segunda-feira, 30 de junho de 2014

Aos que pisam nossas flores

É famoso o poema que começa desse modo: “Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor / do nosso jardim / E não dizemos nada / Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores”.

Essa peça poética costumava ser utilizada por setores de esquerda que se opunham a conciliações com a ditadura nos anos 1980. Dizíamos que quanto mais recuássemos, mais a ditadura nos arrancaria tudo até que chegasse a nos tirar “a voz da garganta”.

Os setores que acreditavam nisso fundaram o Partido dos Trabalhadores e a CUT. Foram aqueles que se recusaram a esmolar liberdades nos gabinetes. Preferiram as greves, o trabalho de base e a organização de grandes manifestações. Muitas vezes, sob ameaças de prisão, tortura e morte.

A manifestação anti-Copa realizada em 25/06, no Maracanã, foi dispersada a golpes de cassetete pela PM. A reportagem da Folha estava no local. Disse que “não havia nenhum tipo de confronto quando a PM agiu." Em São Paulo, o estudante da USP e militante de esquerda, Fábio Hideki Harano, foi preso sob falsas acusações.

Três décadas depois, avançamos muito. Mas aqueles que pisam flores não tiraram as botas de nossos canteiros.

O famoso poema costuma ser atribuído a Brecht ou Maiakovski. Na verdade, é do niteroiense Eduardo Alves da Costa. Mas a situação a que chegamos tem autoria confirmada. Governos estaduais e federal são igualmente responsáveis.

“Até que um dia,
 o mais frágil deles
 entra sozinho em nossa casa,
 rouba-nos a luz e,
 conhecendo nosso medo,
 arranca-nos a voz da garganta.
 E já não podemos dizer nada.”


sexta-feira, 27 de junho de 2014

A geopolítica invertida do futebol

Em “Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil”, José Miguel Wisnik discute uma curiosa inversão entre o mundo do futebol e as relações de poder no mundo. Citando Pierre Brochand, ele nota que:

... o mapa geopolítico do futebol inverte em boa parte a ordem das potências econômicas: Estados Unidos e Ásia são “minipotências” periféricas, Europa e América do Sul são “as superpotências consagradas”, e a África, graças ao futebol e só nele, uma potência emergente inserida simbolicamente “no jogo mundial do poder e da influência”.

A Copa em andamento parece dar razão a esta observação. Caíram Inglaterra, Espanha, Itália, Portugal. Ficaram times como Colômbia, Costa Rica, Nigéria e Argélia. As antigas colônias desbancando ex-metrópoles.

Por outro lado, surpreendeu a classificação dos Estados Unidos. Afinal, em território estadunidense o futebol está longe de fazer sucesso. Um dos motivos para essa antipatia em relação ao esporte seria a anemia de seus números. Em 90 minutos de jogo, são, no máximo, cinco ou seis gols. Muito diferente da enxurrada de pontos dos esportes americanos favoritos.

Então, o que explicaria a evolução do desempenho ianque, além da ação do acaso, que é exatamente um daqueles atrativos do futebol que o público estadunidense não compreende? Difícil saber, mas será que a presença de sobrenomes como González, Rimando e Bedoya na seleção americana não ajudariam a explicar?

A classificação americana bem que poderia ser uma pequena vitória contra o racismo ianque. Se for isso, aplausos para a façanha. Mas, dentro do campo, pode parar por aí. Que a maior potência mundial recolha-se a sua merecida insignificância futebolística.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A suruba eleitoral e quem já ganhou a Copa

No Rio de Janeiro, o candidato à reeleição, governador Luiz Fernando Pezão, tirou seu antecessor Sergio Cabral da disputa pelo Senado para lançar o ex-adversário Cesar Maia, do DEM. A chapa do PMDB já está sendo chamada de “Aezão”, devido ao apoio enrustido de Pezão a Aécio. O petista Lindbergh Farias quer o deputado Romário como candidato a senador. O ex-jogador é do PSB, de Eduardo Campos, adversário de Dilma.

