Doses maiores

Mostrando postagens com marcador Michael Parenti. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Michael Parenti. Mostrar todas as postagens

4 de setembro de 2023

Um palavrão com a letra C

“Quando certas palavras são eliminadas do discurso público, certos pensamentos também o são”, diz Michael Parenti no livro “Os camisas negras e a esquerda radical”.

É o caso de “classe”, exemplifica ele. Um vocábulo que, geralmente, é rejeitado porque expressaria uma noção marxista ultrapassada, sem relevância para a sociedade contemporânea. É curto, tem seis letras. Mas é tratado como um palavrão.

A partir disso, ficou fácil descartar outros conceitos politicamente inaceitáveis, como privilégio de classe, poder de classe, exploração de classe, interesse de classe e luta de classes. É a negação classista do conceito de classe.

A palavra iniciada com C também é um tabu quando aplicada aos milhões que fazem o trabalho da sociedade por salários geralmente mesquinhos, a “classe trabalhadora”.

A palavra iniciada com C é um termo aceitável apenas quando seguida do adjetivo tranquilizador “média”.

Ao incluir quase todos, a “classe média” funciona como um conceito convenientemente amorfo que mascara a exploração e a desigualdade das relações sociais. É um rótulo de classe que nega a realidade do poder de classe.

Essas são, sem dúvida, ótimas e oportunas observações do historiador e economista estadunidense.

Faltou apenas falar de duas palavras. A primeira é a palavra iniciada com F: fascismo. A segunda começa com B: burguesia. Nessa sopa indigesta de letras, muitas vezes é omitido que a segunda faz uso do primeiro sempre que lhe é conveniente.

Principalmente, quando tudo isso fica escondido sob o vocábulo “antifascismo”, que, isolado, costuma ser utilizado para esconder nexos causais comprometedores para as classes dominantes.

Antifascismo, mesmo, só acompanhado de outra palavra iniciada por A: anticapitalista!

Leia também: Engels e o trem suicida do progresso

29 de agosto de 2023

Engels e o trem suicida do progresso

Nós nos lisonjeamos demais por causa de nossas vitórias sobre a natureza. Para cada uma dessas vitórias, a natureza se vinga de nós. É verdade que cada vitória traz, em primeiro lugar, os resultados esperados, mas, no segundo e terceiro lugares, produz efeitos imprevisíveis e bastante diferentes, que muitas vezes anulam o primeiro. Assim, a cada passo, somos lembrados de que não dominamos a natureza como um conquistador sobre um povo estrangeiro, como alguém que está fora da natureza – mas que nós, com carne, sangue e cérebro, pertencemos à natureza e existimos em seu meio...

As palavras acima são de Engels e estão no livro “Os camisas negras e a esquerda radical: fascismo racional e a derrubada do comunismo” do historiador e economista estadunidense Michael Parenti.

Parenti as utiliza para mostrar que desde muito tempo o capitalismo apresenta suas tendências ambientais destrutivas. Com sua ênfase incessante na exploração e na expansão, e a sua indiferença aos custos ambientais, diz ele, a essência do capitalismo, sua razão de ser, é converter a natureza em mercadorias e as mercadorias em capital, transformando a terra viva em riqueza inanimada. Por isso, conclui, a “ecologia é profundamente subversiva em relação ao capitalismo”.

O livro foi publicado em 1997, quando já tínhamos muitos sinais de que era urgente subverter o capitalismo também do ponto de vista ecológico. Quase trinta anos depois, o “trem do progresso” a que se referiu Walter Benjamin, lá em 1940, continua carregando a humanidade para o abismo. Mas a advertência de Engels é de 1876. Para ele já estava claro que o trem tomara o rumo errado.

Leia também: Os índios e o anjo desesperado