Doses maiores

Mostrando postagens com marcador marxismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador marxismo. Mostrar todas as postagens

21 de fevereiro de 2025

Trabalho concreto, gelatina e códigos binários

No livro “Concreto: arma de construção massiva do capitalismo”, Anselm Jappe mostra que o concreto armado, amplamente presente nas construções contemporâneas, causa sérios problemas como pouca durabilidade, manutenção dispendiosa, impactos ecológicos e incompatibilidade com muitas das necessidades humanas. Sua utilização serve única e exclusivamente às necessidades de valorização do capital.

Jappe, no entanto, enxerga no concreto uma outra propriedade. Ele lembra que para Marx, no capitalismo, o trabalho é composto por trabalho concreto e trabalho abstrato. O primeiro é aquele que é portador de um valor de uso específico. Por exemplo, o pão feito por um padeiro ou o software escrito por um programador.

Já o trabalho abstrato é “puro dispêndio de energia humana”, que não leva em conta o tipo de atividade ou produto final. Como lembra o autor, no capitalismo, nenhum trabalho importa por sua singularidade e utilidade imediata, mas por sua rentabilidade. O trabalho concreto é apenas “uma porção maior ou menor de uma única substância, sempre igual, sem conteúdo ou particularidades”. Não à toa, Marx compara o trabalho abstrato a uma “gelatina” e Jappe diz que isso impõe à modernidade uma simplificação grosseira, resumida na busca incessante pelo lucro.

A partir dessa definição, o autor considera o concreto armado uma manifestação perfeita do trabalho abstrato. Uma “substância” indiferenciada que invadiu nossas vidas por todo o planeta.

Faz todo sentido, mas talvez outra “substância” também venha cumprindo esse papel nas últimas décadas. São as redes digitais, que se impõem cada vez mais como mediação das relações humanas concretas, transformando-as em códigos binários armazenados em nuvens abstratas, que servem exclusivamente à circulação das mercadorias.

Leia também: O brutalismo sujo do capitalismo

24 de outubro de 2024

Trabalho, luta de classes e conversa fiada

A sociedade capitalista é a única sociedade dividida em classes na história em que a classe dominante fez do trabalho virtude. A burguesia nasceu da plebe trabalhadora, mas é aquela pequena parte dela que conseguiu se apropriar dos meios de produção. O restante tornou-se massa proletária a ser explorada.

Essa diferenciação foi vendida como vitória de uma parte do povo sobre a outra. Mas pobres que reunissem certas qualidades e se esforçassem poderiam vencer por mérito próprio. Era o mito da meritocracia, melhor apenas que os mitos do poder e riqueza concedidos por hereditariedade ou por vontade divina.

Ou seja, na sociedade capitalista o trabalho transformou-se em razão de ser da grande maioria das pessoas, de alto a baixo. Ter um emprego, uma ocupação, uma fonte de sustento a partir do próprio esforço tem importância fundamental na vida contemporânea.

Mas o conceito de trabalho acima só tem esse sentido no capitalismo. Marx entendia o trabalho como elemento essencial da espécie humana. É através dele que transformamos a natureza e a nós mesmos. Essa condição pode atribuir ao trabalho um caráter emancipatório, desde que deixe de intermediar a exploração de uns pelos outros e justificar a opressão dos segundos pelos primeiros.

Enquanto a humanidade não conferir esse caráter libertador ao trabalho continuaremos a sofrer com suas terríveis negatividades.

O arrazoado acima é só para lembrar que todos os problemas e contradições sociais que vivemos atualmente têm origem na esfera do trabalho. São produto da luta de classes. Inclusive, disputas eleitorais como as que enfrentamos hoje contra o fascismo. O resto é conversa fiada de coach charlatão.

Leia também: A luta de classes no oco do mundo

14 de outubro de 2024

A esfinge dialética: decifra-me, enquanto te devoro

A última pílula citou as formulações de Marx e Gramsci para mostrar que o senso comum é um emaranhado contraditório, constantemente atravessado por valores e preconceitos da ideologia dominante.

Apesar disso, boa parte da esquerda insiste em culpar a população pela confusão ideológica que vem garantindo seguidas vitórias à extrema-direita. Uma atitude metafísica que, a rigor, equivale a culpar a própria realidade.

Diante dessa situação, perguntava a última pílula, “o que fazer?”. Claro que não há resposta pronta para essa questão. Assim como não havia nada de universal ou definitivo na famosa resposta formulada por Lênin. Afinal, ele mesmo dizia que suas propostas eram produto “da análise concreta de situações concretas”.

