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3 de dezembro de 2024

A Covid, criada e fortalecida pelo capitalismo canibal

Nancy Fraser encerra seu livro “Capitalismo canibal”, mostrando a pandemia da Covid como um “ponto onde todas as contradições do capitalismo canibal convergiram: onde a canibalização da natureza e do trabalho de cuidado, da capacidade política e das populações periferizadas se fundiram em uma farra letal”.

Para começar, foram os efeitos combinados do aquecimento global e do desmatamento que colocaram o vírus em contato com os seres humanos. Depois, os efeitos da Covid foram agravados por nossos governantes, que a serviço do capital, haviam transferido funções vitais do atendimento na saúde a prestadores de serviços, convênios, farmacêuticas e fabricantes movidos pelo lucro.

Sem a retaguarda dos poderes públicos, o isolamento sanitário despejou novas e importantes tarefas de cuidado sobre famílias e comunidades, principalmente sobre as mulheres. Muitas delas acabaram pedindo demissão para cuidar dos filhos e de outros familiares, enquanto muitas outras foram demitidas.

Trabalhadores cujas funções eram essenciais continuaram ganhando uma ninharia e sendo tratados como descartáveis. Eram profissionais de saúde, trabalhadores de frigoríficos e abatedouros, funcionários de varejistas gigantes, profissionais de limpeza hospitalar, entregadores de refeições, repositores de mercadorias e caixas de supermercados. A maioria deles, mal pagos, precarizados, não sindicalizados, sem benefícios e proteções trabalhistas.

Em cada um desses casos, o racismo e o sexismo estruturais se manifestaram, infectando e matando desproporcionalmente mais não brancos e mulheres.

Desse modo trágico, diz Nancy, a Covid iluminou com um raio intenso todos os terrenos ocultos de nossa sociedade. Portanto, conclui ela, é hora de descobrir como deixar o monstro morrer de fome e acabar, de uma vez por todas, com o capitalismo canibal.

Leia também: O capitalismo canibalizando o planeta

28 de novembro de 2024

O capitalismo canibalizando o planeta

Em seu livro “Capitalismo Canibal”, Nancy Fraser, afirma que expropriação e exploração atuam juntas e contribuem para a acumulação capitalista. A exploração transfere valor para o capital disfarçando a exploração sob uma suposta troca contratual livre. Já na expropriação, os capitalistas dispensam todas as aparências e confiscam pura e simplesmente os bens de outras pessoas, pelos quais pagam pouco ou nada. Por isso, a expropriação, longe de estar confinada aos primórdios do sistema, é um processo contínuo.

Uma das esferas em que isso acontece é a do trabalho doméstico e cuidados familiares, como vimos na última pílula. As expropriações ocorridas no âmbito da destruição ambiental constituem outra condição de fundo necessária para a produção de mercadorias e a acumulação de capital.

Já existia uma distinção entre a Humanidade, vista como espiritual, sociocultural e histórica, e a Natureza, vista como material, objetiva e a-histórica. Com o surgimento da ordem do capital, porém, essa divisão se aprofunda e o próprio planeta passa a ser canibalizado. 

Mas além disso, afirma Nancy:

...ao se apropriar da natureza, o capital expropria, ao mesmo tempo, as comunidades humanas para as quais a matéria confiscada e as cercanias conspurcadas constituem habitat, meios de vida e matéria base de sua reprodução social. Assim, essas comunidades assumem uma fatia desproporcional do peso ambiental global; e sua expropriação garante a outras comunidades (“mais brancas”) a chance de se protegerem, pelo menos por um tempo, dos piores efeitos da canibalização da natureza pelo capital.

É assim que a expropriação pós-colonial se combina à destruição ambiental. Voltaremos ao tema em breve.

27 de novembro de 2024

Reprodução social e expropriação capitalista

Marx chamou de expropriação ao processo que separa pessoas e comunidades dos recursos e instrumentos necessários para sua subsistência.

Um exemplo clássico de expropriação foi a expulsão dos camponeses europeus de suas terras comunais, obrigando-os a vender sua força de trabalho aos capitalistas. Outro foi a escravização de negros e indígenas, transformados em mão de obra barata e abundante, utilizada, especialmente, nas grandes plantações das colônias americanas.

Mas é um grande equívoco pensar que a principal fase da expropriação capitalista ficou para trás, uma vez que a grande maioria dos camponeses já foi expropriada e a escravidão legalizada foi extinta.

