terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Vale do Silício, Rosa Luxemburgo e Marx

“Empresas do Vale do Silício, antes vistas como inovadoras, são hoje gigantes e alvo da desconfiança das pessoas”, diz Cora Rónai em sua coluna no Globo de 02/01/2018.

É só mais um dos muitos artigos na grande imprensa a demonstrar grande decepção com arrojados rapazes e suas “startups”. Este último termo refere-se a iniciativas empresariais criativas movidas pelo ambição de ganhar muito dinheiro.

Na verdade, desse impulso surgem novos modos de explorar trabalho alheio. Seja por serviços como o Uber, seja pela venda dos dados pessoais de bilhões de pessoas.

Mas nada disso é novo. Em certo momento da história do capitalismo, muitos acreditavam que as pequenas empresas desapareceriam. Restariam apenas as corporações gigantes.

Uma das primeiras a se rebelar contra tal ideia foi Rosa Luxemburgo. Em “Reforma ou Revolução?” ela destaca o importante papel dos pequenos capitais na dinâmica capitalista. Eles seriam:

...pioneiros da revolução técnica de maneira dupla: no respeitante a novos métodos de produção nos setores antigos fortemente enraizados; e pela criação de novos setores de produção inexplorados pelos grandes capitais.

Mas não se trata apenas de mais um aspecto da produção capitalista. Ele é fundamental para a sobrevivência do sistema. É o que diz Marx em “O Capital”:

Assim que a formação do capital caísse totalmente nas mãos de um grupo de grandes capitais totalmente constituídos, o fogo vivificador da produção extinguir-se-ia – entraria em torpor.

Portanto, a onda de inovações simbolizada pelo Vale do Silício não é a primeira nem será a última. E a próxima, como a atual, será só mais uma nova forma de manter a velha exploração de classe.

Leia também:
Tudo o que é sólido termina em exploração

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Quando nem a dialética de Lênin funciona

Em seu livro “Reconstruindo Lênin”, Tamás Krausz mostra a situação extremamente contraditória em que se encontrava o Estado soviético alguns anos após sua criação.

Uma confusão tão grande que levou Lênin a cometer alguns malabarismos teóricos para apontar rumos para sua superação.

Em janeiro de 1921, por exemplo, ele escreveu o artigo “A crise do partido”, descrevendo o Estado soviético desse modo:

O Estado operário é uma abstração. De fato nós temos um Estado operário, 1º, com a particularidade de que não é a população operária mas a população camponesa que predomina no país; e 2º, um Estado operário com uma deformação burocrática.

Anteriormente, em “Os sindicatos, a atual situação e os erros de Trotsky”, de 1920, Lênin já havia afirmado:

...num estado que se formou em tais condições concretas, os sindicatos nada têm a defender? Pode-se dispensá-los da defesa dos interesses materiais e morais do proletariado organizado? Seria um raciocínio completamente falso, do ponto de vista teórico. Um raciocínio que nos levaria ao domínio da abstração ou do ideal que atingiremos daqui a quinze ou vinte anos, sendo que, além do mais, não estou seguro de que o atingiremos nesse prazo (...). Nossa situação é tal, que o proletariado deve utilizar suas organizações para defender-se contra seu próprio estado, ao mesmo tempo em que o defende.

Em outras palavras, diz Tamás, os trabalhadores devem confrontar o estado, mas, ao mesmo tempo, defendê-lo juntamente com todas as suas instituições. Não há uma solução dialética para tal contradição.

Quando nem toda a capacidade dialética de um Lênin basta, difícil não esperar pelo pior.

Leia também:

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Revolução é tudo ao mesmo tempo agora

Elio Gaspari publicou o seguinte em sua coluna de 03/01/2018, no Globo:

A descriminalização da maconha é um tema da agenda do século 21. Já o direito das mulheres ao aborto foi tema do 20, ainda divide a sociedade americana e prevaleceu em dezenas de países. E os temas do 19? Estão diante dos olhos de todos os brasileiros quando leem ou ouvem que a polícia subiu um morro e matou "dois suspeitos".

(...)

Há um Brasil que é pouco ouvido e mal-entendido, mas que está aí, não poderá se mudar para Miami, e em outubro irá às urnas. 53% dos entrevistados com renda superior a dez salários mínimos defendem a legalização da maconha e 70% querem a descriminalização do aborto. Na turma que anda de ônibus (até dois salários mínimos), o quadro inverte-se e só 26% concordam com as duas propostas. Moralista, essa faixa da população é a mais afetada pelo que resta da agenda do 19.

