quinta-feira, 21 de junho de 2018

Desde Platão, destruindo a natureza sem culpa

Segundo a famosa alegoria de Platão, aqueles que estão presos em uma caverna acham que as sombras projetadas pela luz externa em suas paredes são toda a realidade a ser conhecida.

Para ele, nossas almas são como esses prisioneiros, escravizados pelo mundo da experiência sensorial, incapazes de ver diretamente a realidade e confundindo formas ilusórias com a verdade.

Poluída por desejos físicos, a parte da alma que é orientada pelo corpo está em conflito com sua parte espiritual.

Em uma pessoa disciplinada, explica Platão, o desejo obedece à razão, assim como, em um Estado bem organizado, as ordens inferiores obedecem aos governantes.

Trata-se de um cosmos dividido entre um mundo ideal, conhecido apenas pela alma, e o mundo material mutável, experimentado pelo corpo.

A tradição cristã se apropriou dessa concepção considerando o corpo como fonte de todo o pecado.

O filosofo Descartes daria novo impulso a essa separação. Dizer que “penso, logo existo” significa que é a mente separada do corpo que nos torna realmente humanos.

Nossos corpos são mera matéria sem valor intrínseco. E se isso é verdade para eles, deve ser igualmente verdadeiro para o resto da natureza - animais, plantas e tudo o mais.

Desse modo, pensadores religiosos e racionalistas podem discordar em tudo, exceto sobre a santidade da mente (alma) em contraste com o resto da natureza.

O relato acima é baseado no livro “The Patterning Instinct”, no qual Jeremy Lent procura explicar como a tradição ocidental aprendeu a destruir a natureza sem qualquer culpa.

O autor compara essa concepção com outras tradições, como a chinesa. Mas fica para a próxima.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Junho de 2013: tentando controlar o que não pode ser controlado

Há cinco anos, enormes manifestações tomaram as ruas. Setores petistas costumam acusar seus organizadores de perder o controle do movimento para a direita.

Reportagem de Felipe Betim, publicada por El País em 13/06/2018, dá outra visão. Cita estudo da “Artigo 19”, ONG internacional de direitos humanos:

No total, 849 pessoas foram detidas arbitrariamente em São Paulo e no Rio de Janeiro entre janeiro de 2014 e junho 2015 durante 740 protestos. Sete pessoas morreram. Já entre agosto de 2015 e dezembro de 2016, foram 1.244 detenções arbitrárias em todo o país.

Para coroar esse processo, o governo Dilma sancionou a lei “antiterrorismo” às vésperas das Olimpíadas de 2016. A proposta veio de um Congresso conservador, é verdade. Mas seu texto original foi assinado pelo então ministro petista Eduardo Cardozo e seu colega de governo, o tucano Joaquim Levy.

Portanto, se alguém facilitou o trabalho da direita nas ruas foi a violenta repressão a manifestações populares. Não a todos elas, porém. Como afirma a reportagem:

A ONG lembra que, durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, as maiores manifestações foram realizadas pelos partidários do afastamento e não houve qualquer incidente, o que indica uma repressão e criminalização seletiva por parte das autoridades.
                 
Ou seja, os governantes petistas ajudaram a reforçar o aparato militar contra manifestações que julgavam ser organizadas por seus inimigos. Mas esse mesmo aparato escolheu nada fazer quando o alvo dos protestos eram somente os governantes petistas.

Agora, esses mesmos setores querem vencer as eleições para retomar o controle de um aparato sobre o qual somente poderão ter algum controle rendendo-se a ele.

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terça-feira, 19 de junho de 2018

Lições sobre os erros do antifascismo europeu

Muito interessante o artigo “Cinco lições de história para antifascistas”, de Mark Bray, publicado na Revista Serrote. O texto fala da Europa do começo do século passado. Naquele momento, centro do capitalismo mundial. Portanto, são muitas e profundas as diferenças com a situação atual no Brasil. Mas vejamos:

Como muitos socialistas e comunistas a princípio consideravam o fascismo uma variante da política contrarrevolucionária tradicional, eles se concentraram muito mais uns nos outros do que em seus inimigos fascistas.

(...)