A compreensão sobre o funcionamento e a dominação no capitalismo contemporâneo está presente em muitos estudos e pesquisas bastante precisos, sofisticados e de grande qualidade acadêmica.

Mas se todo esse acúmulo crítico não produzir efeitos transformadores na vivência concreta dos explorados e oprimidos, torna-se inútil. Marx, Engels, Gramsci, Lênin eram grandes teóricos, mas sua prioridade era a transformação da realidade, não apenas sua apreensão.

Nossa abordagem da realidade dos explorados e oprimidos é limpa, mas superficial. A da extrema-direita chafurda, mas pavimenta com eficiência o caminho da barbárie.

Os enigmas da luta de classes só se deixam revelar nos terrenos onde assumem toda sua radicalidade. É lá que a dialética costuma se apresentar como a esfinge que nos desafia a decifrar seu mistério dizendo: "Decifra-me, enquanto te devoro".

A esquerda precisa encontrar um modo de responder a esse desafio urgentemente. Se continuarmos perdidos em nossas abstrações, acabaremos sendo tragicamente devorados pelo enigma.

leia também: Maçaroca ideológica e realidade contraditória

12 de outubro de 2024

Maçaroca ideológica e realidade contraditória

O vereador do PSOL mais votado no Rio de Janeiro foi Rick Azevedo, defendendo redução da jornada de trabalho. Ótimo. Mas ele também declarou que a CLT é um regime de escravidão.

Muitos de nós consideram esse raciocínio extremamente contraditório. Mas desde que o marxismo surgiu, uns 170 anos atrás, temos elementos suficientes para saber que, muitas vezes, a realidade que é contraditória.

E se isso não bastasse, ainda é possível contar com a ajuda da obra que Antônio Gramsci iniciou há mais de 100 anos. Segundo o revolucionário italiano, a ideologia dominante é formada por uma maçaroca de concepções de mundo, misturando religião, filosofia, valores tradicionais e modernos, crenças e preconceitos etc. Mas nem por isso, ela é imutável ou monolítica, sofrendo metamorfoses que se adaptam às necessidades da luta de classes.

Carteira assinada, empreendedorismo liberal, teologia da prosperidade, livre comércio, imprensa livre, conservadorismo de costumes, autoritarismo, fundamentalismo religioso, estado mínimo, corporativismo sindical...

Todos esses valores hegemônicos conflitantes e até opostos entre si convivem bem porque correspondem às contradições da própria realidade. E quando os choques se tornam agudos a ponto de ameaçar a ordem dominante entra em cena o elemento de coerência nesse aparente caos: a dominação burguesa e seu aparato de repressão.

Sempre que ignora esse elemento de coerência, a esquerda acaba culpando ou o povo ou a burguesia. Culpar o primeiro é abrir mão da disputa política e contra-hegemônica. Culpar a segunda, é pedir ao inimigo para pegar leve. Ambas as atitudes implicam abdicar da verdadeira transformação social.

O que fazer, então? Fica para a próxima pílula

Leia também: Nas periferias, CLT é coisa de otário

4 de setembro de 2024

Enfrentando o Antropoceno com o ecossocialismo

“Enfrentando o Antropoceno” é o título de um recente livro de Ian Angus, militante ecossocialista canadense. Segundo ele:

É um desafio para todos que se importam com o futuro da humanidade encarar o fato de que a sobrevivência no Antropoceno requer uma mudança social radical, substituindo o capitalismo fóssil por uma civilização ecológica. Ou melhor, ecossocialista. Construir o socialismo nas condições do Antropoceno, por sua vez, envolverá desafios que nenhum socialista do século 20 jamais imaginou. Entender e se preparar para esses desafios deve estar agora no topo do programa socialista.

Mas apesar de Angus avaliar que os desafios são inéditos, ele resgata elementos das obras de Marx e Engels que já no século 19 começavam a mostrar o tamanho da encrenca. Em abril de 1856, em uma reunião de trabalhadores em Londres, Marx descreveu uma profunda contradição no desenvolvimento capitalista:

Por um lado, começaram a surgir forças industriais e científicas, das quais nenhuma época da história humana anterior jamais suspeitou. Por outro lado, existem sintomas de decadência, superando em muito os horrores registrados nos últimos tempos do Império Romano. Este antagonismo entre a indústria moderna e a ciência, por um lado, a miséria e a dissolução modernas, por outro. Este antagonismo entre os poderes produtivos e as relações sociais de nossa época é um fato, palpável, avassalador e incontestável.

