sexta-feira, 26 de maio de 2017

A esquerda sob risco de perder a validade

Você tem hoje uma massa enorme de jovens que entraram no mercado de trabalho num mundo onde as perspectivas de longo prazo já não existem mais. Você já tá tendo que pular de um emprego ao outro. Você tá numa busca desenfreada por certificados. Trabalha o dia todo, vai pra faculdade à noite, tem que fazer um curso de inglês, de informática. E quando você terminar o seu curso, vai fazer outro. Pra eles a situação não piorou, efetivamente. Pra alguns setores da classe trabalhadora pode ter piorado. Pra um jovem de 20 anos, não piorou porque sempre foi assim. Ele já entrou nesse mundo assim.

(...)

Não existe longo prazo (...). Você trabalha sempre com a perspectiva do próximo emprego, que vai durar seis meses. Se passar de seis meses, vai durar um ano. Se durar um ano, vamos tentar fazer durar um ano e meio. Se não durar um ano e meio, vou ter que ir atrás de outro.

(...)

Pra esse jovem que tá nessa situação, a ideia de que você tem uma disputa política a fazer, que você pode se organizar, entrar num partido e trabalhar num longo prazo, acumular forças, como se diz na esquerda, isso pra ele não existe. Não existe acúmulo de forças. Mal existe futuro.

Os trechos acima são de uma palestra do sociólogo Henrique Costa apresentada no IHU-Online, em 17/05. Vale a pena assistir. Muito do que fala esse jovem pesquisador faz pensar que há questões novas para uma esquerda presa no antigo.

Mas o problema não é envelhecer. O perigo é caducar.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Os vários golpes, os diversos golpistas

O mais recente ato desastrado de Michel Temer foi a decretação das Operações de Garantia da Lei e da Ordem. Na prática, as Forças Armadas foram chamadas a reprimir manifestações que ocorriam em Brasília contra o governo golpista e suas reformas neoliberais.

Muitos temiam e alguns desejavam que a iniciativa resultasse num golpe militar. Uma expectativa equivocada, pois desconsidera o permanente estado de intervenção militar que já vivemos há muito tempo.

O próprio Ministro da Defesa, Raul Jungmann, justificou a operação, alegando que:

...este instrumento é assegurado na Lei Complementar nº 97 de 1999 e pelo artigo 142 da Constituição Federal. De lá para cá, por exemplo, já ocorreram o emprego das Forças Armadas na Rio+20, na Jornada Mundial da Juventude, na Copa do Mundo, nos Jogos Olímpicos Rio 2016, e mais recentemente nas varreduras aos prédios, durante o aquartelamento de Policiais Militares do Espírito Santo e na crise de segurança no Rio de Janeiro, no começo de 2017.

Além disso, em 24/05 Luciana Amaral e Leandro Prazeres informaram no Portal UOL, que:

Segundo o site do Ministério da Defesa, um exemplo de uso das Forças Armadas na Garantia da Lei e da Ordem foi o emprego de tropas em operações de pacificação do governo estadual em diferentes comunidades do Rio de Janeiro.

E não nos esqueçamos que a partir de 2013, essa militarização ganhou novo impulso. Foi quando a vergonha caiu sobre o governo petista, que em resposta às enormes manifestações populares daquele ano aprovou uma lei antiterrorismo cujo alvo são os movimentos sociais.

Os golpes contra a democracia são muitos. Assim como os golpistas.

Leia também:

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A Revolução de 1917, segundo Leminski

Paulo Leminski escreveu uma pequena biografia de Trótski, que é também um brilhante sumário da Revolução Russa.

Comecemos por um acontecimento fundamental para a vitória de 1917. Trata-se da Revolução de 1905. Foi nela que surgiram os sovietes:

...uma forma primária e original de democracia popular, nascida sem interferência das elites revolucionárias da intelligentsia. Uma democracia de baixo para cima, trabalhadores votando livremente em seus representantes, acatando suas deliberações, acompanhando suas diretrizes.

“A elite revolucionária foi apanhada de surpresa”, diz o poeta. Segundo ele:

Num primeiro momento, sempre zeloso da unidade de esforços e do papel condutor do Partido, Lênin condenou os sovietes, a democracia soviética. Certamente, os sovietes lhe pareciam forças desagregadoras, dispersivas, centrífugas. O bom andamento da revolução, agora, teria que contar com a laboriosa orquestração de centenas de assembleias de trabalhadores, broncos, primários, teoricamente desequipados, comparados com os brilhantes quadros de marxistas bolcheviques e mencheviques.

