Doses maiores

5 de agosto de 2022

Identitarismo pra todos os lados

Um dos fenômenos abordados pelo livro “Do transe à vertigem”, de Rodrigo Nunes, é o “identitarismo”. Segundo nosso autor:

Ao contrário da história que a “esquerda anti-identitária” costuma contar, não foi porque passou a se preocupar com o “particular” (negros, mulheres, indígenas, gays…) que a esquerda abriu mão do “universal” (um projeto alternativo de sociedade); foi quando deixou de articular uma ideia própria do todo que ela preencheu o vazio com bandeiras setoriais.

O chamado identitarismo seria, portanto, uma espécie de sintoma, mais do que um mal em si. Ao mesmo tempo, é um fenômeno com raízes no mundo objetivo.

O fato, diz Nunes, é que vivemos a “hipervisibilidade de uma vida social cada vez mais midiatizada” que valoriza a afirmação abstrata de princípios acima do desenvolvimento da capacidade de aplicar esses princípios ao mundo.

É essa postura que acabou prevalecendo entre grupos que acham que afirmar sua identidade de cor, gênero, orientação sexual e menosprezar a luta de classes e a resistência anticapitalista, basta para lutar por transformação social.

Por outro lado, grande parte da esquerda ou se limita a tentar administrar um sistema cada vez mais inadministrável ou idealiza uma revolução distante da vida concreta. Desse modo, também acabam por recair em uma espécie de identitarismo “classista” ou “militante”.

Como diz Nunes, “exigir que as pessoas se convertam a identidades cada vez mais estritas ou abracem ideais cada vez menos tangíveis” são apenas dois caminhos diferentes para cair no isolamento.

Resumindo grosseiramente, cada vez mais confundimos a necessidade de mobilizar as pessoas com a ambição, condenada à frustração, de torná-las iguais a nós.

4 de agosto de 2022

Um profeta muito irado

Deus está vindo e não parece muito feliz. Vem derretendo montanhas e rasgando vales, e se pegar vocês com algum outro deus, alguma coisa vai ser esmagada. E quando Deus começa a esmagar, ninguém fica feliz. Samaria e Jerusalém serão reduzidas a escombros. Seus filhos serão vendidos como escravos. Seus cabelos vão cair. Não é uma visão muito agradável, certo?

Não me entendam mal, eu amo nossa terra. Realmente amo. Mas não posso mais ignorar o que vocês andam aprontando. Não sou daqueles profetas que faz previsões doces. Se eu quisesse ser amado, profetizaria a distribuição de vinho grátis. Mas vocês precisam saber sobre a ira divina, mesmo que me odeiem por isso.

Talvez o maior problema é que vocês pensam em Deus como alguém a ser subornado. Mas ele não precisa de mais carne de javali ou óleo de lamparina. 

Na verdade, Deus quer apenas três coisas de vocês. Estão ouvindo? Aqui está a religião judaica em poucas palavras: 1) Construir uma sociedade justa onde os ricos e poderosos não tratem o resto de nós como gado. 2) Seja humilde. Você nunca é tão santo que não possa melhorar um pouco. E, finalmente, 3) Por tudo o que é sagrado, ajudem-se de vez em quando. Vocês não entendem? Estamos aqui na Terra para tornar a vida melhor uns para os outros.

As palavras acima são do profeta bíblico Miquéias, segundo a interpretação de Mark Russell no livro “God Is Disappointed In You” (“Deus está decepcionado com você”).

Ele não está entre os profetas mais populares do Velho Testamento. Parece que não precisa explicar porquê.

Leia também: Jonas, aquele da baleia, desapontado com Deus

3 de agosto de 2022

As desculpas vazias do Papa aos indígenas

No final de julho, o Papa Francisco, em visita ao Canadá, pediu desculpas a representantes indígenas locais pela participação da Igreja Católica no processo de violência cultural e repressão física aos povos nativos, desde o início da invasão europeia das terras americanas até meados do século passado.

Os indígenas agradeceram a gentileza, mas responderam que o papa precisava incluir a revogação da “doutrina do descobrimento” no pedido de desculpas. Referiam-se a três bulas papais que concederam aos reis “permissões”, como o direito de conquistar as terras dos povos indígenas, impor-lhes o cristianismo e torná-los seus escavos.

Em maio de 2015, representantes de povos indígenas de várias partes do mundo promoveram “A Longa Marcha para Roma”. No Vaticano, reuniram-se com Francisco para exigir que ele revogasse essa doutrina.

