6 de junho de 2018

Entre o comunismo e os chimpanzés

O comunismo fracassou, dizem, porque foi baseado em uma visão irrealista da natureza humana, enquanto o capitalismo foi bem-sucedido porque se fundamenta no aproveitamento da natureza egoísta de cada indivíduo para o bem supremo da sociedade. Uma história poderosa, é verdade, mas que se mostrou nas últimas décadas completamente errônea.

O trecho acima é do livro “The Patterning Instinct”, de Jeremy Lent, ainda sem tradução.

Para comprovar suas palavras, Lent cita o psicólogo evolucionista Michael Tomasello, para quem a principal diferença entre nós e os chimpanzés é que nos identificamos mais profundamente com outros de nossa espécie.

A competição social seria uma obsessão dos chimpanzés, e não dos humanos. As habilidades cognitivas que permitiram que desenvolvêssemos a linguagem, a cultura e a civilização foram impulsionadas pela cooperação social.

É o que o evolucionista chama de “intencionalidade compartilhada”: nossa capacidade de perceber que outro indivíduo está vendo a mesma coisa que nós, mas de uma perspectiva diferente.

Teria sido essa característica que permitiu aos primeiros hominídeos trabalharem de forma colaborativa em tarefas complexas e transformassem sua cultura de modo a lhes permitir compartilhar valores e práticas.

Já o antropólogo Christopher Boehm, diz o autor, teria descoberto que

...em praticamente todas as sociedades de caçadores-coletores, as pessoas se unem para evitar que alguns poderosos controlem os demais, usando comportamentos coletivos como expor ao ridículo, desobediência grupal e, em última instância, sanções extremas como o assassinato. Ele nomeia esse tipo de sociedade igualitária como uma "hierarquia de dominância reversa" porque "a maioria domina, ao invés de ser dominada".

Mas, enfim, sempre há quem prefira voltar a comportar-se como chimpanzés.

Leia também: A origem da propriedade privada e dos ângulos retos

Um comentário:

  1. Boa, Sergio. Essa visão naturalista é um dos pontos em que os defendem o capitalismo mais se apegam. Agora, demover esta e outras concepções da cabeça das pessoas é algo mais complexo que ensinar chipanzés a viverem em uma comunidade de reciprocidade e respeito.

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