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27 de janeiro de 2022

A marca de Caim do proletariado

Em um artigo publicado em 2014, o marxista canadense Bryan Palmer expõe uma caracterização do proletariado que valoriza a expropriação/desapossamento:

A expropriação é uma experiência altamente heterogênea, já que nenhum indivíduo pode se tornar despossuído precisamente da mesma forma que outro, ou viver esse processo de alienação material exatamente como outro o faria. Ainda assim, o desapossamento em geral define a proletarização. É a metafórica marca de Caim estampada em todos os trabalhadores, independentemente do nível de emprego, frequência de pagamento, status, condição de assalariado ou grau de ausência de assalariamento.

O título do texto é “Reconsiderations of Class: Precariousness as Proletarianization” e a citação aparece no livro “A classe trabalhadora: de Marx ao nosso tempo”, de Marcelo Badaró. Ela ajuda a mostrar que a exploração e a opressão assumem variadas formas, mas todas são reconhecíveis facilmente por quem as sofre.

Encerrando seu livro, Badaró afirma:

Reconhecer a heterogeneidade, a diversidade e a dinâmica histórica do sujeito coletivo classe trabalhadora, sem perder de vista sua existência como unidade relacional, é um desafio para o qual acredito que estejamos mais bem acompanhados com Marx.

O grande revolucionário alemão e seu parceiro Engels não disseram tudo sobre o proletariado e seu potencial revolucionário. Mas deixaram elementos suficientes, tanto teóricos como práticos, para armar os explorados e oprimidos não só por sua libertação, mas pela própria emancipação humana. Aquela capaz de libertar não só os que sofrem as injustiças da dominação, mas também os que exercem vergonhoso papel na condição de dominadores.

Encerram-se aqui os comentários sobre o livro de Badaró, com fortes recomendações para sua leitura.

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26 de janeiro de 2022

Marx e as feministas marxistas

Em seu livro “A classe trabalhadora: de Marx ao nosso tempo”, Marcelo Badaró destaca a importância de abordagens como a “teoria feminista/marxista unitária”. O autor destaca essa proposta por basear-se na elaboração de Marx como “crítica de uma totalidade articulada e contraditória de relações de exploração, dominação, e alienação”.

Dessa forma, afirma ele, torna-se possível “interpretar as relações de poder baseadas no gênero ou orientação sexual como momentos concretos daquela totalidade articulada, complexa e contraditória que é o capitalismo contemporâneo”. Entendendo ainda que “a opressão de gênero e a opressão racial não correspondem a dois sistemas autônomos que possuem suas próprias causas particulares: eles passaram a ser uma parte integral da sociedade capitalista através de um longo processo histórico que dissolveu formas de vida social precedentes”.

Em “O capital”, continua nosso autor, Marx expôs o drama do trabalho industrial feminino. No entanto, essa forma de opressão não foi desenvolvida por ele, mas por feministas marxistas que escreveram um século depois e apontaram para a centralidade do trabalho reprodutivo. Especialmente, o desempenhado de forma não remunerada pelas mulheres na família proletária, como elemento essencial à manutenção, reprodução (biológica e social) e regulação do preço da força de trabalho.

Esse é um dos melhores exemplos de como uma reflexão que reconhece as insuficiências de certas discussões específicas na obra de Marx encontra quase sempre respostas mais ricas do que em seus próprios escritos.

Mais uma vez dimensões importantes do proletariado ganham concretude nos embates cotidianos contra o domínio do capital em suas dimensões econômica e social. Nas lutas contra a exploração e contra a opressão.

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Mariátegui e a consaguinidade revolucionária indígena
As feministas que leem Marx não estão contentes

25 de janeiro de 2022

Mariátegui e a consaguinidade revolucionária indígena

O realismo de uma política revolucionária, segura e precisa, na avaliação e utilização dos fatos sobre os quais cabe atuar nesses países em que a população indígena ou negra tem proporções e papel importantes, pode e deve converter o fator raça em um fator revolucionário. É imprescindível dar ao movimento do proletariado indígena ou negro, agrícola ou industrial, um caráter nítido de luta de classes.

O trecho acima é do livro “Sete ensaios de interpretação da realidade peruana”, de José Carlos Mariátegui, destacado por Marcelo Badaró em seu livro “A classe trabalhadora”.

Para Badaró, a elaboração do revolucionário peruano consegue:

...ao mesmo tempo, rejeitar o eurocentrismo do projeto “civilizatório” do capital e proclamar a universalidade do projeto emancipatório socialista, entendendo o vínculo necessário entre as demandas específicas dos indígenas peruanos (relacionadas à questão da terra e da exploração do trabalho, sob a égide do capitalismo em sua fase imperialista) e a luta internacional do proletariado pela revolução socialista.