A grande imprensa diz que se trata de uma orgia eleitoral, em que “ninguém é de ninguém”. Fácil falar assim. Dá a impressão de que eles, os políticos, só pensam neles. Mas por trás dessa suruba, estão poderosos cafetões. É só verificar como vão ficar as doações das empresas às diversas candidaturas e partidos. A disputa é pelo direito de melhor representar o poder econômico nos diversos postos executivos e legislativos.

Enquanto isso, a Copa já começou com ganhadores definidos. São os patrocinadores. Em primeiro lugar, a Nike, cuja marca representa 10 seleções na competição. Depois vêm Adidas e Puma, com oito equipes cada. Nas chuteiras, a Nike tem Neymar, Cristiano Ronaldo, o francês Franck Ribéry e o belga Eden Hazard. A Puma vai com David Luiz, Thiago Silva, o espanhol Fabregas, o francês Yaya Toure e o italiano Mario Balotelli. A Adidas tem Messi, Oscar, Daniel Alves, os uruguaios Suarez e Forlán e o alemão Özil.

Nada disso quer dizer que já está tudo decidido. Na Copa ou nas eleições, a competição vai ser tão dura quanto são poderosos os interesses. Mas nos dois casos, a minoria joga e decide. O resto fica torcendo.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Uma vaia pra Dilma, outra pra Gilberto Carvalho

Em 19/06, o Secretário-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, foi parar nas manchetes dos jornais. Em uma reunião com blogueiros, comentou o episódio das ofensas pesadas feitas a Dilma Roussef na abertura da Copa.

Carvalho afirmou que “no Itaquerão não tinha só elite branca”. Para ele, o descontentamento da elite, da classe média, está contagiando o povo. Algo a que o PT e o governo não teriam dado o necessário combate.

Nos bastidores do governo, a afirmação pegou muito mal. Mas em entrevista à Folha, publicada em 23/06, o Secretário se explicou melhor. Disse que a ideia era combater a ilusão “de que o povo pensa que está tudo bem”. Situação mais do que evidenciada pelas jornadas de junho de 2013.

Se o clima de Copa está abafando esse mal-estar e as manifestações estão menos volumosas, nada indica que os motivos que levaram milhões às ruas há um ano tenham desaparecido. É o que mostram, por exemplo, os números das pesquisas eleitorais em relação à candidatura petista.

Portanto, Carvalho só está fazendo uso da lucidez que a grande maioria de seus companheiros abandonou. Assustados com os questionamentos da população, atribuem seus problemas apenas a conspirações da poderosa elite e sua mídia e da minúscula e inofensiva oposição de esquerda.

Mas não nos enganemos. Na entrevista, Carvalho esclarece:

Mesmo aqueles que xingaram a Dilma, de maneira inadequada, eu os quero conosco. Quero fazer pontes, não jogá-los do outro lado, na mão de quem quer tê-los.

Aí está. Um dos petistas mais lúcidos pretende apenas renovar o compromisso com as elites. Úúúúúúú, Carvalho. Úúúúúúú, PT. 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Não tem Fla-Flu no Oriente Médio

O presidente do Irã não veio para a estreia de seu país na Copa. Não é que tenha adivinhado que o jogo não passaria de um zero a zero xoxo. As coisas é que ficaram ainda mais confusas no Oriente Médio.

Para ter uma ideia, os governos iraniano e estadunidense admitem algum nível de colaboração para ajudar o governo do Iraque. O país foi invadido por tropas do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (Isis). Também conhecidos como “jihadistas”.

O Isis pretende fundar um ditadura sunita na região e ameaça passar por cima de quem se opuser. Entre estes, os xiitas, que governam tanto o Irã como o Iraque. Enquanto isso, os curdos aproveitaram a confusão para tomar o controle da província iraquiana de Kirkuk.

Os jihadistas surgiram em reação à invasão do Iraque, mas se fortaleceram na guerra civil síria. Provavelmente, receberam ajuda da Arábia Saudita. Mas também foram financiados pelos Estados Unidos, que quer o fim da ditadura síria. Agora, atravessaram a fronteira para derrubar o governo iraquiano.

