sexta-feira, 29 de julho de 2011

Amy e o sentimento oceânico

A morte de Amy Winehouse colocou o consumo de drogas nas manchetes. Prevalece o tom moralista e alarmista, claro.

Mas, a sessão “Logo” do Globo, de 28/07, trouxe análises interessantes. O tema era a relação entre o uso de drogas e a criação artística. Um artigo de Marta Mestre lembrou a idéia freudiana de “sentimento oceânico”. Conceito que aparece no livro “O mal-estar na civilização”, de Freud.

Trata-se de um sentimento relacionado à experiência uterina. Nesta fase, o bebê ainda não conseguiria perceber a diferença entre ele e o mundo. Na barriga da mãe, as necessidades de nutrição, por exemplo, eram automaticamente atendidas. Fora dela, passa a valer o popular “quem não chora, não mama”.

Antes dessa descoberta traumática, tudo parecia ser uma coisa só. Daí, o tal “sentimento oceânico”. Mas, Freud acha que essa sensação pode ser recuperada. Principalmente, através de experiências eróticas, estéticas, religiosas e aquelas provocadas pelo uso de drogas.

O próprio Freud foi consumidor de cocaína. Chegou a recomendar a substância a seus pacientes. Mudou de idéia diante dos riscos de dependência.

Essa hipótese explicaria a impossibilidade de vivermos sem fazer uso de substâncias que alterem nosso estado mental. Da cachaça e o café ao crack e a cocaína.

É verdade que esse anseio vem sendo aproveitado pelo sistema de dominação. São as religiões opressoras, o narcocapitalismo, a pornografia, a indústria cultural.

Por outro lado, sua busca leva a coisas belas. Talvez, ela nunca acabe e explique a dor e a delícia de sermos o que somos.

Nossas lutas também devem buscar sentimentos oceânicos. Revolução de cara limpa, não rola.

Leia também: Amy, diversão e morte

3 comentários:

  1. Curto, simples e necessário. Mesmo não concordando com o foco do texto, "revolução de cara limpa, não rola", vejo que é necessário que haja essa visão, esse outro caminho. Seja para usá-la em caso DE, seja para tê-la como alicerce que complementa outro caminho.

    ResponderExcluir
  2. Acho que é isso, Vinícius. O contrário de cara limpa não precisa ser doidão no sentido geralmente aceito. A própria experiência de enfrentar o poder já é muito doido.
    Valeu!!

    ResponderExcluir
  3. Não curtia a Amy mas tinha uma voz bela e cantava bem isso concordo, agora se Freud usava cocaina ou não,era problema dele,não acho q seja o caminho!
    conheci tbm pessoas próximas q morreram de overdose.
    Se a pessoa tem convicção do q tá defendendo acho q de cara limpa é bem melhor!
    Mas ai tbm cada um sabe de si!

    ResponderExcluir