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12 de março de 2025

A ruptura necessária e urgente

Na série “Ruptura”, da Apple TV, uma empresa de tecnologia utiliza um procedimento em seus funcionários que separa as memórias de seu trabalho daquelas de sua vida particular. 

Em tempos de escala 6x1, em que muitos mal têm tempo para ter uma vida particular, é provável que muita gente considerasse essa amnésia laborativa uma verdadeira benção.

Mas um dos elementos interessantes da série é a tarefa que seus personagens principais executam. Em uma tela de computador, eles precisam selecionar números até que uma combinação aparentemente aleatória os faça desaparecer. Uma atividade sem um objetivo claramente definido.

Entre os fãs da atração circulam várias teorias sobre a misteriosa tarefa. Uma delas é a de que os funcionários estão participando de um processo de aprendizado de máquina, gerando algoritmos voltados para propósitos desconhecidos.

Seja qual for a explicação, na vida real esse tipo de coisa já existe faz tempo. Em seu livro “A Fábrica Digital”, Moritz Altenried estima que há 20 milhões de pessoas fazendo etiquetagem de dados para empresas como Google, Amazon e Tesla. Uma função que os algoritmos têm muita dificuldade de desempenhar.

O pagamento é feito por tarefa e acredita-se que a remuneração média seja inferior a dois dólares por hora. São trabalhadores que estão, principalmente, em países como Índia, Uganda, Palestina, Venezuela, Quênia e Líbano.

Essa atividade conhecida como trabalho com microdados não passa de precarização profissional. Está por trás do que muita gente pensa ser o funcionamento da inteligência artificial, mas é escravidão digital. Mais uma evidência de que a ruptura de que precisamos urgentemente é com o domínio do capital.

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15 de julho de 2022

A luta contra a exploração digital

Nos últimos comentários sobre o livro “A Fábrica Digital”, de Moritz Altenried, é importante destacar a persistência das lutas de resistência dos explorados, mesmo sob o capitalismo de plataforma.

O autor lembra, por exemplo, que em 2013 ocorreu em Bad Hersfeld, na Alemanha, a primeira greve em uma instalação da Amazon. Com o slogan “Não somos robôs”, os trabalhadores protestaram contra as formas de taylorismo digital encontradas nos centros de distribuição. A vigilância digital, a pressão por desempenho, bem como a natureza, às vezes, ilógica e impositiva da gestão algorítmica surgiram como problemas centrais ao lado de questões de remuneração e negociação coletiva.

Essas lutas vêm mostrando que a mais importante das contradições continua ser aquela entre capital e trabalho, diz Altenried. O setor de logística foi atingido por uma onda de lutas, desde o fechamento do Porto de Oakland, em 2011, até recentes greves e protestos em Hong Kong e Valparaíso, no Chile.

Na Europa, surgiram protestos dos trabalhadores da Amazon na Itália, Polônia, França e Itália. Os operários da Foxconn e de outras fábricas chinesas radicalizam cada vez mais suas lutas por melhores condições de trabalho.

Segundo Altenried, tudo isso também mostra que, apesar de toda a digitalização do processo produtivo das últimas décadas, o capitalismo continua a depender da exploração do trabalho vivo para sua existência.

Por outro lado, o trabalho vivo não apenas persiste como meio de produção fundamental, mas como resistência ao processo de destruição e degradação social de parcelas cada vez maiores da população mundial. Como alternativa à barbárie capitalista.

Abaixo todo o capitalismo, inclusive o digital.

Leia também: Trabalho aglomerado, exploração e contradições acumuladas

14 de julho de 2022

Trabalho aglomerado, exploração e contradições acumuladas

Hoje, milhões de trabalhadores estão conectados a plataformas de trabalho digital para filtrar fotos, testar softwares, transcrever áudios ou otimizar resultados de ferramentas de pesquisa. Muitas vezes, estão escondidos da vista e dispersos ao redor do mundo. Mas formam um componente crescente da classe trabalhadora digital, bem como da economia política da internete em geral.

