sábado, 24 de junho de 2017

Machado e a borboleta que não era azul

Em 21/06, completaram-se 178 anos do nascimento de Machado de Assis. Giovanni Arceno mantém um site sobre literatura e envia diariamente trechos literários valiosos. Um deles cita uma passagem do capítulo “Borboleta Preta”, de “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Merece bater asas por aqui, também:

— Também por que diabo não era ela azul? disse comigo.
E esta reflexão, — uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, — me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: “Este é provavelmente o inventor das borboletas.” A ideia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.

Quem quiser receber preciosidades como esta, entre em contato com giovanni@leiabrasileiros.com.br

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Até Machado achava escola um saco

Os órfãos do terrorismo de Estado na Argentina

A escritora argentina Mariana Enriquez está lançando seu primeiro livro no Brasil. Trata-se da coletânea de contos “As coisas que perdemos no fogo”. A obra mistura terror à denúncia dos traumas causados pela repressão durante a ditadura militar argentina dos anos 1970.

Em 16/06, ela declarou ao Globo:

A história e o cotidiano da Argentina estão cheios de fantasmas, questões que aparecem em diferentes lugares e não podem ser arrancadas. São marcas profundas, de um passado que é impossível de deixar para trás. Escrevo contos de terror, mas que também são políticos.

Na Folha, em 28/05, reportagem de Janaína Figueiredo relata que filhos de ex-torturadores argentinos estão rompendo com eles, expressando publicamente “sentimentos como vergonha, ódio e rancor em relação a seus pais”. Na verdade, enquanto ainda eram bebês, seus verdadeiros pais foram mortos pela ditadura e “adotados” pelos carrascos.  

Erika é uma delas. Seu “pai adotivo” era o médico Ricardo Lederer, “que trabalhou na clínica clandestina de Campo de Maio, onde nasceram muitos filhos de presas políticas, posteriormente entregues a famílias de militares ou próximas às Forças Armadas”, diz a matéria.

Lederer morreu antes de ser julgado. Mas sua neta, filha de Erika, de apenas 9 anos, lhe perguntou se seu avô estaria preso caso não tivesse morrido. “Sim, respondi de forma imediata. Nunca a vi chorar como nesse dia. Algo tinha se quebrado em sua infância e não podia ser de outra maneira”, contou.

Quem já leu, garante que Mariana é uma ótima escritora de terror. Mas a vida real em seu país, e nos vizinhos da região, pode ser ainda mais assustadora.
A podre lei da Anistia


quinta-feira, 22 de junho de 2017

1917: revolução socialista ou antiburguesa?

Fundamental para vitória em 1917 foi a realização do II Congresso dos Sovietes, em 25 e 26 de outubro daquele ano. Em seu texto “De fevereiro a outubro”, Lars T. Lih afirma que “podemos imaginar o II Congresso sem o levante, mas não podemos imaginar o levante sem o II Congresso.”

Uma vez vitoriosa a revolução, o Congresso aprovou como tarefas fundamentais “paz democrática”, terra aos camponeses e a criação de um “governo operário-camponês”. Medidas “essencialmente democráticas”, diz o autor.

Segundo Lih, no final do esboço da declaração que preparou para amarrar o novo governo a esses compromissos, Lênin havia escrito “Vida longa ao socialismo!”. Mas ele “riscou esta frase”. Segundo o autor:

...os bolcheviques nunca defenderam o programa efetivo deliberado no Congresso como “socialista” – tampouco, o que é ainda mais relevante, os que atacaram os bolcheviques fizeram qualquer menção a tentativas irreais de instalar o socialismo na Rússia. “Socialismo” simplesmente não era uma questão no II Congresso.

Assim, a Lih “parece mais provável entender a revolução de 1917 como uma revolução democrática antiburguesa”.

De fato, a burguesia era incapaz de conquistar os objetivos definidos pelo II Congresso sem contrariar seus próprios interesses. E para alcançá-los, os trabalhadores tiveram que avançar para a socialização das fábricas e latifúndios e a democratização radical da vida política.

