Doses maiores

30 de junho de 2022

Tristeza e revolta por Bruno e Dom

Nós, ativistas do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato, hoje enterramos Bruno, nosso irmão mais velho. Hoje, a terra onde ele nasceu o recebe, seu corpo reencontra o barro, as raízes das plantas, a água e o calor do solo. Seu corpo carrega o perfume salgado do mar e o aroma denso da mata que ele defendeu até que os destruidores da floresta o mataram de forma traiçoeira. Nossos olhos misturam lágrimas de tristeza profunda e de revolta intensa. Mataram Bruno e seu amigo Dom à beira do rio Itacoaí, numa manhã de domingo de fim de inverno, quando ele voltava de uma temporada junto aos seus melhores amigos, junto aos seus melhores mestres, com os quais ele aprendeu a entoar os cantos da festa.

(...)

Nossa tristeza é imensa como o dossel da floresta, nossa raiva é forte como a raiz da castanheira. Nossa ternura é limpa e abraça a Bia, aos filhos de Bruno, a toda a sua família, a aldeia infinita dos seus amigos espalhados pelo mundo. De nossa parte, continuaremos a luta, estamos em guerra, não vamos parar! Onde cai um, surgirão muitos outros, tenham certeza, “simbora”, como diria Bruno. Não vamos esquecer quem verdadeiramente matou nosso irmão mais velho, jamais!

Os trechos acima são da “Nota de tristeza e revolta do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato”. Belíssima homenagem, merece ser lida na íntegra.

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29 de junho de 2022

Davos Men, novos parasitas do velho capitalismo

O autor do livro “Davos Man” pode ter as intenções mais louváveis. Mas delas, o inferno capitalista está cheio.

São justas as denúncias que Peter S. Goodman faz dos ricaços que frequentam o Fórum de Davos. Mas ele atribui as maldades desses homens a eles próprios e não ao sistema que os criou.  

Segundo Goodman, o capitalismo é “a forma mais avançada de organização econômica”. Só lhe faltaria “um mecanismo inerente que distribua com justiça os ganhos”. Uma responsabilidade de governos “operando sob um mandato democrático”.

Cita como exemplo a Grã-Bretanha, que teria reagido à depressão dos anos 1930, “construindo um modelo de bem-estar social que compartilhava os ganhos de seu poderio industrial”.

Mas foi a classe trabalhadora em sua luta contra a barbárie fascista que levou o capital a aceitar dividir uma fração de seus lucros. Mesmo assim, apenas durante um pequeno intervalo na história do capitalismo e em algumas poucas regiões do planeta.

Não há “mecanismo inerente de distribuição econômica justa” no capitalismo. A prova é exatamente a existência dos homens de Davos. Não há nenhuma grande contradição entre eles e o restante da burguesia mundial.

Bezos, Musk, Gates, Zuckerberg, Google, Uber apenas encontraram novas e mais sofisticadas formas de parasitar o trabalho de bilhões de pessoas. Foi o aprofundamento do capitalismo que possibilitou isso, não sua negação.

Goodman diz que “recuperar o poder do Homem de Davos não requer insurreição ou revolução”. Apenas “o uso ponderado de uma ferramenta que sempre esteve presente: a democracia”.

É o contrário. Contra a exploração mais radical, só a mais radical das resistências.

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28 de junho de 2022

Davonianos: os bichos rasteiros que voam pelo espaço

Em julho de 2021, Jeff Bezos subiu a bordo de um foguete em uma pequena cidade no oeste do Texas e voou para o espaço.

Após uma viagem de onze minutos, o dono da Amazon pousou e agradeceu a seus funcionários e clientes, “porque foram eles que pagaram” pela empreitada. Emocionado, afirmou ainda que “em duzentos anos, o sistema solar poderá suportar facilmente um trilhão de humanos”.

Bezos gastou US$ 5,5 bilhões em sua empresa espacial. Esse montante poderia salvar 14 milhões de pessoas da fome, não nos próximos dois séculos, mas agora. Em plena pandemia, também poderia fornecer dois bilhões de doses de vacina contra o COVID-19. E apenas uma pequena fração disso poderia financiar as licenças médicas que a Amazon cobra de seus funcionários como faltas ao trabalho que os adoece.

O relato acima está no livro “Davos Man”, de Peter S. Gooldman. É mais um exemplo do tipo de comportamento dessa criatura que o autor batizou de “Homem de Davos”. Aventuras espaciais são uma obsessão da espécie. É o caso de Elon Musk, com sua SpaceX e planos para colonizar Marte.