Eles atuam no que se costuma chamar “crowdwork”. Conceito presente no livro “A Fábrica Digital”, de Moritz Altenried, ainda sem tradução do inglês. A palavra pode ser traduzida como “trabalho coletivo”, mas “trabalho aglomerado” talvez seja mais adequado.

Trata-se de atividade terceirizada por meio de plataformas online para pessoas trabalhando remotamente em seus dispositivos digitais, como laptops ou smartphones. Essas plataformas intermedeiam trabalho digital, definido pelo autor como aquele que envolve, principalmente, manipulação de dados.

Os “crowdworkers” costumam ser descritos como “contratados independentes”, mas não passam de mão-de-obra precarizada.

A tecnologia digital permite novos modos de padronização, decomposição, quantificação e vigilância do trabalho. Frequentemente, por meio de formas de gerenciamento, cooperação e controle total ou parcialmente automatizados.

A maioria das plataformas de crowdwork presta serviços a outras corporações, terceirizando tarefas junto a trabalhadores espalhados pelo mundo, em troca de remunerações irrisórias.

Há quem estime o número de trabalhadores registrados nessas plataformas em cerca de 70 milhões. Considerada a alta rotatividade, essa cifra pode ser consideravelmente menor. Mas, com certeza, ultrapassa os dois dígitos em milhões.

É muita exploração e são muitas as contradições. Mas uma e outras podem gerar resistência e lutas radicais. É o que veremos na próxima e última pílula desta série.

Leia também: Novo trabalho digital, velha exploração de gênero

13 de julho de 2022

Novo trabalho digital, velha exploração de gênero

Muitas mulheres que trabalham em plataformas digitais foram obrigadas a deixar seus empregos regulares para cuidar de idosos e familiares com doenças crônicas. Em vários países, isso aconteceu devido ao alto custo dos serviços de atendimento e à ausência de um sistema público de saúde.

Segundo Moritz Altenried, em seu livro “A Fábrica Digital”, essas trabalhadoras se engajam no trabalho digital como única opção para ganhar algum dinheiro enquanto também cuidam de filhos, cônjuges ou parentes

Mas nada disso é novo. Em “O capital”, Marx cita serviços de costura e tecelagem feitos predominantemente em casa e quase exclusivamente por mulheres e crianças.

“A indústria doméstica, escreve Marx no século 19, tornou-se um departamento externo da fábrica”. Além dos operários das fábricas, “o capital também põe em movimento outro exército, por meio de fios invisíveis: os trabalhadores terceirizados nas indústrias domésticas”.

Essas formas de divisão do trabalho por gênero e sua organização social e espacial são importantes precursores da atual “economia do bico”. Na verdade, trata-se de uma reciclagem do velho acúmulo de tarefas que impõe múltiplas e exaustivas jornadas diárias de trabalho às mulheres.

A grande ironia é que há até 50 anos, grande parte das tarefas de computação em projetos científicos ou industriais era feita por mulheres formadas em matemática e outras ciências exatas. Foram algumas dessas mulheres que executaram os cálculos para o programa espacial estadunidense antes da implantação dos computadores.

Mas o reconhecimento público pelo desenvolvimento da computação foi colhido por cientistas e engenheiros homens. E não faltam denúncias do velho machismo no “inovador” Vale do Silício.

Leia também: O Turco Mecânico da Amazon

12 de julho de 2022

O Turco Mecânico da Amazon

Em seu livro “A Fábrica Digital”, Moritz Altenried relata que, ao construir seu mercado online, a Amazon tentou desenvolver um software capaz de reconhecer automaticamente todos os produtos duplicados e inadequados em seu site. Mas a inteligência artificial não conseguiu dar conta da tarefa. Para sanar o problema, a empresa desenvolveu a plataforma “Mechanical Turk”, terceirizando o trabalho para uma multidão de internautas.

Outras empresas começaram a copiar a solução e hoje são milhares de plataformas nas quais trabalham milhões de pessoas encarregadas de tarefas repetitivas, mentalmente desgastantes e psicologicamente abusivas, em troca de alguns centavos por hora.

Estima-se que são 20 milhões fazendo etiquetagem de dados para empresas como Google, Amazon e Tesla. Ou removendo imagens de violência e pornografia infantil em plataformas como o Facebook.