Como diz Nancy Fraser, em seu livro “Capitalismo Canibal”, a expropriação é um mecanismo contínuo de acumulação e permanece como condição importante para a viabilização da exploração capitalista. A questão é que assumiu formas não reconhecidas. Tarefas domésticas e cuidados familiares, por exemplo, não costumam ser remunerados. Ainda assim, é trabalho imprescindível para o processo de geração da mais-valia capitalista.

A divisão entre produção econômica e reprodução social surgiu com o capitalismo. Essa separação sustenta as modernas formas de subordinação das mulheres e a importância social do trabalho delas fica não apenas obscurecida, como mistificada pelo conservadorismo. Reproduzir a família é muitas vezes considerado uma obrigação religiosa. Mas o deus a que serve é o do capital.  

Algo semelhante, diz Nancy, ocorre na apropriação destrutiva da natureza e na “captura forçada e contínua da riqueza de povos subjugados”. Tais relações são igualmente tratadas como elementos externos às relações entre capital e trabalho.

Mas essas outras esferas da vida humana serão tema da próxima pílula.

Leia também: Capitalismo, uma serpente autofágica

14 de novembro de 2024

Capitalismo, uma serpente autofágica

“Capitalismo canibal: como nosso sistema está devorando a nossa democracia, o cuidado e o planeta e o que podemos fazer a respeito disso”. Este é o título do mais recente livro da filósofa estadunidense Nancy Fraser.

“O verbo ‘canibalizar’, explica ela, significa privar um estabelecimento ou empreendimento de um elemento essencial para seu funcionamento a fim de criar ou sustentar outro”. E isso se assemelha, continua o texto, “à relação entre a economia capitalista e os territórios não econômicos do sistema: famílias e comunidades, habitats e ecossistemas, capacidades estatais e poderes públicos que têm sua substância consumida pela economia para inflar o próprio sistema”.

Para a autora, capitalismo se refere não a um tipo de economia, mas a um tipo de sociedade: “uma sociedade que autoriza uma economia oficialmente designada a acumular valor monetarizado para investidores e proprietários ao mesmo tempo em que devora a riqueza não economicizada de todos os demais”.

Para Nancy, a sociedade capitalista é como Ouroboros, mitológica serpente que se canibaliza engolindo a própria cauda. Criatura condenada a devorar sua própria substância. O resultado é a “crise generalizada de toda a ordem social em que todas as calamidades convergem, exacerbando-se entre si e ameaçando nos engolir por inteiro”.

São crises econômicas, mas também crises de cuidado, ecologia e política. Todas “absolutamente afloradas hoje, cortesia do longo período de comilança empresarial conhecido como neoliberalismo”.

O debate proposto por Nancy pretende “conectar a perspectiva marxiana a outras correntes emancipatórias da teorização crítica: feminista, ecológica, política, anti-imperialista e antirracista”. Sempre do ponto de vista anticapitalista. Uma contribuição importante e mais necessária do que nunca.

Leia também: VAT, 6x1 e capital canibal

12 de novembro de 2024

VAT, 6x1 e capital canibal

A campanha pelo fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso (6x1) está bombando. Criada pelo vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ) foi encampada pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), que está tentando transformá-la em Proposta de Emenda à Constituição.

A proposta faz parte do movimento liderado por Azevedo, chamado Vida Além do Trabalho (VAT). Os operários do século passado tinham seu próprio VAT. Lutavam pelas 8 horas diárias de trabalho. Dessa maneira, sobrariam 8 horas para descanso e 8 horas para educação, conscientização e organização.

Mas a ocupação estafante e criadora de valor para o capital nunca se resumiu às horas exploradas pelos patrões, através de vínculos formais ou não.

Vida além do trabalho também são as ocupações domésticas, cujo principal objetivo é garantir a reprodução e manutenção da força de trabalho a ser explorada pelos patrões.

Vida além do trabalho é a destruição da natureza, provocando imensos prejuízos ambientais para a grande maioria, gerando enormes lucros para uma ínfima minoria.

Vida além do trabalho era a escravização humana nas antigas colônias e a atual precarização nas periferias do mundo, assegurando ganhos astronômicos para o grande capital.

Essas e outras esferas vitais são canibalizadas pelo grande capital para além de qualquer limite, sem qualquer contrapartida, reposição, compensação, tributação. Depois do trabalho, o que sobra não chega a ser vida.

Não há vida que escape à infinita e voraz gula do capital. É o que ensina, por exemplo, Nancy Fraser, ao mostrar em seu recente livro “Capitalismo canibal”, como é urgente matar o capitalismo de inanição. Voltaremos a comentá-lo, em breve.

Leia também: Jornada de trabalho e vampirização de almas