quinta-feira, 20 de abril de 2017

O partido de Lênin era pouco “leninista”

O historiador britânico Alexander Rabinowitch escreveu vários livros contando a história da Revolução Russa. Um deles é “The Bolsheviks Come to Power” (“Os Bolcheviques Tomam o Poder”), ainda sem tradução. Um dos trechos da obra afirma o seguinte em relação ao Partido Bolchevique:

...gostaria de enfatizar a estrutura e o método de operação internamente relativamente democráticos, tolerantes e descentralizados do partido, bem como seu caráter essencialmente aberto e de massas - em marcante contraste com o modelo leninista tradicional.

Em outro momento, diz:

... em 1917, em todos os níveis da organização bolchevique de Petrogrado, a discussão era livre e animada no debate sobre as questões teóricas e táticas mais básicas. (...) não poucas vezes Lênin foi derrotado nesses debates.

Ou seja, o historiador está dizendo que aquele que é considerado o partido leninista por excelência não era assim tão leninista. Na verdade, nem Lênin era.

O livro “O que fazer”, de Lênin, é considerado a “receita” do partido leninista. Mas a obra é de 1902, quando as condições para a militância eram as piores possíveis. Depois da Revolução de 1905, a situação melhorou e Lênin escreveu uma resolução para o 3º Congresso do Partido afirmando que "em condições políticas de liberdade, nosso partido pode e deve refazer inteiramente as regras de funcionamento...". E foi mais ou menos isso que aconteceu.

O mito do partido puramente leninista dirigindo a revolução começou, mesmo, após a chegada dos bolcheviques ao poder. Em especial, com a contrarrevolução stalinista. Mas, isso já é assunto para outro momento. E a obra de Rabinowitch certamente pode nos ajudar a entender esse processo.

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quarta-feira, 19 de abril de 2017

O cerco do suicídio

Parece que o grande assunto do momento tem sido o suicídio. A série “Os 13 Porquês”, da Netflix, e um jogo macabro chamado Baleia Azul são temas obrigatórios. Ambos tratam da busca pela morte voluntária entre adolescentes.

Quase um milhão de pessoas morrem por suicídio anualmente segundo a Organização Mundial de Saúde.

No livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”, Yuval Harari constata que, em 2002, dos 57 milhões de mortos no planeta, apenas 172 mil morreram em guerras e 569 mil foram vítimas de crimes violentos. Por outro lado, 873 mil cometeram suicídio.

O Mapa da Violência 2014 trouxe dados assustadores sobre o Brasil. Mortes voluntárias tendem a aumentar em países com melhores índices sociais. Mas nosso índice é igual ao de países como Japão, França, Suécia e Noruega: 30 por 100 mil habitantes.

Como hoje é “Dia do Índio”, não custa lembrar que o suicídio é uma pandemia entre os indígenas. Eles parecem funcionar como uma espécie de antena sensível demais para as loucuras que vêm dominando a humanidade. Principalmente, suas crianças e adolescentes.

É o que mostra o relatório sobre Violência Letal contra crianças e adolescentes no Brasil, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais. Municípios da Amazônia estão no topo da lista de suicídios entre crianças e adolescente indígenas. Em São Gabriel da Cachoeira, a taxa de 2003 a 2013 foi de 33,3% na faixa etária entre 10 a 19 anos. Em Tacuru, o índice chegou a 100%.

O suicídio é o sintoma da doença social que cerca suas vítimas. Enquanto não a combatermos, seremos parte deste cerco.

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terça-feira, 18 de abril de 2017

Lênin e a ira de um operário simples

23 de outubro de 1917. O Comitê Central do Partido Bolchevique reuniu-se para decidir se iniciaria ou não uma insurreição para transferir o poder aos sovietes. Somente Lênin e Trótski votaram a favor. A insurreição fora rechaçada. 

Levantou-se então um operário simples, com o rosto contraído de tanta ira. “Falo aqui em nome do proletariado de Petrogrado”, disse ele, rudemente. “Somos favoráveis a uma insurreição. Façam como acharem melhor, mas eu lhes digo que, se vocês permitirem que os sovietes sejam destruídos, nós acabaremos com vocês!"

Houve nova votação e a insurreição foi aprovada.

