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12 de novembro de 2024

VAT, 6x1 e capital canibal

A campanha pelo fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso (6x1) está bombando. Criada pelo vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ) foi encampada pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), que está tentando transformá-la em Proposta de Emenda à Constituição.

A proposta faz parte do movimento liderado por Azevedo, chamado Vida Além do Trabalho (VAT). Os operários do século passado tinham seu próprio VAT. Lutavam pelas 8 horas diárias de trabalho. Dessa maneira, sobrariam 8 horas para descanso e 8 horas para educação, conscientização e organização.

Mas a ocupação estafante e criadora de valor para o capital nunca se resumiu às horas exploradas pelos patrões, através de vínculos formais ou não.

Vida além do trabalho também são as ocupações domésticas, cujo principal objetivo é garantir a reprodução e manutenção da força de trabalho a ser explorada pelos patrões.

Vida além do trabalho é a destruição da natureza, provocando imensos prejuízos ambientais para a grande maioria, gerando enormes lucros para uma ínfima minoria.

Vida além do trabalho era a escravização humana nas antigas colônias e a atual precarização nas periferias do mundo, assegurando ganhos astronômicos para o grande capital.

Essas e outras esferas vitais são canibalizadas pelo grande capital para além de qualquer limite, sem qualquer contrapartida, reposição, compensação, tributação. Depois do trabalho, o que sobra não chega a ser vida.

Não há vida que escape à infinita e voraz gula do capital. É o que ensina, por exemplo, Nancy Fraser, ao mostrar em seu recente livro “Capitalismo canibal”, como é urgente matar o capitalismo de inanição. Voltaremos a comentá-lo, em breve.

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6 de novembro de 2024

Um papo reto sobre coisas muito tortas

“Problema é esquerda playboy, não pobre de direita”, essa afirmação de Paulo Galo, militante do movimento dos trabalhadores em aplicativos, deu título a uma recente entrevista concedida por ele ao portal UOL.

Galo referia-se ao livro “O pobre de direita”, recém-lançado por Jessé Souza. Segundo ele:

...não existe “pobre de direita”. Existe alienação. A alienação que afeta o pobre também afeta a classe média branca de esquerda. Ela é tão presa à sua própria bolha que só consegue dialogar consigo mesma.

A esquerda, diz Galo, ignora a “materialidade” da vida das quebradas periféricas. E para superar essa limitação, precisaria:

...chegar aqui na periferia, tomar uma cerveja e trocar uma ideia normal, do dia a dia. Tem um trabalho possível de ser feito aqui. Dá para cair dentro das necessidades e se conectar. Mas quem é que está fazendo isso? O problema é que a esquerda parece não saber fazer nada que não envolva voto.

Dentre as várias afirmações polêmicas, afirmou, por exemplo, que a esquerda se tornou legalista e que seus partidos representariam uma “luta com CNPJ”.

A entrevista despertou tanto a animosidade como a simpatia de setores da militância. Mas Lênin dizia que para endireitar uma vara torta para um lado, é preciso vergá-la para o outro. Por isso, muitas vezes exagerava na defesa de certas linhas políticas que nem eram tão corretas para enfraquecer uma orientação oposta, que considerava ainda mais danosa.

Galo não é nenhum Lênin. Mas procura chamar a atenção para o atual estágio da luta de classes, cuja materialidade contraditória não comporta o simplismo de respostas retas para tantos conflitos tortos.

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A luta de classes no oco do mundo
Um pé na luta, outro no pedal

29 de outubro de 2024

Tarifa zero e luta de classes

O Brasil é líder mundial na implementação da tarifa zero, com 117 cidades e mais de 5 milhões de pessoas contempladas. Essas informações estão no artigo publicado na Folha por Giancarlo Moreira Gama, militante negro e LGBTQ+, vereador da cidade paulista de Cabreúva.

O auge da luta pelo passe livre foi em 2013. E vimos o que aconteceu. O movimento foi tratado como terrorismo pelas forças repressivas, contando com a ajuda até de governos petistas.

Então, o que mudou? Recente matéria da BBC lembra que a gratuidade implica o subsídio total da tarifa pelo poder público. Subsídio para quem? Para os empresários do setor.

O fato é que o alto custo das passagens esvaziou os ônibus. A precarização do trabalho uberizado tirou parte da classe média dos pontos. Para manter seus lucros, os empresários diminuíram a frota. Principalmente, nas periferias, onde mora grande parte dos eleitores. A jogada passou a ser gratuidade bancada pelo dinheiro público, gerando efeitos eleitoreiros e benefícios privados.

