarrados para não se prenderem nos rolamentos e os crachás têm cordões quebráveis para evitar estrangulamentos.

No verão, as temperaturas de um armazém na Pensilvânia ultrapassam os 45 graus. Os gerentes não abrem as portas por medo de roubo. Em vez disso, deixam ambulâncias prontas para retirar funcionários adoecidos pelo calor.

Nessas condições, os contratados cumprem jornadas superiores a 10 horas, com dois intervalos, de quinze e trinta minutos, para refeições. Tarefas rigidamente cronometradas por sensores completam o quadro.

Com isso, concluímos essa viagem exaustiva e revoltante.

Leia também: Nomadland: a vida humana como efeito colateral

16 de junho de 2021

Nomadland: a vida humana como efeito colateral

Muitos dos trabalhadores que conheci nos galpões da Amazon faziam parte de um grupo demográfico que nos últimos anos cresceu com velocidade alarmante: americanos mais velhos, perdendo rapidamente qualidade de vida. Nos melhores dias do Império – com uma classe média forte, estabilidade no emprego e boas aposentadorias – essa situação era inimaginável.

O trecho acima é do livro "Nomadland", de Jessica Bruder, sobre trabalhadores despejados de suas casas pela crise das hipotecas de 2008. Nômades, eles passaram a circular pelo país a bordo de seus motor-home.

Formaram uma espécie de comunidade itinerante que costuma se encontrar nos locais que oferecem trabalho temporário. Muitos deles são os enormes centros de distribuição da Amazon.

A autora cita a experiência de uma dessas pessoas. Quando partiu em seu trailer sete meses antes:

...a sobrevivência financeira não era seu único objetivo. Ela também sonhava em se juntar a uma comunidade maior de pessoas. Pessoas que estavam dispostas a refazer radicalmente suas vidas em busca de realização e liberdade. Mas na Amazon, os turnos massacrantes eram exaustivos e solitários. Seus dias de folga serviam mais para recuperação do que socialização, não deixando muito tempo para se relacionar com outros nômades.

Mas a Amazon não criou tais centros especificamente para explorar esses deserdados do sonho americano. A empresa também surgiu na esteira da crise de 2008, mas como alternativa para o capital cortar radicalmente os custos com o trabalho humano utilizado no varejo comercial. A exploração desses sem-tetos motorizados foi apenas um lucrativo efeito colateral.

Na verdade, vidas humanas sempre foram tratadas como desagradáveis efeitos colaterais pelo capitalismo.

Mais na próxima parada.

Leia também: Nomadland: muitas horas e quilômetros trabalhando para a Amazon

15 de junho de 2021

Nomadland: muitas horas e quilômetros trabalhando para a Amazon

Em um capítulo de seu livro "Nomadland", Jessica Bruder revela como funciona o trabalho temporário na Amazon estadunidense. Um aspecto pouco desenvolvido no premiado filme inspirado pela obra.

Em 2011, a Amazon começou a criar grandes centros de distribuição chamados “CamperForce”, que empregam milhares de trabalhadores nas temporadas de vendas elevadas. Entre eles, muitos idosos.

Segundo o livro, esses galpões são tão grandes que os trabalhadores apelidaram seus setores com nomes de estados americanos. Os contratados trabalham dez horas ou mais caminhando cerca de 8 ou 9 quilômetros, por US$ 12 a hora. Enquanto examinam, classificam e embalam mercadorias, eles agacham-se, inclinam-se, empurram carrinhos, sobem e descem escadas.

Em um grupo fechado de funcionários da Amazon no Facebook, uma mulher disse que perdeu 12 kg durante seus três meses no emprego. Alguém respondeu: “É fácil perder peso caminhando meia maratona todos os dias. Você fica cansado demais para comer!” Outro participante se gabou de caminhar quase 900 km em dez semanas de trabalho.

Quando os períodos das grandes compras terminam, os “CamperForce” são desativados e os trabalhadores partem no que os gerentes chamam de "desfile de lanternas traseiras". Referem-se à fila de furgões e trailers que servem de moradia para esses condenados à vida nômade porque perderam suas casas na crise das hipotecas de 2008.

No total, esses períodos de contratação não passam de 90 dias por ano. Durante esse tempo, os idosos ou quase idosos ficam fora dos programas governamentais de assistência. E a Amazon consegue gordas isenções fiscais por empregar “pessoas em situação desvantajosa”.

Mas vantagem, mesmo, só para os capitalistas da Amazon.

Continua...

