Doses maiores

Mostrando postagens com marcador humanidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador humanidade. Mostrar todas as postagens

24 de maio de 2024

O que guerras e calamidades revelam sobre paz e normalidade

Uma das metáforas favoritas da grande mídia, governos e especialistas é a que compara a calamidade que atingiu o Rio Grande do Sul a uma guerra.
 
A imagem simbólica vem a calhar para lembrar a velha máxima de que uma das primeiras vítimas em uma guerra é a verdade. O que não faltam são mentiras e falsidades sobre a calamidade em terras gaúchas. As mais descaradas são obra das forças extremistas da direita. Mas também há distorções mais sutis, cometidas pela grande mídia em sua pesada disputa hegemônica.
 
Mas sejam guerras ou calamidades, é costume dizer que tais situações revelam o pior do ser humano. No caso das cidades gaúchas são saques organizados por milícias, batalhas entre quadrilhas, violência policial sob pretexto de defesa da ordem, distribuição de comida estragada, doações de coisas inúteis disfarçadas de caridade e outros exemplos desanimadores.
 
Tudo isso revelaria a verdadeira natureza humana: um oceano de egoísmo e falsidade cercando pequenas ilhas de solidariedade e boas intenções.
 
As noções mais básicas da sociologia, porém, recomendam que troquemos essa concepção genérica de “ser humano” pelo conceito menos vago de relações sociais. São nestas que imperam os valores do convívio social, não nos indivíduos que as compõem.
 
Eventos extremos não revelam a maldade e o egoísmo inerentes à espécie humana. Apenas acentuam as leis, regras, costumes, valores que regem certas sociedades em tempos de pretensa normalidade.

No caso de sociedades profundamente injustas como a nossa, nem mesmo os supostos momentos de paz e normalidade conseguem se distinguir de situações de guerras e catástrofes. É quando nenhuma metáfora dá conta da realidade.

Leia também: Solidariedade popular e valorização do capital

23 de abril de 2019

Futilidades da adolescência no comando

Um dos problemas mais discutidos nas ciências biológicas é o surgimento da vida. As condições necessárias para que isso aconteça são muito raras.

A transição do mundo inorgânico ao orgânico depende de uma combinação muito improvável de diversos fatores. Mas a transição da vida simples à mais complexa também é um grande problema.

“Mais de 2 bilhões de anos se passaram desde o primeiro procariota até o surgimento da primeira forma de vida morfologicamente complexa, chamada de eucariota”, diz Henrique Gomes, em sua coluna na Folha, publicada em 10/04/2019. E sem os eucariotas, não estaríamos aqui.

O colunista alerta, no entanto, para mais uma passagem importante. A da vida inteligente que se torna capaz de se comportar como espécie que governa a si mesma, sem colocar em risco a existência da grande maioria de seus próprios membros.

Para Gomes não é o que vem acontecendo:

Hoje, a tecnologia militar continua avançando. Mas Trump, Putin, Bolsonaro, Brexit e a revigoração de sentimentos e movimentos nacionalistas ao redor do mundo não aponta para maior coesão internacional. Ao contrário: um governo global parece cada dia mais improvável.

Essa disparidade entre evolução social e tecnológica aumenta a chance de que uma pequena nação (um estado? Uma cidade? Uma célula terrorista?) desenvolva e utilize armas devastadoras —um vírus apocalíptico, por exemplo— impedindo o desenvolvimento da espécie humana como um todo. Neste caso, a humanidade nunca atingiria seu potencial; ficaria presa nas futilidades da adolescência.

Futilidades da adolescência não são um mal em si. O problema é quando elas não só não terminam como governam nações importantes com o dedo no gatilho.

16 de abril de 2019

Quando de um buraco negro sai alguma luz

Cosmologia é o “ramo da astronomia que estuda a estrutura e a evolução do universo em seu todo, preocupando-se tanto com a origem quanto com a evolução dele”, dizem os dicionários.

Uma notícia correu o mundo recentemente: “Equipe internacional divulga primeiras imagens já feitas de um buraco negro”. É um momento histórico para a cosmologia, dizem os especialistas.

Entre outros motivos, porque também confirma previsões feitas mais de um século atrás por Albert Einstein.

Mas a primeira parte do título da notícia também deveria receber alguma atenção. A imagem foi obtida graças a oito conjuntos de observatórios espalhados pelo mundo, incluindo Europa, Estados Unidos, Chile e Polo Sul.

E contou com equipes internacionais ainda mais numerosas para processar o enorme volume de dados. É por isso que o anúncio do sucesso da missão foi feito em entrevistas coletivas simultâneas em Washington, Bruxelas, Santiago, Xangai, Taipé e Tóquio.

