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19 de junho de 2024

Capitalismo verde, capitalismo sujo

A denúncia está na matéria “Bahia: energia ‘limpa’ contra o povo”, publicada pelo portal Outras Palavras. É sobre as serras de Jaguarari, na Bahia, conhecidas como a “caixa d’água do sertão”. Suas 63 fontes abastecem mais de um milhão de pessoas.

Um consórcio chamado Quinto Energy escolheu a região para construir o “Complexo Manacá”, que prevê a instalação de 405 torres eólicas e 476 mil placas fotovoltaicas. A produção de energia equivaleria a um quarto da gerada por Itaipu, a maior hidrelétrica do país.

Serão abertas estradas com até 20 metros de largura para que carretas transportem torres eólicas com 43 metros de altura para o alto da serra. Além disso, será preciso construir plataformas de concreto, desmatando e cimentando as caixas d´água do sertão. Apesar disso tudo, a obra recebeu sinal verde do governo baiano.

Este é mais um exemplo de que mesmo as chamadas energias “limpas” e “sustentáveis” podem causar mais estragos que benefícios. Mas vai muito além dos impactos locais.

Parques eólicos e fotovoltaicos estão sujeitos à inconstância dos ventos e da luz solar. Desse modo, seus proprietários criam demandas que não têm condições de garantir de forma sustentável. A qualquer momento, essas fontes ditas alternativas podem “secar”, provocando apagões que o Estado será pressionado a resolver. Na utilização da energia hidrelétrica essas intermitências são corrigidas pelo sistema público, que alterna o uso das usinas espalhadas pelo país.

Fontes de energia renováveis devem substituir as tradicionais, diminuindo o impacto ambiental e social, mas também integrar os sistemas públicos. Qualquer coisa diferente disso é o velho capitalismo sujo disfarçado de capitalismo verde.

Leia também: O capitalismo verde e os latifundiários dos ventos

29 de maio de 2024

Geoengenharia: falsa solução para a crise climática

Em 27/05/2024, Ronaldo Lemos publicou o artigo “Chegou a hora da geoengenharia?”, na Folha. Segundo o colunista, geoengenharia é a “ambição de interferir no clima do planeta em escala global, para corrigir o curso do aquecimento e das mudanças climáticas”.

Por exemplo, espalhar silicato em grandes extensões da superfície do planeta para acelerar o processo de remoção de CO2 da atmosfera. Ou lançar escudos refletores no espaço para diminuir a incidência da luz solar.

Na verdade, o objetivo é deixar em paz os grandes geradores de gases de efeito estufa, já que tudo seria corrigido por soluções extravagantes como essas. Produtores de combustíveis fósseis, desflorestadores e queimadores de vegetação agradecem o empenho.

Apesar do título do artigo, a geoengenharia já foi um dos principais temas tratados na Conferência Rio+20, ocorrida em 2012. Desde então, a indústria e alguns setores da academia continuam a insistir na geoengenharia como solução. Solução para seus negócios, não para a grande maioria da população do planeta.

Intervenções em larga escala no meio ambiente envolvem inúmeras variáveis. Podem resolver um problema e desencadear muitos outros. Uma ação em certa região do planeta ameaça desequilibrar as condições climáticas em outras.

Algumas formas de energia sustentáveis até podem ser consideradas uma forma amenizada de geoengenharia. Mas nada substitui a necessidade de diminuir as altas emissões de carbono.

O pior é que a geoengenharia usa como pretexto para se justificar as cada vez mais frequentes tragédias ambientais, como a que atingiu as terras gaúchas. Típico caso de solução que faz parte do problema. Como tudo o que tenta manter intacta a insustentabilidade capitalista.  

Leia também: A rebimboca climática da geoengenharia

11 de dezembro de 2023

O capitalismo verde e os latifundiários dos ventos

Em 02/12/2023, o presidente da COP28 anunciou várias promessas para investimentos em energia renovável. A principal delas pretende triplicar a capacidade instalada global desse tipo de recurso até 2030. Mas, como no mundo dominado pelo capitalismo sempre tem um “mas”, a eliminação de novos investimentos em combustíveis fósseis ficou fora do texto.

O filósofo e escritor Airton Krenak costuma dizer que não adianta nada adotar fontes renováveis de energia se elas não substituírem recursos energéticos mais sujos, como petróleo, carvão e gás.

Fontes sustentáveis de energia não anulam os estragos sociais e ambientais. Apenas diminuem seu impacto. Enquanto não tomarem o lugar das fontes mais poluentes, acrescentarão novos problemas aos antigos. Além disso, é preciso considerar o caráter monopolista que assume a quase totalidade dos empreendimentos capitalistas na atualidade.

Vejamos o exemplo da energia eólica. Segundo um artigo publicado pelo portal ClimaInfo, empresas desse setor controlam pelo menos 262 mil hectares no Rio Grande do Norte, atualmente. Isso representa 5% da área do estado ou quase duas vezes o tamanho da capital paulistana. Metade disso está sob controle de 27 empresas sediadas aqui e a outra metade, com 19 companhias estrangeiras. “São os latifundiários dos ventos”, diz o texto.

Enquanto isso, os pequenos proprietários que arrendaram suas terras para as instalações eólicas viram seus rendimentos despencarem. Até porque estão impedidos por cláusulas contratuais de cultivar ou criar animais para não interferir na captação do vento.

Este é só um exemplo a mostrar como o verde das energias alternativas capitalistas restringe-se à cor do dinheiro que geram, tornando sustentáveis apenas os enormes lucros de uma minoria exploradora.

Leia também: Capitalismo, arqueologia, mandantes e executores