terça-feira, 30 de novembro de 2010

Capitão Nascimento e Dona Flor

Faltam 700 mil ingressos para “Tropa de elite 2” passar “Dona Flor e seus dois maridos” como o maior campeão de bilheteria do cinema nacional de todos os tempos.

Baseado em romance de Jorge Amado, “Dona Flor” conta a história de uma viúva que volta a se casar, mas tem saudade do falecido. O fantasma deste reaparece nu somente para ela, causando situações engraçadas. A produção de Bruno Barreto foi lançada em 1976, driblando a censura da ditadura militar.

A ditadura, hoje, já não é política. Como em todo regime sob o capitalismo, o autoritarismo é, antes de tudo, econômico. Mas, uma característica marca os tempos atuais. É a ditadura do espetáculo. Ela entope nossos sentidos com informações, imagens, sensações. Chama isso de liberdade de expressão.

Na verdade, é um barulho que abafa as vozes discordantes. Efeitos especiais que impedem a visão crítica. Não é preciso mais censurar. A opinião divergente acaba sendo ignorada pela avalanche de dados que só interessam aos de cima. Além disso, lança mão de recursos dramáticos, típicos das novelas e do cinema. O raciocínio soterrado sobre lágrimas ou gargalhadas histéricas.

É o caso da edição de hoje do jornal “Bom dia, Brasil”, da Globo. No encerramento, um texto comovente de Edney Silvestre. Lido sobre a imagem da bandeira brasileira tremulando contra o sol nascente, falava sobre a inauguração de uma era de paz. Referia-se à violenta e estúpida ação da polícia no Rio de Janeiro.

Não se trata de ficar ao lado do falecido marido boêmio de Dona Flor. Só não deveríamos tornar o amargo capitão Nascimento nosso herói da vida real.

Leia também: Janete Clair chegou aos telejornais da Globo

Um comentário:

  1. Posso imaginar a indignação produzida pelo "texto comovente" do tal jornalista, que tenta transformar a guerra contra os pobres instalada no Rio de Janeiro em "luta pela paz". Os noticiários sobre o assunto têm estado simplesmente insuportáveis pra quem tem um olhar minimamente crítico sobre a nossa trágica realidade. Que tempos difíceis esses em que vivemos. Tempos de ditadura econômica e ideocultural de um modo de produção profundamente nocivo a todas as formas de vida.

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