26 de janeiro de 2018

Tudo o que é sólido termina em solidão

“Tudo o que é sólido desmancha no ar”. Esta é uma das frases mais famosas do Manifesto Comunista, de Marx e Engels. Mas o que ela quer dizer mais exatamente?

Vejamos como ela aparece. Primeiro, os autores afirmam que a burguesia só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente “as relações de produção e, com isso, todas as relações sociais”. E a partir dessa condição extremamente inquieta:

Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepções e de ideias secularmente veneradas, as relações que as substituem tornam-se antiquadas antes mesmo de ossificar-se. Tudo que é sólido desmancha no ar...

Diante disso, “os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas”.

Nos trechos finais do Manifesto, Marx e Engels convocam os trabalhadores do mundo a unirem-se, já que já “nada têm a perder a não ser suas correntes.” Pode-se deduzir que esta disposição viria da “serenidade” de quem encara com clareza “suas condições de existência e suas relações recíprocas”.

O problema é que, até agora, em nenhuma parte há sinais de serenidade. No lugar dela, angústia, frustrações, ódio, fanatismo e, principalmente, depressão. Há indicações de que uma causa importante dessa situação é a solidão.

Não à toa, o governo britânico acaba de criar o Ministério da Solidão. Nos Estados Unidos, aos passeadores de cães começam se juntar os passeadores de pessoas. Estamos falando do berço da Revolução Industrial e da nação mais rica e poderosa do planeta.

A pior parte das previsões do Manifesto está se concretizando. Temos que cuidar de realizar a melhor.

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2 comentários:

  1. Muito bonito. O título - em troca de comentários que tivemos anteriormente - você disse ser a isca do corpo do texto; neste caso, é mais que isso. Logo que li o título, sorri e pensei: danado, pegou a célebre frase do manifesto e colocou a solidão. Que diabos ele vai querer com isso (isca)? E observando melhor nota-se um efeito poético na aliteração: sólido e solidão; e existencial: a mesma do manifesto mas trazendo para um plano mais pessoal.
    Segue com o texto recuperando trechos do manifesto que são igualmente poéticos. E termina expondo a "isca" proposta no título sem mistificações, ou apelos inverídicos para ganhar a leitura do texto. Surpreendendo-nos, sim, com o que temos, e ainda pode nos levar, este sistema nada poético e humano.

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    1. Porra. Escrevi um texto e você leu outro. Brincadeira. Valeram muito os comentários!!

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