Ou seja, se há um grande culpado nisso tudo, são os Estados Unidos. Eles apoiaram Bin Laden contra o imperialismo soviético no Afeganistão e ajudaram a criar a Al-Qaeda. Agora, fortaleceram o Isis e colocaram fogo no Oriente Médio novamente.

Mas nada autoriza a enxergar esses conflitos como uma espécie de Fla-Flu. Não é possível apoiar as ditaduras locais ou forças fundamentalistas porque não são aliadas dos imperialistas ocidentais. Muito menos, ficar ao lado do imperialismo chinês ou russo.

Qualquer possível resposta tem que surgir de baixo pra cima. Da organização revolucionária dos povos envolvidos.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Futebol, veneno e remédio

As duas últimas pílulas foram inspiradas por “Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil”, de José Miguel Wisnik. O livro lançado em 2008 mereceria ser sucesso de vendas. Pelo menos, entre os que amam o esporte sem abrir mão de pensar sobre ele.

Wisnik é professor de literatura brasileira na USP. Ótimo pianista, é compositor refinado de canções gravadas por ele e outros intérpretes em vários CDs. É frequentador das partidas de futebol promovidas por Chico Buarque.

Santista de nascimento e de time, Wisnik jogou muita bola na praia quando criança. Foi adepto da pelada, que é jogada em terreno delimitado por “linhas imaginárias” e onde o próprio gol é “coisa abstrata”.

A proposta do estudo é interpretar o futebol “por dentro”, e não somente a partir de seu entorno. Não se trata apenas de revelar os interesses políticos, econômicos e inconfessáveis que cercam o esporte mais popular do mundo.

Mais que isso, a obra procura abordar o futebol como o “nó cego em que a cultura e a sociedade se expõem no seu ponto mais visível e invisível”. Paixão nacional que é “veneno remédio, uma droga inebriante e potencialmente letal que oscila com uma facilidade excessiva entre o a plenitude e o vazio”.

É preciso suar a camisa para acompanhar o rápido e inspirado deslocamento do autor pelas várias posições de onde é possível compreender o futebol. Mas o esforço vale a pena.

A leitura está pela metade, pouco mais adiantada que o andamento da Copa. O prazer que virá da primeira já está garantido. É torcer para que aconteça o mesmo com o segundo.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A prosa e a poesia do futebol, segundo Pasolini

Logo após o tricampeonato brasileiro no México, Pier Paolo Pasolini escreveu um inspirado artigo sobre futebol. O cineasta italiano começa dizendo que o “futebol que exprime mais gols é o mais poético”. Portanto, o gol é um elemento poético por excelência. “O drible é também essencialmente poético (embora nem sempre, como a ação do gol)”, diz ele.

“A retranca e a triangulação é futebol de prosa”, diz Pasolini. “Baseia-se na sintaxe, isto é, no jogo coletivo e organizado, na execução racional do código”. “Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individualista (drible e gol; ou passe inspirado).”

Mas, de vez em quando essa prosa é interrompida e surgem, de repente, “dois versos fulgurantes”. O bastante para cometer um gol. Este pode vir acompanhado do “passe inspirado” ou não, mas é sempre poético. Daí, a inevitável conclusão:
Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto o futebol deles é um futebol de poesia - e, de fato, está todo centrado no drible e no gol.
Pasolini afirma que não pretende fazer distinção de valor. No caso da final mexicana entre Brasil e Itália, a poesia venceu a prosa. Mas isso não provaria a necessária superioridade do jogo poético. Até porque a própria prosa não pode dispensar a poesia dos gols.

Tudo isso para fazer pensar no que disse Tostão em sua coluna de hoje nos jornais. O alto nível da Copa do Mundo deve-se à presença de jogadores do melhor futebol no mundo. Aquele jogado na Europa.


Leia também: 
Jogando em busca do empate

terça-feira, 17 de junho de 2014

Jogando em busca do empate

O antropólogo Claude Lévi-Strauss publicou o livro “O Pensamento selvagem” em 1962. Nele o pesquisador francês estudou povos não europeus, contestando o racismo e a ideia de que há povos “primitivos”. Comparando estudos realizados em várias partes do mundo, Lévi-Strauss mostrou que o mito e o rito são elementos do que ele chamou de pensamento mítico. Uma forma de apreensão da realidade que merece tanto respeito quanto a ciência entre nós, por exemplo.

