sexta-feira, 24 de maio de 2013

E nós com Bangladesh?

No final de abril, uma fábrica desabou em Bangladesh matando mais de 1.200 trabalhadores têxteis e ferindo outros 2 mil. Reportagem de Jamil Chade publicada pelo Estadão, em 20/05, traz algumas informações importantes sobre o caso.

O pequeno país asiático é o segundo maior produtor têxtil do mundo, com 3.500 empresas exportadoras, 4 milhões de trabalhadores e investimentos externos no valor de US$ 19 bilhões. O resultado são lucros de US$ 1 trilhão anuais.

As razões por trás de tanta prosperidade? 90% dos trabalhadores do setor recebem US$ 1,1 por dia e leis trabalhistas inexistem. Afinal, cerca de 70 parlamentares do país são donos de empresas têxteis.

Entre os destroços do prédio foram encontradas etiquetas ensanguentadas da Benetton e da Kik. Mas o sangue respingou em outras grande grifes. É o caso de H&M, Zara, Hennes & Mauritz PVH, Tchibo, Tesco, Marks & Spencer, El Corte Inglés, Mango, Carrefour, Esprit e C&A.

Depois da tragédia, representantes dessas gigantes se comprometeram a investir na segurança das fábricas. Mas também culparam a corrupção do governo de Bangladesh pelas muitas irregularidades. Como se este não fosse outro elemento importante para os baixos custos da produção no país.

Enquanto isso, na capital Daca, pelo menos mil fábricas estão paralisadas pelos protestos de trabalhadores e seus familiares. A repressão policial é violenta, mas, nesse caso, ninguém reclama do governo.

E nós com tudo isso? Notícia na mesma edição do jornal responde: “Brasil amplia compras de produtos de Bangladesh”. Desde 2005 o volume de comércio entre os dois países aumentou 26 vezes e chegou a US$ 185 milhões, em 2012.

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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Crise capitalista: jogo de cartas marcadas

Luiz Carlos Mendonça de Barros publicou artigo arriscado no Valor, em 20/05. Um dos principais responsáveis pelas privatarias tucanas, o ex-ministro das comunicações afirma no título: “Crise global em seus últimos capítulos”.

As razões para tanto otimismo? Seriam dois eventos, segundo ele. Primeiro, a redução do déficit público nos Estados Unidos de 6% para 4% do PIB, no primeiro trimestre deste ano. Segundo, a leve reação da economia japonesa, que teve ligeiro crescimento do PIB depois de duas décadas empatada no zero.

Ele também conta com a manutenção do crescimento chinês mais ou menos no mesmo ritmo atual. Mas não cita a recessão que já toma conta de nove dos 17 países da Zona do Euro. Os que cresceram, ficaram pouco acima do zero. O resultado é uma taxa de desemprego acima dos 12% da população na região, em média.

Na mesma edição, o artigo “Retomada industrial nos EUA", de Marcello Averbug, apresenta uma visão diferente sobre a reação americana. Admite um certo crescimento industrial no país, mas adverte que isso não contribui para amenizar “o agravamento da iniquidade social” ou garantir taxas elevadas de crescimento do PIB. Portanto, não é suficiente para impedir novas “ondas recessivas”.

De que lado estaria a razão? Difícil saber, mas uma coisa é certa. Seja no cenário mais otimista, seja no pessimista, as consequências já são trágicas para a grande maioria das populações afetadas.

Em seu texto, Mendonça de Barros avisa: “não apostem contra o capitalismo”. Ele sabe do que está falando. As cartas, o dados, as roletas estão viciados desde o início do jogo, há uns 200 anos.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Fazer viver, deixar morrer

“Fazer morrer, deixar viver. Fazer viver, deixar morrer”. Estas atitudes opostas representam duas formas de dominação, segundo Michel Foucault em seu livro “Em defesa da sociedade”.  A primeira corresponderia ao poder soberano dos reis. A segunda, ao poder disciplinador das sociedades atuais.

Um rei podia fazer seus súditos morrerem quando bem entendesse. Afinal, vidas humanas pertenciam aos domínios soberanos como tudo mais presente em seus territórios. Mas se não houvesse razão para se livrar deles, deixava que vivessem do modo que pudessem.

Atualmente, não interessa à maioria dos governantes mandar matar seus governados. O mais importante é determinar como eles devem viver. Principalmente, de que forma devem se comportar para servir à reprodução do capital.