Todo este esforço internacional pode ser uma demonstração de que ainda temos alguma chance de nos comportar como espécie única, em meio a nossa rica diversidade e tantas contradições.

Mas não é a suposta neutralidade da ciência que leva a tais proezas. Trata-se de investimentos em termos de esforços humanos. E a conjugação destes últimos diz respeito mais ao que se conhece sobre relações sociais e políticas do que sobre equações matemáticas.

Quanto mais coletivas e solidárias, mais as iniciativas humanas podem levar a conquistas importantes para a humanidade como um todo. Não à toa, Einstein era socialista.

Do buraco negro nem a luz escapa. De acontecimentos como esse, alguma luz faísca.

Leia também:
A turbulenta infância da espécie humana

18 de setembro de 2016

Na pré-história, faça amor, não faça guerra

“First Peoples” é uma das mais recentes séries do PBS, canal educativo estadunidense. O documentário revela fatos muito interessantes sobre a trajetória que nossa espécie iniciou uns 200 mil anos atrás.

Há algum tempo, por exemplo, sabemos que não descendemos dos neandertais ou de outras linhagens humanas extintas, como o “Homo erectus”, o “Homo heidelbergensis” ou os Denisovanos. Elas correspondem a ramos evolutivos paralelos ao nosso.

Mas a série desmente uma crença que interessa aos que tentam tornar a competição selvagem característica inerente à natureza humana. A de que acabamos dominando o planeta porque usamos nossas capacidades superiores para eliminar rivais pré-históricos.

Claro que deve ter havido alguma hostilidade entre povos tão diferentes. Mas evidências mostram que os contatos amigáveis prevaleceram e levaram ao que os cientistas chamam de “hibridação”. Ou seja, ao bom e velho “faça amor, não faça guerra”. 

Um caso interessante é o da queratina. Herdada dos Neandertais, ela tornou nossa pele mais resistente a climas frios. Já os Denisovanos, deram aos tibetanos a capacidade de viver sem dificuldades a 4 mil metros de altura, graças à menor quantidade de hemoglobina em seu sangue.

Falando em sangue, há vários tipos de glóbulos brancos espalhados pelas populações humanas no planeta. Isso é bom porque aumenta nossa imunidade. E parte desta diversidade pode ser consequência dos carinhos que trocamos com nossos primos extintos.

Essas descobertas mostram como diversidade, tolerância e solidariedade foram importantes na formação da humanidade. Desautorizam teses conservadoras, que preferem acreditar em competição feroz e pureza racial.

Apesar disso, os defensores dessas ideias continuam por aí, rosnando e arrastando suas clavas .

Leia também: O oitavo passageiro somos nós

5 de novembro de 2015

A humanidade, entre o deserto e as estrelas

Na Alemanha, um grupo de astrônomos da Universidade do Ruhr conseguiu uma fotografia da Via Láctea. A imagem contém 46 bilhões de pixels e pode ser visualizada pelo site http://gds.astro.rub.de/.

Imaginemos que essa ferramenta online possibilitasse ao usuário observar o planeta Terra em detalhes. Poderíamos escolher visualizar o deserto do Atacama, no Chile. É lá que ficam os telescópios a partir dos quais foram feitas as imagens que viabilizaram a gigantesca foto.

Aumentando o zoom poderíamos ver grandes observatórios astronômicos. Mas, em torno deles, também notaríamos a presença de algumas pessoas vagando em meio às muitas rochas e poucos arbustos.

Aproximando ainda mais nossa lente virtual, notaríamos que são mulheres e que elas usam pequenas pás para revirar o terreno, levantando pedras e cavoucando o chão arenoso.

Se a ferramenta virtual também permitisse observar o passado, poderíamos encontrar os campos de concentração que foram construídos ali durante a ditadura Pinochet. Construções feitas para torturar e matar os que discordavam do regime.

Mas, hoje, os únicos sinais que sobram daqueles tempos tenebrosos são alguns restos mortais, preservados pelo ar seco do deserto. E são eles que aquelas mulheres procuram, tentando identificar parentes e companheiros “desaparecidos” pela ditadura.

Esta terrível história é contada no belo e triste documentário “Nostalgia da Luz”, de Patricio Guzmán. O filme mostra que nossa espécie continua muito indecisa.

Ainda precisamos resolver se vamos continuar a condenar mulheres a manter seus olhos voltados para o chão que molham com suas lágrimas, ou se vamos buscar nas estrelas e onde mais for possível o que nos pode fazer dignos dos mistérios do universo.