terça-feira, 17 de junho de 2014

Jogando em busca do empate

O antropólogo Claude Lévi-Strauss publicou o livro “O Pensamento selvagem” em 1962. Nele o pesquisador francês estudou povos não europeus, contestando o racismo e a ideia de que há povos “primitivos”. Comparando estudos realizados em várias partes do mundo, Lévi-Strauss mostrou que o mito e o rito são elementos do que ele chamou de pensamento mítico. Uma forma de apreensão da realidade que merece tanto respeito quanto a ciência entre nós, por exemplo.

Mas há um trecho em que Lévi-Strauss descreve como membros da tribo dos gahuku-gama, da Nova Guiné, aprenderam a jogar futebol. Segundo o autor, eles “jogam durante vários dias seguidos, tantas partidas quantas forem necessárias, para que se equilibrem exatamente as perdidas e ganhas por cada campo”. Ou seja, o objetivo era sempre o empate.

Não se trata de uma evidência sobre uma sociedade que se recusa a ser competitiva. O registro, aí, é outro. Segundo o antropólogo, tratava-se menos de um jogo que de um rito envolvendo a relação com mortos e vivos. As regras do jogo foram respeitadas apenas para que servissem aos propósitos míticos de seus praticantes. A exata explicação do fenômeno é complicada demais para ser transcrita aqui.

O que importa é pensar que mesmo algo tão universalizado possa ser apropriado de maneiras tão diferentes. Não apenas por interesses políticos, poder econômico e propósitos mafiosos. Um dia, talvez, sejamos capazes de fazer isso com muitas outras atividades. Aí, a humanidade poderia se ver como um imenso torneio cheio de equipes, cujos jogadores buscam vitórias, à espera das necessárias derrotas. Campeonatos cujos resultados permitam comemorações universais.

Um comentário:

  1. Esse texto é uma grande pérola e uma enorme utopia (não no sentido do "não possível" como normalmente é entendida).

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