Luta de classes é isso aí. Sempre que podem, nossos inimigos se apropriam das bandeiras populares em proveito próprio. Por outro lado, até agora, nenhuma capital adotou a medida integralmente. Aí, os interesses e os ganhos ainda são graúdos demais para serem contemplados. 

Há muita luta pela frente, portanto. Uma delas é a criação de um Sistema Único de Mobilidade, que está em tramitação no Congresso por iniciativa de Luiza Erundina. É importante que os movimento populares pressionem não apenas por sua aprovação, mas pela garantia do caráter público e de participação popular na gestão do novo sistema. Inclusive, com sua estatização integral.

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1 de dezembro de 2023

A autossabotagem soviética

Na Rússia do início do século passado, a equivocada fé nos poderes da ciência e da tecnologia era compartilhada inclusive pelos bolcheviques, diz Gavin Mueller, em seu livro “Breaking Things at Work”.

Importante integrante da vanguarda revolucionária e marxista respeitado, Nikolai Bukharin escreveu que o “modo histórico de produção (...) é determinado pelo desenvolvimento das forças produtivas, ou seja, pelo desenvolvimento da tecnologia”. O problema é que Marx jamais reduziu o conceito de forças produtivas à tecnologia.

Já Lênin, ansioso por aumentar a produtividade na nascente União Soviética, defendia combinar o poder soviético com conquistas do capitalismo como o taylorismo. Em oposição a ele, Alexandre Bogdanov, outra grande liderança bolchevique, acreditava que o taylorismo minaria os objetivos da revolução, forçando os trabalhadores a tarefas repetitivas que causariam a atrofia de suas capacidades críticas e criativas.

Para Stalin, desenvolvimento industrial era sinônimo de socialismo. Outra simplificação grosseira do marxismo, mas que acabou se tornando política de estado, gerando desdobramentos desastrosos como a ideologia stakhanovista, de produção a qualquer custo. Não faltaram protestos, resistência e sabotagens dos trabalhadores alegando que os ideais da Revolução Bolchevique, como a limitação da jornada de trabalho e condições dignas de produção, seriam minados pela devoção fanática ao trabalho.

A adoção de técnicas, métodos e tecnologias capitalistas beneficiaram a economia soviética por algum tempo. Mas foi incapaz de enfrentar a concorrência imposta pela exploração desenfreada promovida pelo capitalismo de mercado.

O regime stalinista chamava a resistência dos trabalhadores nas fábricas de sabotagem contrarrevolucionária. Mas, ao mimetizar a produção capitalista,  o modelo produtivo soviético foi o maior responsável por seu próprio fracasso.

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29 de novembro de 2023

A sabotagem como economia política dos trabalhadores

A guerra de guerrilhas desperta a coragem dos indivíduos, desenvolve sua iniciativa, ousadia, determinação e audácia. A sabotagem é para as lutas sociais aquilo que as guerrilhas são para as guerras nacionais. Se conseguir apenas despertar uma parte dos trabalhadores de sua letargia, já se justifica como tática. Mas pode fazer mais. Pode manter os trabalhadores conscientes e os levar a lutar contra os patrões. Isso trará mais ânimo àquela minoria militante que carrega a maior parte do peso das lutas.

As palavras acima são de Walker C. Smith, dirigente da organização sindical estadunidense Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW, na sigla em inglês). Ele as escreveu em 1913, no livro “Sabotagem: sua história, filosofia e função”, sem tradução para o português.

O trecho foi citado por Gavin Mueller, em seu livro “Breaking Things at Work”, sobre as práticas de resistência dos trabalhadores à tecnologia capitalista ao longo da história.

Outra militante da IWW citada por Mueller é Elizabeth Gurley Flynn, que no livro “Sabotage”, de 1916, define
esse tipo de resistência como qualquer esforço dos trabalhadores “para limitar sua produção proporcionalmente a sua remuneração”.

A análise de Elizabeth sobre 
a sabotagem foi eminentemente marxista, afirma Mueller. Em vez de ditar a estratégia de cima para baixo, ela defende que é preciso observar o que os trabalhadores estão fazendo, tentando compreender porque é que o fazem. “Não diga a eles se está certo ou errado, mas analise as condições que os levaram a agir como agiram”, disse ela.

Ou seja, sabotagem é a economia política como ferramenta forjada pelos próprios trabalhadores na luta contra sua exploração.

Leia também: O ludismo quebrando as armas do inimigo

28 de novembro de 2023

O ludismo quebrando as armas do inimigo

Em seu livro “Breaking Things at Work”, Gavin Mueller afirma que o próprio Marx chegou a ressaltar a hostilidade dos trabalhadores em relação aos moinhos de água e de vento, desde pelo menos a década de 1630.

