15 de junho de 2018

No meio do caminho tinha uma bola

Pérolas de Carlos Drummond de Andrade retiradas do livro “Quando é dia de futebol”, que reúne várias de suas crônicas e poemas sobre o ludopédio nacional:

O campeão não é campeão vinte e quatro horas por dia; chega uma hora de calçar os chinelos, e bocejar; um tempo de ver as flores; tempo de não sofrer mais do que o estritamente necessário, e desconfiar das glórias incômodas. De resto, não somos sessenta milhões de campeões, o que inflacionaria a espécie; eles são apenas onze e seus reservas. Penso nas coronárias e sugiro (diante do espelho): Calma, torcedor.

Desabafou comigo, diante do chope amargo: – Se fosse só a Hungria contra nós, eu ainda aguentava. Se fosse a Hungria mais o juiz, que anulou dois gols da gente, ainda aguentava. Mas a Hungria, o juiz e os nossos locutores, tudo junto, espera lá, não há tatu que aguente!

Não há nada mais triste do que o papel picado, no asfalto, depois de um jogo perdido. São esperanças picadas.

Eu sei que futebol é assim mesmo, um dia a gente ganha, outro dia a gente perde, mas por que é que, quando a gente ganha, ninguém se lembra de que futebol é assim mesmo?

E já estou pensando em um futebol lento, mais do que lento, imóvel, em que os jogadores de ambos os times se sentem no chão para assistir à lenta germinação de uma folhinha de grama: o verde da vida.

Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma...

E também é poesia, poeta, poesia!

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