21 de janeiro de 2019

Pesquisas de opinião e estelionato eleitoral

Um “meme” circulava pelas redes durante o segundo turno das eleições presidenciais: “Eu acredito em Bolsonaro. Por isso, meu voto é Haddad!”.

Em 15/01/2019, Bolsonaro cumpriu uma de suas promessas eleitorais mais importantes e graves. O desmonte do Estatuto do Desarmamento.  

No mesmo dia, porém, o Datafolha divulgava dados mostrando que apenas alguns itens da agenda bolsonarista contam com apoio popular em percentuais próximos aos de sua votação.

É o caso do controle da imigração e da redução da maioridade penal. Já pautas como o próprio armamento da população, Escola sem Partido e alinhamento ao governo estadunidense são reprovados com percentuais próximos a 70%.

Em editorial publicado em 19/01, a Folha chega a afirmar que o núcleo principal das propostas de Bolsonaro obtém apenas 14% de apoio firme.

É tentador ver nesse descompasso um “estelionato eleitoral” que nos permitiria arrancar importantes vitórias contra o governo. Mas se aprendemos alguma coisa com as últimas eleições, foi que as avaliações que tínhamos sobre o ânimo popular se mostraram bastante equivocadas.

E deveríamos ter aprendido também que não é possível limitar nossa atuação ao interior e à cúpula das instituições para garantir a defesa dos interesses da maioria explorada e oprimida.

A principal disputa continua a ser aquela feita na vida cotidiana, nos locais de trabalho, nas iniciativas coletivas e solidárias de organização e mobilização.

O problema é que, por enquanto, estamos como os entrevistadores dos institutos de pesquisa. Vendo as partes, sem condições de enxergar o todo.

Com o agravante de que muitos de nós nem mesmo saíram a campo para começar a descobrir o que está acontecendo.

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17 de dezembro de 2018

O que fazer com as conjunções adversativas em 2019

Para o escritor paulistano Ricardo Lísias, os tempos não estão para contemporizações. Por isso, ele eliminou todas as conjunções adversativas — mas, no entanto, todavia, entretanto, contudo, não obstante — de seu novo projeto literário, “Diário da catástrofe brasileira”.

É assim que Ruan de Sousa Gabriel introduz a entrevista que fez com Lísias, publicada na revista Época em 15/12/2018. “Eu não quero contemporizar. De todas as funções gramaticais, a adversativa é que não podemos usar agora. Já fizemos isso demais. Eu já fiz isso demais”, afirma.

Segundo o repórter, Lísias “não engoliu nenhuma das formulações da intelectualidade de esquerda que, primeiro, assegurava que Jair Bolsonaro jamais seria presidente e, agora, esforça-se para explicar o sucesso eleitoral da direita”.

Seu alvo principal é o que chama de “safatlismo”, referindo-se ao filósofo Vladimir Safatle. Segundo ele:

...trata-se da mania de explicar tudo, sempre analisando os outros e jamais colocando em questão os próprios equívocos. Quando ocorrem, por mais evidentes e patéticos que sejam, a pessoa simplesmente continua o hábito da explicação, sem jamais anunciar — e muito menos discutir — o erro que cometeu.

É justa a revolta do escritor com alguns de nossos intelectuais. Mas (opa!) o fenômeno poderia ser chamado de “haddadismo”, também. Ou “lulismo”.

A militância de esquerda costuma usar a expressão “conjuntura adversa” para situações desfavoráveis. Jamais foi tão adequada. E numa situação dessas, fica difícil não utilizarmos as tais conjunções adversativas. Elas nos ajudam a questionar raciocínios fechados como os que andaram nos colocando em muitos becos sem saída, ultimamente.

De qualquer maneira, e sem mais “poréns”, que saibamos enfrentar as adversidades de 2019 com muita luta!

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14 de dezembro de 2018

Um super-heroi muito sinistro

Eu dava aulas de português em uma pequena cidade do interior paulista. Aos poucos, fui me tornando amigo e confidente de alguns alunos e alunas.

Um deles manifestou mal-estar em relação ao padre da paróquia local. Logo desconfiei de pedofilia, mas no estágio em que as coisas se encontravam, não havia como ter certeza. Disse a ele para se afastar do pároco. Foi o que aconteceu.

Foi, então, que o vigário passou a me acusar de incentivar o pecado entre meus alunos. De falar de sexo com crianças. Ensinar doutrinas ofensivas à moral e à religião. De ser um agente do diabo, um comunista.