Leia também: Na terra dos nômades, a Amazon e os “amazumbis”

14 de junho de 2021

Na terra dos nômades, a Amazon e os “amazumbis”

"Nomadland" recebeu o Oscar de melhor filme, atriz e direção em 2021. O longa foi inspirado no livro homônimo da jornalista Jessica Bruder, publicado em 2017.

Em formato de reportagem, o livro mostra o cotidiano de idosos que se deslocam pelo território estadunidense em furgões e trailers. São os nômades a que se refere o título.

A grande maioria deles não está na estrada a passeio. Moram sobre rodas porque suas casas lhes foram tiradas pelos bancos que as financiaram. É uma das consequências da crise das hipotecas de 2008.

A produção cinematográfica não é um documentário nem pretendia ser uma obra de denúncia. Talvez por isso tenha sacrificado alguns aspectos importantes dos relatos de Jessica. Principalmente, maiores informações sobre o trabalho executado por idosos nos galpões da Amazon.

A empresa começou a criar grandes centros de armazenamento e triagem em território americano, em 2011. Acabou atraindo essas pessoas em constante deslocamento para executar tarefas temporárias nos períodos de alta nas compras. Elas formam comunidades transitórias no entorno dos armazéns da empresa.

Segundo um dos entrevistados pela autora, a Amazon gosta de recrutar idosos porque executariam suas tarefas com maior responsabilidade. “Nós tiramos poucas folgas e não deixamos as coisas inacabadas”, diz ele, aparentemente orgulhoso.

O trabalho não é dos mais pesados, mas exige resistência física. Depois das longas jornadas noite adentro, os trabalhadores voltam para seus veículos extenuados. Transformados em “amazumbis”, costumam brincar, ainda que não pareça nada divertido.

Nas próximas pílulas, mais detalhes do capítulo do livro que descreve essa fábrica de zumbis que já instalou oito de seus depósitos no Brasil.
 
Leia também: Google e Amazon de olho nas oportunidades do apocalipse

26 de maio de 2020

Contagem regressiva: revolução social ou barbárie

Em certa fase de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se em seus entraves. Surge, então, uma época de revolução social. A transformação que se produziu na base econômica transforma mais ou menos lenta ou rapidamente toda a colossal superestrutura.

O trecho acima é do Prefácio à “Contribuição à Crítica da Economia Política”, de Marx. Desde 1859, quando foram escritas, estas poucas linhas já renderam muitos milhares de páginas e outro tanto de horas de debate.

Mas para efeitos dessa modesta pílula, digamos apenas que forças produtivas seriam algo como vapor, eletricidade, petróleo, energia nuclear, informática, internete, inteligência artificial, nanotecnologia, impressão 3d, sequenciamento genético, telefonia 5G...

Ou seja, são tecnologias e recursos capazes de eliminar muito trabalho indesejável. De diminuir ou acabar com dores, doenças, sofrimento. De possibilitar deslocamentos rápidos e comunicação instantânea. Enfim, de assegurar um nível de bem-estar inédito à espécie humana.

Aí, entram as relações de produção. No capitalismo, elas limitam todo esse bem-estar a uma minúscula minoria que pode comprá-lo e ainda lucra monopolizando o acesso a ele.

É esse enorme desequilíbrio que, nos tempos de Marx, ameaçava a vida social. Mas desde então, essa instabilidade também se manifestou no nível ambiental. A natureza vem tendo seus limites tensionados ao extremo. Podem surgir catástrofes climáticas, colapsos alimentares, pandemias terríveis. E pode surgir tudo isso junto.

É a “época da revolução social” de que Marx falava, mas com prazos cada vez mais apertados. Ou nos apressamos ou grande parte da humanidade pode perecer.

Leia também: A extinção da espécie mais perigosa

9 de maio de 2020

A pandemia e os gatilhos do caos

Desde 2016, pelo menos, vários especialistas preveem a ocorrência de um novo surto da crise de 2008. Não se trata apenas de analistas marxistas ou de esquerda. Muita gente do mercado financeiro e do próprio FMI vinha alertando para uma nova e poderosa recessão mundial.

Afinal, todas as causas que levaram ao colapso de 2008 seguem em plena operação. E os empregos continuaram sendo poucos ou muito mal pagos ou ambos. A desigualdade social mantém firme trajetória ascendente.

A dúvida era sobre qual seria o gatilho que detonaria essa nova etapa da crise: dívidas empresariais, guerra comercial entre Estados Unidos e China, estagnação chinesa, novas bolhas especulativas, ausência de demanda por petróleo?

