quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Machado, o Diabo e sua igreja

No conto "A Igreja do Diabo", Machado de Assis descreve como o maior inimigo de Deus resolveu fundar sua própria religião. Para atrair fiéis, a ladainha diabólica era a seguinte:

Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo?

A igreja logo alcançou sucesso. Afinal, sua doutrina mostrou-se extremamente compatível com tempos em que tudo pode encarnar-se na forma mercadoria. E, talvez, tenha sido ela a inspirar inúmeros outros empreendimentos religiosos que também reconhecem no comércio da fé a importância devida.

O fato é que tudo ia bem até que...

... notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias...

Deus, procurado pela perversa e desconsolada criatura, assim respondeu:

Que queres tu, meu pobre Diabo? (...) Que queres tu? É a eterna contradição humana.

E o que esperamos nós, crentes ou não? Seguidores de divindades imaculadas ou sujas? Apenas que a eterna contradição humana continue a salvar nossas almas.

Leia também: Até Machado achava escola um saco

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Apanhado de pílulas sobre a situação nas prisões

As terríveis e frequentes rebeliões nas penitenciárias brasileiras têm como uma de suas principais causas o encarceramento em massa. Principalmente, de pretos e pobres.

O assunto começou a ser abordado pelas pílulas em outubro de 2012, com Carandiru, PCC e acumulação primitiva de violência. O texto fala sobre o nascimento da organização criminosa que nasceu como reação ao massacre do Carandiru.

Depois veio PCC é criação do conservadorismo tucano, que aponta a política de segurança ultraconservadora dos governos tucanos paulistas como grande responsável pelo fortalecimento do PCC.

A cumplicidade entre o Estado e cortadores de cabeça discute como o desentendimento entre as “autoridades” de dentro das prisões e as autoridades que estão fora delas causa não apenas rebeliões no sistema carcerário, mas aumenta a violência nas ruas.

O lugar dos tucanos é atrás das grades considera as relações entre o PCC e o PSDB como uma espécie de PPP (Parceria Público-Privada).

O texto Quando a inocência não compensa expõe dados que mostram que dos mais de 500 mil presos brasileiros, 38% estão detidos sem julgamento. A grande maioria, pobre, jovem e preta.

A pílula Lévi-Strauss e os homens que vomitamos coloca em dúvida o pretenso caráter pacífico e ordeiro das sociedades em que vivemos em comparação às ditas “primitivas”.

Segundo Das prisões ocidentais para o Estado Islâmico, do PCC ao Estado Islâmico, o crime e o terrorismo agradecem pelo encarceramento racista da pobreza promovido por estados laicos.

Fabricando bandidos e terroristas, fala sobre o documentário “Sem Pena”, que exibe depoimentos de presidiários sem sentença ou condenados a penas desproporcionalmente maiores em relação aos crimes cometidos.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Ainda atualizando números sobre riqueza concentrada

Se no mundo são oito os bilionários com patrimônio equivalente ao da metade mais pobre da população mundial, no Brasil meia-dúzia possui riqueza equivalente às sacrificadas economias de metade dos brasileiros. É mais um dado do relatório recém-divulgado pela Oxfam.

A ONG britânica se baseou em informações sobre bilionários da revista "Forbes" e sobre riqueza no mundo do banco Credit Suisse.

As seis pessoas mais ricas do Brasil são:

- Jorge Paulo Lemann, Marcel Herrmann Telles e Carlos Alberto Sicupira, todos sócios da Ambev (Skol, Brahma e Antarctica) e de marcas como Budweiser, Burger King e Heinz;
 - Joseph Safra, dono do banco Safra;
- Eduardo Saverin, cofundador do Facebook;
- João Roberto Marinho, herdeiro do grupo Globo.

Detalhe: Na sexta posição, João Roberto Marinho aparece empatado com seus dois irmãos, José Roberto e Roberto Irineu, cada um com R$ 13,92 bilhões. Se fosse considerado o patrimônio dos três juntos, a desigualdade seria ainda maior, garante a Oxfam.

Para arrematar, uma informação vinda de outra fonte. Os dados estão em relatórios do Banco Central e constam da reportagem “Quatro bancos concentram 72,4% dos ativos das instituições financeiras”, de Murilo Rodrigues Alves e Fernando Nakagawa, publicada no Estadão, em 16/01.