Mas há um trecho em que Lévi-Strauss descreve como membros da tribo dos gahuku-gama, da Nova Guiné, aprenderam a jogar futebol. Segundo o autor, eles “jogam durante vários dias seguidos, tantas partidas quantas forem necessárias, para que se equilibrem exatamente as perdidas e ganhas por cada campo”. Ou seja, o objetivo era sempre o empate.

Não se trata de uma evidência sobre uma sociedade que se recusa a ser competitiva. O registro, aí, é outro. Segundo o antropólogo, tratava-se menos de um jogo que de um rito envolvendo a relação com mortos e vivos. As regras do jogo foram respeitadas apenas para que servissem aos propósitos míticos de seus praticantes. A exata explicação do fenômeno é complicada demais para ser transcrita aqui.

O que importa é pensar que mesmo algo tão universalizado possa ser apropriado de maneiras tão diferentes. Não apenas por interesses políticos, poder econômico e propósitos mafiosos. Um dia, talvez, sejamos capazes de fazer isso com muitas outras atividades. Aí, a humanidade poderia se ver como um imenso torneio cheio de equipes, cujos jogadores buscam vitórias, à espera das necessárias derrotas. Campeonatos cujos resultados permitam comemorações universais.

domingo, 15 de junho de 2014

Na arquibancada, usando luvas e casaca

Em junho de 98, Chico Buarque publicou na imprensa o artigo “O moleque e a bola”, junto com Eduardo Coelho. Um trecho diz:

No Rio, em São Paulo, em Buenos Aires, os ingleses detinham, além de todas as bolas, o monopólio das chuteiras, das camisas listradas e dos campos de grama inglesa, como manda a regra, perfeitamente planos e horizontais (...). Em 1895, segundo a crônica paulistana, confrontavam-se Railway Team e Gas Team, “quando huma pellota imprensada entre dous athletas subiu aos céos e foi cahir às mãos de hum assistente. D'improviso, o cidadão seqüestrou a pellota. Metteu-a sob o braço e escafedeu-se no matagal, perseguido por dezenas de crioulos. Foi alcançado ao cabo de meia hora, às margens do rio Ypiranga. E celebrou-se alli, em terreno pedroso e cascalhudo, o primeiro jogo de bola entre brasileiros, com cincoenta actuantes e nenhum goalkeeper”.

Chico Buarque também é torcedor do Fluminense. E, em suas origens, só a elite jogava no time das Laranjeiras. O público que o acompanhava era formado por homens de casaca e chapéu e mulheres de vestido longo e luvas. No auge da empolgação e do calor, eles tiravam os chapéus e elas, as luvas, que passavam a ser torcidos por mãos nervosas. Nasciam os torcedores.

Com as caríssimas “arenas de futebol” recém-inauguradas, a elite volta às arquibancadas, mesmo sem luvas e casacas. À maioria pobre, resta esperar do lado de fora que a pelota lhes volte a cair do céu. Ainda que restem poucos terrenos, cascalhudos ou não. Quase todos da elite, caninamente guardados por governantes, juízes e policiais.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

A restauração soviética da família e do capitalismo

Esta é para encerrar os comentários ao livro “As Mulheres, o Estado e a Revolução”, de Wendy Z. Goldman.

A autora conclui a obra afirmando que entre 1917 e 1936, a política soviética em relação à família foi completamente invertida. O compromisso radical com a liberdade individual e pelo “definhamento" da família deu lugar a uma política de reforço repressivo da unidade familiar.

Fator importante para essa situação foi certamente a adoção da Nova Política Econômica no início dos anos 1920. Se a Revolução venceu o imperialismo no campo militar, foi derrotada no terreno econômico. A destruição da estrutura produtiva do país levou ao restabelecimento do império das leis econômicas sobre a vida social, ainda que sem livre mercado.