Mas Mueller diz que foi o historiador marxista Edward Thompson que melhor abordou as ações de destruição de máquinas promovidas pelos trabalhadores na Inglaterra do século 19. Ele soube compreender aquele que ficou conhecido como movimento ludita a partir de sua situação específica, e não como um mero obstáculo no caminho do progresso.

Quebrar máquinas foi apenas uma das táticas que os luditas utilizaram na estratégia mais ampla que buscava aumentar o poder dos trabalhadores e forjar uma luta comunitária e compartilhada.

A revolta dos luditas não era contra as máquinas em si, mas contra a sociedade industrial que fez da tecnologia uma arma para destruir os tradicionais modos de vida e a resistência dos trabalhadores.

“Dizer que eles se equivocavam ao lutar contra as máquinas é como dizer que um boxeador pode enfrentar seu adversário sem levar em conta seus punhos”, diz o autor.

Os luditas souberam ver que a toda tecnologia é política devendo, em muitos casos, ser combatida. Uma percepção que permeou todos os tipos de movimentos militantes, inclusive, os fora da Europa.

Afinal, nas rebeliões de povos indígenas e escravizados do Novo Mundo os ataques à tecnologia produtiva também podem ser entendidos como parte da história do ludismo, porque o ludismo é essencialmente anticapitalista.

Condenar ou desprezar esse tipo de resistência é como querer se defender de tiros, ignorando as armas que os disparam.

Leia também: Quebrando as coisas no trabalho

27 de novembro de 2023

Quebrando as coisas no trabalho

Lançado em 2021, e ainda sem tradução do inglês, o livro “Breaking Things at Work” pode ter seu título traduzido como “Quebrando as coisas no trabalho”. Nele seu autor, Gavin Mueller, faz um exaustivo estudo sobre a resistência dos trabalhadores às inovações tecnológicas que lhes são prejudiciais, no espírito do que ficou conhecido como ludismo.

Trata-se de um movimento de resistência operária surgido na Inglaterra do século 19, promovendo a destruição de máquinas fabris. Mas segundo Mueller, o livro não é apenas sobre os luditas. Mais do que isso, ele afirma estar "interessado na política por trás do movimento. Política que assumiu uma postura militante em relação à reorganização tecnológica do trabalho empreendida pelos primeiros capitalistas”.

O objetivo do autor é “escavar” uma linha de pensamento dentro da teoria marxista, "voltando ao próprio Marx, para demonstrar que o ludismo é intelectualmente compatível com o marxismo”.

Para Mueller, "ser um bom marxista é também ser um ludita. Embora eu queira transformar os marxistas em luditas, também tenho outro objetivo: quero transformar as pessoas que criticam a tecnologia em marxistas”. Ainda segundo ele, o maior problema da tecnologia é “seu papel na reprodução de hierarquias e injustiças impostas à maioria de nós por proprietários de empresas, chefes e governos”.

A luta anticapitalista, conclui o autor, terá necessariamente as atuais máquinas como alvo, e sua obra pretende documentar os momentos em que isso já aconteceu. Dos primeiros teares mecanizados à automação dos processos de produção. Das sabotagens em linhas de montagem às ações de hackers contra as big techs.

Continuaremos a comentar esse interessante livro nas próximas pílulas.

Leia também: O movimento negro na resistência à automação produtiva

1 de agosto de 2023

Barbie e as lutas identitárias

“Barbie” começa com uma divertida paródia da cena inicial de “2001, uma Odisseia no Espaço”. Mas no lugar da aurora da humanidade, nasce uma novidade no mercado de brinquedos. Pela primeira vez, bonecas não imitavam bebês e crianças para treinar meninas no papel de mães e donas do lar.

Em 1959, Ruth Handler criou para a Matel uma boneca na qual as meninas podiam se projetar como jovens adultas, ainda que brancas e loiras. Era a “Barbie estereotipada”, estrela da superprodução dirigida por Greta Gerwig. Mas, depois dela, vieram a Barbie médica, advogada, senadora, negra, cadeirante...

Essas variações profissionais, étnicas e físicas parecem acompanhar o identitarismo que se fortaleceu no cenário político e social nas últimas décadas.