Kenneth Deer, do povo Mohawk, estava presente e disse que “ele manteve contato visual e foi muito atencioso. Mas limitou-se a dizer: 'Vou orar por vocês'. Depois, me deu uma caixinha vermelha com um rosário dentro. E foi isso.”

E é desse modo que se comporta o Papa mais progressista da Igreja Católica em muitas décadas. Suas posturas individuais são muito melhores que as de vários de seus antecessores, mas isso quase não faz diferença em relação ao funcionamento da instituição que chefia ou deveria chefiar.

Outro exemplo é a discriminação contra os homossexuais. O Papa afirma que eles devem ser tratados como filhos de Deus, mas deixou aos padres decidirem sobre sua aceitação como verdadeiros católicos. O que não ajuda muito. Até porque mesmo os piores pecadores são filhos de Deus. Inclusive, os Papas.

Leia também: O amor e seu oposto, o Vaticano

2 de agosto de 2022

Junho de 2013: erros petistas, limitações da esquerda

Voltando ao livro “Do transe à vertigem”, de Rodrigo Nunes, o autor entende que Junho de 2013 apresentou no Brasil uma particularidade em relação ao ciclo de protestos que ocorreram no mundo todo, em 2011.

Segundo ele, fomos o único país em que os meios de comunicação e parte da direita passaram não apenas a apoiar os protestos, mas também a mobilizar-se em seu favor e tentar imprimir-lhes sua própria agenda.

Assim, quando finalmente o caráter das manifestações se definiu, para muitas pessoas prevaleceram os contornos que a direita lhes deu. Essas pessoas não eram necessariamente de direita, elas se tornaram. A derrota da esquerda ocorreu justamente aí, diz Nunes.

O limite da esquerda não petista naquele momento era que ela havia desencadeado algo suficientemente forte para obrigar o governo a responder, mas não para levá-lo a tomar esta ou aquela direção.

Enquanto isso, afirma ele, entre o certo e o incerto, o petismo preferiu assumir o papel de defensor do sistema e optar pela desqualificação retórica e repressão física das manifestações.

Na ausência de uma via institucional pela qual os protestos pudessem ser canalizados, e diante de ofensiva da direita, a esquerda das ruas viu-se diante de um impasse: ou abandonava o processo sob o risco de sua apropriação pela direita, ou sustentava uma mobilização sem perspectiva de resolução no horizonte, arriscando fortalecer as forças conservadoras, do mesmo jeito.

Com a esquerda não petista neutralizada e o PT cada vez mais identificado com o establishment, o caminho ficaria livre para que a direita pudesse se reivindicar como legítima herdeira de 2013.

Novamente, fica difícil discordar.

Leia também: Junho de 2013: os erros do PT

1 de agosto de 2022

A uberização da pornografia

Um fenômeno recente do mercado de entretenimento é a chamada “uberização” da pornografia.

Tudo começou com o surgimento de plataformas como a OnlyFans. Criada em 2016, o aplicativo destinava-se apenas a celebridades que disponibilizariam fotos e vídeos exclusivos para fãs que se dispusessem a pagar.

Rapidamente, porém, tornou-se uma fonte de material pornográfico. Inclusive, com postagens feitas por estrelas e astros do mercado pornô tradicional. Muitos alegam que o uso da ferramenta proporciona maior liberdade de criação e controle sobre os recursos arrecadados.

Pode até ser, mas tudo indica que se trata de mais uma forma de precarização do trabalho. A indústria pornográfica tradicional já é uma atividade pouco fiscalizada em relação à regulamentação trabalhista por causa do desprezo social que a cerca. Agora, com a chegada das plataformas ao setor, a situação deve ficar pior ainda.

Além disso, tal como aconteceu com motoristas, entregadores e outros profissionais vinculados a aplicativos, os prestadores do serviço da indústria sexual caem vítimas da superexploração imposta pelas plataformas que monopolizam os segmentos em que atuam.

Por fim, não são raros os casos de “influencers” com graves moléstias físicas e mentais decorrentes dos esforços para manterem seus seguidores, enquanto geram cada vez mais lucros para Youtube, Instagram e outras plataformas virtuais. Os mesmos problemas começam a se manifestar na pornografia “uberizada”.

É antiga a polêmica sobre as diferenças entre pornografia e erotismo. Há quem defenda que a primeira seria uma versão grosseira do último. Mas pornográfico mesmo é o crescente assédio do capitalismo sobre todas as esferas sociais, tornando a vida humana uma versão grosseira de si mesma.

Leia também: Doença e morte nas minas do trabalho uberizado