Encerrando os comentários sobre o livro “Vivendo nas Fronteiras do Capitalismo”, de Denis O'Hearn e Andrej Grubačić, é importante destacar alguns pressupostos dos estudos apresentados na obra.
Em primeiro lugar, as recentes pesquisas do campo marxista-feminista apontando para a centralidade da reprodução e do trabalho reprodutivo na constituição da sociedade. Eles demonstrariam que a transformação do capitalismo requer não uma mudança fundamental na inovação tecnológica, mas nas relações sociais, em que a reprodução de nossas vidas é organizada como um processo coletivo e não mais subordinado à valorização do capital.
Em segundo lugar, estudos influenciados pelos escritos de Kropotkin sobre cooperação e associação voluntária levaram recentemente à criação de um novo campo de estudo: a pesquisa comparativa de espaços não estatais como expressões geográficas de cooperação e ajuda mútua que podem estar em contradição com o desenvolvimento do capitalismo.
A partir daí, O'Hearn e Grubačić fazem duas suposições: 1 - que as regras de desenvolvimento de espaços não estatais são independentes do capitalismo mundial e 2 - que os atores que povoam espaços não estatais estão totalmente fora do capitalismo.
Os autores chamam tais espaços de exílicos. Sua hipótese central prevê que esses espaços e seus atores interagem com processos, instituições e atores do sistema mundial, sendo necessário investigar como e em que grau essa interação limita sua autoatividade e como esses limites mudam ao longo do tempo.
A tradição marxista reluta em aceitar a existência de espaços externos ao capitalismo. Mas o que importa aqui é menos o debate teórico e mais o potencial anticapitalista das lutas abordadas pela obra. Sem dúvida, valiosas.
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