Doses maiores

9 de maio de 2020

A pandemia e os gatilhos do caos

Desde 2016, pelo menos, vários especialistas preveem a ocorrência de um novo surto da crise de 2008. Não se trata apenas de analistas marxistas ou de esquerda. Muita gente do mercado financeiro e do próprio FMI vinha alertando para uma nova e poderosa recessão mundial.

Afinal, todas as causas que levaram ao colapso de 2008 seguem em plena operação. E os empregos continuaram sendo poucos ou muito mal pagos ou ambos. A desigualdade social mantém firme trajetória ascendente.

A dúvida era sobre qual seria o gatilho que detonaria essa nova etapa da crise: dívidas empresariais, guerra comercial entre Estados Unidos e China, estagnação chinesa, novas bolhas especulativas, ausência de demanda por petróleo?

Só não se considerava a possibilidade de um colapso ambiental. Pelo menos, não em prazo tão curto.

E eis que chegou o coronavírus-19.

Trata-se de um fenômeno causado pela destruição ambiental promovida pelo capitalismo e potencializado por suas características perversas. Entre elas, a enorme desigualdade social e o lucro acima de tudo retardando ou bloqueando a adoção imediata das medidas sanitárias necessárias.

A questão é que a pandemia não substituiu ou cancelou os outros problemas. Ao contrário, há muitos outros gatilhos prontos para disparar.

Por exemplo, essa crise pandêmica pode levar ao deslocamento definitivo do eixo geopolítico mundial para a China graças a sua aparente recuperação econômica rápida. Um personagem como Trump estaria disposto a aceitar tal mudança?

Tudo isso lembra bastante a situação causada pela crise de 1929, à qual o capitalismo respondeu da única maneira que sabe: a sangrenta barbárie da Segunda Guerra Mundial. Não nos faltam nem os fascistas no poder.

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O coronavírus e o fetichismo do aplicativo

7 de maio de 2020

O coronavírus e o fetichismo do aplicativo

Há alguns anos, vários cientistas passaram a entender que vivemos uma nova era geológica: o Antropoceno. Esse período se caracterizaria pelo forte aumento da influência de nossa espécie sobre o planeta.

Uma vez aceita essa caracterização, começam as polêmicas. Em seu livro “Homo Deus”, Yuval Harari considera que o Antropoceno corresponde aos últimos 70 mil anos, quando o Homo sapiens começou a extinguir inúmeras outras espécies animais.

Já outros autores consideram que esse período começou 12 mil anos atrás e corresponderia ao surgimento da agricultura, que teria possibilitado domesticar a natureza para melhor destruí-la.

Mas há ainda aqueles que consideram que o Antropoceno começou mesmo com a Revolução Industrial. Teria sido nesse momento que a humanidade iniciou um processo de destruição em escala semelhante à dos terremotos e erupções vulcânicas.

Por Revolução Industrial entenda-se nascimento do capitalismo. Um sistema que para produzir lucros destrói o que vê pela frente, incluindo vidas consideradas descartáveis e que são contadas cada vez mais aos bilhões.

Ora, no capitalismo, impera o fetichismo da mercadoria. Essa metáfora criada por Marx descreve uma sociedade onde são as coisas, transformadas em mercadoria, que estabelecem relações sociais, não as pessoas.

Pois bem, cá estamos em plena crise causada por um vírus surgido da selvageria capitalista em seu processo de destruição ambiental. Produto acabado do Antropoceno.

Foi assim que atingimos um estágio da humanidade em que nos isolarmos fisicamente uns dos outros tornou-se medida obrigatória para tentar garantir nossa sobrevivência biológica.

E é assim que chegamos a um momento em que literalmente passamos a nos relacionar quase exclusivamente por meio de coisas. Coisas digitais, mas coisas.

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6 de maio de 2020

Pandemia: o Brazil acima de todos

“O Brazil tá matando o Brasil”, dizia o verso de Aldir Blanc, escrito em 1978.
Como um preso vai ficar a dois metros de distância do outro em uma cela onde não há espaço nem para deitar e dormir? Como os presos vão se higienizar se há um racionamento de água constante em muitas unidades? Como eles vão ter imunidade, se a comida que recebem é azeda?
Estas palavras são de Petra Silvia Pfaller, coordenadora nacional da Pastoral Carcerária.
...três quartos da população têm acesso a só metade dos leitos de UTI no Brasil. A outra metade está reservada ao quarto da população que tem planos de saúde.
O trecho acima faz parte de matéria da BBC Brasil, de 23/04/2020.

