17 de outubro de 2018

1964: Juscelino negocia com os golpistas

Era 7 de abril. Alguns dias depois do golpe de 1964. Na casa do deputado Joaquim Ramos, encontraram-se os líderes do Partido Social Democrático: Juscelino Kubitschek, Amaral Peixoto, José Maria Alkmin e Negrão de Lima. Vinham para uma reunião com Castelo Branco, chefe dos golpistas.

Castelo se apresenta como candidato à presidência da república nas eleições indiretas que se realizariam no Congresso Nacional, poucos dias depois. Ele queria o apoio dos presentes. Em troca se comprometia a respeitar a Constituição permitindo que ocorressem as eleições diretas para presidente, marcadas para outubro de 1965.

Saiu da conversa com o apoio garantido, inclusive aceitando como vice um homem de confiança de Juscelino, José Maria Alkmin. Para fazer valer o acordo, o Congresso aprovou nada menos que sete reformas constitucionais em apenas quatro dias. Todas restringindo direitos e liberdades

Em 11 de abril, o Congresso elegeu Castelo Branco presidente para terminar o mandato de Jânio Quadros. Foram 261 votos, incluídos 36 da bancada do PTB, o partido de João Goulart. O voto mais aclamado foi o do senador Juscelino Kubitschek, favorito para as eleições do ano seguinte. Apenas 72 deputados se abstiveram “por motivo de consciência”.

Uma das primeiras providências de Castelo Branco como presidente foi cassar os direitos políticos de Juscelino Kubitschek. As eleições diretas de 1965 nunca aconteceram. Foram adiadas por longos e tenebrosos vinte anos.

O relato acima é de Jorge Caldeira em seu livro “História da riqueza no Brasil”, lançado recentemente. Mostra bem o que acontece quando se negocia com golpistas.

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11 de outubro de 2018

Ganhando eleições, perdendo hegemonia


Segundo matéria do Jornal GGN, a Universidade Federal de Minas Gerais criou o projeto “Eleições Sem Fake”. Fabrício Benevenuto, seu criador, garante:

Monitoramos 272 grupos que debatem política, 37 deles só de Bolsonaro. Somos um sistema enviesado porque há mais grupos de apoiadores dele do que de outros candidatos.

A reportagem revela que:

Todos os grupos acompanhados servem para produzir respostas às notícias publicadas pela imprensa. Por exemplo, depois que, com base em documentos do Ministério das Relações Exteriores, a Folha de S. Paulo noticiou que uma das emulheres de Bolsonaro relatou ter sido ameaçada por ele em 2011, todos os grupos divulgaram um vídeo em que a Ana Cristina Valle “desmente” a informação.

Trata-se de um tipo de comunicação subterrânea, mas capilarizada. Subcutânea, mas vascularizada. Micro, mas molecular.

Enquanto isso, passávamos horas em reuniões cansativas e realizadas em horários adequados apenas para profissionais da militância. Enquanto isso, mal conseguíamos avançar na luta pela democratização da grande mídia. Criávamos bolhas tão confortáveis quanto autocentradas. Ocupávamos gabinetes e nos ocupávamos de teses acadêmicas.

Mas quisera fosse só isso. Desprezamos e abandonamos quase todas as lideranças dos explorados. As de bairros, as religiosas e as populares em geral. Ficaram aos cuidados dos conservadores.

Valores conservadores retiram sua força de séculos de dominação brutal. Valores progressistas enfrentam uma poderosa corrente contrária. Sua defesa exige determinação, imaginação e paciência muita que não temos.

Estávamos ocupados ganhando eleições e sendo derrotados na disputa de hegemonia. Perdemos feio batalhas fundamentais. Tornou-se quase impossível vencer a atual fase da guerra. Agora, é aprender com nossos erros e nos preparar para a próxima.

10 de outubro de 2018

Nossa “Escala F” anda bem alta

O estudo “A personalidade autoritária”, coordenado por Max Horkheimer, é de 1950. Trata-se de um conjunto de trabalhos de investigação psicossocial sobre preconceito e autoritarismo.

Nele aparece a “Escala F”, que procurava medir predisposições ideológicas autoritárias, antidemocráticas e, no limite, fascistas em determinado grupo.

Consistia em uma série de afirmações com as quais se deveria concordar ou não, do tipo:

1) “as pessoas só aprendem algo realmente importante por meio do sofrimento”, 2) “as pessoas podem ser divididas em duas classes: os fracos e os fortes”; 3) “hoje em dia, quando tantos tipos diferentes de pessoas circulam e entram em contato umas com as outras, cada um tem de se proteger cuidadosamente para não pegar uma doença”

Claro que as afirmações acima são apenas exemplos. Dependendo da época e lugar, elas podem ser completamente diferentes.

