As palavras acima são de Walker C. Smith, dirigente da organização sindical estadunidense Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW, na sigla em inglês). Ele as escreveu em 1913, no livro “Sabotagem: sua história, filosofia e função”, sem tradução para o português.
O trecho foi citado por Gavin Mueller, em seu livro “Breaking Things at Work”, sobre as práticas de resistência dos trabalhadores à tecnologia capitalista ao longo da história.
Outra militante da IWW citada por Mueller é Elizabeth Gurley Flynn, que no livro “Sabotage”, de 1916, define esse tipo de resistência como qualquer esforço dos trabalhadores “para limitar sua produção proporcionalmente a sua remuneração”.
A análise de Elizabeth sobre a sabotagem foi eminentemente marxista, afirma Mueller. Em vez de ditar a estratégia de cima para baixo, ela defende que é preciso observar o que os trabalhadores estão fazendo, tentando compreender porque é que o fazem. “Não diga a eles se está certo ou errado, mas analise as condições que os levaram a agir como agiram”, disse ela.
Ou seja, sabotagem é a economia política como ferramenta forjada pelos próprios trabalhadores na luta contra sua exploração.
Leia também: O ludismo quebrando as armas do inimigo
Blog de Sérgio Domingues, com comentários curtos sobre assuntos diversos, procurando sempre ajudar no combate à exploração e opressão.
29 de novembro de 2023
A sabotagem como economia política dos trabalhadores
28 de novembro de 2023
O ludismo quebrando as armas do inimigo
Em seu livro “Breaking Things at Work”, Gavin Mueller afirma que o próprio Marx chegou a ressaltar a hostilidade dos trabalhadores em relação aos moinhos de água e de vento, desde pelo menos a década de 1630.
Mas Mueller diz que foi o historiador marxista Edward Thompson que melhor abordou as ações de destruição de máquinas promovidas pelos trabalhadores na Inglaterra do século 19. Ele soube compreender aquele que ficou conhecido como movimento ludita a partir de sua situação específica, e não como um mero obstáculo no caminho do progresso.
Quebrar máquinas foi apenas uma das táticas que os luditas utilizaram na estratégia mais ampla que buscava aumentar o poder dos trabalhadores e forjar uma luta comunitária e compartilhada.
A revolta dos luditas não era contra as máquinas em si, mas contra a sociedade industrial que fez da tecnologia uma arma para destruir os tradicionais modos de vida e a resistência dos trabalhadores.
“Dizer que eles se equivocavam ao lutar contra as máquinas é como dizer que um boxeador pode enfrentar seu adversário sem levar em conta seus punhos”, diz o autor.
Os luditas souberam ver que a toda tecnologia é política devendo, em muitos casos, ser combatida. Uma percepção que permeou todos os tipos de movimentos militantes, inclusive, os fora da Europa.
Afinal, nas rebeliões de povos indígenas e escravizados do Novo Mundo os ataques à tecnologia produtiva também podem ser entendidos como parte da história do ludismo, porque o ludismo é essencialmente anticapitalista.
Condenar ou desprezar esse tipo de resistência é como querer se defender de tiros, ignorando as armas que os disparam.
Leia também: Quebrando as coisas no trabalho
27 de novembro de 2023
Quebrando as coisas no trabalho
Lançado em 2021, e ainda sem tradução do inglês, o livro “Breaking Things at Work” pode ter seu título traduzido como “Quebrando as coisas no trabalho”. Nele seu autor, Gavin Mueller, faz um exaustivo estudo sobre a resistência dos trabalhadores às inovações tecnológicas que lhes são prejudiciais, no espírito do que ficou conhecido como ludismo.
Trata-se de um movimento de resistência operária surgido na Inglaterra do século 19, promovendo a destruição de máquinas fabris. Mas segundo Mueller, o livro não é apenas sobre os luditas. Mais do que isso, ele afirma estar "interessado na política por trás do movimento. Política que assumiu uma postura militante em relação à reorganização tecnológica do trabalho empreendida pelos primeiros capitalistas”.