Minha vida virou um inferno.

Um sábado, fui beber no Bar da Encruzilhada. Conheci um sujeito estranho, com quem acabei desabafando sobre minha situação. Ele me disse algumas palavras cujo sentido não entendi direito devido ao estado avançado da bebedeira.

Acordei de ressaca no dia seguinte, mas determinado a tirar satisfações com o tal padre. Fui até a igreja e ele já foi me recebendo com ofensas. Fiquei nervoso. Senti um cheiro de enxofre. Apaguei. Quando dei por mim, estava em casa com muitas dores no corpo.

Algum tempo depois, soube que o padre fora à delegacia confessar seus crimes de pedofilia. Também afirmou que um demônio o visitara e exigira que se entregasse à polícia. Essa parte do depoimento foi ignorada pelo delegado.

Depois disso, a criatura voltou a sair de dentro de mim várias vezes. Sempre para fazer justiça contra gente hipócrita e suja como aquele padre. Parece que me tornei uma espécie de super-herói. Meu superpoder é o cramunhão!

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13 de dezembro de 2018

A sombra chinesa sobre 2019

Uma guerra comercial entre Estados Unidos e China é uma das mais graves ameaças para a economia mundial em 2019. Mas o gigante asiático também apresenta sérios problemas internos.

A China foi fundamental para evitar um colapso econômico mundial após a crise de 2008. Mas houve um custo. Entre 2000 e 2008, a dívida bruta chinesa ficou entre 150 e 180% do PIB. Mas de 2009 a 2018 essa proporção quase dobrou, chegando a 300%.

Os números são de um artigo de José Eustáquio Diniz Alves, pesquisador da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE.

Jenny Clegg, especialista britânica em assuntos chineses, prevê que a China pode superar os Estados Unidos como potência econômica antes de 2030. Mas avisa que o país vem mantendo:

...níveis elevados de dívida e ainda pode ocorrer um crash ao estilo chinês. Poderá a China limitar, ou ao menos resistir, as pressões de uma guerra comercial com os Estados Unidos? De fato, as perspectivas para a economia estadunidense também não são boas. A recuperação da economia produzida pelo corte de impostos de Trump pode ser efêmera e o presidente do slogan “América primeiro” pode se ver obrigado a aprender que os Estados Unidos e a China se necessitam mutuamente.

O problema é que ninguém parece muito preocupado em aprender coisa alguma. Trump é péssimo aluno. A liderança chinesa, por sua vez, acha que pode fugir aos efeitos das implacáveis leis capitalistas tornando sua economia cada vez mais capitalista.

Enquanto isso, por aqui, o futuro presidente se elegeu dizendo que não entende nada de economia. Fora isso, tá tudo ok, certo?

12 de dezembro de 2018

Gramsci explica o que é ser marxista

Karl Marx não é para nós nem a criança que geme no berço nem o terror barbado dos sacristãos. Não é nenhum dos episódios anedóticos de sua biografia, nenhum gesto brilhante ou grosseiro de sua animalidade humana exterior. É um cérebro vasto e sereno que pensa, um momento único da busca laboriosa e secular que a humanidade faz para se conscientizar de seu ser e de sua mudança, capturar o misterioso ritmo da história e dissipar seu mistério, ser mais forte em pensar e fazer. É uma parte necessária e integrante do nosso espírito, que não seria o que é se Marx não tivesse vivido, pensado, rasgado faíscas de luz com o choque de suas paixões e suas ideias, suas misérias e seus ideais.

O trecho acima é de um artigo escrito por Antonio Gramsci em 1918 para o centenário de nascimento do grande revolucionário.

O texto começa perguntando: “Somos marxistas?”. Uma pergunta, diz ele, cujas possíveis respostas consumirão “rios de tinta e estupidez”. Mas para enfrentar essa questão de modo adequado, afirma, o mais importante é entender que “Marx não escreveu um evangelho”. Que ele:

...não é um messias que deixou uma série de parábolas carregadas de imperativos categóricos, regras absolutas e indiscutíveis, fora das categorias de tempo e espaço. Seu único imperativo categórico, sua única norma é: "Proletários do mundo todo, uni-vos". Portanto, a diferença entre marxistas e não marxistas teria que consistir no dever de organização e propaganda, no dever de organizar e associar-se. Demais e muito pouco...

É o básico e o fundamental. É só o começo, mas indispensável.

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