terça-feira, 17 de outubro de 2017

O que fazer com “O que fazer?” de Lênin?

No final de “Outubro: história da Revolução Russa”, China Miéville refere-se ao romance “O que fazer?”, do escritor russo Nikolai Tchernyshevsky. “Este livro estranho, diz ele, “lança uma longa sombra”.

Foi do livro de Tchernyshevsky que Lênin emprestou o título para sua obra mais famosa sobre concepção de partido. Mas quando a Revolução de 1917 foi vitoriosa, “O que fazer?” já tinha 15 anos. E até seu autor o considerava ultrapassado.

É o que se nota, por exemplo, na coletânea "Doze Anos", publicada por Lênin em 1906. Num dos textos, ele procura responder aos críticos de seu famoso livro, afirmando: 

O erro principal dos que hoje polemizam com o “Que Fazer?” consiste em desligar por completo esta obra de uma situação histórica determinada, de um período histórico concreto do desenvolvimento de nosso partido que passou há muito tempo.

De fato, é difícil reconhecer no partido que liderou a tomada do poder pelos sovietes a concepção organizacional defendida por Lênin em “O que fazer”.

Um ótimo artigo escrito pelo marxista estadunidense Hal Draper procura explicar esse processo. Transformar o livro de Lênin em fórmula sagrada sobre organização partidária interessava tanto à contrarrevolução stalinista como a forças de direita.

Publicado por Draper em 1990, “O mito da ‘Concepção Leninista de Partido’ ou ‘O que fizeram com ‘O que fazer?’”, ainda não tem tradução para o português. Mas um resumo dele pode ser acessado aqui.

A argumentação de Draper pode ajudar a entender porque a “longa sombra” a que se referiu Miéville vem, na verdade, assombrando muitas gerações de socialistas.  

Leia também: O partido de Lênin era pouco “leninista”

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O capitalismo tem que morrer de “morte matada”

Da coluna de Pablo Ortellado, na Folha, em 10/10:

Num instigante estudo comparativo sobre o surgimento e o desenvolvimento dos impostos progressivos, Kenneth Scheve e David Stasavage (Taxing the rich: a history of fiscal fairness in the United States and Europe. Princeton: Princeton University Press, 2016) demonstraram, apoiados na história de vinte países, que a introdução de impostos progressivos e a consequente diminuição da desigualdade na Europa e nos Estados Unidos não se deveu ao chamado "efeito democrático" (pelo qual maiorias pobres com direito a voto imporiam um sacrifício aos mais ricos), nem a uma reação política à desigualdade crescente, mas a circunstâncias muito específicas do esforço de guerra, sobretudo durante as duas guerras mundiais.

Num contexto que era de turbulência e ameaças, as esquerdas conseguiram fazer prevalecer o argumento de que assim como os trabalhadores estavam se sacrificando, colocando a vida em risco nos campos de batalha, os empresários também deveriam se sacrificar, contribuindo para o esforço de guerra com impostos muito mais elevados sobre a sua renda e o seu patrimônio.

Ou seja, diminuição da desigualdade no capitalismo, só com muita matança de trabalhadores.

É mais ou menos o que afirmou Pedro Herculano de Souza em entrevista comentada na pílula Distribuição de riqueza, só com catástrofe.

Certa vez, o marxista estadunidense Fredric Jameson disse que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.

Mas isso só é verdade se o capitalismo morrer de “morte morrida”. Nossa única chance de salvação é que ele morra de “morte matada”.

Ou como disse Rosa Luxemburgo, ou é socialismo ou é barbárie!

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A Internacional Comunista na época de Lênin (2)

Voltando a John Riddell, historiador canadense socialista e editor de uma série de livros sobre a Internacional Comunista na época de Lênin. Mais um trecho do interessante artigo “Party democracy in Lenin’s Comintern – and now” (“Democracia partidária na Internacional Comunista de Lênin - e agora”), ainda sem tradução:

A Internacional Comunista e seus partidos procuraram funcionar de acordo com as normas do “centralismo democrático”. Este conceito foi entendido como democracia proletária na tomada de decisões e na escolha dos líderes, combinada com a unidade na realização de um curso de ação aprovado pela maioria. Os marxistas usam o mesmo conceito hoje. Mas no início da Internacional Comunista, o foco era diferente: sua principal preocupação era lidar com o burocratismo e o eleitoralismo.