O objetivo do autor é “escavar” uma linha de pensamento dentro da teoria marxista, "voltando ao próprio Marx, para demonstrar que o ludismo é intelectualmente compatível com o marxismo”.
Para Mueller, "ser um bom marxista é também ser um ludita. Embora eu queira transformar os marxistas em luditas, também tenho outro objetivo: quero transformar as pessoas que criticam a tecnologia em marxistas”. Ainda segundo ele, o maior problema da tecnologia é “seu papel na reprodução de hierarquias e injustiças impostas à maioria de nós por proprietários de empresas, chefes e governos”.
A luta anticapitalista, conclui o autor, terá necessariamente as atuais máquinas como alvo, e sua obra pretende documentar os momentos em que isso já aconteceu. Dos primeiros teares mecanizados à automação dos processos de produção. Das sabotagens em linhas de montagem às ações de hackers contra as big techs.
Continuaremos a comentar esse interessante livro nas próximas pílulas.
Leia também: O movimento negro na resistência à automação produtiva
24 de novembro de 2023
A sociedade do espetáculo é capitalismo atualizado
O livro “Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord, foi lançado em 1967. Mas, desde então, vem sendo cada vez mais atualizado pelo capitalismo. Vejamos alguns de seus trechos:
As imagens fluem desligadas de cada aspecto da vida e fundem-se num curso comum, de forma que a unidade da vida não mais pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente reflete em sua própria unidade geral um pseudo-mundo à parte, objeto de pura contemplação. A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo.
(...)
No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso.
Não são afirmações perfeitas para o caos cognitivo que estamos vivendo, alimentado por mentiras e distorções?
Há quem ache que Debord estava se referindo a uma espécie de pós-capitalismo, em que tudo é relativo e desmaterializado. Não é verdade. Vários momentos do texto deixam isso muito claro. Por exemplo, ao dizer que o espetáculo:
...não é um complemento ao mundo real, um adereço decorativo. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares de informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e no seu corolário - o consumo.
A sociedade do espetáculo é o reino da mediação pela imagem como “corolário” da produção capitalista, não como ruptura com ela ou sua negação. A falsidade capitalista continua produzindo uma realidade de enorme sofrimento.
Leia também: As fake news e a realidade grávida
23 de novembro de 2023
Riqueza, pobreza e tragédia social no Brasil
Os 5% mais ricos da população se apropriam de metade do crescimento econômico do país, enquanto os 50% mais pobres vivem com menos de R$ 30 por dia. Metade dos brasileiros ganha menos de R$ 1.200 na média mensal.
Sem os 10% mais ricos, o Brasil seria um país igualitário. A desigualdade brasileira está concentrada no topo. A maior parte dos não-pobres é parecida com os pobres e fica entrando e saindo da pobreza. Já o grupo dos mais ricos é muito heterogêneo, com grandes variações de renda.
As desigualdades de gênero, raça e renda estão intimamente ligadas. Tratar a discriminação de negros e mulheres no mercado de trabalho a partir da noção de política identitária é um equívoco.
As afirmações acima são do sociólogo e economista Marcelo Medeiros, autor do livro recém-lançado “Os Ricos e os Pobres: o Brasil e a desigualdade“. Foram retiradas de várias entrevistas feitas com ele, que estão disponíveis na internete. São, por si só, muito esclarecedoras. E assustadoras, também.
É o caso da seguinte informação: “Para uma pessoa entrar para o grupo dos 10% mais ricos, basta receber R$ 3.800 reais mensais, trabalhando com carteira assinada”. Ou seja, muitos bancários ou professores podem pertencer ao mesmo grupo de renda de Paulo Lemann ou Abílio Diniz.
A questão é como combater uma concentração de renda tão grande. O autor considera muito difícil. E é preciso concordar com ele. Afinal, esse problema existe há muito tempo, sem maiores consequências, a não ser normalização da barbárie para a imensa maioria pobre. É a grande igualdade na tragédia sob uma enorme desigualdade no topo.
Leia também: Ajuda-nos a te ajudar




