24 de maio de 2019

Nós e nossos gêmeos do mal

“Nós”, de Jordan Peele, é diversão de terror garantida. Mas não apenas no sentido original da palavra “diversão”, que significa desviar a atenção de algo importante. O entretenimento do filme é um bom pretexto para denunciar o que está acontecendo em muitas sociedades pelo mundo.

Basicamente, o enredo é sobre famílias gêmeas idênticas. Só que uma delas é formada por assustadoras criaturas do “mal”. A outra, composta por pessoas do “bem” e de bens. Estas últimas são perseguidas pelas primeiras tornando a trama assustadora.

As famílias malvadas pertencem a um mundo subterrâneo e sombrio. Um lugar onde a vida é uma imitação deprimente e assustadora da vibrante sociedade de consumo da superfície.

“Us”, título original em inglês, também faz referência a United States, afirmou o diretor. Segundo ele, os maiores inimigos dos estadunidenses são eles próprios.

Certamente, refere-se à onda conservadora que atinge o país. Ela seria alimentada pelas frustrações por que passam muitos membros da economia mais rica do planeta.

O “American Way of Life” vende um mundo cheio de felicidade e vitórias para todos. Mas a enorme maioria fica, no máximo, com imitações baratas e caricatas do nível de vida de uma elite cada vez menor.

Claro que a trama do filme serve para muitas outras sociedades de alto consumo e muita injustiça social. E mostra como as reações a essa situação podem ser as mais bárbaras.

No filme, as criaturas maléficas costumam fazer estragos com tesouras e machados. Na vida real, muitas vezes, basta o voto na urna para causar prejuízos muito piores.

De qualquer maneira, o final surpreende e é otimista.

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23 de maio de 2019

Os necropoderes do Facebook

O escritor de literatura fantástica Ray Bradbury escreveu um livro cujo título é “Morte é uma transação solitária”. Parece que já não é mais assim. Pelo menos, é o que se deduz de matéria publicada na Folha em 18/05/2019.

O título da reportagem de Felipe Arrojo Poroger afirma: “Mortos seguem vivos e continuam a fazer amigos no Facebook”. Um exemplo envolve um jovem escocês, morto há sete anos:

Scott Taylor não envelhece. Em seu perfil virtual, estão guardados vídeos, fotos, mensagens. A identidade que o garoto quis construir para si mesmo e transmitir ao mundo continua intacta, em um domínio seguro protegido contra a ação do tempo. Sua sobrevivência virtual tornou-se, assim, um convite para que pais e colegas continuassem depositando suas saudades.

“A página era uma das únicas coisas que tínhamos dele”, declarou a mãe do garoto.

Apesar de estranho, o fenômeno deve se generalizar. Segundo a reportagem, estima-se que, em 2098, haverá mais mortos do que vivos no Facebook. “Pensada como lugar de encontros, a rede social extrapola aos poucos seu propósito para transformar-se em cemitério virtual”, diz Poroger.

Mas se a morte deixa de ser uma questão tão individual, tão privada, ela também passa a ser privatizada. Afinal, o tal cemitério está sob administração do maior monopólio de comunicação da história.

O Facebook obtém seus lucros da apropriação que faz de nossos dados pessoais 24 horas por dia. Ao mesmo tempo, nos tornou dependente dele.

Scott Taylor morreu, mas sua página continua gerando informações na rede virtual. O capitalismo aperfeiçoou-se a ponto de continuar a explorar nossas vidas, mesmo depois de seu fim.

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22 de maio de 2019

Seria Bolsonaro um bode na sala?

A situação política nacional parece adequar-se àquela famosa metáfora do “bode na sala”. Numa casa cheia de problemas de convivência por causa do excesso de moradores, alguém coloca um bode no meio da sala.

A situação fica ainda pior, claro. Mas finalmente retirado o animal, o alívio imediato faz os moradores esquecerem de que continuam a habitar um lugar insuportável.

Bolsonaro representaria esse bode num Brasil que nunca chegou a ser muito suportável, mas que piorou bastante desde 2013. Não que alguém o tenha trazido. Ele é que foi chegando aos poucos.

Alguns moradores avisaram que a presença do animal pioraria ainda mais as coisas. Mas a maioria resolveu ignorar os alertas. Afinal, no meio de toda a fedentina, que diferença faria o cheiro do bicho?

Também houve quem começasse a mimá-lo. Querem aproveitar sua presença para tirar vantagens sobre os outros moradores. Agora, já não têm certeza de que tenha sido uma boa ideia. O caprino morde e escoiceia quase todo mundo sem muita distinção.