Essas pessoas são pagas por tarefa e acredita-se que o salário médio seja inferior a 2 dólares por hora. Estão, principalmente, na Índia, Uganda, Palestina, Venezuela, nos campos de refugiados de Dadaab, no Quênia, e de Shatila, no Líbano.

Muitas vezes, são pagos com “pontos” ou cartões, que só podem ser usados em sites ou lugares específicos, ferindo a legislação trabalhista de muitos países. É o equivalente digital do sistema de “barracões” das fazendas de trabalho escravizado do mundo presencial.

“Mechanical Turk” era um boneco com roupas árabes que ficou muito famoso no século 18 jogando xadrez com seres humanos. Na verdade, era um dispositivo que escondia uma pessoa, que movia as peças em uma posição muito desconfortável.

Até quando escolhe o nome de um de seus dispositivos de superexploração de trabalho humano, a Amazon capricha no cinismo.

Leia também: Os garimpeiros de ouro das fábricas digitais

11 de julho de 2022

Os garimpeiros de ouro das fábricas digitais

Estima-se que entre 400 mil e um milhão de trabalhadores digitais “garimpam ouro” em ambientes de videogames no mundo todo.

Funciona assim: há áreas de alguns videogames muito populares destinadas à coleta de pontos simbolizados por ouro ou outras formas de riqueza. Os garimpeiros entram neles apenas para cumprir essa tarefa, utilizando contas inventadas por seus “empregadores”. A premiação recolhida é posteriormente vendida a outros participantes.

Também há pessoas pagas para avançar pelos vários níveis do jogo, acumulando poder, habilidades, armas e pontos. Depois, a conta é entregue ao comprador, que economiza tempo e esforço.

Uma terceira forma de trabalho digital consiste em formar grupos com dezenas de jogadores de alto nível, que agem como um exército de mercenários virtuais para clientes que precisam de apoio para lutar contra inimigos nos níveis finais dos jogos.

Por ser uma indústria global paralela, é difícil estimar o tamanho das receitas desse tipo de atividade, mas estima-se que variam de US$ 300 milhões a US$ 10 bilhões anuais.

Um dos garimpeiros descreve seu cotidiano: “Sete dias por semana, fazendo pelo menos 10 horas de garimpagem, olhando para a tela do computador, parado no mesmo cenário do jogo”. Mas há problemas mais graves.

Os jogos são compartilhados por milhares de participantes. Como a grande maioria é recrutada em países periféricos, quando os “garimpeiros” são surpreendidos pelos jogadores regulares, costumam receber pesadas ofensas racistas e, muitas vezes, são eliminados por hordas de participantes que concentram neles seus ataques.

As informações acima estão no livro “A Fábrica Digital”, de Moritz Altenried. Mostram como é brutal o jogo do capitalismo digital.

Leia também: O taylorismo do capitalismo digital

8 de julho de 2022

O taylorismo do capitalismo digital

Em seu livro “A Fábrica Digital”, Moritz Altenried mostra como a atividade do selecionador de mercadorias em grandes depósitos como os da Amazon e Walmart constitui um excelente exemplo do que ele chama de taylorismo digital: “A inserção do trabalho humano em máquinas algorítmicas complexas de forma a inverter a relação entre tecnologia e trabalho humano”.

Esses funcionários, diz Altenried, atuam como meros executores de softwares que ditam o caminho que eles devem percorrer pelo espaço codificado nos enormes galpões. Mas cita um relatório de 2014, de um centro de logística da Amazon, na Alemanha, para evidenciar a persistência de antigos métodos de controle e vigilância:

XY (funcionário) estava inativo em 29.08.2014 no horário de 07:27h até 07:36h (9 minutos). A ocorrência foi feita por XA (supervisor) e XB (gerente de área). XY e XZ (funcionários) estavam conversando entre os locais de recebimento 05-06 e 05-07 no transportador de nível 3 no Hall 2. Já em 01.10.2014, XY ficou inativo entre 08:15h e 08:17h (2 min). Fato observado por XC (líder) e XD (gerente de área). XY voltou do banheiro junto com XW (funcionário) às 08:15h. Depois disso, conversou com XV no Hall 2 durante 01:01 minutos, voltando ao trabalho às 08:17h.

