quarta-feira, 27 de julho de 2011

Amy, diversão e morte

O que separa o ser humano de outros animais é sua enorme capacidade transformadora. Para o bem e para o mal. A essa capacidade Marx deu o nome de trabalho. Não em seu sentido mais estreito e torturante. Mas, como atividade criadora.

Do pote de barro ao computador. Da colheita à poesia. A atividade humana faz e destrói coisas belas ou não. Arar a terra é necessário à sobrevivência mais material. Cantar, não é. Ainda assim, os lavradores sempre cantaram. Até os escravizados, como fizeram os negros americanos, criadores do blues.

A arte é uma atividade que expande os horizontes de nossa espécie. Por fora e por dentro da gente. Nesse sentido, ela é gratuita. Não tem serventia prática imediata. Quando começa a ter, é menos arte do que deveria ser.

A grande maioria de nós trabalha para ter condições de fazer o que gosta. Artistas bem sucedidos podem trabalhar no que gostam de fazer. Seu ofício parece ser mais uma diversão.

Os problemas surgem quando a diversão transforma-se em atividade repetitiva e entediante. Em criação permanentemente pressionada pelo mercado. O “show-business” a lhes cobrar sucesso constante. A diversão como fruto da criação desaparece.

Diversão sem criação é o que podem oferecer drogas e bebida. Provavelmente, artistas não criem melhor sob seu efeito. Elas são uma espécie de muleta. Se as pernas começam a gangrenar, a queda é inevitável.

Ninguém nunca vai saber por que exatamente morreu Amy Winehouse. Mas, é muito provável que tenha sido de tristeza.

Leia também: A música negra olha para a luz

7 comentários:

  1. Bonita introdução. Parabéns!

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  2. Valeu. Pena que a conclusão não tenha sido nada bonita.

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  3. Sérgio, acho difícil afirmar, como você faz, que os artistas não criam melhor sob efeitos de drogas. Em primeiro lugar, o termo drogas é genérico e generalizante, portanto, impreciso. Ninguém cria nada sob efeito de Aspirina, mas muita gente produz melhor sob efeito de cafeína, duas drogas legais. Além disso, no caso de substâncias psicodélicas, por exemplo, são inúmeros, incontáveis e incontestáveis exemplos de como ele influenciou concretamente a criação artística de uma série de obras de uma série de criadores, desde os Beatles a Clarice Lispector, passando por Aldous Huxley, Allen Ginsberg e Caetano Veloso. Sem falar no ópio para Quincey, no haxixe para Baudelaire e Benjamin, na heroína para os Stones ou Lou Reed... enfim, repito, os exemplos são inúmeros.

    No caso da cantora em questão, creio que a discussão que você levanta passe mais pela questão da dependência. Ou seja, as drogas neste caso são responsabilizadas pelo sofrimento da garota, sem que se pondere se isso não seria uma fetichização que substitui o sintoma pela causa. Provavelmente sua dependência era sintoma de outros problemas, e aí cabe perguntar por que uma pessoa que "tem tudo", uma pessoa que não passa por dificuldades materiais e que tem seu trabalho reconhecido, ainda assim não acha sentido para existir dentro deste mundo que aí está e passa a fazer um uso descontrolado e abusivo de uma série de substâncias, legais e ilegais.

    Abraços,
    Júlio

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  4. Júlio, continuo a achar que seja difícil afirmar que as drogas melhorem a criação artística. Mas, concordo que elas possam fazer parte da experiência sensorial que leve a criações artísticas. Como pode ser o caso de outras experiências sensoriais, como andar de bicileta, viajar, fazer sexo etc.
    Quanto a Amy, também acho que a dependência seja sintoma. Daí, ter afirmado que ela morreu de tristeza.
    Valeu pelo comentário!

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  5. concordo contigo julio, quando um artista está sob efeito de algum alucinogenico , cria mais musicas, como Raul Seixas o rei do Rock brasileiro, muitas musicas com extremos significados! imortais!

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  6. Neste debate, também vou na linha do Júlio. Deixo um link para leitura como sugestão, nesse sentido.

    http://pt.scribd.com/doc/33761501/Roberto-Piva-Paranoia

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