Lutar pela afirmação de identidades perseguidas ou tratadas como subalternas não é um problema em si. Mas uma coisa é se engajar na luta em defesa de identidades. Outra, é ser identitarista. É abandonar o horizonte da transformação social radical para se limitar a pequenas vitórias que o sistema de dominação não só assimila como transforma em suas. Não à toa, a Matel se deixou ridicularizar no filme. O ridículo não é nada se garantir uma repaginada capaz de alavancar novos lucros.

Mas o identitarismo não ameaça apenas as lutas feministas, antirracistas e por diversidade sexual. Reduzir a luta de classes ao sindicalismo e a greves operárias também é uma forma de limitação identitária.

O feminismo de “Barbie” é literalmente cor-de-rosa. Mas as forças vermelhas do anticapitalismo não podem ignorar o potencial das resistências da mais variadas cores para reforçar a luta de todos os explorados e oprimidos.

Leia também: Identitarismo pra todos os lados

29 de março de 2023

A luta contra as empresas-plataforma interessa a todos

Ricardo Festi é doutor em Ciências Sociais pela Unicamp. Sua área de pesquisa são empresas-plataformas como Ifood, Uber, Rappi. Em esclarecedora entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, ele afirma:

Justamente porque as novas tecnologias produzem relações de trabalho semelhantes aos do século XIX é que pautas antigas, como a diminuição da jornada de trabalho, seguem mais atuais que nunca.

Mas tais lutas não dizem respeito somente a seus trabalhadores. Afinal, diz o sociólogo:

...se esta nova lógica de relação de trabalho (quase servil) das empresas-plataformas se estabelecer na legislação brasileira, serão abertas as portas para a plataformização de todas as categorias profissionais. Está em jogo, portanto, o futuro do mundo do trabalho e não apenas de uma ou outra categoria profissional.

Festi também ressalta que:

A maioria das empresas-plataformas não criaram profissões. Na verdade, o que elas fizeram foi “intermediar” agentes, subordinando-os à automação algorítmica.

Em relação à força da ideologia neoliberal do empreendedorismo no setor, ele é otimista:

No início de 2020, a adesão à ideologia do empreendedorismo era muito mais forte entre os entregadores. Hoje, a maioria deles já se deu conta de que isso é uma falácia, que não existe autonomia nenhuma. E alguns também estão se dando conta de que se essas empresas forem embora do Brasil – como elas argumentam, caso sejam aprovados direitos trabalhistas para motoristas e entregadores –, a vida deles não vai mudar em nada. Pelo contrário, vai melhorar! Eles continuarão a fazer o que sempre fizeram, pois muitos eram celetistas ou freelancers antes da chegada dos aplicativos.

Tomara!

Vale e pena ler a íntegra da entrevista.

Leia também: Entregadores na luta pela expropriação das plataformas capitalistas

23 de novembro de 2022

A revolta da chibata

Em 22 de novembro de 1910, João Cândido Felisberto, membro da Marinha Nacional, liderou uma revolta de 2.300 marinheiros. O movimento assumiu o comando de quatro navios de guerra, apontando seus canhões para o Rio de Janeiro, capital federal na época. A principal exigência era o fim das chibatadas como punição. Por isso, o motim recebeu o nome de Revolta da Chibata. João Cândido ficou conhecido como o Almirante Negro. 

Abaixo, um trecho da carta dos revoltosos endereçada ao então presidente Hermes da Fonseca:

Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira (...). Achando-se todos os navios em nosso poder, tendo a seu bordo prisioneiros todos os oficiais, os quais, tem sido os causadores da Marinha Brasileira não ser grandiosa, porque durante vinte anos de República ainda não foi bastante para tratar-nos como cidadãos fardados em defesa da Pátria, mandamos esta honrada mensagem para que V. Excia. faça aos Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facilitam, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha Brasileira...

Caso não fossem atendidos, os marinheiros ameaçavam bombardear a capital. Temeroso, o governo prometeu atender todas as exigências. Mas com exceção do fim das chibatadas, nada mais foi cumprido. Dos 600 revoltosos presos, 18 foram jogados em um cárcere cheio de cal virgem. Somente dois sobreviveram. Um deles era Cândido.

“Vinte anos de República ainda não foi bastante para tratar-nos como cidadãos”, diz a carta dos marinheiros. Mais de 130 anos depois, nos fazem falta muitas outras revoltas da chibata.

Leia também: A chibata continua a castigar

27 de setembro de 2022

A abolição da escravidão foi obra dos escravizados

Em 1884, havia uma associação secreta, em Pernambuco, chamada Clube do Cupim. Seu objetivo era ajudar escravizados a fugir para o Ceará e outras regiões do Nordeste onde ficavam a salvo da perseguição dos capitães do mato. 

