Doses maiores

6 de agosto de 2014

A provável vitória eleitoral do neoliberalismo criativo

São grandes as probabilidades de que o Brasil enfrente uma grave crise econômica. Mas não a tempo de influenciar o resultado das eleições.

É o que mostra, por exemplo, a reportagem “Quatro temas econômicos que devem dominar a eleição presidencial”, de Ruth Costas, publicada pela BBC Brasil em 05/08.

A matéria destaca primeiramente o crescimento econômico. Em 2010, quando Dilma foi eleita, o Brasil cresceu 7,5%. Este número pode ficar abaixo do 1% em 2014.

Mas segundo Carlos Melo, cientista político do Insper, o voto é influenciado principalmente pela renda e pelo emprego. E nestes aspectos, a candidatura petista não tem muito com que se preocupar.

Como diz André Biancarelli, da Unicamp, em relação “ao mercado de trabalho, Dilma foi melhor até que Lula. Nos últimos anos, o desemprego caiu para patamares historicamente baixos e a renda dos trabalhadores continuou a crescer”.

Quanto à inflação, ninguém nega que esteja elevada. Mas Renato Perissinotto, cientista político da Universidade Federal do Paraná, não vê maiores problemas. Apesar do alarmismo da grande mídia, “a alta de preços tem ficado muito próxima ao teto da meta definida pelo Banco Central, de 6,5%”.

Por fim, há a questão social, sobre a qual o cientista político David Fleischer, da UNB, afirma: "Só de eleitores ligados ao Bolsa Família temos algo em torno de 40 a 50 milhões". E estes votos são majoritariamente do governo.

O problema é que os mandamentos neoliberais continuam sólidos. É o caso do pagamento da dívida pública, superávit primário, juros estratosféricos, monopólios dominando cada vez mais a economia.

Provavelmente, a vitória eleitoral será da ala criativa do neoliberalismo.

Sinais de uma crise muito possível

  Bira Dantas
“O Brasil à beira de uma nova crise externa?”, pergunta editorial da revista Retrato do Brasil, publicado em 30/07. O texto traz alguns sinais muito preocupantes em relação à nossa situação a econômica.

O artigo relaciona o saldo negativo das transações correntes do País à ocorrência de crises econômicas. A primeira delas teria sido a de 1982, quando o déficit ficou em 6%. Outra grave crise ocorreu em 1998 e o saldo era 4,3% negativo. Atualmente, estamos com 3,47% de déficit.

Em quase 12 anos de governos petistas, diz o artigo, o rombo total ultrapassou os 300 bilhões de dólares. O saldo foi positivo em mais de 40 bilhões de dólares entre 2005 e 2007. Em 2013, caiu para 2,5 bilhões de dólares negativos.

A desindustrialização tem papel importante nessa conta. Apenas com o aluguel de equipamentos como sondas para exploração de petróleo, modernas retroescavadeiras e colheitadeiras, por exemplo, o País vai gastar 19 bilhões de dólares. O valor equivale a quase oito vezes o saldo comercial esperado para 2014.

Quanto às supostas enormes reservas monetárias do País, elas podem desaparecer se houver um novo “grande ajuste das finanças internacionais”. O volume atual está em 380 bilhões de dólares. Mas entre julho e dezembro de 2008, momento agudo da crise mundial, deixaram o País 347 bilhões. E de junho a setembro de 2011, foram embora 226 bilhões.

Se estes números servirem como aviso, a resposta à pergunta do artigo é perigosamente afirmativa. A oposição de direita dirá que é culpa de um governo intervencionista e desastroso. Desastroso, sim, mas porque se manteve preso à lógica neoliberal.



4 de agosto de 2014

O novo templo e seus vendilhões

Para alguns, a famosa passagem bíblica em que Jesus expulsa os “vendilhões” do templo é a mais radical dos evangelhos. A atitude atingiu a nobreza clerical que se beneficiava do aluguel daquele espaço sagrado. Neste momento o líder dos judeus pobres teria atraído contra si o ódio da classe dominante judia e pavimentado seu caminho para a crucificação.

Mais de dois mil anos depois, a grande maioria dos templos são palácios luxuosos disfarçados como igrejas e catedrais. Seus pregadores, príncipes que envergam as roupas mais luxuosas. Devassos de fala mansa, convivem com o poder temporal da forma mais promíscua. O Vaticano tem até um banco, tão rico quanto corrupto.

