sexta-feira, 12 de novembro de 2010

No mês da Consciência Negra, poesia

Charqueada Grande

Um talho fundo na carne do mapa:
Américas e África margeiam.
Um navio negreiro como faca:
mar de sal, sangue e lágrimas no meio.

Um sol bem tropical ardendo forte,
ventos aliseos no varal dos juncos
e sal e sol e vento sul no corte
de uma ferida que não seca nunca

Oliveira Silveira
Publicado em A Razão da Chama, Edições GRD, São Paulo, 1986 – Oswaldo de Camargo (Org.)



Presentinho

Maio,
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.

Paulo Colina
Publicado em O Negro Escrito (Apontamentos sobre a Presença do Negro na Literatura Brasileira), Imprensa Oficial do Estado, São Paulo, 1987 – Oswaldo de Camargo (Org.)

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