Assim, para o autor, os socialistas precisam abordar o Antropoceno como uma oportunidade de unir a análise marxista ecológica com as últimas pesquisas científicas em uma nova síntese: “Um relato socioecológico das origens, natureza e direção da crise atual”.

Voltaremos a comentar a obra.

Leia também: A humanidade chegando ao limite

27 de junho de 2024

Intelecto geral x trabalhador coletivo na obra de Marx

Os chamados “Grundrisse” são uma espécie de rascunho de “O Capital”, de Karl Marx. Um de seus trechos que vem sendo muito citado ultimamente se refere ao conceito de “intelecto geral”:

O desenvolvimento do capital fixo indica até que ponto o conhecimento social geral se tornou uma força direta de produção, e até que ponto, portanto, as condições do próprio processo da vida social ficaram sob o controle do intelecto geral e foram transformadas de acordo com isso.

Muitos enxergam nessa passagem uma antecipação de inovações tecnológicas atuais como a automação produtiva e a inteligência artificial.

O problema é que o conceito de “intelecto geral” remete a produção material a um plano abstrato que secundariza o papel fundamental do trabalho humano na estrutura produtiva.

Seria por isso que em “O Capital”, Marx tenha substituído a figura abstrata do “intelecto geral” pelo conceito mais concreto do “trabalhador geral”. Entendendo este último como sinônimo de cooperação ampliada do trabalho.

Com a nova formulação, o trabalhador coletivo possui todas as qualidades necessárias à produção em um grau de excelência uniforme e utiliza-as empregando todos os seus órgãos, individualizados em determinados trabalhadores ou grupos deles, no desempenho de suas funções.

O que a figura do trabalhador geral antecipa é o surgimento da era da cibernética e das suas experiências de auto-organização. Para além disso, mostra como esses desenvolvimentos tecnológicos podem contribuir para a construção de uma sociedade radicalmente justa, desde que em um contexto de total socialização dos meios de produção.

As considerações acima encerram os comentários sobre o excelente livro “O Olho do Mestre”, de Matteo Pasquinelli.

Leia também: A automação da vida automatizada

26 de junho de 2024

A principal fonte do marxismo de Lênin

No livro “As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo”, publicado em 1913, Lênin afirma que as fontes a que se refere o título são a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês.

Trata-se de uma definição eurocêntrica para dizer o mínimo. Incoerente com uma teoria que defende a emancipação da humanidade de um domínio que nasceu do colonialismo europeu, responsável por mergulhar povos inteiros em um mar de “lama e sangue”, nas palavras do próprio Marx.

A questão é que mesmo Lênin jamais se deixou orientar apenas pelas correntes intelectuais da Europa Central. Ao contrário, os bolcheviques basearam muito de sua atuação na militância dos populistas russos, enraizada no trabalho junto aos camponeses da Rússia czarista.

Além disso, Lênin procurou compreender as especificidades da sociedade russa em sua grande obra “O desenvolvimento do capitalismo na Rússia”. Escrito de 1896 a 1899, o estudo é um exemplo de como adequar a teoria revolucionária à realidade concreta de uma sociedade periférica.

Outras lideranças e teóricos marxistas procuraram fazer o mesmo em suas sociedades. É o caso de Gramsci, na Itália, Mariátegui, no Peru e Zavaleta Mercado, na Bolívia. Mas em relação aos efeitos práticos, certamente a abordagem leninista foi a mais bem-sucedida.

Na verdade, a própria Revolução Russa foi considerada uma heresia pelos marxistas ortodoxos dos países europeus industrializados. No ano em que se completam 100 anos de sua morte é importante lembrar que a principal fonte do marxismo de Lênin era o que ele definia como a “análise concreta da situação concreta”.

Leia também: Lênin, o revolucionário que sabia recuar

20 de maio de 2024

Uma história social da inteligência artificial

Era o ano de 1767, o capitalismo industrial começava a surgir na Europa, quando o filósofo escocês Adam Ferguson disse o seguinte:

As manufaturas prosperam mais onde a mente é menos consultada, e onde a oficina pode ser considerada como um motor, cujas partes são os homens.

Em 1827, foi a vez de Thomas Hodgskin, socialista inglês, afirmar em sua obra “Economia Política Popular”:

A menos que haja trabalho mental, não pode haver destreza manual; e nenhuma capacidade de inventar máquinas. Portanto, o trabalho mental é essencial para a produção.