Era a “revolução permanente”, defendida por Trotsky e assumida por Lênin. Mas ambos admitiram que a implantação do socialismo dependia de vitórias revolucionárias na Europa ocidental. Na ausência delas, a revolução antiburguesa foi cercada por todos os lados. Não apenas ficou incompleta, como sofreu recuos sucessivos até transformar-se na contrarrevolução stalinista.

Acesse o texto de Lars T. Lih, aqui

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Nova crise mundial pode arrastar até a China

“A bolha está se formando e, quando estourar, será o pior ‘crash’ da minha vida”, este título da matéria publicada no InfoMoney em 12/06, utiliza palavras de Jim Rogers.

Rogers é um respeitado investidor, responsável por ganhos bilionários no mercado financeiro. Para ele, “algumas ações dos Estados Unidos estão entrando em uma bolha e, quando estourar, as bolsas vão desabar”.

“Nos EUA, uma nova bolha imobiliária ameaça criar outra crise”, diz reportagem de Carlos Drummond, publicada por CartaCapital em 20/06

Segundo o artigo, os mesmos sinais da iminência da quebradeira de 2008, “ressurgiram e já se desenha a ameaça de uma reedição ainda mais destrutiva”:

Os preços dos imóveis ultrapassaram o ápice de nove anos atrás, os financiamentos estudantis e a dívida com cartões de crédito aumentaram de modo preocupante e a cotação das ações atingiu novos recordes históricos.

O texto cita Michael Hudson, professor da Universidade do Missouri e autor de livros sobre as bolhas de ativos e o parasitismo financeiro. Segundo ele, muitos economistas veem no aumento da procura de crédito um sinal de retomada econômica.

Mas, diz Hudson,”as pessoas não estão tomando mais empréstimos por se sentirem otimistas quanto à economia, mas por não conseguirem equilibrar as contas e pagar sua habitação e sua educação sem se endividar ainda mais”.

A crise de 2008 só não foi pior graças à economia chinesa. Mas agora, diz Rogers, os chineses também têm dívidas e a “dívida é muito maior (...). Vai ser o pior crash da sua vida - da minha também. Preocupe-se".

E nós, aqui, com a dupla Meirelles/Temer no comando do País. Danou-se!

terça-feira, 20 de junho de 2017

Mudamos! Para o mesmo endereço

 Laerte
Anda fazendo sucesso um aplicativo criado pelos advogados Márlon Reis, idealizador da Ficha Limpa, e Ronaldo Lemos, colunista da Folha.

É a ferramenta digital “Mudamos”, que coleta as assinaturas necessárias à tramitação de projetos de iniciativa popular na Câmara Federal.

Esse mecanismo constitucional exige a assinatura de 1% do eleitorado, distribuído em pelo menos cinco estados. Atualmente, cerca de 1,5 milhão de autógrafos.

Dois problemas: a enorme mão-de-obra para recolher tantas subscrições e um risco de fraudes proporcional à montanha de papéis resultante da coleta. Por isso mesmo, pouquíssimas vezes propostas desse tipo chegaram ao Congresso.

Na verdade, mesmo a famosa Lei da Ficha Limpa, apoiada por milhões de assinaturas, só progrediu porque foi assumida por um deputado, dispensando a necessidade de auditagem da documentação.

O dispositivo coleta assinaturas digitais por meio da tecnologia blockchain, utilizada em aplicativos de bancos. Realmente, trata-se de uma ferramenta muito mais segura do que rabiscos espalhados por toneladas de papel.

Dados como data de nascimento, CPF e título de eleitor são cruzados em segundos e vinculados aos celulares dos usuários pelo código IMEI, registro individual de cada aparelho.

O grande problema é que o “Mudamos” não altera a lógica eleitoral que coloca nos parlamentos uma enorme maioria de representantes do grande capital. A simples apresentação da proposta não significa que seja aprovada.

Sem falar em fatores como o poder das mídias empresariais. Sejam antigas, como a Globo, ou novíssimas, como o Facebook.

Pior, reforça um tipo de participação política que continua a ser tão solitária quanto a ida à urna eletrônica.

Mudar, pode até mudar. Mas nem altera o CEP.

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