Uma das consequências foi a retomada do papel da família como fator importante para a reprodução da vida econômica. Isso permitiu que o Estado deixasse de usar recursos para manter serviços como creches e lavanderias e restaurantes coletivos. A dura carga do trabalho doméstico caiu novamente sobre as mulheres.

Mas mesmo quando surgiram mais oportunidades nas fábricas e serviços, às mulheres restaram as piores ocupações e os menores salários. Exatamente como acontece em toda economia capitalista.

Não à toa, Wendy diz que a inversão no papel da família foi acompanhada por mudanças na ideologia do Estado e nas leis. Os setores libertários do Partido Bolchevique foram eliminados junto com as conquistas da Revolução. A vitória da lógica do capital transformou a União Soviética em potência econômica, mas enterrou o socialismo.

Precisamos arrancar da História novas oportunidades para retomar as conquistas revolucionárias de 1917.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Os verdadeiros inimigos do governo Dilma

O governo federal anunciou recentemente que atenderá as reivindicações do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, que vem liderando manifestações em São Paulo nos últimos meses. O movimento demonstra boa vontade em chegar a um acordo com o governo.

Em recente convenção, o PMDB decidiu apoiar Dilma nas eleições presidenciais. O PSDB anda comemorando o resultado. É que houve mais de 40% de votos contrários à aliança com PT. E a crença geral é que os “perdedores” não terão o menor pudor em fazer campanha para outros candidatos. Principalmente, para Aécio Neves.

A recém-anunciada Política Nacional de Participação Social (PNPS) nada mais é que a ampliação de um direito previsto na Constituição. São consultas públicas que devem ser feitas antes da tomada de decisões pelo Poder Executivo em algumas questões. Mas nada pode ser aprovado sem passar pelo Legislativo, onde os lobbies empresariais fazem a festa.

A oposição de direita mente descaradamente dizendo que se trata de uma espécie de “transferência do poder aos sovietes” ou “bolivarianismo”. É o pretexto para justificar a tentativa derrubar no Congresso o decreto que criou a PNPS. O detalhe é que a iniciativa da oposição conta com o apoio de dois partidos da base aliada.

Tropas do exército e policiais espalham-se pelas ruas. A força aérea está autorizada a derrubar aeronaves consideradas hostis. Se houvesse alguma coerência nisso tudo, as forças da repressão deveriam concentrar seu fogo nos gabinetes luxuosos de Brasília. É lá que se encontram os inimigos do governo Dilma. Não nas ruas.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Os bolcheviques contra a família e por liberdade sexual

A Revolução Bolchevique também revolucionou as relações familiares. É o que mostra o livro “As Mulheres, O Estado e Revolução”, de Wendy Z. Goldman.

Em 1918, foi aprovado um novo código legal sobre a família. Era a legislação mais avançada da época. Aboliu a inferioridade legal das mulheres e as igualou juridicamente aos homens. Extinguiu a obrigatoriedade do casamento religioso, mantendo apenas seu registro para efeitos estatísticos. Também facilitou os registros de nascimento e morte.

Para efetivar o divórcio bastava o pedido de um dos cônjuges, sem necessidade de maiores motivações. Foi ampliada a garantia do pagamento de pensões alimentícias. Tudo isso visava livrar as mulheres da forte opressão e exploração machistas. Ao fazer isso, abriam possibilidades de maior liberdade sexual.

A grande líder revolucionária Alexandra Kollontai dizia que o ato sexual deveria ser considerado tão natural como saciar a fome ou a sede. Lênin manifestou ligeira discordância. É preciso matar a sede, disse ele, mas é muito diferente fazer isso bebendo de um copo ou lambendo uma poça, por exemplo.

É possível enxergar nessa observação o conservadorismo moral de Lênin. Mas também pode ser uma forma de lembrar que a sexualidade humana enfrenta preconceitos muito maiores que o simples ato de se alimentar.

Talvez, Lênin antecipasse as dificuldades que viriam. De fato, a família voltaria a ser célula reprodutora da opressão e exploração femininas nos anos 1930. Imposição da situação histórica, em que a revolução foi cercada e derrotada.

A vitória coube ao conservadorismo stalinista, que voltou a beber na mesma poça suja do conservadorismo burguês.

