quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Desgraças provocadas por piadas sem graça

O massacre do Charlie Hebdo provocou um debate sobre os limites do humor. Mas o risco é atribuir ao mau gosto humorístico do semanário francês a responsabilidade pelo ataque que sofreu. Seria como culpar a mulher que foi vítima de um estupro pela forma como se veste.

Feita a ressalva, digamos, simplesmente, que os limites do humor se manifestam quando a piada não tem graça. Não existem anedotas que levem todos a rir ou a sorrir. Muitas vezes, há uma vítima que não acha engraçado ser objeto do alegre desprezo alheio. A questão é a reação. A resposta pode ir do sorriso amarelo ao uso de fuzis e bombas.

Mas entre um extremo e outro, há várias consequências possíveis. Quem acha graça em ofensas a homossexuais, mulheres, minorias religiosas, não brancos, dificilmente limita-se a gargalhar. Também humilha, discrimina, espanca, mata. Na grande maioria dos casos, com a tolerância ou cumplicidade dos que deveriam impedir ou punir tais comportamentos.

No mundo todo, o Estado costuma penalizar com rigor apenas quem zomba das crenças, valores, convicções, verdades do grupo social dominante. E esta diferença de tratamento coroa a desigualdade econômica e a injustiça social que atingem minorias discriminadas ou maiorias exploradas. Em geral, as primeiras fazem parte das últimas e a combinação resulta desastrosa.

O massacre de Paris de forma alguma pode ser justificado, mas muitos elementos presentes na atual sociedade francesa podem explicá-lo. Entre eles, a islamofobia e o cadáver político de François Hollande ressuscitando no funeral dos cartunistas e deixando-se fotografar em um porta-aviões nuclear. São atitudes como essas que transformam piadas sem graça em desgraça.

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