quinta-feira, 9 de julho de 2015

Domesticados por coisas mortas


O marciano chega à Terra. Nos observa, tentando identificar nossos líderes. Chega à conclusão de que são os cachorros. Afinal, nós os seguimos pelas ruas, muitas vezes arrastados por eles, e ainda limpamos seu cocô.

Essa anedota tem um fundo de verdade. É o que se conclui, por exemplo,
da leitura do livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”, de Yuval Harari. Nele, o autor observa que há dez mil anos, o trigo era uma planta insignificante. Mas, hoje, diz ele, essa gramínea cobre uma área equivalente a “dez vezes o tamanho da Grã-Bretanha”.

Como isso aconteceu, pergunta o autor. Simples. Foi graças aos incansáveis cuidados dos seres humanos:

O trigo era atacado por coelhos e nuvens de gafanhotos, então os agricultores construíram cercas e passaram a vigiar os campos. O trigo tinha sede, então os humanos cavaram canais de irrigação ou passaram a carregar baldes pesados de poços para regá-lo. Os sapiens até mesmo passaram a coletar fezes de animais para nutrir o solo em que ele crescia.

O fato é que a agricultura acabou com o nomadismo de nossa espécie e nos deu residência fixa. No entanto, diz Harari, foi o trigo que nos domesticou, não o contrário. “Domesticar” vem do latim “domus”, que significa “casa”. E quem é que está vivendo em casas?

Mas, milhares de anos depois, as coisas parecem ter piorado muito. Até uns dois séculos atrás, eram coisas vivas, como plantas e animais, que nos domesticavam. Agora, são cada vez mais as mercadorias que nos dominam. São coisas mortas que passaram a nos governar, portanto.

Com exceção dos cachorros, claro.

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