O autor adverte, porém, que uma diferença crucial em relação ao taylorismo original é que sua aplicação na fábrica digital pode reunir diferentes trabalhadores sem homogeneizá-los em termos espaciais ou subjetivos. O trabalhador digital está longe de ser massificado como seu equivalente industrial. E isso traz novos e maiores desafios para a luta permanente contra a exploração e opressão capitalistas.

Continua...

7 de julho de 2022

Gestão científica (e digital) da exploração

Em seu livro “A Fábrica Digital”, Moritz Altenried conta que a Companhia Siderúrgica Bethlehem iniciou suas atividades em Baltimore, Maryland, em 1916. O engenheiro Frederick W. Taylor fez uma contribuição fundamental para o sucesso da empresa.

Ele criou uma teoria de administração centrada na separação entre planejamento e execução, decomposição e padronização das tarefas e vigilância meticulosa dos operários. Mudanças cruciais para racionalizar o fluxo de trabalho, mas principalmente para tentar quebrar a resistência dos trabalhadores.

Também em Baltimore, quase cem anos depois, os 4.500 trabalhadores das duas unidades locais da Amazon ganham cerca de metade do que seus predecessores ganhavam na Bethlehem. Muitos deles só trabalham meio período e dependem de cupons de alimentação fornecidos pela prefeitura.

Os locais de trabalho são saturados de software. A produtividade de cada funcionário é automaticamente medida e comparada com a dos demais. Quem não atinge as cotas é dispensado. Anualmente, são, pelo menos, trezentos demitidos por causa de sua “baixa produtividade”.

Esse novo taylorismo não está mais vinculado à arquitetura disciplinar da fábrica clássica. De fato, a fábrica digital de hoje pode assumir muitas formas diferentes. E não apenas na Amazon, mas em companhias como Uber, Facebook, Walmart e outros gigantes do capitalismo de plataforma.

A tecnologia digital permitiu uma atualização peculiar da gestão científica da exploração do trabalho. Mas Altenried adverte que é preciso evitar proclamá-la como novidade absoluta. Ao invés disso, é importante buscar continuidades, ecos e reconfigurações dos regimes anteriores. Até para criar novas formas de resistência a partir das lições aprendidas em antigas lutas contra o inimigo de sempre: o grande capital.

Continua...

Leia também: Contêineres, capitalismo digital e revolução logística

6 de julho de 2022

Contêineres, capitalismo digital e revolução logística

Em 1956, foi embarcado no porto de Nova Jersey o primeiro contêiner cujo modelo viria a ser adotado no mundo todo. 

Essa inovação representou, em primeiro lugar, um golpe nas organizações sindicais dos portos. Tradicionalmente combativos, os portuários viram seu poder de mobilização fragilizado pela drástica diminuição de suas ocupações devido à “conteinerização”.

Mas em seu livro “A Fábrica Digital”, Moritz Altenried também diz que a introdução dos contêineres revolucionou a logística, tornando o manejo e a circulação das mercadorias elementos cruciais do próprio processo produtivo.

O autor lembra que em seus esboços para “O Capital”, Marx chegou a argumentar que no capitalismo o comércio tende a deixar de ser uma função que ocorre entre momentos independentes da produção para se tornar inerente a ela.

Altenried considera a computação digital bastante semelhante ao contêiner, com seus modelos de padronização, modularização e processamento. A tecnologia digital se espalhou e agora permeia a maioria das operações logísticas, contribuindo para a aceleração da circulação global, afirma ele.

Um impacto crucial da revolução logística impulsionada por contêineres e algoritmos é uma mudança de poder entre empresas que produzem bens e aquelas que os vendem. Segundo Altenried, a ascensão de gigantes do varejo Amazon e Walmart, duas das maiores e mais importantes corporações da economia atual, além da gigante chinesa Alibaba, está intimamente ligado à revolução logística.