“Caifases” era o nome de uma célula revolucionária que funcionava em São Paulo nos anos que antecederam a Lei Áurea de 1888. Seus membros penetravam nas propriedades rurais disfarçados de mascates e vendedores ambulantes. Promoviam reuniões clandestinas com grupos de escravos, incentivando-os a se rebelarem. Perseguiam capitães-do-mato e denunciavam fazendeiros acusados de maltratar seus cativos. Organizavam e patrocinavam fugas em massa de escravos, que eram levados para abrigos situados em Cubatão, no litoral paulista. Ali obtinham dos abolicionistas certificados falsos de liberdade, que lhes possibilitava trabalhar como estivadores no porto ou em fazendas. Um desses refúgios, o Quilombo do Jabaquara, no caminho de Santos, chegou a reunir 20 mil pessoas.

Os exemplos acima estão relatados no terceiro volume da trilogia “Escravidão”, de Laurentino Gomes. São apenas dois casos, mas mostram que a Abolição nunca foi iniciativa de uma princesa branca condoída dos escravizados. Ao contrário, foi produto das muitas lutas protagonizadas, principalmente, por negros, indígenas e brancos pobres.

Todo esse processo de resistência passou por momentos importantes como Palmares, Conjuraçao Baiana e Revolta dos Malês, mas continuou após o fim da escravidão. Canudos, Contestado e Revolta da Chibata, por exemplo, são lutas que fazem parte dessa grande tradição de insurgência popular. E elas continuam necessárias porque os escravocratas e racistas em geral permanecem firmes e precisam ser combatidos sem trégua. Sempre a partir de baixo e avante!

Leia também: Trabalhadores ingleses contra a escravidão

7 de junho de 2022

Palmares durou mais que a União Soviética

O bolsonarismo não criou qualquer tipo de violência nova – a novidade agora é que um importante setor das classes dominantes já não se importa mais em maquiar sua aparência, ou iludir a opinião pública com urbanidades típicas da hipocrisia dos neoliberais. O que chamamos de “Brasil” sempre foi um genocídio racista estruturado no escravismo.

Com estas palavras, Erahsto Felício e Joelson Ferreira começam seu artigo “Paz entre nós, guerra aos senhores – uma tradição rebelde de alianças”.

Em seguida, afirmam: “A esquerda institucional brasileira já tentou seu caminho – com o máximo respeito que temos aos companheiros, é chegada a hora de tentar outro. É aí onde a longa história de rebeliões dos povos no território brasileiro ainda tem muito a nos ensinar”.

Eles se referem a Cabanagem, Balaiada, Praieira, Canudos, como “ações rebeldes construídas por meio da unidade dos povos”. Lembram que a Cabanagem, por exemplo, foi um movimento protagonizado pelos Sataré-Mawé, Mura, Mundurukus e outros povos indígenas. Aliados a pretos, cafuzos e brancos pobres lutaram contra o poder do latifúndio no norte do País.

Afinal, dizem, Palmares sobreviveu por 130 anos. “Uma experiência de resistência ao capitalismo mais longeva do que a União Soviética ou a China Popular”. A ciência por trás desta longevidade, e de sua capacidade rebelde, afirmam, está na aliança dos povos. A federação de quilombos, que impôs por tantos anos derrotas às potências imperiais da época, era formada por pretos e indígenas, assim como por brancos pobres e marginalizados.

Mas não se trata de qualquer aliança, advertem, por fim. É a unidade dos povos para vencer o capitalismo e o racismo.

Leia também: A resistência indígena desafia também a velha esquerda

18 de maio de 2022

A resistência indígena desafia também a velha esquerda

Voltamos a falar do jornalista e escritor uruguaio Raúl Zibechi. Desta vez, trata-se de recente entrevista em que ele anuncia seu último livro: “Mundos otros y pueblos en movimiento. Debates sobre anti-colonialismo y transición en América Latina”.

No depoimento, Zibechi faz várias afirmações interessantes. Alerta, por exemplo, para a existência de dezenas de povos que estão percorrendo “caminhos de autonomia e autogestão”. Segundo ele, no norte do Peru, foram formados dois Governos Territoriais Autônomos, da nação wampis e da nação awajún. “São mais de 100 mil habitantes que optaram pelo autogoverno para frear a pilhagem da floresta”.

No Brasil, continua Zibechi, são doze povos amazônicos demarcando seus territórios frente à ofensiva dos extrativismos e à conivência do Estado. “Sendo 1% da população, os indígenas são a ponta de lança na resistência a Bolsonaro”, diz.

