terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A Bíblia não é manual de instruções

Diante da ofensiva religiosa contra o casamento gay, nada como um pouco da lucidez de um católico. Trata-se de Clifford Longley, jornalista e importante liderança leiga da Inglaterra.

Em artigo publicado pela revista The Tablet, em 12/01, ele lembra que, em 2008, o Vaticano aceitou a compatibilidade da teoria da evolução com a Bíblia. Se é assim, diz Longlley:

...a Igreja aceita que a sexualidade humana evoluiu. Isto significa que nossos órgãos sexuais e a maneira como funcionam juntos não foram sempre assim como são agora. Eles são produto de milhões de anos de adaptação para melhorar as chances de sobrevivência da espécie.

Isso se aplica a todas as outras faculdades humanas (...). Elas evoluíram e, tanto quanto sabemos, ainda estão evoluindo. Nós abandonamos a ideia de que Deus criou o mundo de uma vez para sempre em seu estado final e perfeito e que, por isso, podemos descobrir como Deus queria que nos comportássemos olhando a forma como as coisas estão projetadas. Não houve um projetista mestre, e, por conseguinte, não há “instruções do fabricante” às quais possamos fazer referência. Num mundo pós-darwiniano, não há “ordem” divinamente sancionada em nossa biologia, de modo que nada pode ser “intrinsecamente desordenado”. Há simplesmente o estado até o qual a evolução nos trouxe, por um processo que Darwin chamou de seleção natural.

Mas o Vaticano não está disposto a aceitar esse tipo argumentação. Nem muitas das principais instituições religiosas. Elas continuam tratando a Bíblia como um manual de instruções que prescreve valores conservadores e autoritários.

3 comentários:

  1. Acho que esse artigo não tem fundamentação teológica(o que importa num debate religioso para desepero dos ceticos). Um argumento teologico ou um deles é que o que se entende como salvação é uma dádiva divina dada por Deus por quem a pede; Jesus, que não cometeu pecado, ceiava com pecadores e morreu por todos. O caminho é esse aí...procurar a tolerancia e o perdão a todos dentro da "propria palavra". No mais,uma coisa que eu questiono é a seguinte: Tem tantos gays assim dentro da igreja querendo se casar e não pode ou existe uma inconformação por parte de gente que esta de fora e pensa de um jeito assim e não aceita que alguem e mesmo uma instituição pense assado? O casamento na igreja é um ritual simbolico (sem validade juridica em si em muitos lugares)praticado por determinadas pessoas que compartilham um determinado conjunto de crenças e valores. Então, se o gay não estiver dentro desse conjunto de crenças e valores, não seria mais fácil os gays procurarem outra religião ou até mesmo não seria o caso de pensar um pouquinho em Darwim? Sem querer ser escroto - nada a ver com achar que ser gay é algo demoniaco - mas eu simplesmente acho que a igreja não esta na obrigação. Ta ali quem quer, quem aceita aquilo como verdade para si. Simples assim...

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    1. Thiago, o artigo não tem que ter um fundamento teológico, até porque não é um artigo. É um comentário. Há uma citação nele que traz uma argumentação que me parece coerente. E é isso que interessa. Quanto ao direito a um casamento católico para gays, posso até concorda com você em sua irrelevância. Mas basta que haja dois gays que não o considerem irrelevantes para que os apoiemos, ainda mais contra uma instituição que tem todos os piores crimes em sua ficha corrida, como o Vaticano. Trata-se de uma luta por hegemonia. Gostaria que a grande maioria dos gays católicos dessem uma banana pro Vaticano e rompessem com a Igreja, ainda que continuassem católicos. Retirá-los da influência da cúpula católica já seria um grande avanço. Mas não dá pra apenas instá-los a fazer isso sem argumentar. Nem para argumentar apenas do ponto de vista do ateísmo ou do darwinismo. Daí, a necessidade de usar argumentos dos próprios intelectuais menos conservadores para tentar convencê-los a saltar dessa barca furada, pois não há progressismo possível no interior dessa estrutura milenar.
      Valeu pelo comentário.
      Abraço

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  2. Penso que a bíblia não trata da sexualidade homossexual, pois todas as suas prescrições e leis visam os heterossexuais. Os redatores bíblicos acreditavam que eram os heterossexuais que deixavam se levar para experiências sexuais de toda ordem. Portanto bastavam ser repreendidos para voltarem à sua natureza. Acontece que depois do sec. XIX foi se compreendendo(e hoje já está comprovado cientificamente e aceito pela ONU e a OMS) que o homossexualismo é natural, ou seja, faz parte das diversas variações da natureza em suas criações. A natureza gosta de variar: ela cria o destro e o canhoto, o gigante e o anão, as raças diversas e assim vai. Ela varia em todos os sentidos e a sociedade deve dar condições de convivências para todas as diferenças. Portanto a Bíblia deve ser reinterpretada em respeito as diferenças culturais, sexuais, sociais e religiosas.

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