É por isso que tudo deve estar sujeito a leis, regras, regulamentos, prescrições. Para cada doença, um remédio. Para cada tarefa, um treinamento. Para cada saber, um manual. Tudo em escala populacional. É o que Foucault chamava de biopolítica.

Um dos fenômenos típicos dessa forma contemporânea de dominação é a medicalização da vida. Um exemplo recente foi a publicação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais dos EUA. Publicado pela Associação Americana de Psiquiatria, o livro traz uma lista de mais de 300 patologias.

São tantas “doenças”, que dificilmente alguém poderia ser considerado “saudável”. Na verdade, a insanidade está no ritmo que a sociedade contemporânea nos impõe. Um estilo de vida que fabrica a doença para vender o tratamento. Aos que não se ajustam, resta a morte, simbólica ou real.

Antes, os reis podiam castigar seus súditos com a morte. Os atuais poderosos só precisam nos condenar à vida.

terça-feira, 21 de maio de 2013

O capitalismo é viciado em guerras

Há uma polêmica entre os marxistas sobre o papel dos gastos armamentistas na economia capitalista. Principalmente, quanto a seu papel na redução da tendência de queda na taxa de lucro enfrentada pelo sistema.

Mas a quantidade de guerras por que vem passando o planeta desde a consolidação do capitalismo não deixa dúvidas. Investimentos bélicos são parte integrante de sua economia. E um recente artigo publicado no Valor aborda isso de maneira muito clara.

Trata-se do texto de Sergio Lamucci, publicado em 20/05, sob o título “Economia dos EUA sofre com corte de gastos militares”. Segundo o autor, a queda de gastos com armamentos estaria causando “um impacto negativo sobre o crescimento da economia, tendência que deve se manter ao longo dos próximos anos”.

Os cortes nesse tipo de despesa seriam causados, principalmente, pela retirada das tropas americanas do Iraque e a possível saída do Afeganistão em 2014. O artigo diz que a redução pode retirar 0,3% da expansão do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e mais 0,3% no ano que vem.

Lamucci lembra que os “gastos federais com defesa subiram com força entre 2001 e 2010”, após os atentados de 11 de setembro. Em 2000, elas representavam cerca de 3,7% do PIB, chegaram aos 5,7% em 2010 e recuaram para 4,8% no primeiro trimestre deste ano.

Como se vê, o caso americano comprova uma espécie de dependência química do capitalismo em relação às armas. Vício que alimenta as corporações da guerra, mas faz vítimas entre os povos do mundo todo, incluindo as próprias tropas imperialistas.

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segunda-feira, 20 de maio de 2013

A ilusória agonia do imperialismo

Ignacio Ramonet publicou “O mundo em 2030” na Carta Maior, em 16/05. O artigo cita algumas conclusões de um documento elaborado pela CIA chamado “Tendências mundiais 2030: novos mundos possíveis”. Trata-se de um relatório entregue aos presidentes americanos a cada início de mandato.

Entre as muitas constatações do documento estaria o “declínio do Ocidente”. Por “Ocidente” entenda-se Alemanha, Reino Unido, França e o nada ocidental Japão. Potências que estariam perdendo participação na economia mundial. Enquanto isso, países como China, Índia, Brasil, Rússia, África do Sul estariam em ascensão.

E ainda haveria o surgimento de novos ”polos hegemônicos regionais”. Seria o caso de Colômbia, Indonésia, Nigéria, Etiópia, Turquia e Vietnã. Desse modo, estaria se configurando um “mundo multipolar”, em que “novos atores” poderiam “disputar a supremacia internacional a Washington e aos seus aliados históricos”, diz Ramonet.

Mas, afinal, o que significa “disputar a supremacia internacional” se não competir pelos mercados mundiais? Imperialismo não é sinônimo de dominação por parte de impérios nacionais. É a forma como o sistema capitalista funciona em nível mundial. No ocidente e no oriente.

Os tais “novos atores” estão apenas lutando por uma participação maior no saque aos povos e recursos do planeta. Aliás, a China já vem assumindo esse papel claramente. Inclusive, avançando sobre regiões de interesse da economia brasileira. Entre elas, a América do Sul, que o capital que tem sede aqui considera seu quintal.

Que a CIA esteja preocupada é natural. Que o relatório mostra contradições que devem ser aproveitadas pelas forças anticapitalistas é inegável. Mas que setores da esquerda estejam comemorando uma suposta agonia do imperialismo é miopia.

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