Leia também: Os bolcheviques queriam o fim da família para libertar as mulheres

terça-feira, 10 de junho de 2014

O animal humano sacrifica sua própria prole

Maria Helena Moreira Alves, professora aposentada da UERJ, acaba de lançar o livro “Vivendo no fogo cruzado”. A obra estuda as consequências da instalação das Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em favelas cariocas.

Em maio, ela concedeu entrevista à revista “Poli”, da Escola José Venâncio, da Fiocruz. Entre muitas outras informações importantes, Maria Helena revela, por exemplo, que as UPPs se inspiraram em operações do exército estadunidense na Guerra do Vietnã.

Perguntada sobre as recentes manifestações de repúdio das comunidades pobres contra as UPPs, a professora afirmou: “as pessoas reagem quando começam a perder seus filhos”. Ainda que este não seja o único fator, certamente pesa.

Enquanto isso, muito longe dessa realidade e do outro lado do Atlântico, as coisas não estão muito melhores. “Medidas de austeridade na Europa levam 800 mil crianças à pobreza, aponta OIT”. Este é o título de matéria publicada no site Opera Mundi, em 03/06.

Trata-se de conclusão do Relatório sobre Proteção Social no Mundo 2014/2015. Seus números dizem que, em 2012, 123 milhões de pessoas da União Europeia estavam em risco de pobreza ou exclusão social, incluindo as 800 mil crianças que passaram a viver na pobreza desde 2008.

Na Roma Antiga, os proletários eram aqueles que nada tinham de seu a não ser sua prole. Marx afirmou que os modernos proletários “nada têm a perder a não ser suas correntes”. Por isso, deveriam conquistar o mundo.

De qualquer forma, o animal humano vai se especializando no sacrifício de suas próprias crias. Na renúncia a seu próprio futuro. Cada vez mais urgente que correntes sejam rompidas.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Os bolcheviques queriam o fim da família para libertar as mulheres

A dupla jornada de trabalho é um fator fundamental para a exploração e opressão sofridas por quase todas as mulheres. Como saída para essa situação, é costume defender uma divisão mais justa dos afazeres domésticos entre homens e mulheres.

Mas o problema somente será resolvido fora da família. Ou melhor, com o fim dela, tal como a conhecemos hoje. A questão é brilhantemente abordada num livro recentemente lançado pela Boitempo. É “As Mulheres, o Estado e a Revolução”, da historiadora norte-americana Wendy Z. Goldman.

Segundo sua autora, os bolcheviques defendiam a construção de uma sociedade em que o trabalho doméstico seria transferido para a esfera pública. As tarefas executadas por milhões de mulheres em suas casas seriam feitos por trabalhadores em creches e restaurantes e lavanderias coletivos.

Lênin considerava o trabalho doméstico o mais improdutivo, selvagem e árduo que uma mulher pode fazer. Para ele, a emancipação feminina deveria incluir não só a igualdade jurídica, mas a transformação de todo o trabalho doméstico em trabalho socializado. Com isso o papel social da família seria esvaziado. Ela “definharia”.

Foi o que o governo dos sovietes começou a fazer em 1918. Mas logo depois, a Revolução foi derrotada pelo terrível cerco das potências europeias. Para reerguer o país destruído foram restaurados os princípios da economia de mercado. Sob a gerência ditatorial de Stálin, várias conquistas foram revogadas. Em meados dos anos 1930, a família voltaria a ser fator importante da reprodução econômica. E de exploração e opressão das mulheres.

O livro de Wendy detalha todo este processo. Voltaremos a falar dele.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Copa, o pardal e o ovo da serpente

“Ovo da serpente” é uma expressão que costuma ser usada para simbolizar o lento processo de gestação do mal. Ficou famosa como título de um filme de Ingmar Bergman, lançado em 1977. A obra mostra os tempos confusos e contraditórios que levaram à ascensão do nazismo na Alemanha.

A expressão também é usada no filme “Ran”, que Akira Kurosawa lançou em 1985. Um de seus personagens diz o seguinte:

O ovo da serpente é branco e belo. O ovo do pardal, cinza e feio. O pardal chocou o ovo branco. Do ovo saiu a serpente e comeu o pássaro.

