4 de junho de 2018

Antes que os conceitos desapareçam

“Antes Que Tudo Desapareça”, de Kiyoshi Kurosawa, é mais um filme sobre invasão alienígena. Mas traz aspectos interessantes.

Os extraterrestres enviam alguns emissários para conhecer nossa espécie antes da conquista. O problema é que eles se comunicam e apreendem a realidade por meio de conceitos e não por palavras. Estas últimas, diz um deles, costumam causar grande confusão.

Para entender nossas visões de mundo, costumes, valores, os aliens “colhem” certos conceitos que identificam como sendo importantes para nós.

Acontece que ao fazerem isso, o conceito desaparece da mente daquele de quem foi colhido. Por exemplo, quando uma jovem teve a noção de “família” capturada, passou a desconhecer seus parentes.

Ou quando um rapaz ficou sem a ideia do que seria “propriedade”, deixou de ser um pacato morador da casa dos pais para fazer denúncias em praça pública.

O interessante, aqui, seria imaginar a produção de Kurosawa como uma espécie de metáfora sobre alguns aspectos importantes do estágio atual das relações humanas.

Conceitos não são fixos e válidos para tudo e todos. Mas certamente costumam proporcionar uma compreensão da realidade muito mais precisa do que meras palavras.

No entanto, são as palavras que vêm imperando naquele que vem se tornando um meio de comunicação cada vez mais onipresente: as redes virtuais.

São nelas, principalmente, que termos como “fascista”, “comunista”, “esquerda”, “direita” deixaram de ser conceitos para se transformar em noções rasas ou supostas ofensas.

O filme vale a pena, mas corre o risco de ficar datado. Em breve, poderemos regredir a um estágio em que não sobrarão conceitos para eventuais alienígenas colherem. Nos renderemos definitivamente aos pré-conceitos.

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