Muitos anos depois, Marx citaria esses dois autores em “O Capital”, para sublinhar que as habilidades laborativas são um recurso comum partilhado entre os trabalhadores e passado de geração em geração. É um poder produzido e partilhado coletivamente. E é a apropriação deste poder pelos donos dos meios de produção que está por trás do desenvolvimento das forças produtivas sob o domínio do capital. Desde os primeiros teares mecânicos até os mais recentes desenvolvimentos da chamada inteligência artificial.

Para Marx, o trabalho é sempre coletivo: não existe trabalho individual mais prestigiado que outro e, portanto, o trabalho mental é sempre geral. A mente é por definição social.

Desse modo, é um equívoco dizer que a inteligência artificial imita o cérebro humano. Ela é produto das relações de trabalho injustas que o capitalismo impõe à grande maioria.

É essa principal tese de “O olho do mestre: uma história social da inteligência artificial”, livro do filósofo italiano Matteo Pasquinelli, que já apareceu por aqui e continuará sendo comentado nas próximas pílulas.

Leia também: Ada Lovelace, criadora do algoritmo cibernético

6 de março de 2024

Lênin e o marxismo libertário

No ano do centenário da morte de Lênin, lembremos o pouco conhecido lado libertário de sua elaboração teórica. As informações abaixo estão no livro “Lenin: Responding to Catastrophe, Forging Revolution“, de Paul Le Blanc.

Piotr Kropotkin foi um importante anarquista russo da virada do século 19 para o 20. Tinha grandes divergências com os marxistas, principalmente em relação à manutenção do Estado após a revolução.

Mas Kropotkin elogiou Engels quando este afirmou que “o proletariado precisa do Estado, não no interesse da liberdade, mas para reprimir seus inimigos, e assim que se tornar possível falar de liberdade, o Estado como tal deixa de existir”.

Na “Crítica ao Programa de Gotha”, Marx distinguia os estágios inferiores e superiores do comunismo. No primeiro, a democracia se tornaria um hábito entre os produtores livremente associados, dispensando as leis repressivas impostas pela polícia. Em “O Estado e a Revolução”, Lênin classificou a fase inferior como “socialismo” e a superior como “comunismo”.

Somente na sociedade comunista, escreveu Lênin, quando a resistência dos capitalistas tiver desaparecido, quando não houver classes, só então o Estado romperá sua relação com os meios de produção e desaparecerá pelo esgotamento de sua função histórica.

Em 1921, último ano de sua vida, Kropotkin, expressou a esperança de que a Rússia Soviética acabaria por evoluir, tal como Lênin imaginou em seu livro, para uma “sociedade comunista sem Estado”.

Infelizmente, as convergências entre Engels, Marx, Lênin e Kropotkin não foram suficientes. Suas esperanças libertárias acabaram soterradas pela contrarrevolução stalinista. Mas a construção de uma sociedade radicalmente livre e justa continua a animar e mobilizar tanto anarquistas como comunistas.

Leia também: Um Lênin anarquista, louco, isolado

15 de janeiro de 2024

Capitalismo control C, control V

No livro “Pós-Capitalismo: um guia para o nosso futuro”, Paul Mason defende a hipótese de que formas básicas de uma economia pós-capitalista já podem ser encontradas no interior do sistema vigente.

Essa situação seria causada principalmente pelas modernas tecnologias da informação, cujo funcionamento corrói os mecanismos de mercado, mina os direitos de propriedade e destrói a velha relação entre salários, trabalho e lucro, diz o autor.

O raciocínio é o seguinte. Uma vez que você pode copiar e colar algo, sua reprodução torna-se gratuita. O sistema reage a isso tornando legalmente impossível copiar certos tipos de informação. Mas o fato é que qualquer que seja o expediente utilizado para protegê-las, essas informações permanecem copiáveis e compartilháveis a um custo insignificante.

A teoria dos economistas do sistema é incapaz de compreender um mundo de bens a preço próximo do zero, espaço econômico compartilhado, organizações não mercantis e produtos não proprietários, afirma Mason.

Desse modo, as condições objetivas para uma economia comunista estariam cada vez mais maduras no interior do sistema. Até aí, trata-se de um constatação compatível com o marxismo, que sempre parte das condições concretas para criar possibilidades revolucionárias. Mas entender que essa economia já está em funcionamento e prospera sob as leis econômicas implacáveis do capitalismo é uma ideia incompatível com o que pensa a maioria dos teóricos do marxismo, incluindo o próprio Marx.

De qualquer maneira, o livro vale a leitura pelo que revela sobre as agudas contradições em que a economia capitalista vem se metendo.

Uma resenha mais detalhada foi publicada na edição 15 da Revista Mouro, que pode ser adquirida aqui.

