quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Os maiores derrotados pela meritocracia

   Kuczynski
Em "A ralé brasileira", Jessé Souza denuncia a "ideologia da meritocracia" como a mais poderosa do mundo moderno. É através dela que a grande maioria de nós aceita a desigualdade social como "justa" e "legítima", pois refletiria o "mérito diferencial" dos indivíduos.

Um dos fatores que fortaleceria essa concepção é o fato de que a burguesia é a primeira classe dominante que também trabalha. Mas há outro fator, lembrado pelo marxista estadunidense Hall Draper: o capitalismo é o primeiro sistema que tem na competição selvagem entre os membros de sua classe dominante um elemento importante para sua manutenção e expansão.

Junte-se a isso o individualismo extremado típico do capitalismo e temos a fórmula perfeita para justificar as injustiças sociais: a livre competição premia os melhores.

Claro que ficam de fora alguns elementos que desmentem a perfeição dessa fórmula. O trabalho do burguês está longe de ser tão degradante, tedioso, cansativo, mal remunerado ou alienante como o da grande maioria.

E a vitória na competição social está garantida de antemão aos que contam com as enormes vantagens proporcionadas pela classe em que nasceram. Exageram-se as exceções apenas para esconder as injustiças do ponto de partida.

O mais grave é que a obra de Souza mostra como esta lógica é poderosa exatamente entre suas principais vítimas. A maioria dos indivíduos da chamada "ralé" responsabiliza a própria incompetência por seus fracassos.

Mas o pior, mesmo, é vermos valores meritocráticos sendo adotados por organizações que afirmam combater as injustiças sociais. Partidos, sindicatos, entidades populares competem mortalmente pelo título de representante maior dos derrotados. Quem perde é a grande maioria.

Leia também: Jessé Souza e o necessário combate à meritocracia

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