Só não se considerava a possibilidade de um colapso ambiental. Pelo menos, não em prazo tão curto.

E eis que chegou o coronavírus-19.

Trata-se de um fenômeno causado pela destruição ambiental promovida pelo capitalismo e potencializado por suas características perversas. Entre elas, a enorme desigualdade social e o lucro acima de tudo retardando ou bloqueando a adoção imediata das medidas sanitárias necessárias.

A questão é que a pandemia não substituiu ou cancelou os outros problemas. Ao contrário, há muitos outros gatilhos prontos para disparar.

Por exemplo, essa crise pandêmica pode levar ao deslocamento definitivo do eixo geopolítico mundial para a China graças a sua aparente recuperação econômica rápida. Um personagem como Trump estaria disposto a aceitar tal mudança?

Tudo isso lembra bastante a situação causada pela crise de 1929, à qual o capitalismo respondeu da única maneira que sabe: a sangrenta barbárie da Segunda Guerra Mundial. Não nos faltam nem os fascistas no poder.

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O coronavírus e o fetichismo do aplicativo

10 de março de 2020

Por trás da mutação subprime/coronavírus, o capitalismo em crise

José Martins e a Equipe 13 de Maio mantêm o boletim “Crítica da Economia” há 30 anos. O tom é meio apocalíptico quando aborda os problemas e contradições da atual fase do capitalismo. E as manifestações de alegria pela iminência de colapsos econômicos um pouco despropositadas. Motivadas, segundo suas próprias palavras, por “boas notícias sobre a necrologia do capital”.

Mas é uma fonte importante de informações e dados para os marxistas combativos. E mantém uma análise atenta da situação mundial. É o caso do trecho abaixo, retirado da última edição do boletim:

...dois gatilhos deveriam ser acionados para a abertura do novo período de crise global. O primeiro seria uma radical interrupção da produção industrial da China, o “chão de fábrica do mundo”. Como já é de amplo conhecimento público, este gatilho acaba de ser acionado.

A novidade é que o gatilho chinês veio embalado pela espetacular mistificação do novo coronavírus. Já houve outros coronavírus, mas não tão propagandeados como o atual.

O problema é que todas as análises econômicas da atual explosão econômica global aparecem poluídas por uma asneira da sociedade do espetáculo.

Como providencial álibi para os capitalistas de todo o mundo, as turbulências atuais do mercado que eles mesmos criaram aparecem apenas como resíduo deste obscuro vírus de mais uma cepa corriqueira de tantas outras gripes.

Mais além desta asneira, o segundo e definitivo gatilho para a abertura oficial da crise global será a derrocada dos preços das ações na maior bolsa de valores do mundo.

Realmente, o coronavírus é o novo subprime. Causa superficial da mais grave das epidemias: o capitalismo.

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16 de outubro de 2019

A cor da instabilidade

Raúl Zibechi é escritor e jornalista uruguaio. Em recente artigo, ele resumiu assim a situação política no continente sul-americano:

O fim da governabilidade, própria dos primeiros anos do progressismo, é de caráter estrutural e tem pouca relação com os governos. O ciclo progressista se solidificou nos altos preços das commodities, com grandes superávits comerciais que untaram as políticas sociais. Melhorar a renda dos mais pobres sem tocar na riqueza foi o milagre progressista.

Esse consenso terminou com a crise de 2008 e a guerra comercial Estados Unidos-China não faz mais que aprofundar a instabilidade. Não é possível continuar melhorando a situação dos setores populares sem tocar na riqueza e os governos que se afirmam progressistas não farão outra coisa a não ser aprofundar o extrativismo e a desapropriação dos povos: Andrés Manuel López Obrador e o possível governo de Alberto Fernández são parte dessa realidade.

O panorama dos próximos anos será uma sucessão de governos, progressistas e conservadores, com um cenário de vastas mobilizações populares. Trata-se do fim da estabilidade, de qualquer cor.

O grande problema desse cenário é a forte tendência de “governos progressistas e conservadores” inclinarem-se à direita. Os últimos por vocação. Os primeiros porque procuram melhorar o que não pode ser melhorado. Aí, é recuo atrás de recuo. Se foi assim no “auge das commodities”, será pior em uma situação recessiva.

Um capitalismo instável exige radicalização. É o que o capital vem fazendo, ao apoiar governos protofascistas pelo mundo. A esquerda deveria fazer o mesmo, mas longe dos governos e grudada nas lutas.

Nada de tons róseos. A instabilidade tem que ser vermelha.