O fato é que as bilionárias fantasias intergalácticas desses senhores são financiadas por coisas muito terrenas. Por exemplo, pela exploração de seus trabalhadores e pela sonegação sistemática de impostos. No caso de Musk, envolve também o apoio ao golpe de estado na Bolívia, ocorrido em 2019, de olho nas maiores reservas de lítio do mundo.

A despeito de suas ambições aeroespaciais, esses “davonianos” são, na verdade, os bichos mais rasteiros e repugnantes que o capitalismo poderia parir.

Concluiremos na próxima pílula.

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Os heróis de Davos lucram com doença e morte
Ora, (direis) explorar as estrelas!

27 de junho de 2022

Os heróis de Davos lucram com doença e morte

Na pandemia, em muitos, muitos casos pelo mundo, os heróis foram os altos executivos. Foram eles que deram um passo à frente com seus recursos financeiros e seus recursos corporativos, seus funcionários, suas fábricas e agiram rapidamente, não com fins lucrativos, mas para salvar o mundo.

As palavras acima são de Marc Benioff, fundador da Salesforce, gigante do Vale do Silício, em pronunciamento feito em janeiro de 2021, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça. Ele é um típico “Davos Man”, protagonista do livro de Peter S. Goodman. O depoimento mostra que a modéstia não é o forte da espécie. Falar a verdade também não.

No final de 2021, a riqueza total desses “heróis” magnatas tinha aumentado em US$ 3,9 trilhões. Enquanto isso, cerca de 500 milhões de pessoas haviam caído na pobreza. As empresas farmacêuticas demonstraram competência na criação de vacinas, admite Goodman. Mas ao custo de elevar os preços da maior parte de outros medicamentos que poderiam ter salvo a vida de centenas de milhões de pessoas, adverte ele.

Na primeira metade de 2020, em plena crise sanitária, a Amazon de Jeff Bezos vendeu US$ 164 bilhões, ou mais de US$ 10 mil por segundo, graças ao fechamento de lojas físicas.

Entre abril e agosto daquele ano, 60 mil americanos estavam se infectando diariamente, lotando hospitais e necrotérios. Mas a Amazon estava cobrando US$ 39,99 por um pacote de cinquenta máscaras descartáveis, que geralmente eram vendidas por US$ 4. Já o sabonete antibacteriano, que normalmente custava US$ 1,49, passou para US$ 4,00.

Os heróis do capitalismo mais avançado são assim. Por que a surpresa?

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24 de junho de 2022

A pandemia de Davos

O Homem de Davos emergiu do triunfo da Guerra Fria para saquear os avanços materiais da paz, privando os governos dos recursos necessários para servir seu povo.

Vendeu a austeridade como uma virtude e a impôs aos gastos sociais dos governos, cortando educação, habitação e saúde. Espalhou a ideia de que os países mais ricos do mundo não podiam fornecer assistência médica, educação e transporte público confiáveis. Forjou acordos de comércio internacional que geraram oportunidades magníficas para si mesmos. Atacou os sindicatos e transferiu o trabalho para países de baixos salários, enquanto rebaixava os empregos formais a trabalho precário. Desregulamentou o sistema financeiro, desencadeou uma crise financeira global e foi salvo com dinheiro público.

A caracterização acima é de Peter S. Goodman, no livro “Davos Man”, sobre os poucos ricaços que controlam a economia global. Mas ele não atribui todos esses problemas ao capitalismo. Ao contrário, afirma que desde que foi “sequestrado pelo Homem de Davos, o capitalismo não é realmente capitalismo”. Seria um “estado de bem-estar social dirigido para o benefício das pessoas que menos precisam”.

Ao mesmo tempo, Goodman considera que nada disso é inevitável. Afinal, diz, como toda crise, “a pandemia apresenta uma oportunidade para o público se mobilizar em busca de interesses mais amplos, revivendo o tipo de capitalismo que conhecíamos antes”.

Mas o próprio autor mostra como o vírus é utilizado pelo “Davos Man” como oportunidade para contornar regulamentações governamentais, impedindo a “distribuição justa dos ganhos econômicos”.

A verdade, porém, é que o Covid é só um elemento da verdadeira grande pandemia que precisa ser erradicada: o capitalismo.

Continua...

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