domingo, 16 de agosto de 2015

A inocência como herança genética

Com cartilha, igrejas nos EUA ensinam negros a ‘sobreviver a abordagens policiais’”, é o título de matéria de João Fellet, publicada pela BBC Brasil em 14/08.

Não há qualquer ironia no título. Afinal, para um negro ser abordado por um policial é meio caminho para ser agredido ou morto por ele.

Segundo a reportagem, cartilhas distribuídas por igrejas recomendam aos negros que não apenas mantenham-se inocentes e retos em suas vidas, mas que pareçam sê-lo.

Diante do insulto ou da agressão de um policial, recomenda-se manter a calma, ser submisso, cooperativo e reclamar depois.

Quando se é preto e pobre, orientações como essas perdem seu caráter absurdo. Mas é duvidoso que elas funcionassem em terras brasileiras. A recente chacina de Osasco, na Grande São Paulo, é mais uma prova disso.

Consta que as dezenove vítimas, todas pretas ou não suficientemente brancas, foram indagadas se tinham “passagem pela polícia”.

É muito provável que qualquer resposta levaria à covarde execução. Sendo fichados, mereceriam a morte. Não sendo, seriam mortos por mentirem.

As autoridades, novamente, recomendarão rigor na apuração ou leis mais duras. Providências a serem ignoradas, já que seus executores são exatamente os que têm interesse em não cumpri-las.

A não ser que voltássemos a Nina Rodrigues, que, em 1894, publicou o livro “As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil”. A obra propunha dois códigos penais, um para brancos, outro para negros.

Assim, colocaríamos os esquadrões da morte dentro da lei e livraríamos suas vítimas da triste ilusão de que são protegidas por ela. A inocência passaria a ser oficialmente uma marca de nascença.

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Glossário de uma polícia que extermina


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