Mariátegui morreu em 1930, mas sua obra permanece válida como mostra o protagonismo indígena em lutas nas mais variadas frentes. Os zapatistas liderando a última grande insurreição do século passado. Na América andina, indígenas arrancando conquistas de seus governos. Em terras brasileiras, os povos da floresta são vanguarda na luta contra o agronegócio.

Se a obra de Marx e Engels já apresentava alguns desses elementos, seu seguidor peruano usou da necessária criatividade revolucionária para a atualizar: “A consanguinidade do movimento indígena com as correntes revolucionárias mundiais é demasiado evidente para que precise documentá-la”, disse Mariátegui. Mais que as teorias, são as lutas que o comprovam.

Leia também: A revolução permanente dos povos colonizados

24 de janeiro de 2022

A revolução permanente dos povos colonizados

“Na década de 1850, Marx já antevia a possibilidade de que as lutas de classes nas colônias asiáticas (China e Índia em especial) tivessem impacto decisivo no processo da revolução proletária europeia”. A afirmação é de Marcelo Badaró, em seu livro “A classe trabalhadora: de Marx ao nosso tempo”.

Além disso, destaca novamente Badaró, em “O capital”, o revolucionário alemão afirmou taxativamente que “o trabalho de pele branca não pode se emancipar onde o trabalho de pele negra é marcado a ferro”.

Esses elementos mostram o equívoco da ideia de uma classe trabalhadora europeia, branca, masculina e reunida em fábricas como única capaz de protagonizar processos revolucionários.

A própria Revolução Bolchevique foi uma grande refutação prática dessa concepção. Na Rússia czarista, o campesinato era a enorme maioria da população. O capitalismo apresentava-se em um nível de desenvolvimento muito inferior ao do britânico, francês e alemão. Ainda assim, uma revolução socialista foi possível graças à utilização criativa do conhecimento acumulado por décadas de lutas dos explorados contra o capitalismo nos mais diferentes países.

Um dos principais responsáveis por isso foi Leon Trotsky, cuja teoria do desenvolvimento desigual e combinado procurava entender a dicotomia entre centro e periferia do sistema capitalista em sua etapa imperialista. Um esforço teórico que permitiu entender o processo russo como uma revolução permanente que pulou etapas, da autocracia à república soviética.

Também foi essa elaboração que levou, por exemplo, o marxista peruano José Carlos Mariátegui a perceber a especificidade das realidades latino-americanas e propor uma potencialidade revolucionária do elemento indígena nas lutas socialistas, ainda nos anos 1920.

Voltaremos a Mariátegui na próxima pílula.

Leia também: A origem heterogênea e multiétnica do proletariado

21 de janeiro de 2022

A origem heterogênea e multiétnica do proletariado

No livro “A hidra de muitas cabeças”, Peter Linebaugh e Marcus Rediker fazem uma crítica à obra de E. P. Thompson, cuja elaboração sobre a origem da classe operária inglesa foi fundamental, mas apresenta lacunas importantes .

Marcelo Badaró apresenta esse debate no livro “A classe trabalhadora: de Marx ao nosso tempo”, para ressaltar a origem heterogênea e multiétnica do proletariado moderno, formado a partir de “escravizados africanos levados à força para as Américas; imigrantes pobres europeus, expropriados em suas regiões de origem (Inglaterra, Irlanda etc.) e muitas vezes enviados compulsoriamente para o Novo Continente; pobres urbanos e rurais da Inglaterra durante o processo de acumulação primitiva”.

Desse modo, diz nosso autor, “onde Thompson teria visto um ‘movimento inglês’ por uma ‘democracia inglesa’, Linebaugh e Rediker perceberam uma circulação atlântica de ideias e enfatizaram que a ‘parte mais vigorosa do debate não vinha de nenhuma experiência nacional isolada, fosse inglesa ou outra qualquer’”. Segundo eles, Thompson não atenta para as conexões com o imperialismo e simplesmente ignora o colonialismo, com sua crescente e significativa influência sobre as vidas das classes subalternas ao longo do século 19.

O que Linebaugh e Rediker fizeram
, diz Badaró, foi retomar o que Marx já dizia nos anos 1870 e 1880. Nessa época, ele afirmou ser impossível “tomar o caso inglês de formação da classe trabalhadora, abordado em ‘O capital’, como modelo de validade universal”.

“Circulação atlântica de ideias” diz respeito ao colonialismo e principalmente à escravidão. Mas também ao caráter necessariamente plural e multidimensional da emancipação proletária. Algo que Marx, Engels e seus melhores seguidores jamais perderam de vista.

Lei também: A consciência de classe como ponto de chegada

19 de janeiro de 2022

A consciência de classe como ponto de chegada

“Classe e consciência de classe são sempre o último e não o primeiro degrau de um processo histórico real”. Esta frase está no livro “A classe trabalhadora: de Marx ao nosso tempo”, de Marcelo Badaró.