Mas ainda era preciso decidir qual o melhor momento para o levante revolucionário. Em nova reunião, Lênin, referindo-se ao Congresso Pan-Russo dos Sovietes, disse:

O 6 de novembro será cedo demais. Precisamos do apoio de toda a Rússia para o levante; até o dia 6 não terão chegado todos os delegados do Congresso… Por outro lado, 8 de novembro será tarde demais. Nesse momento o Congresso estará em pleno andamento, e é difícil um grupo grande de pessoas assumir uma ação rápida e decisiva. Temos de agir no dia 7, dia de abertura do Congresso, de modo que assim poderemos dizer aos delegados: “Aqui está o poder! O que vocês farão com ele?”

E foi exatamente assim que aconteceu.

Os trechos acima são do livro “Os dez dias que abalaram o mundo”, de John Reed. Mostram um daqueles raros momentos em que o papel de um indivíduo determina os rumos da história. Mas o que seria de Lênin, e da história, sem aquele “operário simples com o rosto contraído de tanta ira”?

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segunda-feira, 17 de abril de 2017

E eles só falam da Odebrecht...

Uma radiografia da captura corporativa em alguns dos principais setores da economia brasileira: alimentos, com destaque para o caso dos transgênicos; educação; finanças e juros; meio ambiente; mídia; saúde; segurança; e setor imobiliário.

O trecho acima resume o conteúdo de “A privatização da democracia – um catálogo da captura corporativa no Brasil”. Trata-se de uma publicação do Vigência, “grupo de ativistas cujo foco de atuação é a denúncia dos efeitos sociais do capitalismo extremo no Brasil”.

Os dados mostram que o atual escândalo é apenas uma parte do sequestro dos recursos públicos nacionais pelo grande capital. Tanto do local como do estrangeiro, se é que faz sentido separar os dois.

Mas um dos aspectos mais relevantes nessa “captura” é seu quase perfeito ocultamento. E isso acontece graças a uma área sensível, controlada estrategicamente pelo poder econômico. Estamos falando da mídia. Em especial, da Globo. O catálogo revela, por exemplo, que em 2012:

...a receita líquida da Globo é, pelo menos, três vezes maior do que a receita líquida somada dos grupos Abril, RBS, O Estado de São Paulo e SBT. Já o seu lucro líquido é mais de 11 vezes maior do que o lucro líquido dessas outras empresas reunidas.

Este poderio todo permite formar, deformar, omitir, mentir em gigantesca escala. E sempre com a cumplicidade de seus “concorrentes menores”.

É esta situação que cada vez mais faz da Lava-Jato um daqueles novelões das oito com final manjado. Ou, como disse Janio de Freitas em sua última coluna, nada mais do que o “estouro de um esgoto na mansão da classe dominante”.

Acesse o catálogo, aqui

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quinta-feira, 13 de abril de 2017

Três versões da traição

Há um conto de Jorge Luis Borges em que Judas é elevado à condição de mártir. Segundo a hipótese fictícia do grande escritor argentino, o mais odiado dos personagens bíblicos sacrificou sua honra e o reino dos céus por uma causa maior. Sem seu ato vergonhoso, não teria ocorrido o terrível sacrifício que redimiu a humanidade e mudou a história do mundo.

Segundo o conto, Judas teria intuído:

...a secreta divindade e o terrível propósito de Jesus. O verbo havia se rebaixado a mortal; Judas, discípulo do Verbo, podia rebaixar-se a delator. (o pior delito que a infâmia suporta) e ser hóspede do fogo que não se apaga. A ordem inferior é um espelho da ordem superior; as formas da terra correspondem às formas do céu; as manchas da pele são um mapa das incorruptíveis constelações; Judas refletiu de algum modo a Jesus.

Claro que tudo isso não passa da genial imaginação de Borges expondo as contradições envolvendo valores humanos e divinos. Mas em tempos prenhes de delações, esse jogo espelhado parece forçar sua aparição nos jornais.

É o caso da matéria de Marina Dias publicada na Folha, em 13/04. O título diz que “Temer, Lula e FHC articulam pacto por sobrevivência política em 2018”. A aproximação dos três estaria sendo intermediada por Gilmar Mendes e Nelson Jobim. A principal motivação, diminuir os estragos causados pela avalanche de denúncias de corrupção a envolver nomes graúdos dos partidos que lideram.

Onde Borges encaixaria seu Judas nesse cenário confuso até para ele? Difícil saber. De qualquer maneira, o título do conto é “As Três Versões de Judas”.

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