Leia também: A sociedade do espetáculo é capitalismo atualizado

18 de dezembro de 2023

A economia política da internete

Na década de 1990, a web era um território de amadores e diletantes. As empresas geravam receitas através do fornecimento de acesso à internete. Mas, uma vez nela, o comportamento dos usuários corria livremente em espaços que eram, na sua maioria, não comerciais.

Segundo a terminologia de Marx, este seria um período de subsunção formal das atividades desempenhadas nos ambientes em rede. Nele, reinavam os imperativos capitalistas gerais da troca de mercadorias, mas o comportamento individual dos usuários não estava sob controle. Seria o equivalente dos galpões, do início do capitalismo, em que um patrão reunia os trabalhadores, mas estes utilizavam as ferramentas e máquinas seguindo seu próprio ritmo.

Isso mudaria com o parcelamento do trabalho em várias pequenas fases, transferindo o controle do ritmo de trabalho ao empregador. A esse processo Marx chamou de subsunção real do trabalho ao capital. Fenômeno que se aprofundaria com a introdução da linha de montagem.

Essa mudança também corresponde à transição da extração da mais-valia absoluta, baseada na extensão das horas de trabalho, para a extração da mais-valia relativa, em que a intensidade do trabalho aumenta mais que sua duração.

No mundo cibernético, isso se traduziu na transição do tempo gasto na utilização dos dados para o tempo despendido na produção deles. Já não se trata apenas de trocas velozes de informações e publicidade, mas de produção intensiva de likes e compartilhamentos. Estes, por sua vez, geram informações estratégicas valiosas a serem negociadas com gigantescos atacadistas de mercadorias e serviços.

Essas interessantes pistas sobre a economia política da internete estão no livro “Breaking Things at Work”, de Gavin Mueler.

Leia também: Os latifúndios digitais e a dark web

1 de dezembro de 2023

A autossabotagem soviética

Na Rússia do início do século passado, a equivocada fé nos poderes da ciência e da tecnologia era compartilhada inclusive pelos bolcheviques, diz Gavin Mueller, em seu livro “Breaking Things at Work”.

Importante integrante da vanguarda revolucionária e marxista respeitado, Nikolai Bukharin escreveu que o “modo histórico de produção (...) é determinado pelo desenvolvimento das forças produtivas, ou seja, pelo desenvolvimento da tecnologia”. O problema é que Marx jamais reduziu o conceito de forças produtivas à tecnologia.

Já Lênin, ansioso por aumentar a produtividade na nascente União Soviética, defendia combinar o poder soviético com conquistas do capitalismo como o taylorismo. Em oposição a ele, Alexandre Bogdanov, outra grande liderança bolchevique, acreditava que o taylorismo minaria os objetivos da revolução, forçando os trabalhadores a tarefas repetitivas que causariam a atrofia de suas capacidades críticas e criativas.

Para Stalin, desenvolvimento industrial era sinônimo de socialismo. Outra simplificação grosseira do marxismo, mas que acabou se tornando política de estado, gerando desdobramentos desastrosos como a ideologia stakhanovista, de produção a qualquer custo. Não faltaram protestos, resistência e sabotagens dos trabalhadores alegando que os ideais da Revolução Bolchevique, como a limitação da jornada de trabalho e condições dignas de produção, seriam minados pela devoção fanática ao trabalho.

A adoção de técnicas, métodos e tecnologias capitalistas beneficiaram a economia soviética por algum tempo. Mas foi incapaz de enfrentar a concorrência imposta pela exploração desenfreada promovida pelo capitalismo de mercado.

O regime stalinista chamava a resistência dos trabalhadores nas fábricas de sabotagem contrarrevolucionária. Mas, ao mimetizar a produção capitalista,  o modelo produtivo soviético foi o maior responsável por seu próprio fracasso.

Leia também: A sabotagem como economia política dos trabalhadores

29 de novembro de 2023

A sabotagem como economia política dos trabalhadores

A guerra de guerrilhas desperta a coragem dos indivíduos, desenvolve sua iniciativa, ousadia, determinação e audácia. A sabotagem é para as lutas sociais aquilo que as guerrilhas são para as guerras nacionais. Se conseguir apenas despertar uma parte dos trabalhadores de sua letargia, já se justifica como tática. Mas pode fazer mais. Pode manter os trabalhadores conscientes e os levar a lutar contra os patrões. Isso trará mais ânimo àquela minoria militante que carrega a maior parte do peso das lutas.

As palavras acima são de Walker C. Smith, dirigente da organização sindical estadunidense Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW, na sigla em inglês). Ele as escreveu em 1913, no livro “Sabotagem: sua história, filosofia e função”, sem tradução para o português.