Mas a citação pertence ao livro “A formação da classe operária inglesa”, de E. P. Thompson. Publicada em 1963, a obra mostrou-se valiosa ao afirmar algo que para Marx e Engels era óbvio, mas parecia esquecido. A consciência de classe não pode surgir se não das experiências concretas do proletariado.

Em um famoso trecho, Thompson diz:

A classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si, e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus. A experiência de classe é determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os homens nasceram – ou entraram involuntariamente. A consciência de classe é a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais: encarnadas em tradições, sistemas de valores, ideias e formas institucionais. Se a experiência aparece como determinada, o mesmo não ocorre com a consciência de classe.

Mas um grande problema da antológica obra do historiador inglês é seu descuido em relação ao colonialismo. A experiência operária descrita por ele limita-se às experiências do proletariado inglês.

Para fazer o contraponto, Badaró cita, entre outras obras, “A hidra de muitas cabeças”, de Peter Linebaugh e Marcus Rediker. Lançado originalmente em 2000, o livro mostra que o proletariado tem muitas cores, origens, culturas. Será tema da próxima pílula.

Leia também: A classe trabalhadora e suas múltiplas determinações

18 de janeiro de 2022

A classe trabalhadora e suas múltiplas determinações

“Como a totalidade da realidade concreta, a classe trabalhadora também é uma síntese de múltiplas determinações”. Esta frase do livro “A classe trabalhadora: de Marx ao nosso tempo”, de Marcelo Badaró, oferece uma chave importante para o debate sobre as chamadas “lutas identitárias”.

Sendo constituída por múltiplas determinações, a classe trabalhadora não pode, por exemplo, ser reduzida a sua dimensão branca, masculina, industrial e submetida apenas a relações formais de trabalho.

Como esclarece o autor, a maior parte das sociedades do passado não se enxergava dividida em classes. Desde o século XIX, porém:

...é possível dizer que parcelas expressivas de homens e mulheres que vivem do próprio trabalho passaram a se definir como pertencentes a uma mesma classe, distinta de outra(s). Classe se somou a um repertório de parâmetros de identificações coletivas compartilhadas (compatriotas, cidadãos, membros do mesmo sexo ou gênero, autoidentificações étnico-raciais etc.) para expressar uma desigualdade fundamental.

Ou seja, Badaró nos permite ver que as pessoas concretas que formam a classe trabalhadora carregam elementos identitários que as definem das mais variadas formas. E a condição proletária não elimina essas determinações, muito menos as simplifica.

Como diz o autor, o que se expressa é uma “desigualdade fundamental”. Múltiplas determinações implicam múltiplas contradições. Trabalhadoras e trabalhadores não se definem apenas pelas relações econômicas a que estão submetidos. As dimensões opressivas de gênero, etnia, orientação sexual, entre outras, também concorrem para manter a dominação. Mas tal situação não necessariamente inviabiliza uma síntese que permita à classe entender-se como única na diversidade e unida na luta contra suas adversidades.

Continuaremos debatendo como isso seria possível na próxima pílula.

Leia também: A permanência do proletariado

17 de janeiro de 2022

A permanência do proletariado

Em meio ao intenso e legítimo debate sobre as chamadas lutas “identitárias”, um livro como “A classe trabalhadora: de Marx ao nosso tempo”, de Marcelo Badaró, traz importante contribuição.

A obra do historiador e militante marxista procura recolocar alguns fundamentos das concepções de Marx e Engels que costumam ser esquecidos ou ignorados até por muitos marxistas.

Para começar, eis a tese defendida por Badaró: “a classe trabalhadora, também chamada de proletariado, tal como aparece na obra de Karl Marx, continua tendo validade como categoria analítica para o entendimento da vida social sob o capitalismo”.

E um primeiro esclarecimento a ser feito envolve o conceito de “classe operária”. Segundo o autor, na língua alemã em que foram escritas as obras de Marx e Engels não há expressão equivalente.

Marx utilizava denominações que podemos traduzir literalmente como “classe trabalhadora” ou “proletariado”. Um termo, diz o autor, que é ao mesmo tempo mais rigoroso e mais abrangente do que classe operária.

Nos textos dos fundadores do materialismo histórico, o conceito de “proletariado” aparece, quase sempre, associado àqueles que não possuem outra forma de sobreviver numa sociedade de mercadorias, a não ser vendendo sua força de trabalho como mercadoria.

Nos “Manuscritos econômico-filosóficos”, de 1844, Marx adota o conceito a partir do latim “proletarius” (aquele que é definido apenas por si e sua prole, seus filhos). Portanto, nunca o restringiu ao operariado industrial.

E segundo essa definição, nas sociedades desenvolvidas, o proletariado da indústria e dos serviços representa de dois terços a quatro quintos da população ativa. Ou seja, o proletariado continua majoritário e ainda tem pesadas correntes a romper.

Continua...

Leia também: O exército de trabalhadores e suas divisões econômicas