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31 de maio de 2023

Fake news: afinal, o que é a verdade?

A epidemia de fake news é um sintoma. Mostra que a noção do que é real ou não está em profunda crise. Aponta para a questão de saber o que, afinal, é a verdade?

Uma resposta possível é que verdadeiro é aquilo que nos aparece como realidade concreta. E, segundo Marx, o “concreto é a síntese de múltiplas determinações".

O concreto de que estamos tratando aqui diz respeito à realidade social. A realidade não social também é resultado de múltiplas determinações: é o caso das estrelas, dos fenômenos geológicos e climáticos etc. Mas somente a realidade dos relacionamentos entre pessoas está ao alcance da intervenção humana, mesmo que, em regra, esteja longe de ser plenamente consciente e, muitas vezes, produza resultados muito diferentes dos projetados.

Voltando a Marx, os “homens fazem a história, mas não sabem que a fazem”.

A realidade social é produto de determinações que surgem a partir das relações estabelecidas entre as forças vivas da sociedade. Forças conservadoras, revolucionárias, reacionárias, disruptivas. Para continuar no registro marxista, a realidade de uma sociedade de classes é produto contraditório da luta das classes que a compõem.

Tal como as outras esferas da vida humana, a ciência e o jornalismo também estão imersos nessa luta, mas pretendem captar e interpretar a realidade tal como ela é, acima das divergências.

Por muito tempo, essa pretensão foi amplamente aceita. Já não é mais. Resta saber o que explica que esse fenômeno esteja acontecendo no atual momento histórico e porque os piores ataques partem de forças conservadoras e fascistas.

É essa questão que a próxima pílula tentará abordar.

Leia também: A economia política das fake news

13 de novembro de 2018

Pequeno teste sobre mídias sociais

Pawel Kuczynski
Considere as seguintes afirmações sobre as mídias do mundo contemporâneo:

… distorceram lentamente nossos hábitos mentais e atrofiaram continuamente nossa capacidade e disposição de nos envolvermos uns com os outros como cidadãos responsáveis.

Sua ascensão e domínio na vida cotidiana de bilhões de pessoas a transformaram em um "meta-mídia", uma tecnologia que contém, estrutura, altera e continua muitas, se não todas, as formas de mídia anteriores.

Um instrumento que direciona não só o nosso conhecimento do mundo, mas as próprias formas de nosso conhecimento.

Funciona como um mito. Uma maneira de entender o mundo que não é problemático, não é totalmente consciente e que parece, em uma palavra, natural. Um mito é um modo de pensar tão profundamente enraizado em nossa consciência que é invisível.

As afirmativas acima correspondem a:

a) Televisão  (   )
b) WhatsApp  (   )
c) Facebook  (   )
d) Twitter  (   )
e) Todas as anteriores  (   )

Gabarito: trata-se de trechos adaptados do livro “Nos divertindo até morrer”, de Neil Postman. Como a obra é de 1985, a resposta lógica seria “a”.

Mas eles aparecem também no livro “Antisocial Media: How Facebook Disconnects Us and Undermines Democracy (Mídia antissocial: como o Facebook nos desconecta e enfraquece a democracia)”, de Siva Vaidhyanathan, historiador e pesquisador de mídia da Universidade da Virgínia. A publicação é de 2018 e ainda não tem tradução para o português.

Segundo esse autor, a resposta correta só poderia ser “c”. E, realmente, toda a argumentação do brilhante estudo de Vaidhyanathan mais que justifica a escolha.

Mas, cá entre nós, caberia recurso em defesa da alternativa “e”.

Leia também: Rir pra não pensar

9 de novembro de 2018

Rir pra não pensar

Em coluna publicada em 12/02/2017 na revista Época, Helio Gurovitz escreveu que o mundo da “pós-verdade” e “da anestesia intelectual” das redes sociais lembra menos "1984", de George Orwell, do que “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley.

A ideia vem do livro “Nos divertindo até morrer”, escrito em 1985 pelo teórico da comunicação estadunidense Neil Postman:

Na visão de Huxley, não é necessário nenhum Grande Irmão para despojar a população de autonomia, maturidade ou história”, escreveu Postman. “Ela acabaria amando sua opressão, adorando as tecnologias que destroem sua capacidade de pensar. Orwell temia aqueles que proibiriam os livros. Huxley temia que não haveria motivo para proibir um livro, pois não haveria ninguém que quisesse lê-los. Orwell temia aqueles que nos privariam de informação. Huxley, aqueles que nos dariam tanta que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade fosse escondida de nós. Huxley, que fosse afogada num mar de irrelevância”.

(...)

"Orwell temia que nossa ruína seria causada pelo que odiamos. Huxley, pelo que amamos”, escreve Postman. Só precisa haver censura, diz ele, se os tiranos acreditam que o público sabe a diferença entre discurso sério e entretenimento.

(...)

O alvo de Postman, em seu tempo, era a televisão, que ele julgava ter imposto uma cultura fragmentada e superficial, incapaz de manter com a verdade a relação reflexiva e racional da palavra impressa. (...) Mas suas palavras foram prescientes: “O que afligia a população em Admirável mundo novo não é que estivessem rindo em vez de pensar, mas que não sabiam do que estavam rindo, nem que tinham parado de pensar”.


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