Nessas alturas, nem Lênin nem Trótski ainda concebiam a ideia de uma revolução e de um Estado totalmente baseado na classe trabalhadora, operários e camponeses. Diante da fraqueza da classe trabalhadora, alguma espécie de coalizão com a pequena burguesia e os estratos semiproletários seria inevitável, para o êxito da Revolução.

O atraso histórico da Rússia justificava a dúvida: revolução burguesa ou proletária? E qual seria a parte que caberia ao proletariado, na nova sociedade?

Os dois revolucionários responderiam a essas questões de forma determinante para a vitória de 1917.

Leminski, o anarquista, não deixa de denunciar vários elementos de autoritarismo e conservadorismo presentes no processo revolucionário. Mas jamais diminui sua enorme importância histórica para a luta socialista.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Trótski e Leminski, companheiros de exílio

Paulo Leminski escreveu uma pequena biografia de Trótski, lançada em 1986. Em 2013, a Companhia das Letras lançou “4 biografias (Cruz e Souza, Bashô, Jesus e Trótski)”, que a incluía.

Na introdução à edição, Alice Ruiz, viúva do poeta, explica porque Leminski teria escolhido o revolucionário russo para encerrar sua tetralogia de biografias:

Trótski serve de pretexto para que Paulo coloque sua visão, sua leitura pessoal sobre a Revolução Russa e sobre a própria ideia de revolução. Mas por que Trótski e não qualquer outro mais afortunado? Seria por sua fecunda habilidade com as palavras, por ser ele o mais intelectual de todos, por seu afastamento do poder, por sua participação na revolução? A soma de tudo isso e algo mais fez com que, apesar de anarquista, o eslavo Leminski escolhesse Trótski. Além da afinidade com o pensamento político e da profunda reflexão ideológica contida nesse trabalho, que Paulo considerava a chave de ouro para sua série de biografias, havia algo mais que o identificava com Trótski: o sentimento do exílio. Trótski exilado da terra pela qual lutou é Moisés impedido de entrar na terra prometida que ele ajudou a encontrar.

Paulo Leminski, a quem não interessava nada que não contivesse ideias e poesia, viveu nessa vida como um exilado. Como alguém que está fora do seu verdadeiro habitat. E precisa reinventar, através de signos, símbolos, sonhos e palavras, um simulacro mais próximo de seu conceito de vida. A poesia é como uma testemunha desse estranhamento.

Mas a biografia escrita por Leminski também é um brilhante resumo da história da Revolução Russa. Voltaremos a ela.

Leia também: Trotsky, Guevara e Leminski num bar de rodoviária

sexta-feira, 19 de maio de 2017

No meio da confusão, o jogo a ser jogado é nas ruas

Agora a bola está quicando nas ruas e quem mobilizar mais pode levar, incluindo um pacto político por Diretas Já e ano que vem com Eleições Gerais para uma Revisão Constitucional.

O trecho acima está em “Análise da crise política ao calor do momento”, artigo de Bruno Lima Rocha, professor de ciência política e de relações internacionais, publicado no IHU-Online em 18/05.

Segundo o autor, a crise atual mostra um Judiciário com um grau de autonomia que pode ameaçar muitas liberdades democráticas em nome de um moralismo conservador. Para ele, trata-se de “um aparelho de Estado que tem agenda própria e, por mais justa e legal que seja esta agenda, muitas vezes tem critérios no mínimo duvidosos”.

O sociólogo Jessé Souza, por exemplo, considera que o Judiciário tomou o lugar dos militares no papel de defensor autoritário da ordem. A hipótese é cabível, desde que descartada a ideia de que se trata somente de uma conspiração antipetista. Afinal, o golpe militar não matou e torturou apenas comunistas. Também cassou lideranças conservadoras como Carlos Lacerda. A direita sabe sacrificar alguns dos seus, quando necessário.

Por outro lado, não há nada que impeça uma “parceria” tenebrosa entre altos tribunais e gabinetes militares.

Também é recomendável não menosprezar o dispositivo econômico governamental formado por Banco Central e Fazenda, cujos titulares vêm sendo poupados pelas manchetes, apesar de estarem muito próximos da maior das corrupções, a dos grandes capitais financeiros.

É por tudo isso que, como diz Rocha, a única certeza é que a bola está “quicando” nas ruas. É pra lá que temos que ir.