Mas os cristãos protestantes não ficam atrás. Principalmente as ramificações neopentecostais que adoram a ostentação e abençoam o acúmulo de bens materiais. A evidência mais recente disso é o Templo de Salomão, inaugurado pela Igreja Universal do Reino de Deus, em São Paulo.

Três vezes maior que a Basílica de Aparecida do Norte, a construção simboliza todo o poderio a que chegou a organização de Edir Macedo. À inauguração compareceram a presidenta do País, o governador paulista e o prefeito paulistano. Todos de olho no voto dos quase 2 milhões de fiéis da igreja. Mas não só.

Adentrar o novo santuário custa 45 reais e os dízimos serão recolhidos por uma moderna esteira rolante. Tamanho potencial econômico não pode ser desprezado. Afinal, levantamento recente da Justiça Eleitoral mostrou que entre 1994 e 2010, só o custo das eleições presidenciais cresceu 85%, de R$ 190 milhões para R$ 352 milhões.

Um novo templo para vendilhões antigos e recentes.

Leia também: O Corão e o pluralismo religioso

Israel semeou o Hamas

Tawfik Gebreel, Bushra Shanan
e Belal Khaled
Após a 2ª Guerra, potências imperialistas impuseram a criação e o fortalecimento do Estado de Israel no Oriente Médio. Desse modo, criaram conflitos na região para melhor dominar seus territórios ricos em petróleo.

Essa mesma tática Israel também acabou usando em relação aos palestinos. É mais ou menos o que a afirmou Guila Flint, em entrevista ao programa Espaço Público, exibida na TV Brasil em 22/07. 

A jornalista brasileira mora em Israel há 20 anos. Ela afirmou ser público e notório que o Estado de Israel incentivou o surgimento e o fortalecimento do Hamas em terras palestinas nos anos 1980.

O objetivo era enfraquecer o "Movimento de Libertação Nacional da Palestina", o Fatah. Até então, essa frente de organizações liderava sozinha a resistência contra a ocupação israelense das terras palestinas.

Mais tarde, em 2005, o governo direitista de Ariel Sharon retirou as tropas israelenses da Faixa de Gaza sem avisar o Fatah. Como resultado, criou-se um “vácuo político” naquele território, que foi ocupado pelo Hamas.

Foi assim, diz Guila, que uma “organização laica e democrática” perdeu espaço para um movimento religioso e extremista. O consequente aumento das ações violentas ajudava a justificar a necessidade de eliminar o povo palestino na região.

Mas assim como os Estados Unidos criaram as tropas de Bin Laden para vê-las se voltarem contra si, o Estado de Israel pode colher uma terrível tempestade dos ventos que semeou.

Hoje, os sionistas fazem chover fogo em Gaza. Mas como aconteceu muitas vezes na História, Israel pode ganhar a guerra e perder a paz.

1 de agosto de 2014

Quando nos rendemos aos ídolos do inimigo

“Os ídolos da nova geração de brasileiros” é o título da reportagem de Rafael Sigollo, publicada pelo Valor, em 30/07. A matéria refere-se a uma pesquisa feita com 51.674 jovens brasileiros entre 17 e 26 anos para saber quem são seus ídolos.

Barack Obama aparece em primeiro, com pouco mais da metade das preferências. Depois vieram Steve Jobs e Bill Gates, os empresários brasileiros Jorge Paulo Lemann e Flávio Augusto da Silva e Mark Zuckerberg, do Facebook.

Presentes em 2013, Lula e Dilma desapareceram agora. Eike Batista também chegou a figurar em lisas passadas, mas deu lugar a Silvio Santos. Joaquim Barbosa, Roberto Justus e o Papa Francisco também aparecem entre os dez primeiros.

Em uma lista contendo apenas líderes brasileiros, aparece Bel Pesce, 26 anos de idade. Ela é fundadora da escola “FazINOVA”. Aos 17 anos, conseguiu ser aprovada no Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos. Trabalhou na Microsoft, Google e Deutsche Bank e, após a conclusão do curso, mudou-se para o Vale do Silício.

O caso de Bel é a exceção das exceções. Ela venceu uma disputa típica de um sistema que só produz desigualdade social. Apesar disso, milhões de jovens acham que podem seguir seu caminho. Mas tudo isso só comprova o que disse Marx há 150 anos: as ideias dominantes em uma sociedade são as ideias da classe dominante.

O pior acontece quando os que dizem combater essa lógica rendem-se a ela. Travam disputas selvagens pelo poder nas burocracias partidárias, sindicais e organizações de luta. Jovens ou veteranos, envelhecem cultuando os ídolos do inimigo.

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Entre o circo tradicional e o midiático