quinta-feira, 23 de março de 2017

O estupro como arma racista

No livro "Mulheres, raça e classe", Angela Davis afirma que, nos Estados Unidos, durante a escravidão mulheres e homens negros sofriam igualmente. Mas elas eram vítimas de abuso sexual e outros maus-tratos bárbaros que só poderiam ser infligidos a mulheres.

Entre os maiores sofrimentos, estavam aqueles relacionados à maternidade. Como eram consideradas "parideiras" e não "mães", seus filhos podiam ser vendidos como bezerros.

Muitas delas foram obrigadas a largar seus bebês no chão enquanto trabalhavam nas plantações. Algumas tentavam trabalhar com seus bebês amarrados às costas. Tudo isso sob sol e chuva.

Escravas grávidas não estavam livres do açoite, caso não cumprissem sua carga diária de tarefas ou apenas se queixassem. Há registros de gestantes obrigadas a se deitar sobre um buraco feito para acomodar suas barrigas, enquanto eram chicoteadas.

Tanto homens como mulheres sofriam flagelações e mutilações, mas elas também eram estupradas.

As constantes violações das mulheres escravizadas muitas vezes levava ao nascimento de crianças, cujo pai era o estuprador branco. No entanto, esses nascimentos eram covardemente atribuídos a uma pretensa tendência à “promiscuidade sexual” das mulheres negras.

O estupro também servia para punir os homens negros, inclusive após o fim da escravidão. Neste caso, ao caracterizá-los como animais viciados em cometer violências sexuais contra mulheres brancas.

Embora estupradores raramente fossem julgados, homens negros eram constantemente condenados por estupro, fossem culpados ou não. Assim, dos 455 homens executados entre 1930 e 1967 por estupro, 405 eram negros.

Esses mitos forjados durante a escravidão continuam a servir de justificativa para perseguir milhões de mulheres e homens negros nos Estados Unidos, aqui e em muitos outros lugares.

Leia também: Mulheres comunistas na história dos Estados Unidos

quarta-feira, 22 de março de 2017

Eleanor Marx no trabalho de base

Os Irmãos Grimm, Shakespeare, Aristóteles, Balzac, Dickens, Goethe, Shelley, Blake, Hegel, Rousseau, Fourier e Darwin. O Talmud em hebraico e holandês, versões da Bíblia em alemão e em inglês. Estes são apenas alguns mestres e obras com que Marx e Engels educaram Eleanor. Sempre em casa, pois as escolas para meninas da época só ensinavam os deveres básicos para futuras “donas do lar”.

Mesmo assim, Eleanor e sua família jamais olharam com arrogância os que não tinham acesso a essa “alta cultura”. Ao contrário. Segundo conta Rachel Holmes em sua biografia sobre Eleanor, quando a Internacional foi fundada, Marx e Engels escreveram:

...formulamos muito claramente a palavra de ordem: a emancipação dos trabalhadores deve ser conquistada pelos próprios trabalhadores. Portanto, não podemos nos associar a pessoas que declaram abertamente que os trabalhadores não são instruídos para se emanciparem e devem ser libertados a partir do alto por grandes e pequenos burgueses filantropos (...), e que devem se colocar sob a liderança dos proprietários “educados", que saberiam o que é bom para eles.

A militância de Eleanor sempre foi coerente com estes princípios. Ela participou da formação do braço sindical das mulheres do setor de gás na Inglaterra. Também ajudou a organizar a luta dos estivadores.

Apesar disso, ela só conseguia participar dos encontros sindicais na condição de intérprete e jornalista. Para o machismo dos sindicalistas da época, falar e escrever em três línguas não a qualificava como trabalhadora.

Mas essas dificuldades jamais a fizeram duvidar de que o socialismo só poderia ser construído por iniciativa da maioria explorada e com a presença decisiva das mulheres.

terça-feira, 21 de março de 2017

A carne que o diabo temperou

Em 20/03, Gustavo Henrique Freire Barbosa publicou o artigo “Friboi, BRF e a ‘ética’ do livre-mercado” no portal “Outras Palavras”. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Barbosa lembrou um trecho de “O Capital”, de Marx, que merece destaque.

Segundo ele, no capítulo sobre a jornada de trabalho, Marx cita um relatório da Câmara dos Comuns britânica abordando irregularidades na produção de pães, segundo o qual “o livre-comércio abrangeria também o direito de comercializar produtos falsificados”.

