sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Aquilo que se escuta e não se ouve

Reportagem de Iara Biderman para a Folha confirma o que muita gente já desconfiava. Publicada em 12/08, seu título diz: “Estudo mostra que maioria das pessoas escuta sempre as mesmas músicas”.

A confirmação vem de uma pesquisa feita na Universidade de Washington “sobre o poder da familiaridade na escolha musical”. Envolveu mais de 900 universitários, que se diziam “apreciadores de novos sons”. Apesar disso, os testes revelaram que a maioria deles optou por ouvir músicas com que tinham familiaridade.

A reportagem ouviu especialistas como um neurocientista que garante que isso é coisa do cérebro. O órgão optaria quase automaticamente por coisas simples e conhecidas. Não convence. O crítico musical José Ramos Tinhorão apresenta diagnóstico mais provável. Diz que isso é influência do mercado.

Conclusão parcialmente confirmada por quem é do ramo. Referindo-se aos repertórios repetitivos das rádios, Rifka Smith afirma: "De tanto ouvirem, as pessoas acabam se familiarizando e não sabem mais se gostam ou não. Mas criam fidelidade". Ela deve saber do que está falando. É diretora da Radiodelicatassen, empresa de planejamento de produtos radiofônicos.

O debate faz lembrar o que disse Marx sobre nosso aparelho sensorial. Nos “Manuscritos econômico-filosóficos”, ele afirma que “a formação dos cinco sentidos é um trabalho de toda a história universal até nossos dias”.

Em outros momentos de sua obra, Marx mostra como a economia capitalista priva as experiências humanas de significado. Toda qualidade só tem valor se é transformada em quantidade. É assim que nossos refinados sentidos, formados pela “história universal”, vão se embotando. Cada vez mais lhes escampam as sutilezas.

Escutamos, mas não ouvimos. E não apenas músicas.

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