22 de março de 2019

Antes do partido digital, o “partido televisão” e o partido de massas

Em seu livro “The Digital Party”, Paolo Gerbaudo descreve a teoria do intelectual italiano Marco Revelli, que vê no partido de massas o equivalente político da fábrica fordista no nível econômico.

Primeiro, por seu "gigantismo" e esforço "para incorporar grandes massas de pessoas de maneira estável, organizadas em estruturas sólidas e permanentes".

Depois, por seu "trabalho político" coletivo, inspirado por critérios tayloristas de eficiência e racionalização. Os militantes seriam os trabalhadores da linha de montagem. Os quadros locais, os supervisores. O comitê central, os executivos.

Mas a crise do capitalismo fordista também afeta o partido de massas, que se vê enfraquecido diante da crença imposta pelo neoliberalismo num mundo “pós-industrial, pós-ideológico e pós-classe”.

Surge, então, o “partido televisão”, fortemente influenciado pela ascensão da TV como o canal dominante da comunicação.

O modelo fordista dá lugar ao paradigma “midiático-marqueteiro”, derivado de ramos considerados representantes da vanguarda da economia pós-industrial.

O partido televisão não tem mais o apoio de uma base militante ativa. São, principalmente, seus líderes que apelam diretamente aos eleitores em programas televisivos.

Essa nova organização política já não tem uma base de classe claramente definida. De forma oportunista, procura atrair diferentes camadas sociais. O eleitorado é um mercado a ser conquistado.

Há também um fortalecimento da liderança partidária, com campanhas personalizadas e centradas nos candidatos. Essa mediação política à distância corroeu o papel das bases no partido e contribuiu fortemente para gerar uma atitude passiva no eleitorado.

Aparece, então, o partido digital, prometendo resolver ou minimizar os problemas introduzidos pelo partido televisão. Será capaz de cumprir o que promete? Continua na próxima pílula.

21 de março de 2019

Facebook: quando o oco domina o mundo

O Facebook é uma concha vazia, um recipiente que adquire significado apenas por meio do conteúdo gerado pelo usuário que é produzido por indivíduos interagindo nele.

Mas também funciona como um "aparente paradoxo", em que um "mecanismo estrito e invariável (ditadura de meios) oferece uma heterogeneidade de usos autodirigidos (liberdade de fins)".

As palavras acima estão em “The stack: on software and sovereignty”, de Benjamin Bratton. A obra é citada no livro “The Digital Party”, de Paolo Gerbaudo, ambos sem tradução.

A análise ajuda a entender a lógica do Facebook. Por trás de maravilhas como compartilhamento, descentralização e livre fluxo de informações, um mecanismo que direciona fortemente a vida de bilhões pelo planeta.

Segundo Gerbaudo, esse mecanismo “tem importantes implicações para o exercício do poder em termos da centralização que facilita e das distorções inerentes às regras e protocolos da plataforma”.

Resumindo, a adesão é voluntária e a participação é livre, mas ambas limitadas e orientadas por algoritmos que são definidos por uma minoria e seus valores. Uma centralização tão sutil, quanto poderosa.

O fato é que produtos como o Facebook resultam da mentalidade típica do Vale do Silício. Liberal em relação a costumes, mas fanática quanto aos imperativos do mercado.

E são tais imperativos que transformaram a “concha vazia” do Facebook numa das mais adequadas caixas de ressonância dos valores conservadores que vêm sendo impostos pelo neoliberalismo há décadas.

Trump e Bolsonaro no poder são símbolos perfeitos do sucesso dessa lógica. Se não pode ser considerada o único fator determinante para a vitória deles, ela mostra que cascas vazias também podem funcionar de forma colaborativa.

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O bode de estimação do Facebook

20 de março de 2019

Os antigos e os novíssimos monopólios da verdade

Pawel Kuczynski
Os primeiros aparelhos de rádio serviam tanto para recepção como para emissão. Uma troca que ficava fora do alcance da indústria e dos governos.

As estações de rádio permitiram opor alguns emissores a milhões de receptores. Um monólogo que, geralmente, trata somente do que interessa ao mercado e ao poder.

A TV já surgiu sob a lógica do monólogo. Não à toa, nos países economicamente dependentes as redes de difusão audiovisual foram priorizadas em relação à estrutura telefônica.

No início do século 21, surge a maior empresa de mídia da história. O sucesso do Facebook se deveu muito à restauração dos contatos interpessoais. Ainda que virtuais.

Décadas de neoliberalismo criaram o ambiente ideológico perfeito para a volta do diálogo sem risco para os poderes estabelecidos. Ao contrário, tinha tudo para os favorecer.