São contradições como essas que podem ajudar a entender o que está por trás das divergências entre a esquerda “tradicional” e os movimentos ditos “identitários”. Um choque entre pautas de lutas que deveriam convergir.

Mas nada disso é necessariamente novo ou localizado. Trotsky, por exemplo, trabalhou o conceito de “desenvolvimento desigual e combinado”, segundo o qual relações e estruturas ultramodernas não apenas convivem como dependem da permanência do que há de mais arcaico.

Foi com base nessa compreensão do desenvolvimento capitalista que Trotsky e seus camaradas encontraram suas saídas. Fizeram uma revolução num país que era a quinta economia da época, com mais de 90% de analfabetismo.

Leia também: As intersecções da dominação capitalista

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Até agora, Trump vem perdendo para Churchill

Dias atrás, Trump chamou de “países de merda” o Haiti e nações africanas.

No mesmo período, estreou o filme “O Destino de uma Nação”, que retrata Winston Churchill como herói da liberdade.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Vejamos.

Em 11/01, Richard Seymour escreveu na revista “Jacobin” sobre o famoso primeiro-ministro britânico. Segundo o artigo, no final da Segunda Guerra, Churchill afirmou: “Devemos varrê-los, cada um deles, homens, mulheres e crianças. Não deve restar um japonês na face da terra”.

Mas tem mais.

...não admito que um grande mal tenha sido feito aos índios vermelhos da América ou aos negros da Austrália (...) pelo fato de que uma raça mais forte, uma raça superior, (...) invadiu e tomou seu lugar.

Visitando a Itália em 1927, declarou a Mussolini: "Se eu fosse italiano, com certeza estaria a seu lado desde o início para concluir sua luta triunfante contra os apetites e paixões bestiais do leninismo".

Escrevendo sobre suas "relações íntimas e agradáveis” com Mussolini, acrescentou que "no conflito entre fascismo e bolchevismo, não há dúvidas sobre de que lado ficam minha simpatia e convicções".

Mas Churchill não se limitava a proferir barbaridades. Ele autorizou o uso de gás venenoso contra rebeldes que combatiam o domínio britânico no Iraque. Na verdade, já havia ordenado que se fizesse o mesmo contra a Rússia dos bolcheviques.

Um caso de pioneirismo foi a utilização do terrível “agente laranja” contra rebeldes na Malásia. Muito antes que as tropas estadunidenses fizessem o mesmo no Vietnã.

Por enquanto, Trump vem perdendo para Churchill na condição de criminoso racista. Por enquanto...

Leia também: Yes, vocês podem! Não é, Trump?

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Os bolcheviques e a liberação sexual

O título acima é de um artigo de Noel Halifax, publicado na revista marxista “Socialismo Internacional”, em 13/10/2017. O autor é membro do Partido Socialista dos Trabalhadores inglês e militante do movimento LGBT.

Ainda sem tradução do inglês, o texto combate a ideia muito corrente de que a política dos líderes da Revolução Russa para a sexualidade era homofóbica.

O artigo diz, por exemplo, que nos anos 1920, os bolcheviques se juntaram à Liga Mundial de Reforma Sexual, sendo seus maiores apoiadores. Em um dos encontros da Liga, o delegado russo Grigorii Bakkis descreveu a legislação soviética sobre homossexualidade desse modo:

...o Estado e a sociedade não devem, em absoluto, interferir em assuntos sexuais, desde que ninguém seja ferido ou tenha seus interesses prejudicados. Sobre homossexualidade, sodomia e várias outras formas de satisfação sexual que a legislação europeia considera ofensas contra a moralidade, as leis soviéticas as trata exatamente da mesma maneira como as relações sexuais ditas "naturais".

Além disso, um dos principais psiquiatras do início da União Soviética, Lev Rozenstein, foi responsável pela criação de cursos e programas de educação sexual que visavam ajudar os “pacientes” a aceitarem seu desejo pelo mesmo sexo. A lei soviética também permitia que mulheres adotassem nomes masculinos e vivessem como homens.

É verdade que as leis russas voltariam a criminalizar a homossexualidade em 1934. Mas, aí, já se tratava de mais uma das muitas derrotas impostas pela contrarrevolução stalinista às conquistas de Outubro. Mais uma traição às preocupações libertárias dos bolcheviques.

Leia também: Os bolcheviques contra a família e por liberdade sexual