O mundo definitivamente vive tempos confusos e contraditórios. É isso é ainda mais verdadeiro para o Brasil. Por isso, fica difícil afirmar com certeza quem é que pode estar chocando um ovo de serpente. Os apoiadores do governo dizem que são seus opositores, inclusive os de esquerda. Estes garantem que a chocadeira está sob cuidados do governo.

Mas há números que ajudam a esclarecer as coisas. Eles estão em um levantamento da ONG “Artigo 19”, que se dedica a defender a liberdade de expressão. Em números redondos, houve 700 protestos ao longo de 2013. Durante sua realização, foram feitas 2.600 prisões e houve 900 feridos, incluindo 100 jornalistas. A polícia matou 8 manifestantes.

A máquina militar responsável por estes números não apenas continua funcionando impunemente. Ela foi reforçada e ganhou ainda mais liberdade de ação para proteger a realização da Copa do Mundo. É um ovo que não tem nada de belo, mas certamente abriga bichos peçonhentos. Apesar disso, o pardal continua a chocá-lo.

Leia mais: E por falar em Copa, ouçamos Gonzaguinha

O egoísmo de classe escolheu a catástrofe ambiental

Hoje é Dia Mundial do Meio Ambiente. Nada a comemorar. Sérios problemas ambientais atingem o planeta. As previsões de mais desastres no futuro se multiplicam. Mas isso já aconteceu muitas vezes antes.

É o que mostra, por exemplo, o livro “Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso”, do geógrafo Jared Diamond. Segundo a obra, algumas grandes civilizações do passado teriam fracassado ou desaparecido devido a catástrofes ambientais.

Exemplos famosos seriam o que aconteceu aos maias e aos habitantes da Ilha de Páscoa. Ambos os povos teriam desaparecido devido ao abuso de seus recursos naturais. Principalmente, pelo  desmatamento descontrolado.

No entanto, não somos apenas mais um caso nessa história humana desastrada. Uma grande diferença é a escala. O que aconteceu com outros povos em outros momentos da história teve alcance limitado. Nem de longe mexeu com o clima do planeta como estamos fazendo, por exemplo.

Outra grande diferença é que nossos conhecimentos permitem saber que medidas tomar para deter o processo destrutivo que nós mesmos desencadeamos. A principal delas seria trocar os combustíveis fósseis por energia mais limpa.

Mas há algo que nos aproxima do que aconteceu com os maias. Segundo Diamond, um dos fatores que os arruinou foi a cegueira de sua camada dirigente, voltada para o enriquecimento em curto prazo, guerras, construção de monumentos e para a competição mútua.

Antes, como agora, o egoísmo de classe continua sendo fator de destruição. Os atuais dirigentes são mundiais e já provaram que não vão mudar seu comportamento. Escolheram o fracasso há muito tempo. Resta aos que somos dirigidos buscar o sucesso em nossas lutas.

terça-feira, 3 de junho de 2014

O “capitalismo selvagem” e a sexta grande extinção

Em 20/05, o jornal “The Guardian” publicou o artigo “O capitalismo selvagem está de volta e não irá se domesticar”, do antropólogo David Graeber.

Segundo ele, os capitalistas somente admitem abrir mão de parte de seus imensos lucros quando seus interesses estão seriamente ameaçados. Foi o que aconteceu entre o término da 2ª Guerra e o final dos anos 60.

Diante da ameaça “comunista” e das revoltas nacionais em várias partes do globo, abriu-se um pequeno período de expressiva diminuição da desigualdade social. Agora, diz Graeber, sem nada a ameaçar o sistema, a tendência seria a volta de um “capitalismo selvagem”, sem qualquer freio.

No mesmo dia, o portal G-1 divulgou um estudo que mostraria que o “Homem acelerou em mil vezes a taxa de extinção de espécies”. Segundo a matéria, “antes dos humanos, o ritmo de extinção era de uma espécie a cada 10 milhões por ano”. Atualmente, seria de 100 para cada 1.000 anuais.