As principais unidades integrantes dos partidos da Internacional Comunista fora da Rússia vieram do antigo movimento social-democrata. Esses partidos se livraram de suas alas reformistas, mas ainda preservaram muitas de suas estruturas e hábitos. Os partidos de onde vieram dedicaram sua energia principalmente às campanhas eleitorais e ao trabalho educacional associativo. Eram liderados por uma camada burocrática de funcionários enraizados acima de tudo na fração parlamentar, nos órgãos jornalísticos e nas lideranças sindicais. O centralismo democrático da Internacional Comunista procurou superar o burocratismo. Pretendia manter o trabalho parlamentar, jornalístico e sindical sob controle partidário; unificar liderança e base em um movimento homogêneo; e equipar o partido para intervir nas lutas de massa. 

Como se vê, as dificuldades relacionadas ao institucionalismo, inclusive sindical, e à burocratização de nossas organizações, vêm de longe. Só não podemos dizer o mesmo quanto a nossos jornais. Eles praticamente inexistem.

Leia também: A Internacional Comunista na época de Lênin

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Vamos (começar a) discutir “big data”?

Caio Almendra publicou no Facebook um ótimo texto sobre o “big data”, termo que se refere a um imenso conjunto de dados, cuja estruturação feita de forma adequada pode revelar informações detalhadas e valiosas sobre praticamente qualquer tema. Por exemplo, desde hábitos de consumo a preferências politicas de determinadas parcelas da população.

Aí vai um trecho:

O controle empresarial do big data, a commoditização, opera como o controle empresarial e commoditização operam em qualquer área: escolhem determinadas perguntas a serem feitas e ocultam outras. Como fazer o consumidor comprar como queremos é uma pergunta comum; como saber onde o consumo gera mais dano ambiental e como evitar esse dano, é a típica pergunta esquecida. Posso dar outro exemplo simples: o que o controle empresarial sobre a produção de medicamentos fez ao longo do século passado? Focou em doenças difíceis e caras de serem tratadas, abandonou as doenças que estatisticamente mais matam. Zilhares de remédios para um tipo específico de câncer, nenhum para a malária, doença que mais mata (e mata majoritariamente pobres de países periféricos e etnias oprimidas) no mundo. Agora que descobrimos o uso na medicina social do big data, o que o controle empresarial promete para nós? Uso do big data para salvar milhões de pessoas da malária, ou uso do big data para convencer as pessoas a comprarem mais e mais remédios inúteis ou questionáveis?

A resposta parece óbvia, mas recomenda-se a leitura da íntegra do texto, não só para conferir, como para aprender. Porque neste campo, como se já não bastasse tantos outros, a esquerda nem chega a engatinhar.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

A Internacional Comunista na época de Lênin

John Riddell é um historiador canadense socialista e editor de uma série de livros sobre a Internacional Comunista na época de Lênin.

É dele o interessante artigo “Party democracy in Lenin’s Comintern – and now” (“Democracia partidária na Internacional Comunista de Lênin - e agora”), ainda sem tradução.

O texto descreve “como os partidos comunistas lidavam com questões de disciplina interna e democracia no tempo de Lênin”. A título de introdução ao tema, um trecho:

Os partidos nos países imperialistas tinham dezenas ou centenas de milhares de membros. Eles também tinham uma ampla periferia de simpatizantes, muitos dos quais trabalharam com membros do partido em questões específicas, como ajuda à Rússia soviética, emancipação das mulheres ou oposição ao colonialismo. O partido funcionou em estreito contato com uma ampla camada de trabalhadores revolucionários. O partido e sua periferia exerceram influência em toda a classe trabalhadora.

Os partidos comunistas do tempo de Lênin incluíam um amplo espectro de tradições socialistas revolucionárias. Os membros do partido tinham diversas origens, provenientes de organizações socialdemocratas, sindicalistas ou revolucionárias-nacionalistas.

Os debates internos da Internacional se concentraram em questões de tática e estratégia e seu significado político para a ampla massa de trabalhadores, sobre as quais suas ações tinham um grande impacto. Os debates em seus partidos, em geral, refletiam a diferenciação social e opiniões contrastantes dentro da classe trabalhadora como um todo.

Ao contrário do que grande parte da esquerda pensa, ainda há muito o que aprender com as experiências partidárias dos tempos de Lênin. Desde que, é claro, não se tente simplesmente imitá-las ou reproduzi-las.