Mas, mesmo assim, esses enormes centros de distribuição permanecem altamente dependentes do trabalho humano. E é para dar conta de mantê-lo disciplinado e produtivo que o capitalismo de plataforma precisa do que nosso autor chama de “taylorismo digital”. Tema da próxima pílula.

Leia também: A disciplina de fábrica da Amazon

5 de julho de 2022

A disciplina de fábrica da Amazon

Em muitos centros de distribuição (CD) da Amazon espalhados pelo mundo, há pôsteres enormes com o slogan: “Trabalhe duro. Divirta-se. Faça história". Em regime de turnos que variam de acordo com as condições e regulamentações locais, esses lugares empregam normalmente entre mil e quatro mil trabalhadores. São, principalmente, selecionadores, cuja função é recolher mercadorias nas prateleiras. “Tudo aqui tem código de barras, até eu”, explica um deles.

O armazenamento não depende de agentes humanos que conheçam a posição dos itens, mas de um algoritmo. Somente o software da Amazon sabe exatamente onde cada mercadoria está armazenada e pode orientar os trabalhadores até ela. Em casos de problemas no programa ou falta de energia, o estoque instantaneamente se torna uma bagunça onde nada pode ser encontrado. Quando o sistema funciona, porém, otimiza tanto a capacidade de armazenamento quanto a eficiência das operações do depósito.

O CD é mapeado de acordo com o tempo que os trabalhadores levam para se deslocar entre locais identificáveis. Essas instalações são espaços algoritmicamente organizados, governados pela velocidade e eficiência.

Os selecionadores recebem metas de desempenho que variam entre 60 e 180 coletas por hora. No entanto, as metas parecem aumentar ao longo do tempo: “Depois de atingir minhas metas, elas quase sempre são mais altas no dia ou hora seguintes”, relatou um funcionário da unidade de Leipzig, Alemanha.

As informações acima estão no livro “Fábrica Digital”, de Moritz Altenried. Mostram o quanto de trabalho humano superexplorado e disciplinado está por trás do chamado capitalismo digital. E como sua organização se parece muito com a do modelo fabril clássico.

Continua nas próximas pílulas.

Leia também: A exploração humana nas fábricas digitais

4 de julho de 2022

A exploração humana nas fábricas digitais

Moritz Altenried é pesquisador da Universidade Humboldt, de Berlim, e lançou recentemente um livro sobre o trabalho em plataformas digitais. Ainda sem edição em português, o título original em inglês pode ser traduzido como “A Fábrica Digital - O Trabalho Humano da Automação”.

O autor começa dizendo que, aparentemente, as fábricas perderam o papel central que ocuparam por mais de um século na maioria das análises sobre o capitalismo. Mas isso não quer dizer que não haja uma lógica fabril que persistiu para além do declínio das grandes construções de cimento e aço. Altenried enxerga essa dinâmica, especialmente, em empresas como Google, Amazon, Facebook, Uber e outras gigantes do chamado capitalismo de plataforma.  Segundo ele, a investigação presente no livro:

...abrange locais que nem sempre parecem fábricas, mas onde sua lógica e funcionamento estão muito presentes, frequentemente acelerados pela crescente difusão da tecnologia digital. São funcionários de digitalização do Google na Califórnia; trabalhadores de depósitos na Alemanha ou Austrália; testadores e elaboradores de jogos eletrônicos ou moderadores de conteúdo na China e Filipinas; entregadores da Deliveroo ou avaliadores de mecanismos de busca no Reino Unido e Hong Kong; motoristas do Uber em Berlim e Nairóbi. Todos estes trabalhadores estão imersos na fábrica digital de hoje.

Esse contingente é formado principalmente por mulheres e migrantes precarizados e mal pagos, fazendo tarefas que a maioria das pessoas acha que são realizadas por algoritmos. Suas atividades são uma parte crucial, mas esquecida, do capitalismo digital contemporâneo. Tão ou mais exploradoras, opressoras e ambientalmente insustentáveis como aquelas desempenhadas em lugares encimados por chaminés.

Mais nas próximas pílulas.

Leia também: Entregadores na luta pela expropriação das plataformas capitalistas