A reportagem afirma que a Terra já passou por cinco grandes extinções antes de nossa existência. Mas poderíamos ser os responsáveis pela próxima. E cita as extinções do pássaro Dodô, do Lobo-da-Tasmânia e do Lobo-das-Malvinas, todas causada por nós.

Mas o fato é que só passamos a provocar o desaparecimento de outras espécies a partir do século 17. Exatamente quando surgia o capitalismo, que tornou central a destruição da natureza em nossa relação com o planeta.

Na verdade, o “capitalismo selvagem” nunca foi embora. E os animais que o controlam podem estar preparando mais uma grande extinção. O maior o risco é que venha a ameaçar nossa própria espécie.

Dilma e seus ingratos favoritos

“As razões do mau humor no voto empresarial”. Com este título, Letícia Casado publicou matéria no jornal Valor, em 29/05. Ela ouviu 20 executivos sobre a sucessão presidencial, nos últimos dois meses. Na condição de anônimos, falaram empresários de São Paulo, Rio, Paraná, Ceará e Pernambuco, representando 15 ramos econômicos importantes.

A reportagem constatou um grande “azedume” em relação a Dilma. O presidente de uma grande seguradora, por exemplo, diz que o setor não quer sua reeleição. Outro que se queixou muito foi um executivo de uma montadora de automóveis.

O primeiro não deveria reclamar. O setor de seguros cresceu 16,6%, em 2013. Muito mais que qualquer outro e graças ao mercado de previdência privada, que vem sendo ampliado pelos governos desde a época do tucanato. Já o segundo, é do setor mais beneficiado pelas isenções fiscais promovidas pelo governo federal.

Muitos elogiaram Lula, dizendo que ele “se assessorava melhor do que Dilma”. Citam Henrique Meirelles entre os exemplos da época do ex-presidente. Disseram que os atuais auxiliares da presidenta não têm “experiência de mercado”. “Tem que ter um banqueiro na Fazenda”, afirmou um deles.

Por fim, o presidente de uma empresa de vestuário declarou não votar no PT por causa do Bolsa Família. Sua empresa atua no interior do Nordeste e estaria com dificuldades para contratar por causa do programa.

Estamos falando de grandes representantes do chamado “capital produtivo”. Setor que vem sendo priorizado pelos governos petistas. É muita ingratidão! Só não são mais ingratos com o PT do que vêm sendo com os tucanos, que também nunca deixaram de lhes dar uma bela mãozinha.

domingo, 1 de junho de 2014

E por falar em Copa, ouçamos Gonzaguinha

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior era filho do Gonzagão, o rei da música nordestina. Mas Gonzaguinha também tem um respeitável repertório. Morreu muito cedo, em 1991, aos 45 anos, num acidente automobilístico.

Durante a ditadura militar, usou sua voz corajosa contra o autoritarismo que reinava. Algumas de suas canções, infelizmente, continuam atuais. É o caso de “Pequena memória para um tempo sem memória”. Com os carrascos da ditadura ainda à solta e muitas de suas vítimas desaparecidas, a letra da canção ainda faz muito sentido:

Humilhados e ofendidos
Explorados e oprimidos
Que tentaram encontrar a solução
São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas
Memória de um tempo onde lutar por seu direito
É um defeito que mata.

Outra música quase perfeita para o atual momento é “E por falar no Rei Pelé”:

Craque mesmo é o povo brasileiro
Corre em campo, se esforça o tempo inteiro
Vai pra ponta e centra e cabeceia
E ele mesmo é o goleiro que escanteia
E o gandula que apanha no fosso a pelota
E a galera que a equipe incedeia

Craque mesmo é o povo brasileiro
Carregando esse time da terceira divisão
Nesse jogo sem gol, mas que emoção,
Couro cru também é um mata fome!
Sempre um bamba se esquece
E a bola come
Sempre um morre,
É falta de indigestão

Craque mesmo é o povo brasileiro
Com os homens em cima na marcação
Transformando a partida em pedreira
Uma rinha sem gol, mas que emoção
Na redonda ele se atira qual leão
Tá pensando que é um prato cheio de feijão
E não é não!