Doses maiores

3 de setembro de 2021

O desamor e as forças invisíveis que nos prendem e cegam

Em seu livro “The End of Love”, Eva Illouz afirma que aquilo que ela chamou de “capitalismo escópico” muda a ecologia das relações íntimas, recicla a sujeição das mulheres e cria uma vasta quantidade de experiências de rejeição, mágoa, decepção, "desamor"...

A referência maior da autora é a crítica presente em “O mal-estar da civilização”. Neste famoso livro, Freud argumenta que a modernidade se caracterizaria por uma falta de adequação entre a estrutura psíquica individual e as demandas sociais colocadas sobre ela. A crítica de Freud, portanto, não parte de uma visão normativa clara, mas indaga sobre o ajuste entre as estruturas sociais e psíquicas.

Se a introspecção e o "eu" não são fontes confiáveis de compromisso e clareza, liberdade por si só não pode gerar sociabilidade e cobra um preço psíquico muito alto dos atores sociais. A fim de gerar solidariedade social a liberdade precisa de rituais. No entanto, esses rituais praticamente desapareceram e foram substituídos pela incerteza.

Eva afirma que não pede um retorno aos valores familiares, à comunidade nem defende a redução da liberdade. No entanto, leva a sério as críticas feministas e religiosas à “liberdade sexual” e afirma que o poder tentacular do capitalismo escópico a utiliza para dominar nosso campo de ação e imaginação, contando com a “indústria psicológica” para gerenciar as muitas brechas emocionais e psíquicas criadas por ela.

E se muita coisa pode ser polêmica neste livro, a frase que o encerra justifica sua leitura: “Se liberdade deve significar alguma coisa, certamente deve incluir o conhecimento das forças invisíveis que nos prendem e nos cegam”.

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2 de setembro de 2021

Liberdade sexual: velhas e novas desigualdades

As afinidades entre relacionamentos negativos e capitalismo escópico são o principal fio condutor deste livro, diz Eva Illouz, em “The End of Love”.

Mas a título de resumo, podemos afirmar que “relacionamentos negativos” dizem respeito “às maneiras pelas quais as relações íntimas, a sexualidade e a família refletem as características apropriadas do mercado, das práticas de consumo e dos locais de trabalho capitalistas”.

Para Eva, no casamento tradicional homens e mulheres eram (mais ou menos) emparelhados horizontalmente (dentro de seu grupo social) e visavam maximizar a propriedade e a riqueza. Já nos mercados sexuais contemporâneos, homens e mulheres combinam de acordo com o capital sexual, para uma variedade de propósitos (econômicos, hedônicos , emocionais). Muitas vezes vêm de diferentes grupos sociais e origens (culturais, religiosas, étnicas ou sociais) e frequentemente trocam atributos assimétricos (por exemplo, beleza vs. status social).

Também é importante destacar que, segundo ela, o capitalismo escópico gera diferentes formas de valor econômico e social para homens e mulheres. Por meio do mercado de consumo, as mulheres preparam seus corpos para produzir valor, ao mesmo tempo econômico e sexual, enquanto os homens consomem a produção feminina de seu valor sexual como marcadores de status em arenas de competição masculina.

Por ter sido atrelada aos objetivos e interesses do capitalismo escópico, afirma a autora, a liberdade sexual aprofunda as desigualdades, algumas das quais o precederam (desigualdades de gênero), enquanto outras foram criadas por ele. Tanto umas como outras têm efeitos negativos suficientes para fazer da busca da liberdade um objetivo que traz consequências inquietantes, conclui Eva.

Concluiremos na próxima pílula.

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1 de setembro de 2021

O amor nas lojas de um dólar

Em lojas de um dólar, muitas vezes os clientes compram mesmo que não precisem de nada. Afinal, o custo de uma decisão errada é mínimo.

Essa atitude é comparada por Eva Illouz a muitos dos “contratos emocionais e sexuais” atuais, que são praticamente isentos de penalidades por sua rescisão.

Um dos exemplos é a prática do “gosthing”, diz ela em seu livro “The End of Love”. O conceito teria origem no famoso filme de 1990, estrelado por Demi Moore e Patrick Swayze. Passou a ser usado para se referir ao rompimento de um relacionamento romântico em que um dos parceiros corta todo o contato repentinamente e ignora tentativas de reconciliação. O ex-parceiro torna-se um fantasma.

“Ele me enviou um SMS dizendo que estava tudo acabado, depois de oito meses de relacionamento!”, queixa-se uma pessoa, em depoimento feito à autora.

