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29 de junho de 2024

A República Popular do Walmart

“O Walmart poderia ser uma conspiração socialista secreta?” Esta intrigante questão foi feita pelo crítico literário estadunidense e marxista Fredric Jameson no livro “Arqueologias do futuro”. Ela aparece em uma nota de rodapé e não chega a ser desenvolvida pelo autor.

Mas os jornalistas e pesquisadores Leigh Phillips e Michael Rozworski usaram a provocação de Jameson como inspiração para escrever “The People's Republic of Walmart” (“A República Popular do Walmart”). Publicado em 2019, o livro ainda não tem edição em português.

Rozworski e Phillips lembram que o varejista emprega mais trabalhadores que qualquer outra empresa privada. Se fosse um país, sua economia seria do tamanho de uma Suécia ou de uma Suíça. O que interessa a eles destacar, porém, é que o Walmart funciona como uma economia nacional planificada semelhante à adotada pela União Soviética no auge da Guerra Fria.

Além disso, arrematam os autores, a rede varejista é apenas um caso entre centenas de empresas multinacionais igualmente gigantes. Todas elas funcionando como economias planificadas, pelo menos internamente.

Ou seja, o objetivo do livro é mostrar que, ao contrário do que dizem os neoliberais, a economia planificada não é uma aposta equivocada dos socialistas. Uma proposta que o fracasso soviético teria provado ser inviável. A maior evidência  disso é que os maiores campeões do capitalismo a adotam em sua organização interna.

Portanto, a provocação de Jameson faz sentido. O Walmart seria uma demonstração de que a economia planificada é possível. Principalmente, com as recentes inovações em cibernética e inteligência artificial, que poderiam ser colocadas a serviço de uma sociedade verdadeiramente socialista.   

Voltaremos ao assunto.

Leia também: Intelecto geral x trabalhador coletivo na obra de Marx

27 de junho de 2024

Intelecto geral x trabalhador coletivo na obra de Marx

Os chamados “Grundrisse” são uma espécie de rascunho de “O Capital”, de Karl Marx. Um de seus trechos que vem sendo muito citado ultimamente se refere ao conceito de “intelecto geral”:

O desenvolvimento do capital fixo indica até que ponto o conhecimento social geral se tornou uma força direta de produção, e até que ponto, portanto, as condições do próprio processo da vida social ficaram sob o controle do intelecto geral e foram transformadas de acordo com isso.

Muitos enxergam nessa passagem uma antecipação de inovações tecnológicas atuais como a automação produtiva e a inteligência artificial.

O problema é que o conceito de “intelecto geral” remete a produção material a um plano abstrato que secundariza o papel fundamental do trabalho humano na estrutura produtiva.

Seria por isso que em “O Capital”, Marx tenha substituído a figura abstrata do “intelecto geral” pelo conceito mais concreto do “trabalhador geral”. Entendendo este último como sinônimo de cooperação ampliada do trabalho.

Com a nova formulação, o trabalhador coletivo possui todas as qualidades necessárias à produção em um grau de excelência uniforme e utiliza-as empregando todos os seus órgãos, individualizados em determinados trabalhadores ou grupos deles, no desempenho de suas funções.

O que a figura do trabalhador geral antecipa é o surgimento da era da cibernética e das suas experiências de auto-organização. Para além disso, mostra como esses desenvolvimentos tecnológicos podem contribuir para a construção de uma sociedade radicalmente justa, desde que em um contexto de total socialização dos meios de produção.

As considerações acima encerram os comentários sobre o excelente livro “O Olho do Mestre”, de Matteo Pasquinelli.

Leia também: A automação da vida automatizada

17 de junho de 2024

A automação da vida automatizada

A pílula anterior comentava o livro “O Olho do Mestre”, em que seu autor, Matteo Pasquinelli, diz que a cibernética nasceu da necessidade de controlar sistemas de alta complexidade surgidos tanto das reestruturações no processo produtivo, como das pressões da luta de classes.

Uma das abordagens que se impôs foi a “análise de pessoas” (também conhecida como “psicografia”), que nada mais é do que a aplicação de estatísticas, análise de dados e aprendizagem automática às questões relacionadas à força de trabalho no pós-guerra.

Foi a partir desse princípio que a Google criou o algoritmo do “ranking de páginas”, cujas técnicas para mapeamento das redes se tornaram onipresentes, hoje. A teoria da automação adotada por Pasquinelli, portanto, não aponta apenas para o surgimento de máquinas a partir da lógica da gestão do trabalho, mas também dos instrumentos e métricas para quantificar a vida humana em geral e torná-la produtiva.

Os mais recentes desenvolvimentos da inteligência artificial não são, de fato, radicalmente diferentes, mas equivalentes ao design das máquinas industriais: são constituídos pela mesma inteligência analítica de tarefas e comportamentos coletivos, embora com um maior grau de complexidade.

Um aspecto importante do aprendizado de máquina é que a automação de tarefas individuais, a codificação do patrimônio cultural e a análise de comportamentos sociais não têm distinção técnica: podem ser realizadas pelo mesmo processo de modelagem estatística.

O aprendizado de máquina não é capaz apenas de realizar tarefas computacionais, mas imitar os comportamentos dos locais de trabalho e coletivos, em geral. Não é somente uma automação de estatísticas, mas uma automação da vida já automatizada.

Leia também: Reestruturação produtiva, algoritmos e cibernética

14 de junho de 2024

Reestruturação produtiva, algoritmos e cibernética

Em “O Capital”, Marx afirma que “as relíquias de instrumentos de trabalho do passado possuem a mesma importância para a investigação das formações econômicas extintas da sociedade que os fósseis para a determinação de espécies extintas de animais”. Ou seja, “os instrumentos de trabalho não apenas fornecem um padrão do grau de desenvolvimento que o trabalho humano atingiu, mas indicam as relações sociais dentro das quais os homens trabalham”, diz ele.

Essa passagem da obra de Marx foi citada por Matteo Pasquinelli, no livro “O Olho do Mestre”, para mostrar que são as relações entre capital e trabalho que explicam a Revolução Industrial e não a inovação tecnológica. É a necessidade de aumentar a exploração do tecelão que inventou o tear mecânico, não os engenheiros de produção.

Antes de a automação assumir o protagonismo, a divisão industrial do trabalho com suas linhas de montagem retilíneas era organizada por procedimentos comparáveis a algoritmos simples. Mas no final do século passado, ocorrem as reestruturações produtivas em resposta aos efeitos das crises capitalistas e à pressão da luta de classes. Estas novas condições passaram a exigir uma nova forma de controle.

É assim que os algoritmos passam a ser orientados pela cibernética de modo a controlar sistemas de alta complexidade que já não se organizavam de acordo com os antigos métodos hierárquicos e centralizados. Começavam a se estabelecer as condições iniciais para o aprendizado de máquina e aquilo que viria a ser chamado de inteligência artificial. Em essência, mais uma inovação tecnológica a serviço da exploração capitalista. E, como tal, mais um estágio no aprofundamento da barbárie social.

Leia também: As bases sociais e históricas dos algoritmos