Zibechi acredita que tais movimentos de resistência passam quase despercebidos pelos que “vieram do marxismo”. Afinal, diz, “seguimos apegados à ideia de revolução centrada na conquista do poder estatal, na construção de partidos e organizações hierárquicas, no planejamento dos passos a serem dados (estratégia e tática) por um grupo de homens brancos ilustrados, na separação da ética da política para priorizar os fins acima dos meios, a ação pública acima do crescimento interior...”

Desse modo, afirma, acabamos por nos colocar “em uma posição de superioridade moral que é terrível, porque nos transforma em um ser apegado a supostas verdades eternas. Esse sentimento é tão forte, traz tanta segurança, que não é mais necessário compreender o mundo, e essa atitude acaba nos afastando das pessoas comuns”.

O tom é provocativo, mas justo.

Leia também: A resposta zapatista frente ao genocídio capitalista

11 de maio de 2022

Guerra “inter-branca” e o estrangulamento das metrópoles

“Quem é o responsável por esta guerra? Quem a quis, provocou, arquitetou e desencadeou?” Estas são as perguntas a serem respondidas diz Franco ‘Bifo’ Berardi, filósofo e ativista italiano em recente artigo sobre a guerra na Ucrânia.

Ele responsabiliza o “nazi-stalinismo” russo liderado por Putin. Mas, adverte que alguém mais a quis com vigor e a está alimentando ativamente. Afinal, diz Bifo, se em fevereiro a União Europeia tivesse convocado uma conferência internacional para discutir as demandas do governo russo, a máquina de guerra poderia ter sido detida. Em vez disso, preferiram alimentar o fogo.

Em certo momento, ele se pergunta o que faria se estivesse na Ucrânia:

Se eu vivesse em Kiev e alguém me explicasse que tenho que defender o Mundo Livre, a Democracia, os Valores do Ocidente, palavras com letras maiúsculas, eu desertaria. Mas talvez optasse por me unir à resistência para defender minha casa, meus irmãos... Palavras com letras minúsculas.

Mas quanto ao panorama geral, Berardi entende que, pela primeira vez, delineia-se um cenário geopolítico que percorre a linha de fratura colonial. “Os impérios brancos do passado colidem ou se unem, enquanto o mundo não-branco emerge no horizonte”.

A guerra “inter-branca” da Ucrânia, conclui o autor, “é o catalisador de um processo de fratura entre o sul e o norte do mundo, do qual estamos vendo apenas os primeiros movimentos”. E lembra o que teria teorizado MaoTsé-Tung nos anos 1960, ao prever “que os subúrbios logo estrangulariam as metrópoles”.

Resta saber se teremos tempo e capacidade de sufocar nossos inimigos antes que nos falte o ar.

Leia também: Ucrânia: observações de um especialista chinês

20 de maio de 2021

A Comuna de Paris como dobra espacial

A Comuna abriu uma espécie de fenda no tempo histórico, diz Kristin Ross, em seu livro “Luxo Comunal: o imaginário político da Comuna de Paris”. Marx estava atento a isso, mas também a importantes implicações espaciais.

Para ele, o efeito mais importante e imediato dos diferentes modos de organização da vida social e econômica propostos pela Comuna foi dar maior visibilidade à existência de sociedades não capitalistas fora da Europa.

Na comuna camponesa russa, ele vê traços do "comunismo primitivo" que observara na Comuna de Paris: “indivíduos que se comportam não como trabalhadores, mas como membros de uma comunidade. Comunidade que também trabalha”.

Mas tanto num caso como no outro, Marx considerou sua primeira fraqueza o isolamento.

As comunas podem se constituir como núcleos autônomos, mas, afirma a autora, sua sobrevivência depende de mediações relacionais. Aqui, bem antes de Gramsci e Mariátegui, e numa perspectiva bastante semelhante à que cada um deles desenvolveria 40 anos depois, Marx coloca a necessidade de uma aliança entre camponeses e operários, mas em escala mundial.

Para Marx, diz Kristin, a Comuna de Paris deu origem a um aprendizado prático no desenvolvimento de relações entre a cidade e o campo francês, depois entre o campo e o mundo além da Europa.

A realidade vivida no campo russo poderia doravante ser percebida em sua especificidade. Não como um território atrasado, segundo um modelo evolucionário, mas em meio à estreita interdependência global das transformações sociais: a cidade e o campo na escala do mundo.

Segundo Marx, a Comuna foi um assalto ao céu. Com direito a saltos temporais e dobras espaciais.

PS: As pílulas vão sofrer um lapso temporal de algumas semanas.