No capitalismo atual, as empresas fecham fábricas e despedem trabalhadores sem maiores constrangimentos. Romper tornou-se parte de uma cultura em que as pessoas ficam rapidamente desatualizadas e substituíveis. Mas não apenas na esfera da produção.

Segundo Eva, as noções corporativas de eficiência, custos e utilidade passaram a contaminar as tradicionais convenções e compromissos que envolvem relações amorosas, criando uma crescente situação de incerteza.

Ultimamente, o capitalismo vem lidando com as incertezas de sua instabilidade econômica através de derivativos. Instrumentos financeiros que garantem altos lucros para poucos, mas que, em momentos de crise, acabam socializando os prejuízos com o resto da sociedade.

No caso das relações amorosas, não há derivativos. Muitas vezes, há apenas a garantia de sofrimento em meio a uma solidão abarrotada de mercadorias.

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31 de agosto de 2021

Modernidade hiperconectada e cultura do desamor

Em seu livro “The End of Love: A Sociology of Negative Relations”, Eva Illouz afirma que:

A escolha negativa é tão poderosa e presente na vida das pessoas na modernidade hiperconectada quanto foi, na formação da modernidade, a escolha positiva no sentido de formar laços e relações com outras pessoas.

Afinal, continua ela:

Se a expansão do capitalismo foi baseada no crescimento populacional e na família como a estrutura mediadora entre a economia e a sociedade, essa conexão está sendo cada vez mais desfeita pelas próprias novas formas de capitalismo. O capitalismo é uma máquina formidável de produzir bens, mas não é mais capaz de garantir as necessidades sociais de reprodução, levando ao que a filósofa Nancy Fraser chamou de “crise do cuidado”.

Sob a influência massiva de novas plataformas tecnológicas, essa "liberdade" teria criado agora um número tão grande de possibilidades que as condições emocionais e cognitivas para a escolha romântica foram radicalmente transformadas.

Um exemplo é o sucesso que fazem plataformas como o Facebook, que apresenta como uma de suas características mais importantes tanto a multiplicação das “amizades” quanto seu rápido rompimento. Outros exemplos são o Tinder ou o Match.com, sendo estes diretamente voltados para os encontros sexuais.

A era contemporânea demanda talvez outro tipo de sociologia, que foi provisoriamente chamada por Eva de “estudo da crise e da incerteza”.

Pensando nisso, ela conduziu entrevistas com 92 pessoas na França, Inglaterra, Alemanha, Israel e Estados Unidos, entre 19 a 70 anos de idade. Uma pesquisa atenta aos “praticantes dessa nova cultura do desamor”. Grande parte das conclusões da autora baseiam-se nesses dados.

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30 de agosto de 2021

Capitalismo escópico e a mercantilização do corpo feminino

“A imagem do corpo sexual foi intrínseca ao surgimento do que chamo de capitalismo escópico”, diz Eva Illouz em seu livro “The End of Love”. Tal capitalismo criaria um formidável valor econômico por meio da espetacularização dos corpos e da sexualidade, transformando-os em imagens que circulam em diferentes mercados. A dimensão visual faz do corpo um local de consumo, moldado por objetos de trocas comerciais. É convertido em um ativo na esfera produtiva do trabalho como uma imagem a ser vendida em diversas indústrias visuais.

A teoria feminista iluminou de maneira crucial o trabalho não remunerado das mulheres na formação e manutenção da máquina capitalista dentro da família. O capitalismo de consumo usa as mulheres de maneira diferente, por meio do trabalho performativo de produzir um corpo sexualmente atraente.

Na sociedade industrial, os homens exigiam que os corpos das mulheres estivessem à venda "apenas" por meio do casamento ou da prostituição. No capitalismo de consumo, a estrutura social e econômica que organiza a sexualidade é aquela na qual o corpo feminino já não é regulamentado pela família e passa por um processo generalizado de mercantilização que o faz circular em mercados ao mesmo tempo econômicos e sexuais, sexuais e matrimoniais.

Essa apropriação do corpo sexualizado feminino constitui uma expropriação de valor no sentido marxista: uma classe (homens) extrai valor do corpo de outra classe (mulheres). Isso, por sua vez, explica uma característica paradoxal da existência social da mulher contemporânea: enquanto o feminismo ganhou força e legitimidade, as mulheres foram redirecionadas para relações de dominação econômica por meio do corpo sexual.

Caracterização muito polêmica, mas debate necessário.

Lei também: Capitalismo escópico e sexualidade