Em recente reportagem da Folha, ficamos sabendo que cerca de R$ 15 bilhões que as empresas privadas de saúde são obrigadas a manter em caixa foram flexibilizados pela agência reguladora do setor. Com isso, elas poderiam permitir que clientes inadimplentes pudessem continuar sendo atendidos por mais algum tempo. Mas os administradores dos planos não pretendem fazer isso. Um deles disse que esses recursos “aliviam o caixa” em apenas 15 dias.

O recente lockdown declarado em Belém do Pará deixa de fora as trabalhadoras domésticas, consideradas como prestadoras de serviços essenciais.

“Pico de Covid-19 nas classes altas já passou; o desafio é que o Brasil tem muita favela”, diz o presidente da XP, uma assessoria de investimentos financeiros.

Estes são só alguns exemplos a demonstrar que hoje, como quarenta anos atrás, o Brazil continua matando o Brasil. Agora, com a ajuda de uma pandemia.

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5 de maio de 2020

Nas trevas da pandemia, velas, lanternas e um lança-chamas

Em 05/05/2020, foram registrados 7.921 óbitos e 114.715 casos confirmados de coronavírus-19 no País. Nas 24 horas anteriores, o número de mortes chegou a 600.

Três capitais já haviam adotado “lockdown”: Belém, Fortaleza e São Luiz. Nestes lugares o sistema de saúde está em colapso ou muito próximo dele. Mas não são os únicos.

Lockdown é o fechamento completo dos estabelecimentos comerciais e de serviços, exceto aqueles considerados essenciais. Mas mesmo estes terão seu acesso controlado para impedir aglomerações.

A adoção desse tipo isolamento começa a ser recomendado por muitos especialistas sérios. Entre eles, Átila Iamarino, o biólogo especializado em microbiologia e virologia, cujo canal no youtube vem batendo recordes de acessos.

Em seu mais recente vídeo, Iamarino afirma que o Brasil iniciou no momento certo a adoção do isolamento social. Mas acabou permitindo o seu afrouxamento.

Assim, persistindo a atual situação, devemos ultrapassar 1 milhão e 100 mil mortes, nos restando apenas a esperança de atrasar ao máximo a chegada a este número.

Quando as autoridades sanitárias brasileiras começaram a adotar as primeiras medidas, diz Iamarino, a pretensão era substituir a vela, que ilumina apenas suas proximidades, pela lanterna, capaz de clarear mais longe e em várias direções. Mas concretizar essa troca dependia da realização em massa de testes e do reforço do isolamento.

Como nada disso ocorreu, diz ele, “não só voltamos a ficar no escuro, como estamos começando a tropeçar em corpos”.

Diante dessa situação, resta pouco a dizer. A não ser que precisamos urgentemente arrancar de Bolsonaro o lança-chamas com que ele vem transformando grande parte do País em um campo calcinado.

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4 de maio de 2020

Nas trevas do culto à morte e à estupidez

José Millán Astray foi um general franquista que lutou na guerra civil espanhola. Em 12 de outubro de 1936, ele participava da cerimônia de abertura do ano letivo da Universidade de Salamanca. Após um discurso de Miguel de Unamuno, respeitado intelectual, ele gritou: “Abaixo a inteligência, viva a morte!”

Desse modo, ele procurava comemorar a vitória das tropas fascistas de Franco na conflito que havia dividido a Espanha.

Em recente entrevista, o filósofo Vladimir Safatle denunciou o caráter “suicidário” dos seguidores de Bolsonaro. Segundo ele, o Brasil:

... sempre teve o Estado como operador da morte e do desaparecimento das classes vulneráveis, sempre foi gestor de uma guerra civil não declarada. Só que agora você tem um dado completamente diferente, novo: não é só uma máquina necropolítica, é uma máquina suicidária. Quando você faz manifestação com caixão e buzinaço na frente de hospital, não é só desprezar a morte do outro ou zombar da morte do outro. Essa pessoas aceitaram se colocar em risco.
Por fim, em artigo publicado na Folha, o artista e escritor Nuno Ramos afirmou:
...o patrimônio político de Bolsonaro não é propriamente político, é a violência estrita. Sua entronização, no limite, vem do crescimento progressivo, até 63 mil por ano, dos mortos por assassinatos que assombraram, por mais de duas décadas, os governos democráticos, sem que nada fosse feito. São esses mortos que se cansaram de nós, ligaram o foda-se e entronizaram seu próprio carrasco.
No Brasil de Bolsonaro surge o mesmo culto à morte e à estupidez da Espanha franquista. Mas, aqui, a guerra civil nunca foi oficializada nem jamais interrompida.

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