Em 1921, os socialistas italianos assinaram o Pacto de Pacificação com Mussolini, e nem eles nem os comunistas achavam que a ascensão do Duce ao poder representaria mais do que uma nova oscilação para a direita no velho pêndulo da política parlamentar burguesa. Não foram muito diferentes, nesse sentido, da maioria dos socialistas espanhóis, que colaboraram com o governo militar de tintas fascistas de Primo de Rivera nos anos 1920. (...) [Para] o Partido Comunista da Alemanha, o fascismo não exigia resistência, mas paciência – seu lema era “Primeiro Hitler, depois nós”.

As passagens acima certamente dariam razão aos defensores de uma unidade construída a qualquer custo frente à onda ultraconservadora representada pela candidatura Bolsonaro. Mas destaquemos a seguinte observação sobre os socialistas alemães:

A liderança do partido se preservou para continuar buscando o poder pela via das eleições legítimas. Quando esse caminho foi definitivamente bloqueado, o partido se viu em dificuldades para mudar de linha.

O problema não era apenas a falta de unidade da esquerda contra o fascismo. Também era a aposta na resistência estritamente institucional a ele. Muito semelhante ao que acontece aqui e agora.

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O combate a Bolsonaro e outros “esquisitões”

segunda-feira, 18 de junho de 2018

O respeito de Marx pela natureza

Tornou-se comum dizer que Marx defendia a exploração dos recursos naturais como se não houvesse amanhã. Em “Marx estava certo”, Terry Eagleton mostra que não é bem assim. Em primeiro lugar, diz ele:

Como uma troca “metabólica” entre a humanidade e a natureza, o trabalho, para Marx, é uma condição “eterna” que não se altera. O que se altera (...) são as várias formas que nós, humanos, usamos para trabalhar a natureza.

Mas para Marx:

...a relação entre a natureza e a humanidade não é simétrica. No fim, como ele observa em “A ideologia alemã”, a natureza é que dá as cartas. Para o indivíduo, isso se chama morte. O sonho faustiano de progresso sem limites em um mundo material magicamente reativo ao nosso toque ignora “a prioridade da natureza externa”. Hoje, isso não é mais conhecido como sonho faustiano, mas como sonho americano.

Além disso, em “O capital”, Marx descreve a natureza:

...como o “corpo” da humanidade, “com o qual [ela] precisa estar em constante intercâmbio”. (...) Quando essa reciprocidade de ser e natureza se rompe, sobra para nós um mundo capitalista sem sentido, em que a natureza não passa de algo flexível para ser moldada da forma que nos convier. A civilização se torna uma vasta cirurgia plástica.

Outro trecho da mesma obra afirma:

Mesmo uma sociedade inteira, uma nação ou até todas as sociedades simultaneamente existentes não são proprietárias do globo. São apenas suas detentoras, usufrutuárias, e como (...) “bons pais de família” precisam passá-lo em condições melhores de geração em geração.

Os marxistas sempre buscarão um modo de garantir o amanhã.

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O que Marx aprendeu com uma turma boa de briga
O que o socialismo marxista não é

sexta-feira, 15 de junho de 2018

No meio do caminho tinha uma bola

Pérolas de Carlos Drummond de Andrade retiradas do livro “Quando é dia de futebol”, que reúne várias de suas crônicas e poemas sobre o ludopédio nacional:

O campeão não é campeão vinte e quatro horas por dia; chega uma hora de calçar os chinelos, e bocejar; um tempo de ver as flores; tempo de não sofrer mais do que o estritamente necessário, e desconfiar das glórias incômodas. De resto, não somos sessenta milhões de campeões, o que inflacionaria a espécie; eles são apenas onze e seus reservas. Penso nas coronárias e sugiro (diante do espelho): Calma, torcedor.

Desabafou comigo, diante do chope amargo: – Se fosse só a Hungria contra nós, eu ainda aguentava. Se fosse a Hungria mais o juiz, que anulou dois gols da gente, ainda aguentava. Mas a Hungria, o juiz e os nossos locutores, tudo junto, espera lá, não há tatu que aguente!

Não há nada mais triste do que o papel picado, no asfalto, depois de um jogo perdido. São esperanças picadas.

Eu sei que futebol é assim mesmo, um dia a gente ganha, outro dia a gente perde, mas por que é que, quando a gente ganha, ninguém se lembra de que futebol é assim mesmo?

E já estou pensando em um futebol lento, mais do que lento, imóvel, em que os jogadores de ambos os times se sentem no chão para assistir à lenta germinação de uma folhinha de grama: o verde da vida.

Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma...

E também é poesia, poeta, poesia!