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14 de outubro de 2019

Do descontrole ao apocalipse capitalista

“A inteligência artificial sairá do controle, dizem 10 grandes personalidades”, segundo matéria da revista Época publicada em 13/03/2019. Entre as “personalidades”, os donos da Apple, Microsoft, Tesla e até Vladimir Putin.

Mas cabem duas questões preliminares.

Primeiro, sairá do controle de quem, caras pálidas? Uma coisa são bilionários preocupados. Outra coisa é o restante dos mortais mantidos na dependência dessas novas tecnologias exatamente por esses bilionários e seus governos.

Segunda questão: desde quando, na condição de espécie humana, estamos no controle de alguma coisa? Ou melhor, quando é que resolvemos que precisamos controlar tudo, incluindo o restante da natureza.

A resposta a esta última questão é relativamente simples. Faz uns duzentos anos que uma parte da humanidade impôs ao restante dela e sua descendência que nossa relação com a natureza seria de escravização de suas leis a nossos caprichos. Ou melhor, ao imperativo absoluto de gerar lucros.

O resultado está aí: crises ambientais, incluindo epidemias, envenenamento da atmosfera, de rios e oceanos e alterações climáticas com consequências cada vez mais trágicas. Chama capitalismo, isso. Ou seria, apocalipse capitalista?

Em 1848, Marx e Engels escreveram no Manifesto Comunista: “Tal como o aprendiz de feiticeiro, a burguesia não consegue controlar as potências que pôs em movimento”. Uma descrição que sofre atualizações a cada onda de “novas tecnologias”.

Mas afirmar que não há ninguém rigorosamente no controle, não significa que não haja culpados. E entre eles estão essas “personalidades” que se dizem preocupadas, enquanto preparam suas Arcas de Noé privativas.

Nesse caso, poderíamos assumir o controle da situação, nem que seja apenas para providenciar-lhes um juízo final igualmente privativo.

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2 de outubro de 2019

Sem “recall” para o capitalismo

O Financial Times, considerado a "bíblia" do jornalismo econômico, lançou, em sua edição de 18/09/2019, uma campanha pelo “recomeço" do capitalismo.

Em carta aos leitores, o diretor de redação do jornal admitiu que o sistema está "sob pressão".

A reportagem da BBC sobre o episódio cita outros neoliberais britânicos que chegaram a conclusões semelhantes.  

É o caso do historiador Thomas Babington Macaulay, para quem “é necessário reformar para preservar. É tempo para um reinício".

Já Paul Collier, professor de economia em Oxford, sugeriu o seguinte a seus companheiros conservadores: "Mova-se para a esquerda na economia e fale a língua do pertencimento". Tocante!

Nos Estados Unidos, Noah Smith, professor da Universidade Stony Brook, diz que a atitude em relação ao sistema é “reformá-lo e não revoltar-se contra ele”.

Por fim, Martin Wolf, o mais influente comentarista econômico neoliberal, foi pelo mesmo caminho em sua coluna do Financial Times:

O capitalismo não funciona mais. Há muita desigualdade, empresas que ignoram legalmente o fisco, monopólios digitais que dominam o mundo e estão fazendo as pessoas perderem a confiança no capitalismo democrático. Se continuarmos assim, o sistema corre o risco de não sobreviver.

Mas digamos que, tratando-se de capitalismo, a bagaça já tá toda muito bichada. Até porque o sistema sente uma atração inevitável e fatal pela barbárie.

Foi assim com Hitler, Mussolini, Pinochet. Está sendo assim com Trump, Órban, Bolsonaro, Boris Johnson. E mesmo os mais envernizados dos governantes, como Macron, preferem agradar os ricos e perseguir imigrantes a fazer alguma justiça social.

Com o capitalismo não tem jeito. Não adianta pedir devolução, só revolução.

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6 de setembro de 2019

Bolha financeira fóssil. Era só o que faltava

Tornou-se comum nas editorias de tecnologia da grande imprensa um otimismo que pode ser resumido no seguinte esquema:

Já era: automóveis e utilitários movidos a combustível fóssil. Já é: automóveis elétricos. Já vem: automóveis e utilitários movidos a eletricidade.

Mas não é o que mostra, por exemplo, o artigo de Alex Callinicos “Apostando na perda infinita”, infelizmente sem tradução do inglês.

Nos últimos dez anos, a cadeia de suprimento de combustíveis fósseis foi completamente financeirizada através de fundos de investimento, muito menos regulamentados que os bancos convencionais.

Em 2014, 52 desses fundos captaram US$ 39 bilhões para investimentos no setor de petróleo e energia. Um volume 20% maior que no ano anterior e o mais alto desde 2008.