Além do fedor, começam a circular no ambiente propostas sobre como se livrar do bovídeo.

Apesar de toda a limitação de sua inteligência, o bicho sente que pode ser despejado a qualquer momento. Mas não consegue corrigir seu comportamento. Alterna algumas lambidas nas mãos que o alimentam com muitas chifradas doloridas.

Até o momento, assim estamos. Se o animal ficar, as coisas só devem piorar. Saindo o bicho, permanecemos em uma situação muito ruim. O ideal seria colocar no olho da rua tanto o bode como seus protetores. Expulsar da casa seus piores moradores.

Ou podemos trocar de metáfora.

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21 de maio de 2019

China: capitalismo, sim. Neoliberalismo, jamais

Há quem goste de apontar a China como prova de que o capitalismo é um sucesso histórico. Os números do crescimento chinês realmente dão certa razão aos que defendem o atual sistema econômico mundial.

O problema é que o neoliberalismo é considerado o estágio de perfeição máxima do capitalismo. Mas de neoliberal a economia chinesa não tem nada.

Os Estados Unidos têm 15 mil estatais. A Alemanha, 7 mil. O Brasil, 418. Na China, são 155 mil. Menos neoliberal que isso...

Por outro lado, também é equivocado achar que o caminho chinês é uma alternativa pouco familiar à acumulação capitalista.

Recente artigo do sinólogo britânico John Ross revela, por exemplo, que entre 1938 e 1945, nos Estados Unidos, o consumo das famílias subiu 30% e o investimento privado cresceu 12%. Já os gastos estatais aumentaram 553%.

Em 1943, 83% do investimento fixo dos Estados Unidos foi realizado pelo Estado, diz Ross. Resultado? Um espantoso crescimento da economia estadunidense nos 30 anos pós-guerra.

Mas há evidências muito mais recentes. Em 2013, a economista italiana Mariana Mazzucato publicou um livro desmascarando o “empreendedorismo de garagem” da indústria tecnológica estadunidense.

O estudo revela, por exemplo, que a Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos criou o algoritmo em que se baseiam as buscas do Google. E que a Apple se viabilizou graças à Companhia de Investimentos em Pequenos Negócios, do governo americano. 

O problema para o imperialismo ocidental é um concorrente utilizando seus próprios termos no jogo econômico mundial. O problema para os socialistas é que esse é um jogo sujo para a grande maioria da humanidade.

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20 de maio de 2019

Contra as tecnologias de adaptação, tecnologias rebeldes

Pawel Kaczynsku
Aplicativo GPS que alerta sobre trajetos perigosos nas grandes cidades.

Programa de mensagens virtuais utilizado por seus membros para criar uma rede de vigilância sobre atividades suspeitas em sua vizinhança.

Software de transporte urbano que barateia a força de trabalho de dezenas de milhares de motoristas no caótico trânsito das grandes cidades.

Esses são apenas alguns exemplos de ajustamentos cotidianos à grave situação de violência urbana, concentração de renda, destruição de empregos e desigualdade social presentes na vida contemporânea.

São “Tecnologias de Adaptação”, segundo a definição de Evgeny Morozov, em artigo publicado recentemente no portal Outras Palavras. Para esse pesquisador bielorrusso que estuda os impactos das novas tecnologias na sociedade:

“Tecnologia de Adaptação”, contudo, é marca muito ruim para intitular conferências ou manifestos laudatórios. Ao invés disso, fala-se da “economia do compartilhamento” (com startups que ajudam os pobres a sobreviver, aceitando empregos precários ou alugando suas posses), da “cidade inteligente” (com os municípios entregando sua soberania tecnológica – em troca de serviços temporariamente gratuitos – às gigantes digitais), da “fintechs” (com bancos que emprestam para os mais jovens capturando e vendendo seus dados, apresentados como uma revolução de “inclusão financeira”).

Morozov cita o Brasil como um laboratório de inovação nesse tipo de tecnologia. Mas também no resto do mundo, elas “permitem que cidadãos sobrevivam em meio ao caos, sem demandar nenhuma transformação social”.

E qualquer transformação social, diz ele, passa pela quebra das gigantes tecnológicas, mas também pelo abandono das tecnologias de adaptação em favor de tecnologias rebeldes.

Afinal, se tecnologia é técnica mais ideologia, nós também temos a nossa. Precisamos acioná-la contra a deles.

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