Leia também: A Comuna de Paris como cápsula do tempo

19 de maio de 2021

A Comuna de Paris como cápsula do tempo

Em 1871, ano da Comuna, Pyotr Kropotkin já havia abandonado sua origem aristocrática para militar pelo anarquismo. Mas como secretário da Sociedade Geográfica Imperial de São Petersburgo, estava em missão de reconhecimento na Finlândia. Na mesma época, o marxista William Morris viajava pelo interior da Islândia.

O que a Finlândia ensinou a Kropotkin foi muito semelhante ao que a Islândia mostrou a Morris: apesar da grande pobreza, finlandeses e islandeses levavam uma vida simples, baseada na ausência de hábitos fúteis. Praticavam uma forma de luxo comunitário, arrisca-se a dizer Kristin Ross, em seu livro “Luxo Comunal: o imaginário político da Comuna de Paris”.

Os anos passados em meio às extensões geladas da Sibéria podem ter permitido a Kropotkin ver na Comuna de Paris o que se tornaria, para ele, um exemplo do esforço cooperativo sob condições extremamente duras.

Para Morris, a Islândia foi uma espécie de cápsula do tempo, em que os vestígios de um antigo modo de vida comunitário e democrático ainda podiam ser detectados na autogestão e no ritmo diário de suas relações sociais.

Tais povos estavam ligados, como em outras sociedades pré-capitalistas, por afinidades, proximidades ou mesmo ódio e hostilidade, mas de forma alguma por dinheiro.

Para ambos os viajantes, essas experiências, diz a autora, sublinhavam ou coroavam, de alguma forma, os efeitos da extraordinária notícia do que acabara de acontecer em Paris.

A Comuna abriu uma espécie de fenda no tempo, que permitia enxergar um passado comunitário acontecendo no presente de uma grande cidade europeia. Comunistas do mundo todo deram uma espiada e viram o futuro. Incluindo, claro, Marx e Engels.

Leia também: A Comuna de Paris e Joãosinho Trinta

18 de maio de 2021

A Comuna de Paris e Joãosinho Trinta

Continuamos a falar do “luxo comunal”, expressão destacada por Kristin Ross em seu livro sobre a Comuna de Paris. O conceito surgiu no manifesto da Federação dos Artistas de Paris, de abril de 1871.

A ideia era que a beleza desabrochasse nos espaços públicos e não apenas em lugares privados e vigiados. Que a arte se integrasse plenamente à vida cotidiana, ao invés de permanecer escondida em palacetes.

A arte precisava ser vivida - não supérflua ou fútil, mas vital e indispensável para a comunidade. Criada ao nível dos municípios autônomos, contra a organização centralizadora do espaço monumental. Mas jamais restrita aos limites locais. O manifesto falava em partir do luxo municipal rumo à República Universal.

Se nos livrássemos dos enormes custos do desperdício que financia o sistema de classes atual, argumentavam os comunardos, acabaríamos com a superprodução de pobreza e também com todas as dicotomias entre o prático e o belo, o utilitário e o poético, entre o que descartar e o que conservar. O luxo insano da sociedade atual não pode existir sem alguma forma de escravidão. Por isso, deve ser substituído pela igualdade em abundância.

Encontrar critérios de riqueza diferentes dos que impulsionam a corrida quantitativa por crescimento e superprodução era uma forma de imaginar e realizar a transformação social. Uma concepção que desmentia as imagens de pobreza da vida parisiense sob a Comuna, propagadas por seus inimigos.

O "luxo comunitário" negava a ideia da pobreza compartilhada. Oferecia um mundo absolutamente diferente: um mundo onde todos tivessem sua parte do melhor.

Ou como diria um famoso carnavalesco, “quem gosta de miséria é intelectual”.

Leia também: Paris nunca foi tão luxuosa como durante a Comuna

17 de maio de 2021

Paris nunca foi tão luxuosa como durante a Comuna

“Embora eu faça sapatos, tenho direito a tanto respeito quanto aqueles que acreditam trabalhar segurando uma pena”. Essas palavras são de Napoleão Gaillard e estão no livro “Luxo Comunal: o imaginário político da Comuna de Paris”, de Kristin Ross. Elas servem para mostrar uma das mais radicais inovações trazidas pela Comuna de Paris.

Segundo Kristin:

Ser reconhecido como artista ou como alguém que efetivamente "assina" sua criação é o que o sapateiro Napoleão Gaillard, que dirigia a construção das barricadas sob a Comuna, parecia ter em mente quando teve sua fotografia tirada à frente da barricada que desenhou na Place de la Concorde, apropriando-se do estatuto de autor ou artista.