O trecho foi citado por Gavin Mueller, em seu livro “Breaking Things at Work”, sobre as práticas de resistência dos trabalhadores à tecnologia capitalista ao longo da história.

Outra militante da IWW citada por Mueller é Elizabeth Gurley Flynn, que no livro “Sabotage”, de 1916, define
esse tipo de resistência como qualquer esforço dos trabalhadores “para limitar sua produção proporcionalmente a sua remuneração”.

A análise de Elizabeth sobre 
a sabotagem foi eminentemente marxista, afirma Mueller. Em vez de ditar a estratégia de cima para baixo, ela defende que é preciso observar o que os trabalhadores estão fazendo, tentando compreender porque é que o fazem. “Não diga a eles se está certo ou errado, mas analise as condições que os levaram a agir como agiram”, disse ela.

Ou seja, sabotagem é a economia política como ferramenta forjada pelos próprios trabalhadores na luta contra sua exploração.

Leia também: O ludismo quebrando as armas do inimigo

27 de novembro de 2023

Quebrando as coisas no trabalho

Lançado em 2021, e ainda sem tradução do inglês, o livro “Breaking Things at Work” pode ter seu título traduzido como “Quebrando as coisas no trabalho”. Nele seu autor, Gavin Mueller, faz um exaustivo estudo sobre a resistência dos trabalhadores às inovações tecnológicas que lhes são prejudiciais, no espírito do que ficou conhecido como ludismo.

Trata-se de um movimento de resistência operária surgido na Inglaterra do século 19, promovendo a destruição de máquinas fabris. Mas segundo Mueller, o livro não é apenas sobre os luditas. Mais do que isso, ele afirma estar "interessado na política por trás do movimento. Política que assumiu uma postura militante em relação à reorganização tecnológica do trabalho empreendida pelos primeiros capitalistas”.

O objetivo do autor é “escavar” uma linha de pensamento dentro da teoria marxista, "voltando ao próprio Marx, para demonstrar que o ludismo é intelectualmente compatível com o marxismo”.

Para Mueller, "ser um bom marxista é também ser um ludita. Embora eu queira transformar os marxistas em luditas, também tenho outro objetivo: quero transformar as pessoas que criticam a tecnologia em marxistas”. Ainda segundo ele, o maior problema da tecnologia é “seu papel na reprodução de hierarquias e injustiças impostas à maioria de nós por proprietários de empresas, chefes e governos”.

A luta anticapitalista, conclui o autor, terá necessariamente as atuais máquinas como alvo, e sua obra pretende documentar os momentos em que isso já aconteceu. Dos primeiros teares mecanizados à automação dos processos de produção. Das sabotagens em linhas de montagem às ações de hackers contra as big techs.

Continuaremos a comentar esse interessante livro nas próximas pílulas.

Leia também: O movimento negro na resistência à automação produtiva

21 de setembro de 2023

Derrotas de baixo para cima

“A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. As melhores tradições da esquerda sempre acreditaram nessas sábias palavras ditas por Marx.

Ou seja, transformações radicais que coloquem um fim à sociedade capitalista só acontecerão a partir do rés-do-chão social.

Essa foi a inspiração daqueles que atuaram na resistência à ditadura militar, à democracia tutelada que a sucedeu e aos ataques neoliberais dos anos seguintes. Mas esse trabalho de base praticamente desapareceu no final do século passado.

Há até pouco tempo, considerávamos isso apenas um momentâneo atraso em nossas lutas. Como se os espaços que abandonamos aguardassem pacientemente nosso retorno.

Não demorou muito para que fôssemos lembrados da pior forma possível que a direita também sabe atuar no solo sujo do capitalismo.

Nos bairros pobres rasgados pela violência e desesperança, igrejas dominadas por lideranças ultraconservadoras estenderam uma rede que finge amparar, enquanto prega o pior fanatismo e elege os maiores canalhas.

Já a criminalidade, na ausência de qualquer trabalho de conscientização progressista, organizou-se, modernizou-se, adotou métodos racionais, fez da delinquência empreendedorismo.

O mesmo empreendedorismo que ONGs bem intencionadas semearam pelas periferias para que a uberização do trabalho viesse fazer sua farta colheita. No lugar da dura luta por empregos e salários dignos, a competição feroz por corridas e encomendas valendo uns poucos reais.

Por fim, nos deparamos com lideranças fascistas infiltradas nos próprios movimentos sociais, sindicatos, conselhos tutelares. Presentes em alianças que vão da vereança ao senado, do prefeito ao presidente, do fisiologismo de direita a seu equivalente de esquerda.