Associações, clubes, sindicatos, partidos esvaziados. A família reduzida a, no máximo, quatro ou cinco membros. Os apartamentos no lugar de aldeias, vilas, paróquias.

O individualismo no lugar da solidariedade, a competição ao invés da colaboração. Empreendedorismo, sim, consciência de classe, jamais.

Cenário perfeito para que os diálogos se limitassem ao nível virtual. Inclusive, da sala para o quarto.

Evidentemente, a maior empresa de mídia já formada também é o maior anunciante. O Facebook monetizou os contatos entre as pessoas, alavancando bilhões de dólares por hora.

Enquanto isso, o Google monetizou radicalmente a informação. Vale como fato objetivo aquele que recebe mais cliques.

Esta é basicamente a economia política que opõe os interesses de antigos e novíssimos monopólios da verdade. Nosso grande desafio é saber explorar as contradições dessa briga. Estaremos à altura da tarefa?

19 de março de 2019

O combate às mentiras e aos monopólios da verdade

A pílula de ontem citou recomendações adotadas pelo colunista Helio Gurovitz para que a imprensa enfrente as “vozes discordantes” que acreditam no festival de mentiras que empesteia as redes virtuais. Seria preciso:

...respeitá-las, ouvi-las, manter a calma e não entrar em gritaria, não adotar um tom de queixa, ser sincero e determinado nas próprias crenças, pensar e tratar não só de fatos, mas sobretudo dos valores...

Certo, tudo muito válido. Mas será que a imprensa que vem dominando a distribuição de informações no mundo há décadas teria condições de adotar tal postura? Impossível.

Os atuais monopólios de comunicação só sabem despejar seus produtos em larga escala. Falta-lhes a capacidade de dialogar porque sua lógica é unidirecional.

Mas é pior que isso. Tratar não só de fatos, mas sobretudo de valores, recomenda o colunista. Para a grande imprensa isso equivaleria a admitir que defende certos valores. E que eles são os dos poderosos. Da minoria.

Ou seja, os instrumentos de comunicação melhor preparados para travar esse combate são os alternativos. A extrema-direita já começou a trabalhar nisso há vários anos. O resultado é óbvio.

Falta à esquerda fazer o mesmo. Deixar de priorizar eleições para disputar cabeças e almas. Parar de depender de estruturas sob controle estatal ou empresarial. Travar a batalha da contra-hegemonia, que exige menos recursos financeiros e muito mais trabalho cotidiano.

Só quem tem uma visão de mundo radicalmente diferente àquela defendida por criaturas como Trump e Bolsonaro pode derrotá-los.

Mas é crucial para travar essa luta compreender o papel dos novíssimos monopólios de mídia. Facebook e Google, principalmente. Fica para a próxima pílula.

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18 de março de 2019

O festival de falsidades e os monopólios da verdade

Em 14/03/2019, na revista Época, Helio Gurovitz abordou “O desafio da imprensa diante de Trump e Bolsonaro”.

Basicamente, tal desafio envolveria o combate ao festival de falsidades que gira em torno dos presidentes nomeados no título.

O colunista cita o livro “Don’t think of an elephant!” (Não pense num elefante!) do linguista estadunidense George Lakoff. Para ele, fatos são cruciais, mas:

...precisam ser emoldurados de modo adequado para que entrem no discurso público de modo eficaz. Acreditar que apenas apresentá-los de maneira competente basta para que o cidadão “acorde” é uma ilusão”.

Nos conservadores, exemplifica o linguista, as crenças derivam da imagem da família com pai rigoroso. Nos progressistas, da família com pais carinhosos.

Segundo Lakoff, “muitas das ideias que ultrajam os progressistas são o que os conservadores veem como verdade” e vice-versa. Referindo-se a Trump, Bolsonaro e seus aliados, afirma: “Eles não são estúpidos. Estão ganhando porque são inteligentes. Entendem como as pessoas pensam e falam.”

Por fim, o colunista transcreve alguns princípios úteis recomendados pelo linguista “para dialogar com vozes discordantes”.

...é preciso respeitá-las, ouvi-las, manter a calma e não entrar em gritaria, não adotar um tom de queixa, ser sincero e determinado nas próprias crenças, pensar e tratar não só de fatos, mas sobretudo dos valores — e evitar adotar a moldura do adversário ao rebater ataques. “Não use a linguagem deles. A linguagem seleciona uma moldura — e não será a moldura que você quer.”

Dicas importantes, sem dúvida. Mas que imprensa poderia adotá-las? Certamente, não a dos monopólios que se declaram isentos e objetivos, mas também defendem verdades interessadas.

Continua na próxima pílula.

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