 Antes da Comuna, diz ela:

O mundo estava dividido entre aqueles que podiam e aqueles que não podiam se dar ao luxo de brincar com palavras ou imagens. Superada esta divisão, como demonstra a expressão “luxo comunal”, o que conta mais do que todas as imagens expressas, as leis promulgadas ou as instituições estabelecidas, são as capacidades postas em prática, em movimento.

Era essa concepção que estava por trás da criação da Federação de Artistas de Paris. Sua proposta era subverter a relação hierárquica entre arte e indústria. Seu programa, a arte livre de toda tutela governamental e de privilégios ligados ao status social.

A Federação defendia uma união onde a dignidade de cada artista é protegida pela dignidade de todos os outros. Artistas "proletarizados" ao lado de artesãos orgulhosos de suas técnicas centenárias. Todos se tornando os novos trabalhadores das ocupações envolvendo o fazer artístico.

Se isso não é um luxo, nada mais é!

Leia também: Aprendendo com as escolas da Comuna

15 de maio de 2021

Aprendendo com as escolas da Comuna

“Luxo comunal”. Essa expressão utilizada no título do livro de Kristin Ross sobre a Comuna de Paris foi inspirada no Manifesto da Federação dos Artistas, publicado em abril de 1871. Este documento defendia a implementação de uma série de medidas revolucionárias em educação, artes e ciência.

Para começar, defendia uma educação “politécnica” ou “integral”, na qual é superada a divisão entre mãos e cabeça. Uma concepção pedagógica que buscava a criação de escolas onde meninas e meninos aprendem a ganhar a vida com seu trabalho, mas também se formam intelectualmente.

Durante o curto período de existência da Comuna, a educação tornou-se pública, gratuita, obrigatória e secular para todas as crianças, independente do sexo. Foram fechadas todas as escolas confessionais. Removidos crucifixos e imagens religiosas das instituições de ensino.

Também foi criada uma escola profissional de arte industrial para meninas. Nela, se ensinava desenho, escultura em madeira, argila e marfim, assim como cursos de aplicação do desenho e da arte à indústria.

As bibliotecas públicas foram reorganizadas para permitir amplo acesso à “plebe”. Professores do sexo masculino e feminino passaram a receber igual remuneração. O trabalho prático e a educação física alternavam-se com o estudo de teorias científicas e artes industriais.

Ou seja, diz Kristin, para os comunardos, aquele que maneja uma ferramenta também deve ser capaz de escrever um livro. O artesão deve relaxar de seu trabalho diário cultivando as artes, letras ou ciências, sem deixar de ser um produtor. Produzir não só pelos braços, mas também pela inteligência.

Na próxima pílula, o sapateiro que construía barricadas como se fossem obras de arte.

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13 de maio de 2021

Elisabeth Demetrioff nas barricadas da Comuna

Continuamos acompanhando a trajetória de Elisabeth Demetrioff, seguindo os relatos do livro “Luxo Comunal: o imaginário político da Comuna de Paris”, de Kristin Ross.

Em 11/04/1871, a jovem militante russa ajudava a fundar a União das Mulheres em Defesa de Paris e Socorro aos Feridos. A maior e mais eficaz das organizações da Comuna, criou comitês que se reuniam diariamente em quase todos os distritos parisienses. Participavam dela uma grande variedade de trabalhadoras, mas a maioria vinha das tecelagens.

O objetivo da União era uma reorganização completa do trabalho feminino, pondo fim à desigualdade econômica com base no gênero. Como o próprio nome indica, suas integrantes respondiam tanto pela assistência aos caídos em combate, como pela construção de barricadas, onde também empunhavam armas.

A União não estava interessada em demandas parlamentares. Para elas, a participação na vida pública nada tinha a ver com o direito ao voto. Preocupava-as muito mais encontrar trabalho remunerado para as mulheres. Criar cooperativas destinadas a se desenvolver para além das muralhas da cidade. Entrar em contato com associações semelhantes na França e no exterior, para facilitar a troca de produtos.

Era a comuna russa que Elisabeth conhecia tão bem sendo criada em uma grande capital europeia. Seus princípios coletivos e solidários vieram do passado nacional eslavo. Mas na urbanizada Paris, poderiam tornar-se internacionalistas, cultivados no laboratório comunitário da Comuna, ao mesmo tempo em que serviam para dissolver a burocracia estatal.

À frente disso tudo, Elisabeth Demetrioff e suas companheiras. Transformando algumas belas ideias em atos libertadores para as grandes maiorias exploradas e oprimidas.

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