Mas não há como consertar nada disso pelo alto porque foi de lá que desabamos.

Leia também: Da física quântica ao trabalho de base

4 de setembro de 2023

Um palavrão com a letra C

“Quando certas palavras são eliminadas do discurso público, certos pensamentos também o são”, diz Michael Parenti no livro “Os camisas negras e a esquerda radical”.

É o caso de “classe”, exemplifica ele. Um vocábulo que, geralmente, é rejeitado porque expressaria uma noção marxista ultrapassada, sem relevância para a sociedade contemporânea. É curto, tem seis letras. Mas é tratado como um palavrão.

A partir disso, ficou fácil descartar outros conceitos politicamente inaceitáveis, como privilégio de classe, poder de classe, exploração de classe, interesse de classe e luta de classes. É a negação classista do conceito de classe.

A palavra iniciada com C também é um tabu quando aplicada aos milhões que fazem o trabalho da sociedade por salários geralmente mesquinhos, a “classe trabalhadora”.

A palavra iniciada com C é um termo aceitável apenas quando seguida do adjetivo tranquilizador “média”.

Ao incluir quase todos, a “classe média” funciona como um conceito convenientemente amorfo que mascara a exploração e a desigualdade das relações sociais. É um rótulo de classe que nega a realidade do poder de classe.

Essas são, sem dúvida, ótimas e oportunas observações do historiador e economista estadunidense.

Faltou apenas falar de duas palavras. A primeira é a palavra iniciada com F: fascismo. A segunda começa com B: burguesia. Nessa sopa indigesta de letras, muitas vezes é omitido que a segunda faz uso do primeiro sempre que lhe é conveniente.

Principalmente, quando tudo isso fica escondido sob o vocábulo “antifascismo”, que, isolado, costuma ser utilizado para esconder nexos causais comprometedores para as classes dominantes.

Antifascismo, mesmo, só acompanhado de outra palavra iniciada por A: anticapitalista!

Leia também: Engels e o trem suicida do progresso

29 de agosto de 2023

Engels e o trem suicida do progresso

Nós nos lisonjeamos demais por causa de nossas vitórias sobre a natureza. Para cada uma dessas vitórias, a natureza se vinga de nós. É verdade que cada vitória traz, em primeiro lugar, os resultados esperados, mas, no segundo e terceiro lugares, produz efeitos imprevisíveis e bastante diferentes, que muitas vezes anulam o primeiro. Assim, a cada passo, somos lembrados de que não dominamos a natureza como um conquistador sobre um povo estrangeiro, como alguém que está fora da natureza – mas que nós, com carne, sangue e cérebro, pertencemos à natureza e existimos em seu meio...

As palavras acima são de Engels e estão no livro “Os camisas negras e a esquerda radical: fascismo racional e a derrubada do comunismo” do historiador e economista estadunidense Michael Parenti.

Parenti as utiliza para mostrar que desde muito tempo o capitalismo apresenta suas tendências ambientais destrutivas. Com sua ênfase incessante na exploração e na expansão, e a sua indiferença aos custos ambientais, diz ele, a essência do capitalismo, sua razão de ser, é converter a natureza em mercadorias e as mercadorias em capital, transformando a terra viva em riqueza inanimada. Por isso, conclui, a “ecologia é profundamente subversiva em relação ao capitalismo”.

O livro foi publicado em 1997, quando já tínhamos muitos sinais de que era urgente subverter o capitalismo também do ponto de vista ecológico. Quase trinta anos depois, o “trem do progresso” a que se referiu Walter Benjamin, lá em 1940, continua carregando a humanidade para o abismo. Mas a advertência de Engels é de 1876. Para ele já estava claro que o trem tomara o rumo errado.

Leia também: Os índios e o anjo desesperado

24 de julho de 2023

Inteligência artificial contra bactérias e sindicatos

Em recente artigo, Yanis Varoufakis divulgou uma “rara boa notícia”:

...a inteligência artificial (IA) permitiu que pesquisadores desenvolvessem um antibiótico capaz de matar uma superbactéria exótica que desafiava todas as drogas antimicrobianas existentes. Um algoritmo baseado em IA mapeou milhares de compostos químicos em proteínas-chave da “Acinetobacter baumannii”, uma bactéria que causa pneumonia e infecta feridas tão gravemente que a OMS a classificou como uma das três “ameaças críticas” à humanidade.