Diante disso, o revolucionário alemão escreveu:

...o inglês, tão apegado à Bíblia, sabia que o homem, quando não se torna capitalista, proprietário rural ou sinecurista pela Graça Divina, é vocacionado a comer seu pão com o suor de seu rosto, mas ele não sabia que esse homem, em seu pão diário, tinha de comer certa quantidade de suor humano, misturada com supurações de abscessos, teias de aranha, baratas mortas e fermento podre alemão, além de alune, arenito e outros agradáveis ingredientes minerais.

Alimento com tal qualidade bem poderia ser comparado ao popular “pão que o diabo amassou”. Expressão que, aliás, teria origens bíblicas. Como se sabe, foi o Diabo que levou Adão e Eva a experimentar o fruto proibido. Condenado a trabalhar duro para garantir seu sustento, o primeiro casal passou a ingerir um pão que lhes chegava à mesa com tanto esforço que era como se tivesse sido preparado pelo próprio Capeta.

Século e meio depois da publicação de “O Capital” e muito mais tempo desde Adão e Eva, já não temos problemas apenas com pães e o Maligno não tem culpa alguma. Ou será que tem?

segunda-feira, 20 de março de 2017

Nat King Cole e o racismo no país de Trump

Nat King Cole teria completado 98 anos em 17/03, se estivesse vivo. A data foi lembrada por um artigo de João Máximo, no Globo.

Entre outras coisas, Máximo afirma que ele foi “o primeiro negro a estrelar um programa de TV nos Estados Unidos e o maior vendedor de discos da gravadora Capitol, numa época em que Frank Sinatra vivia nela sua melhor fase”.

Em 1948, ele estourou nas paradas com “Nature boy”. Foi o bastante para que o mundo caísse sobre ele. Os moradores brancos de Hancock Park, onde Cole comprara um casarão de três andares, “fizeram pressão para que ele se mudasse”, conta Máximo.

Seu programa de TV foi transferido do horário nobre para a manhã e, um ano depois, suspenso. Os patrocinadores começaram a sumir, pois telespectadores brancos se recusavam a aceitar “um negro cantando coisas de amor para suas mulheres”.

Mas o pior viria em Birmingham, Alabama, em 1956. Ele e sua banda aceitaram se apresentar em sessões separadas. Uma só para negros, outra, para brancos. Nesta última, “cinco membros do Conselho dos Cidadãos Brancos do Alabama subiram ao palco e o espancaram à vista de todos”, diz o artigo.

Um dos maiores sucessos de Cole era “Unforgettable” (Inesquecível). As canções e o talento de Cole realmente jamais devem ser esquecidos. Mas, infelizmente, histórias como a perseguição racista que ele sofreu também não podem sair de nossas memórias. Elas ajudam a entender porque há um Donald Trump governando os Estados Unidos.

Leia também:
É racismo, puta que o pariu!

sexta-feira, 17 de março de 2017

Eleanor Marx, boa de briga

Certa vez, revolucionários russos visitaram a residência dos Marx. Engels estava presente e no debate que se seguiu sobre a luta revolucionária na Rússia, ele e Marx se declararam absolutamente contrários ao terrorismo tão característico da cena política russa.

Para eles, era preciso um movimento popular representativo, de base ampla na Rússia. Não de ações protagonizadas por milícias clandestinas. Eleanor acompanhava o debate sem expressar opinião, mas não pareceu totalmente convencida dos argumentos de seu pai e do tio “postiço”.

Eleanor engajou-se decididamente na luta dos irlandeses contra o domínio inglês. Seu pai e Engels também simpatizavam com a causa. Mas desaprovavam fortemente a utilização de ações armadas, conspirações e iniciativas violentas. Eleanor discordava deles...

Por outro lado, certa vez, ela criticou seu companheiro de luta, William Morris, por afirmar que a revolução não seria feita até que o povo estivesse armado: "Ele parece não entender que, quando todas as pessoas estiverem armadas, não haverá necessidade de revolução".

Mas essa postura não servia para justificar qualquer recuo diante da superioridade militar do inimigo.

Em uma manifestação de desempregados no centro de Londres, ela ficou à frente dos manifestantes forçando passagem por entre os cerca de 4 mil policiais presentes. Quando eles começaram a bater, muitos manifestantes assustados fugiram em pânico.

Eleanor ficou furiosa: "Só depois de eu ter gritado até ficar rouca chamando os homens para ficar e lutar, alguns retornaram”. Detalhe: seu marido, Edward Aveling, “evaporou” logo que a pancadaria começou.

Não tinha medo a caçulinha de Jenny e Karl Marx.

Tudo isso e mais estão na biografia “Eleanor Marx”, de Rachel Holmes.

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