Além disso, as empresas de petróleo e gás criaram seus próprios bancos e fundos de investimento. Desse modo, podem acessar dinheiro com os privilégios concedidos aos bancos.

A poderosa empresa de energia francesa EDF adquiriu o setor do falido banco Lehman Brothers durante a crise financeira e registrou um aumento de 60% em suas receitas desde 2008.

Tudo isso mostra que o capital continua investindo pesadamente em combustíveis fósseis. Donald Trump não foi eleito apenas graças a fake news e ressentimento.

Não à toa, estudos apontam que, de 1870 a 2014, um quarto de todas as emissões de CO2 ocorreu nos últimos quinze anos desse período.

Para completar, temos a introdução de um perigoso elemento especulativo na cadeia produtiva de petróleo, gás, carvão e urânio.

Portanto...

Já era: acreditar em capitalismo verde. Já é: mais emissões de CO2. Já vem: bolha financeira fóssil, crise climática e caos social.

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19 de agosto de 2019

Quando a disputa China x Estados Unidos pode ser mero detalhe

Problemas sérios rondam a economia mundial. Mas não se trata apenas da possível guerra comercial entre China e Estados Unidos. O maior alerta surgiu no interior da economia americana.

Houve no mercado de juros estadunidense um estranho fenômeno envolvendo títulos do tesouro daquele país. Papéis com resgate em 10 anos passaram a pagar menos juros que aqueles com vencimento em 2 anos.

O susto deve-se ao fato de que esse tipo de “inversão de rendimentos” antecedeu todas as recessões mundiais do período pós-guerra. Todas.

Além disso, nunca se praticaram tantas taxas de juros negativas nas economias centrais. Ou seja, nesses lugares os capitalistas vêm pagando para manter seus recursos nos bancos.

Eles preferem perder parte de seu dinheiro investindo em papéis considerados confiáveis a perder todo ele apostando em títulos que pagam juros elevados, mas que podem transformar suas fortunas em pó, da noite para o dia.

São movimentações típicas de quem sente cheiro de quebradeira no ar. E o fedor vem de onde? Do desperdício promovido pelo grande capital com os enormes recursos financeiros que os bancos centrais colocaram a sua disposição desde a crise de 2008.

A maior parte dessa montanha de dinheiro transformou-se em uma dívida que chega hoje a US$ 325 trilhões. Ou mais de três vezes o valor da produção econômica mundial. Enquanto isso, pouco foi feito para criar empregos e renda suficientes para reaquecer a economia global.

A disputa entre chineses e americanos é muito perigosa. Mas é só parte de um cenário cada vez mais parecido com um apocalipse econômico.

Para mais detalhes, clique aqui e aqui.

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29 de julho de 2019

A resistência dos explorados expande horizontes

Há quem diga que a atual situação de estagnação da economia mundial em breve dará lugar a outro momento de expansão, criando empregos e elevando a renda.

Não é isso o que sugere a realidade do último meio século. Momentos de crescimento econômico realmente ocorrem ciclicamente, mas beneficiando cada vez menos gente. Concentrando mais renda e reservando a minorias minúsculas a vida digna prometida pelo livre mercado.

O fato é que o capitalismo está preso a uma tendência de fabricar lucros gigantescos, empregando cada vez menos força de trabalho. Vejamos um exemplo retirado de “The Age of Surveillance Capitalism” (A era do capitalismo de vigilância), de Shoshana Zuboff.

Nesse livro, ainda sem tradução, a autora mostra como as maiores empresas do mundo empregam pouca gente, em comparação a seu gigantesco valor de mercado.

Desde o momento em que passaram a vender ações em 2016, o valor de mercado da Google e do Facebook disparou. A Google alcançou U$ 532 bilhões e o Facebook atingiu U$ 332 bilhões. A Google emprega pouco mais de 75 mil pessoas e o Facebook cerca de 18 mil.

Enquanto isso, a General Motors levou quatro décadas para alcançar seu maior preço de mercado: U$ 225 bilhões, em 1965. Mas empregava, naquele momento, 735 mil trabalhadores.

Felizmente, nem esses grupos tão poderosos estão livres da luta de classes. Em maio passado, por exemplo, ocorreu uma “paralisação feminina” em várias sedes da Google pelo mundo contra disparidades salariais e denúncias de assédio sexual.

Os ciclos das lutas da classe trabalhadora, sim, são os únicos com potencial para verdadeiramente expandir os horizontes da humanidade.

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