Os quatro tubarões são Banco do Brasil, Itaú, Caixa Econômica Federal e Bradesco. Será que é por isso que temos os serviços bancários mais caros e as taxas de juros mais altas do mundo? Provavelmente.

Por sorte, o Banco Central está de olho nessa bagunça aí. Segundo a reportagem, “a instituição reconhece que há ‘algum nível’ de concentração no sistema bancário brasileiro”. Ah, bom!

Leia também: Atualizando números da concentração de riqueza

Atualizando números da concentração de riqueza

O mais recente estudo da ONG britânica Oxfam mostrou que somente oito bilionários acumulam riqueza equivalente à da metade mais pobre da população mundial. No total, essa super-elite tem US$ 426 bilhões. Já à metade mais pobre da humanidade, restam US$ 409 bilhões.

Segundo matéria de Lucianne Carneiro, publicada no Globo em 15/01, o número de bilionários nessa condição era de 62, em 2015. O número baixou para oito depois de incluídos novos dados de países como China e Índia. É que foram adicionados muito mais pobres à conta.

Enquanto isso, a matéria “Tudo por um milionário”, publicada por Ana Paula Ribeiro na mesma edição do Globo, revela uma desigualdade mais próxima de nós. Trata-se do segmento nacional do chamado “private banking”. São “107 mil brasileiros - pouco mais que a população de Japeri, no Rio”.

A reportagem afirma que esses clientes dispõem “de cerca de R$ 816 bilhões em aplicações financeiras. Na média, cada um tem R$ 7,4 milhões aplicados”. Em forte contraste, a grande maioria dos outros correntistas têm aplicações no valor médio de R$ 13,7 mil.

Esta enorme disponibilidade financeira permitiu, por exemplo, que um cliente “private” do Bradesco utilizasse o cartão de crédito para comprar um apartamento de R$ 1,5 milhão. Ou que outro conterrâneo igualmente “vip” seja proprietário do imóvel que abriga a loja da Prada na Avenida Champs-Élysées, em Paris.

Esse pessoal obtém empréstimos pagando juros muito inferiores aos praticados no mercado, diz a reportagem. É o que se costuma chamar de "operação estruturada". Já ao sistema que permite tamanha concentração de riqueza, poderíamos chamar de “roubo estruturado”.

Leia também: O sermão dos peixes loucos

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Realmente, Obama é de chorar

Correram o mundo as imagens de Obama às lágrimas durante seu discurso de despedida da Casa Branca. Certamente, fizeram muita gente chorar. Mas as lamentações relacionadas ao presidente que está de saída nem sempre ocorrem por simpatia a suas realizações.

É o caso do filósofo estadunidense Cornel West, que também é militante pelos direitos civis e líder dos Socialistas Democráticos da América. Professor da Universidade de Harvard, ele publicou o artigo “É lamentável o triste legado de Barack Obama” no The Guardian, em 09/01.

Os trechos abaixo servem como amostra para o que diz o restante do texto:

A falta de coragem de Obama para enfrentar os criminosos de Wall Street e seu lapso de caráter ao ordenar os ataques de drones deflagraram involuntariamente revoltas populistas de direita no país e terríveis rebeliões fascistas islâmicas no Oriente Médio. E, (...) com cerca de 2,5 milhões de imigrantes deportados, as políticas de Obama prenunciaram os planos bárbaros de Trump.

West também atribui ao atual presidente grande parte da responsabilidade pela eleição de seu sucessor. Segundo ele, é provável que Bernie Sanders tivesse chances maiores de derrotar o republicano. Mas sua candidatura “foi esmagada por Clinton e Obama nas desleais primárias do Partido Democrata”.

O resultado foi a vitória de “um presidente branco mentiroso e repugnante”, cuja posse West considera ser o início de uma “era neofascista”. Um período marcado por “uma economia neoliberal de esteroides, uma atitude repressiva reacionária a ‘alienígenas’ domésticos, um arsenal militar ansioso por uma guerra e a negação do aquecimento global”.

Mas digno de lamento, mesmo, é o fim definitivo da democracia estadunidense.

Leia também: Ficar à esquerda para escolher qual direita apoiar