Além disso, as respostas devem passar por um complexo trabalho de elaboração e inter-relação para formarem um diagnóstico. E este revelará apenas uma tendência, nunca uma verdade incontestável.

Em nossa época, algoritmos certamente tornariam essa medida aplicável em larga escala.

Na verdade, algo parecido já existe, mas para outros objetivos. A publicidade utiliza dados das redes digitais para localizar nichos de consumidores.

O mesmo fazem as campanhas eleitorais para encontrar eleitores predispostos a se alinharem a suas propostas e as divulgarem. Trump fez isso muito bem. Aqui, sabemos quem vem fazendo o mesmo de forma bem sucedida.

O “F” da escala é de fascismo, claro. Mas poderia ser de falso, de Facebook e daquela palavra que circula por nossas cabeças e sai de nossas bocas cada vez mais frequentemente.


Leia mais: Lula e o mais desastroso dos erros possíveis

9 de outubro de 2018

Lula e o mais desastroso dos erros possíveis

Meados da década de 1980. Em discurso feito num Encontro Estadual do PT, Lula criticava o culto exagerado a Luís Carlos Prestes. Àquela altura, Lula já se considerava ter feito mais do que o mítico líder comunista.

Genoino interrompe Lula para discordar. Dizer que a estatura histórica de Prestes tinha que ser respeitada. Fato inegável.

Mas também é verdade que os erros de Prestes foram muitos e desastrosos. Principalmente, após a lendária Coluna Prestes.

Prestes tentou, por exemplo, tomar o poder em 1935 e, sem qualquer possibilidade de sucesso, só ajudou a criar condições para a implantação da ditadura getulista.

Mas o maior dos erros do líder comunista foi sua confiança de que qualquer tentativa de golpe em 1964 seria esmagada. Eventuais golpistas teriam suas cabeças cortadas, dizia ele.

Décadas depois daquele encontro, Lula já pode dizer que fez história tal como o líder comunista. E cometeu muitos erros desastrosos também. Mais graças a eles do que a alguns acertos, foi parar atrás das grades. Assim como aconteceu com Prestes.

E como Prestes, Lula também continuou muito popular, mesmo depois de preso. Agora, chegou a hora de evitar o maior dos erros do líder comunista. O da cegueira histórica diante do avanço fascista.

Lula já provou do que é capaz. Levou seu candidato ao segundo turno sem fazer um único pronunciamento público em seis meses. Deveria, agora, pedir que o esqueçam até as eleições. Daqui para diante, a insistência em utilizar sua figura corre sério risco de garantir a vitória do fascismo.

Lula pode tornar-se maior que Prestes, se não cometer o maior dos erros dele.

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8 de outubro de 2018

O animal cordial à solta nas ruas

No livro “Raízes do Brasil”, Sérgio Buarque de Holanda criou o conceito de “homem cordial” para descrever o que seria o “caráter brasileiro”.

Mas ao contrário do que se costuma pensar, cordialidade, aqui, não é sinônimo apenas de gentileza. Segundo o historiador, a “inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisto que uma e outra nascem do coração, procedem, assim, da esfera do íntimo, do familiar, do privado”.

O filme “O animal cordial”, de Gabriela Amaral Almeida, foi lançado recentemente. A época não poderia ser mais adequada. Nele, o personagem de Murilo Benício é dono de um pequeno restaurante, com uma carta de vinhos caros e um cardápio que inclui carnes tão exóticas como a de javali.

A “cordialidade” do pequeno proprietário está no desprezo por seus empregados. Na repulsa que sente por seu talentoso cozinheiro, gay assumido e consciente de sua competência profissional. Na raiva de sua mulher, que julga ociosa e perdulária.

Tudo muito privado. Tudo muito família.

O animal cordial comporta-se em seu restaurante como uma fera em sua matilha. Sua valentia de macho alfa certificada por uma pistola sob o balcão. Sempre pronto a fazer justiça entre as quatro paredes que administra como um rancho texano.

Se fosse preciso, alvejaria todos os que ameacem seus valores. Tanto os subalternos assalariados como os criminosos, claro. Mas seus clientes, também.

O animal cordial transpira biologia. Sistema límbico na chefia. O coração bombeia adrenalina e envia seus comandos diretamente ao dedo no gatilho.

Há quem classifique “O animal cordial” como filme de terror. É mais que isso. É quase um documentário.

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