quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Carta ao século 19: menos banhos, mais fidalguia

Caros consortes do século 19, volto escrever-lhes do século 21, onde reina uma barafunda dos diabos. A companhia que fornece água à gente paulista ameaça iniciar um racionamento. Haveria abastecimento por apenas dois dias semanais.

É algo que não chega a nos assustar, acostumados que estamos a tomar raríssimos banhos em nosso tempo. Mas, aqui, preocupa a todos. Por isso, me pediram que explicasse como vivíamos tão privados dessa forma de higiene.

Comecei por lembrar-lhes que o acesso à agua era muito difícil antes do século 20. Com exceção de lugares próximos aos rios, onde não apenas havia abundância aquífera, mas também a influência de povos indígenas, tão apegados a banhos.

Mesmo assim, muitos de nossos patrícios preferiam manter seus costumes europeus. Por isso é que trajávamos roupas pesadas adequadas ao inverno europeu, mesmo sob o tórrido calor tropical. Preferíamos o desconforto e a fedentina a adotar os hábitos daqueles que considerávamos bárbaros.

Ao mesmo tempo, trocávamos de trajes somente umas quatro vezes por ano, quando do lavatório sazonal. Eis por que chamávamos “armário” ao móvel em que hoje são guardadas as roupas. Necessitando apenas quatro ou cinco mudas anuais de roupa, usávamos o móvel para armazenar armas.

No intuito de acalmá-los, lembrei que D. João VI ficou famoso por deixar as camisas apodrecerem no corpo. Também citei o caso da Rainha Isabel, de Espanha. A monarca que enviou Colombo para a América só teria tomado dois banhos completos em seus 53 anos de vida.

Assim, talvez sirva de consolo a meus amigos o fato de que, em breve, estarão voltando à fidalguia de antigos costumes.

Leia também:
Carta ao século 19: chega de banho todo dia

3 comentários:

  1. Eu, também, quando soube dessas coisas literalmente sujas das elites colonizadoras. Como costuma dizer o povo, "a gente é pobre, mas é limpinho".
    Abraço

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