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12 de março de 2025

A ruptura necessária e urgente

Na série “Ruptura”, da Apple TV, uma empresa de tecnologia utiliza um procedimento em seus funcionários que separa as memórias de seu trabalho daquelas de sua vida particular. 

Em tempos de escala 6x1, em que muitos mal têm tempo para ter uma vida particular, é provável que muita gente considerasse essa amnésia laborativa uma verdadeira benção.

Mas um dos elementos interessantes da série é a tarefa que seus personagens principais executam. Em uma tela de computador, eles precisam selecionar números até que uma combinação aparentemente aleatória os faça desaparecer. Uma atividade sem um objetivo claramente definido.

Entre os fãs da atração circulam várias teorias sobre a misteriosa tarefa. Uma delas é a de que os funcionários estão participando de um processo de aprendizado de máquina, gerando algoritmos voltados para propósitos desconhecidos.

Seja qual for a explicação, na vida real esse tipo de coisa já existe faz tempo. Em seu livro “A Fábrica Digital”, Moritz Altenried estima que há 20 milhões de pessoas fazendo etiquetagem de dados para empresas como Google, Amazon e Tesla. Uma função que os algoritmos têm muita dificuldade de desempenhar.

O pagamento é feito por tarefa e acredita-se que a remuneração média seja inferior a dois dólares por hora. São trabalhadores que estão, principalmente, em países como Índia, Uganda, Palestina, Venezuela, Quênia e Líbano.

Essa atividade conhecida como trabalho com microdados não passa de precarização profissional. Está por trás do que muita gente pensa ser o funcionamento da inteligência artificial, mas é escravidão digital. Mais uma evidência de que a ruptura de que precisamos urgentemente é com o domínio do capital.

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21 de fevereiro de 2025

Trabalho concreto, gelatina e códigos binários

No livro “Concreto: arma de construção massiva do capitalismo”, Anselm Jappe mostra que o concreto armado, amplamente presente nas construções contemporâneas, causa sérios problemas como pouca durabilidade, manutenção dispendiosa, impactos ecológicos e incompatibilidade com muitas das necessidades humanas. Sua utilização serve única e exclusivamente às necessidades de valorização do capital.

Jappe, no entanto, enxerga no concreto uma outra propriedade. Ele lembra que para Marx, no capitalismo, o trabalho é composto por trabalho concreto e trabalho abstrato. O primeiro é aquele que é portador de um valor de uso específico. Por exemplo, o pão feito por um padeiro ou o software escrito por um programador.

Já o trabalho abstrato é “puro dispêndio de energia humana”, que não leva em conta o tipo de atividade ou produto final. Como lembra o autor, no capitalismo, nenhum trabalho importa por sua singularidade e utilidade imediata, mas por sua rentabilidade. O trabalho concreto é apenas “uma porção maior ou menor de uma única substância, sempre igual, sem conteúdo ou particularidades”. Não à toa, Marx compara o trabalho abstrato a uma “gelatina” e Jappe diz que isso impõe à modernidade uma simplificação grosseira, resumida na busca incessante pelo lucro.

A partir dessa definição, o autor considera o concreto armado uma manifestação perfeita do trabalho abstrato. Uma “substância” indiferenciada que invadiu nossas vidas por todo o planeta.

Faz todo sentido, mas talvez outra “substância” também venha cumprindo esse papel nas últimas décadas. São as redes digitais, que se impõem cada vez mais como mediação das relações humanas concretas, transformando-as em códigos binários armazenados em nuvens abstratas, que servem exclusivamente à circulação das mercadorias.

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24 de setembro de 2024

O imperialismo na fase digital do capitalismo

Há alguns anos, o governo federal vem assinando convênios com a Google. Um exemplo é o que foi anunciado em junho de 2023, visando facilitar o acesso a benefícios sociais e vacinas. Mas também há a utilização do gmail como correio eletrônico oficial de muitos órgãos públicos.

Em recente entrevista, o pesquisador especializado em tecnologia digital Evgeny Morozov, demonstrou preocupação com esse tipo de relação:

Se uma empresa se tornar o fornecedor padrão de serviços de análise de dados nos nossos ministérios da saúde, diz ele, o estado de bem-estar social permanecerá o mesmo ou serão privatizados pela Big Tech?

Ainda segundo Morozov:

Estamos perante a mesma situação que os teóricos da dependência descreveram nas décadas de 1960 e 1970: o progresso tecnológico ocorre em paralelo com a regressão econômica ou o subdesenvolvimento industrial.

Quando fala em teóricos da dependência, Morozov deve estar se referindo a nomes como Ruy Mauro Marini, André Gunder Frank, Theotonio dos Santos e Vania Bambirra. Segundo estes pensadores, o subdesenvolvimento dos países periféricos não é um estágio a caminho do desenvolvimento, mas resultado de sua inserção subalterna na economia mundial capitalista.

Vale a pena ler a longa entrevista na íntegra. Morozov manifesta muitas outras preocupações relacionadas às transformações provocadas pela tecnologia digital. Várias delas bastante pertinentes e esclarecedoras. Mas também faz afirmações polêmicas, como a necessidade de a esquerda buscar atender as demandas de uma “subjetividade pós-moderna”.

Pode até ser. Mas a persistência da validade da teoria da dependência em plena era das big techs parece demonstrar que continuamos mergulhados na velha modernidade capitalista. Também conhecida como imperialismo.

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3 de setembro de 2024

Quantidade ou qualidade: barbárie ou socialismo

Segundo Marx e Engels, a transformação da quantidade em qualidade é uma lei do funcionamento dialético da realidade. Por exemplo, a água permanece líquida até que atinja 100°C, quando se torna gasosa. Ou seja, pequenas mudanças se acumulam, criando uma complexidade cada vez maior, até que um estado mude repentinamente para outro, radicalmente diferente.

Na história das sociedades, tensões sociais e econômicas podem se acumular gradualmente até que uma onda revolucionária imponha uma nova ordem social, qualitativamente diferente da antiga.

Em seu artigo “A tara secreta dos capitalistas digitais”, publicado recentemente, Douglas Rushkoff afirma que, tal como “os primeiros cientistas empíricos negaram qualquer aspecto da natureza que não pudesse ser quantificado, os atuais reducionistas digitais tentam negar qualquer aspecto da experiência humana que não possa ser quantificado como código”.

Mas esse fenômeno, diz ele, já podia ser identificado com o surgimento da especulação financeira. Ainda segundo Rushkoff, o verdadeiro salto ocorreu quando os operadores financeiros foram substituídos por algoritmos capazes de executar negociações em uma taxa e volume além da capacidade cognitiva humana. “Esses mercados de derivativos tornaram-se tão dominantes que a Bolsa de Valores de Nova Iorque foi comprada por sua própria bolsa de derivativos em 2013”, afirma.

O fato é que a essência do capitalismo é a ditadura do valor de troca sobre o valor de uso. Desse modo, suas mudanças quantitativas jamais dão origem a um estado qualitativamente diferente. Suas contradições e mazelas acumulam-se indefinidamente e vêm arrastando a humanidade para o colapso social, ambiental, econômico, cultural e sanitário.

Apenas duas transformações qualitativas se apresentam como possibilidades: a revolução socialista ou a barbárie.

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