No mesmo texto, no entanto, o autor denuncia a existência de um dispositivo de IA que pode detectar comportamentos favoráveis a sindicalização em todos os armazéns da Amazon em tempo real e a custo zero.

É desconcertante dizer isso, conclui Varoufakis, mas a “IA destruidora de sindicatos depende exatamente das mesmas descobertas científicas que produziram a IA destruidora de germes”.

É a confirmação de uma das teses mais célebres de Karl Marx:

Em certa fase de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se em seus entraves.

Ou seja, uma força produtiva como a inteligência artificial pode beneficiar toda a humanidade, como no caso das bactérias. Mas as atuais relações de produção também a transformam em instrumento de opressão que garante os privilégios de um dos maiores monopólios da história do capitalismo.

Além disso, ainda há o risco de que sucessos científicos como o comemorado por Varoufakis acabem sendo patenteados por uma gigante da indústria farmacêutica. Nesse caso, seria só mais uma oportunidade de altos lucros.

É a lógica do capitalismo infectando tudo.

Leia também: Inteligência artificial: brincadeiras trágicas e nada eróticas

5 de junho de 2023

A luta contra o colonialismo continua

Nos países capitalistas, entre o explorado e o poder interpõe-se uma multidão de professores de moral, de conselheiros, de “desorientadores”. Nas regiões coloniais, ao contrário, o policial e o soldado, pelas suas intervenções diretas e frequentes, mantêm o contato com o colonizado e aconselham-no, com golpes de coronha ou incendiando as suas palhoças, que não faça qualquer movimento. O intermediário do poder utiliza uma linguagem de pura violência. O intermediário não mitiga a opressão, nem encobre mais o domínio. (...) O intermediário leva a violência à casa e ao cérebro do colonizado.

A cidade do colono é uma cidade farta, indolente e está sempre cheia de coisas boas. A cidade do colonizado, indígena, negra, árabe, é um lugar de má fama, povoado por homens também de má fama. Ali, nasce-se em qualquer lado, de qualquer maneira. Morre-se em qualquer parte e não se sabe nunca de quê (...). A cidade do colonizado é uma cidade esfomeada, por falta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma cidade agachada, de joelhos, a chafurdar.

Os trechos acima são de “Os Condenados da Terra”, de Frantz Fanon, psiquiatra e filósofo da Martinica. O livro é de 1961, mas meio século depois, mantém-se atual porque a luta contra a colonização nunca terminou.

Afinal, grande parte das sociedades contemporâneas continuam divididas em duas realidades radicalmente desiguais. Uma cheia de coisas boas, outra que chafurda. Uma tomada por moralistas “desorientadores”, outra coalhada de soldados. Uma farta e indolente, a outra governada à base de coronhadas.

Em breve, mais comentários sobre essa importante obra.

Leia também: Poder negro contra o colonialismo

2 de junho de 2023

Fake news e a doença terminal do capitalismo

Comentando a Revolução Francesa, Alexis de Tocqueville afirmou: "Os franceses achavam suas condições de vida mais intoleráveis à medida que elas se tornavam melhores".

Tal contradição teria sido provocada pela nascente ideologia burguesa, que defendia uma igualdade social radical, com o fim dos privilégios de nascimento e de casta. Incapaz de eliminar essas regalias, o Antigo Regime foi derrubado pela irrupção revolucionária de 1789.

Mas não demorou muito para que a sociedade capitalista também traísse suas próprias promessas. É por isso que a crítica marxiana do capital é formulada opondo aquilo que a ideologia burguesa afirma ao que realmente acontece no mundo real.

A convicção revolucionária de Marx não veio de sociedades comunistas imaginárias. Veio da certeza de que para alcançar aquilo que a burguesia prometia seria preciso superar sua dominação, a partir da revolta dos explorados e oprimidos contra as enormes injustiças que pesam sobre eles.

No entanto, a frustração capitalista não provoca apenas raivas revolucionárias, mas também rancores reacionários. E são estes últimos que alimentam o fascismo desde meados do século 20, quando ficou evidente a natureza profundamente injusta e perversa do capitalismo.

O fascismo surgiu como válvula de escape para o sistema, criando inimigos imaginários, falseando a realidade e acusando algumas instituições e aparatos, como a grande imprensa, de participarem de conspirações contra a “civilização cristã e ocidental”.

As fake news são um dos desdobramentos mais recentes desse processo. São sintomas da doença terminal em que se transformou o capitalismo, revelando sua total incapacidade de conferir sentido à existência humana.

Encerraremos essa série sobre fake news na próxima pílula.

Leia também: Fake news: afinal, o que é a verdade?